segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Conversando sobre Arte entrevistado o artista Roberto Bernardo







Quem é Roberto Bernardo? 
 Nasci no Rio de Janeiro, em Copacabana, e sempre fui ligado a grupos de dança, teatro e música, e comecei a frenquentar o mercado de artes muito cedo, por que meu pai era marchand. Antes mesmo de começar a estudar e levar a sério a profissão de artista visual, eu trabalhava junto com meu pai, então acostumei a ver desde antiguidades e móveis, até grandes obras modernistas e contemporâneas serem leiloadas.
 Comecei a fazer cursos na Escola de Artes Visuais do Parque Lage no início dos anos 90, e fui conhecendo mais artistas, galeristas, me aprofundando, lendo como um louco, e me apaixonando cada vez mais, mas ainda faltava coragem para encarar como profissão. No Parque Lage, estudei com feras como Luiz Ernesto, Anna Bella Geiger e Fernando Cocchiarale, e a amizade que cresceu com o Luiz Ernesto - que é um grande artista e foi por muitos anos diretor do Parque Lage -, foi importantíssima num momento em que eu só queria saber de me dedicar a pintura, mas tinha uma certa pressão na minha cabeça - muito da educação formal que eu tive -, de negar a ideia de viver somente dos meus trabalhos, e que, na realidade, eu realmente não considerava “maduros” naquela época.
 Acabei me formando em Economia (!), mas continuava fazendo meus cursos de artes, e sempre cercado de gente do mercado, e também de grupos de teatro (que eu adoro), e  lia muito sobre o assunto e não deixava escapar uma exposição importante. Mas a coisa ficou séria mesmo, quando conheci alguns museus no exterior em 1995 e, em 1999, fui morar em Londres para fazer o mestrado de Economia na Universidade de Londres. Quando visitei a National Gallery e a Tate Britain (a Tate Modern ainda não existia), e vi, entres outras maravilhas, os trabalhos do Turner, decidi largar tudo e comecei a estudar como louco, aluguei uma casa que tinha um espaço incrível como estúdio, e acabei passando para o Central Saint Martins que é uma instituição superimportante em Londres, para cursar o meu mestrado, dessa vez em pintura (MA Fine Arts), que, infelizmente, não pude concluir (não entreguei a dissertação), por ter que voltar para o Brasil por motivos familiares. De qualquer forma, os quatro anos que vivi em Londres foram decisivos e fundamentais para minha carreira como artista visual. E, para falar a verdade, a formação de Economia também foi importante, na vida cotidiana e na administração da nova carreira.
 Em 2007, voltei para o Brasil e me mudei para São Paulo, e aqui também muita coisa mudou na minha cabeça. Tudo o que eu tinha visto na Europa e nos Estados Unidos em termos de grafite – quando ainda nem sequer fala-se em colocar esse movimento dentro das galerias de arte – foi muito diferente do que eu encontrei em São Paulo: um movimento mais artístico, e não apenas como demarcador de território ou de protesto, e que acabou trazendo uma nova safra de artístas “de rua” incríveis, e todo esse processo influenciou bastante a pesquisa que eu fazia na época, e acabei assimilando muita coisa desse movimento.     

Que artistas influenciam em sua obra?
Tem uns nomes que vêm rapidamente à cabeça: Basquiat, Warhol, Paladino, Tàpies, Rauschenberg, De Kooning, Moore, Khalo, Richter, Viale, Baselitz, e por aí vai. Não vem do zero, não tem como não ser influenciado. Mas a coisa não para por aí e, é claro, que alguns movimentos importantes como o expressionismo abstrato,  o neo-expressionismo, a arte pop e a street art, fazem parte de um campo imagético que fica na memória da gente e que é parte dessa bagagem, assim como os livros que leio, os filmes, etc.  

