Quem é
Roberto Bernardo?
Nasci no Rio de Janeiro, em Copacabana, e sempre fui
ligado a grupos de dança, teatro e música, e comecei a frenquentar o mercado de
artes muito cedo, por que meu pai era marchand.
Antes mesmo de começar a estudar e levar a sério a profissão de artista visual,
eu trabalhava junto com meu pai, então acostumei a ver desde antiguidades e
móveis, até grandes obras modernistas e contemporâneas serem leiloadas.
Comecei a fazer cursos na Escola de Artes Visuais do
Parque Lage no início dos anos 90, e fui conhecendo mais artistas, galeristas,
me aprofundando, lendo como um louco, e me apaixonando cada vez mais, mas ainda
faltava coragem para encarar como profissão. No Parque Lage, estudei com feras
como Luiz Ernesto, Anna Bella Geiger e Fernando Cocchiarale, e a amizade que
cresceu com o Luiz Ernesto - que é um grande artista e foi por muitos anos
diretor do Parque Lage -, foi importantíssima num momento em que eu só queria
saber de me dedicar a pintura, mas tinha uma certa pressão na minha cabeça -
muito da educação formal que eu tive -, de negar a ideia de viver somente dos
meus trabalhos, e que, na realidade, eu realmente não considerava “maduros”
naquela época.
Acabei me formando em Economia (!), mas continuava
fazendo meus cursos de artes, e sempre cercado de gente do mercado, e também de
grupos de teatro (que eu adoro), e lia
muito sobre o assunto e não deixava escapar uma exposição importante. Mas a
coisa ficou séria mesmo, quando conheci alguns museus no exterior em 1995 e, em
1999, fui morar em Londres para fazer o mestrado de Economia na Universidade de
Londres. Quando visitei a National Gallery e a Tate Britain (a Tate Modern
ainda não existia), e vi, entres outras maravilhas, os trabalhos do Turner,
decidi largar tudo e comecei a estudar como louco, aluguei uma casa que tinha
um espaço incrível como estúdio, e acabei passando para o Central Saint Martins
que é uma instituição superimportante em Londres, para cursar o meu mestrado,
dessa vez em pintura (MA Fine Arts), que, infelizmente, não pude concluir (não
entreguei a dissertação), por ter que voltar para o Brasil por motivos
familiares. De qualquer forma, os quatro anos que vivi em Londres foram
decisivos e fundamentais para minha carreira como artista visual. E, para falar
a verdade, a formação de Economia também foi importante, na vida cotidiana e na
administração da nova carreira.
Em 2007, voltei para o Brasil e me mudei para São
Paulo, e aqui também muita coisa mudou na minha cabeça. Tudo o que eu tinha
visto na Europa e nos Estados Unidos em termos de grafite – quando ainda nem
sequer fala-se em colocar esse movimento dentro das galerias de arte – foi
muito diferente do que eu encontrei em São Paulo: um movimento mais artístico,
e não apenas como demarcador de território ou de protesto, e que acabou
trazendo uma nova safra de artístas “de rua” incríveis, e todo esse processo
influenciou bastante a pesquisa que eu fazia na época, e acabei assimilando
muita coisa desse movimento.
Que artistas
influenciam em sua obra?
Tem
uns nomes que vêm rapidamente à cabeça: Basquiat, Warhol, Paladino, Tàpies,
Rauschenberg, De Kooning, Moore, Khalo, Richter, Viale, Baselitz, e por aí vai.
Não vem do zero, não tem como não ser influenciado. Mas a coisa não para por aí
e, é claro, que alguns movimentos importantes como o expressionismo
abstrato, o neo-expressionismo, a arte
pop e a street art, fazem parte de um
campo imagético que fica na memória da gente e que é parte dessa bagagem, assim
como os livros que leio, os filmes, etc.
Como você
descreve seu trabalho?
Desde 2010 venho realizando trabalhos
que têm como proposta o conceito de autoria e originalidade. Através da
massificação de imagens pela internet - que se tornaram “consumíveis” por toda
a sociedade -, me aproprio de detalhes de imagens de obras famosas (ou não),
ícones e símbolos, e os reproduzo, não de forma
mecânica - como Warhol fazia, por
exemplo -, mas através do desenho e da pintura.
Minha proposta não se refere a uma
releitura dos trabalhos apropriados, já que utilizo somente detalhes bem
específicos de partes da obra apropriada, que são então reorganizados e
“reproduzidos” em grandes dimensões, mudando totalmente sua função original e
importância. Dessa forma, construo uma nova narrativa a partir desses
fragmentos. Tento apresentar uma independência conceitual e, obviamente,
afastar meu trabalho do recorte da obra apropriada.
Essa apropriação é inerente ao mundo
digital e à velocidade e quantidade quase exponenciais de imagens e
informações. Até por que, se pensarmos, toda obra de arte se baseia nas fontes
culturais existentes, onde não há um ponto zero (talvez as pinturas das
cavernas em Lascaux?). É fácil encontrar apropriação e reinterpretação de
objetos e/ou imagens em Picasso, Rauschenberg, Warhol, Lichtenstein, Basquiat,
até Jeff Koons, Damien Hirst, Cindy Sherman, Barbara Kruger, Jane Hammond, Elaine Sturtevant, e muitos outros.