Como você descreve seu trabalho? 
 Desde 2010 venho realizando trabalhos que têm como proposta o conceito de autoria e originalidade. Através da massificação de imagens pela internet - que se tornaram “consumíveis” por toda a sociedade -, me aproprio de detalhes de imagens de obras famosas (ou não), ícones e símbolos, e os reproduzo, não de forma
mecânica - como Warhol fazia, por exemplo -, mas através do desenho e da pintura.
 Minha proposta não se refere a uma releitura dos trabalhos apropriados, já que utilizo somente detalhes bem específicos de partes da obra apropriada, que são então reorganizados e “reproduzidos” em grandes dimensões, mudando totalmente sua função original e importância. Dessa forma, construo uma nova narrativa a partir desses fragmentos. Tento apresentar uma independência conceitual e, obviamente, afastar meu trabalho do recorte da obra apropriada.
 Essa apropriação é inerente ao mundo digital e à velocidade e quantidade quase exponenciais de imagens e informações. Até por que, se pensarmos, toda obra de arte se baseia nas fontes culturais existentes, onde não há um ponto zero (talvez as pinturas das cavernas em Lascaux?). É fácil encontrar apropriação e reinterpretação de objetos e/ou imagens em Picasso, Rauschenberg, Warhol, Lichtenstein, Basquiat, até Jeff Koons, Damien Hirst, Cindy Sherman, Barbara Kruger, Jane Hammond, Elaine Sturtevant, e  muitos outros.
 Trabalho em suportes como tela, madeira e papel kraft, e utilizo tintas a óleo e acrílica, além de bastão e pastel a óleo, e muito desenho. Nas séries anteriores também trabalhei bastante com tinta spray, colagem e impressão manual.

O material nacional para pintura já é de qualidade suficiente?
Ainda existe muita diferença de qualidade, mas acho que o pior são os valores cobrados no Brasil. Quando viajo, trago o máximo que posso, principalmente pincéis e lápis, que têm qualidade muito superior e são bem mais baratos.

É possível viver de arte no Brasil?
Estamos nos profissionalizando há bastante tempo, e é impossível não colocar o Brasil quando se fala em grandes eventos do mundo das artes. E não estou falando de feiras e bienais, que a gente já está tirando de letra. Estou falando de qualidade mesmo, de grandes feras conhecidos e outros que estão surgindo com força total e dando show lá fora. Tem muita gente representando bem o Brasil, como artistas, curadores, galeristas, e, além disso, já fazemos leilões de arte  com qualidade que vêm chamando a atenção de colecionadores estrangeiros. As coisas vêm ao seu tempo; como foi Miami, nos Estados Unidos, que ganhou espaço (praticamente dominado por NY), com a área de  Wynwood e a Art Basel, e também muita galeria boa, muito respeito e espaço para os artistas de rua, então é tudo uma questão de trabalho. Se o artista tem um networking legal, sabe usar as mídias de forma profissional e tem uma galeria fazendo um bom trabalho paralelo, dá para viver de arte numa boa.

Qual a importância do seus estudos na Central Saint Martins College of Art and Design?
Eu acho que mais importante do que os professores e a universidade, é a cidade. O que rola em termos de exposições, eventos, museus, centros culturais, etc., em cidades como Londres e NY, apenas para citar duas, é o que faz o grande diferencial, na verdade.

O que você pensa sobre os salões de arte? Alguma sugestão para aprimorá-los?
O mercado cresceu muito e o interesse das prefeituras, até mesmo de cidades pequenas, para promover esses eventos também cresceu bastante. Tudo é uma questão do fazer, do praticar, é assim com tudo na vida. Alguns desses salões  já fazem parte da “agenda” dos artistas, não só pelo prêmio em dinheiro mas, principalmente, pela projeção que rola, com galerias e curadores sempre de olho nas novas apostas. Tem porcaria, como em tudo na vida, mas melhorou muito e as pessoas estão interessadas em ter os centros culturais ou museus de suas cidades organizando bienais ou feiras, que também são interessantes, ainda que tenham uma característica totalmente diferente. É fazer um trabalho de curadoria sério, com proposta definida, e não apenas amontoar dezenas de artistas dentro de um espaço qualquer e distribuir medalhinha de participação.

Quais são seus planos para o futuro? Algo no Rio de Janeiro?
Essa época tem muita coisa rolando e estou bastante interessado nas residências no exterior. Tem uma bem legal na Itália, onde visitei esse ano, e já estou preparando o projeto. No Rio, ainda não tenho galeria me representando, mas se rolar convite a gente conversa.



Recuerdo Que Ganabas Sempre Ti, 2014, Óleo, acrílico e bastão a óleo sobre painel de madeira. 150x236 cm. Díptico.


Royal Slaves, 2014. Acrílica e bastão a óleo sobre tela. 140x224 cm. Diptico.



Painti Your Palette Blue and Gray, 2014. Óleo, acrílica e bastão a óleo. 150x120 cm. 


To Many Hands on My Time, 2014. Acrílica sobre tela 150x120 cm.


Ninguem Vai Dormir Nossos Sonhos, 2014. Acrílica e bastão a óleo sobre tela. 150x120 cm



Parece Cocaína, Mas É Só Tristeza, 2014. Acrílica e bastão a óleo sobre painel de madeira. 140 x 90 cm.



In God We Trust, 2014. Óleo e acrílica sobre tela. 150 x 120 cm.



Todo Mundo É Parecido Quando Sente Dor, 2013. Bastão a óleo sobre painel de madeira. 115 x 155 cm.


Hapiness Is an Imaginary Condition, 2013. Óleo,  acrílica e markers  sobre tela. 170 x 200 cm. Diptico.



I Took the Worst of the Blow, 2013. Acrílica, bastão a óleo e markers sobre tela. 116 x 180 cm.         




Formação

  • Central Saint Martins College of Art and Design – Londres – Inglaterra
  • Escola de Artes Visuais do Parque Lage – Rio de Janeiro – Brasil

Exposições

  • 2014 18º SAP - Catanduva - SP
  • 2014 74º SAAP - Araras - SP
  • 2013 72º SAAP - Araras - SP - Prêmio Aquisição
  • 2012 PARTE - Paço das Artes - USP - São Paulo
  • 2012 Biennale d´Arte Internazionale Di Roma - Roma - Itália
  • 2011 Biennale Internazionale dell'Arte Contemporanea – Florença - Itália
  • 2011 Galeria Penteado - Campinas - SP
  • 2010/2011 X Bienal do Recôncavo - Centro Cultural Dannemann - Bahia
  • 2011 Handmade - Galeria nuVem - São Paulo
  • 2011 Nova Perspectivas - Galeria de Arte e Fotografia Solange Viana - SP
  • 2010 Paradiso Sul Mare - Arte Brasiliana – Anzio - Itália
  • 2010 Mostra Mercato d'Arte Moderna e Contemporanea di Padova - Itália
  • 2010 Galeria Penteado - Campinas - SP
  • 2010 III Salão de São José do Rio Preto - Menção Honrosa - SP
  • 2010 Chelsea International Fine Art Competition - New York - EUA
  • 2010 Galeria Belvedere Paraty - Prêmio Belvedere Paraty - Paraty - RJ
  • 2010 61º Salão de Abril - Fortaleza - CE
  • 2009 Biennale Internazionale dell'Arte Contemporanea – Florença - Itália
  • 2008 Museu de Arte do Parlamento de São Paulo - SP
  • 2007 Proarte Galeria - São Paulo – SP
  • 2002 Novíssimos 2002 - Galeria de Arte IBEU - Rio de Janeiro - RJ
  • 2002 X UniversidArte - UNESA - Rio de Janeiro - RJ
  • 2002 Salão Internacional de Pintura - MG
  • 2001 MostraArte II - Galeria Maria Martins - Rio de Janeiro - RJ
  • 2001 Fundição Progresso - Rio de Janeiro - RJ
  • 2001 Escola de Artes Visuais Parque Lage - Rio de Janeiro - RJ
  • 1999 Espaço Cultural Constituição - Rio de Janeiro - RJ
  • 1998 Espaço Bananeiras - Rio de Janeiro - RJ
  • 1998 Interferências Urbanas - 3ª Edição - Santa Tereza - Rio de Janeiro - RJ



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Maurizio Cattelan

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