Trabalho em suportes como tela,
madeira e papel kraft, e utilizo tintas a óleo e acrílica, além de bastão e
pastel a óleo, e muito desenho. Nas séries anteriores também trabalhei bastante
com tinta spray, colagem e impressão manual.
O material
nacional para pintura já é de qualidade suficiente?
Ainda existe muita diferença de qualidade, mas acho que o pior são os
valores cobrados no Brasil. Quando viajo, trago o máximo que posso,
principalmente pincéis e lápis, que têm qualidade muito superior e são bem mais
baratos.
É possível
viver de arte no Brasil?
Estamos nos profissionalizando há bastante tempo, e é
impossível não colocar o Brasil quando se fala em grandes eventos do mundo das
artes. E não estou falando de feiras e bienais, que a gente já está tirando de
letra. Estou falando de qualidade mesmo, de grandes feras conhecidos e outros
que estão surgindo com força total e dando show lá fora. Tem muita gente
representando bem o Brasil, como artistas, curadores, galeristas, e, além
disso, já fazemos leilões de arte com
qualidade que vêm chamando a atenção de colecionadores estrangeiros. As coisas
vêm ao seu tempo; como foi Miami, nos Estados Unidos, que ganhou espaço (praticamente
dominado por NY), com a área de Wynwood
e a Art Basel, e também muita galeria boa, muito respeito e espaço para os
artistas de rua, então é tudo uma questão de trabalho. Se o artista tem um
networking legal, sabe usar as mídias de forma profissional e tem uma galeria
fazendo um bom trabalho paralelo, dá para viver de arte numa boa.
Qual a
importância do seus estudos na Central Saint Martins College of Art and Design?
Eu acho que mais importante do que os professores e a universidade, é a
cidade. O que rola em termos de exposições, eventos, museus, centros culturais,
etc., em cidades como Londres e NY, apenas para citar duas, é o que faz o
grande diferencial, na verdade.
O que você
pensa sobre os salões de arte? Alguma sugestão para aprimorá-los?
O mercado cresceu muito e o interesse das prefeituras, até mesmo de
cidades pequenas, para promover esses eventos também cresceu bastante. Tudo é
uma questão do fazer, do praticar, é assim com tudo na vida. Alguns desses
salões já fazem parte da “agenda” dos
artistas, não só pelo prêmio em dinheiro mas, principalmente, pela projeção que
rola, com galerias e curadores sempre de olho nas novas apostas. Tem porcaria,
como em tudo na vida, mas melhorou muito e as pessoas estão interessadas em ter
os centros culturais ou museus de suas cidades organizando bienais ou feiras,
que também são interessantes, ainda que tenham uma característica totalmente diferente.
É fazer um trabalho de curadoria sério, com proposta definida, e não apenas
amontoar dezenas de artistas dentro de um espaço qualquer e distribuir
medalhinha de participação.
Quais são
seus planos para o futuro? Algo no Rio de Janeiro?
Essa época tem muita coisa rolando e estou bastante interessado nas
residências no exterior. Tem uma bem legal na Itália, onde visitei esse ano, e
já estou preparando o projeto. No Rio, ainda não tenho galeria me representando,
mas se rolar convite a gente conversa.
Recuerdo Que Ganabas Sempre Ti, 2014, Óleo, acrílico e bastão a óleo sobre painel de madeira. 150x236 cm. Díptico.
Royal Slaves, 2014. Acrílica e bastão a óleo sobre tela. 140x224 cm. Diptico.
Painti Your Palette Blue and Gray, 2014. Óleo, acrílica e bastão a óleo. 150x120 cm.
To Many Hands on My Time, 2014. Acrílica sobre tela 150x120 cm.
Ninguem Vai Dormir Nossos Sonhos, 2014. Acrílica e bastão a óleo sobre tela. 150x120 cm
Parece Cocaína, Mas É Só Tristeza, 2014. Acrílica e bastão a óleo sobre painel de madeira. 140 x 90 cm.
In God We Trust, 2014. Óleo e acrílica sobre tela. 150 x 120 cm.
Todo Mundo É Parecido Quando Sente Dor, 2013. Bastão a óleo sobre painel de madeira. 115 x 155 cm.
Hapiness Is an Imaginary Condition, 2013. Óleo, acrílica e markers sobre tela. 170 x 200 cm. Diptico.
I Took the Worst of the Blow, 2013. Acrílica, bastão a óleo e markers sobre tela. 116 x 180 cm.
Formação
- Central Saint
Martins College of Art and Design – Londres – Inglaterra
- Escola
de Artes Visuais do Parque Lage – Rio de Janeiro – Brasil
Exposições
- 2014 18º SAP - Catanduva - SP
- 2014 74º SAAP - Araras - SP
- 2013 72º SAAP - Araras - SP - Prêmio Aquisição
- 2012 PARTE - Paço das Artes - USP - São Paulo
- 2012 Biennale
d´Arte Internazionale Di Roma - Roma - Itália
- 2011 Biennale
Internazionale dell'Arte Contemporanea – Florença - Itália
- 2011 Galeria
Penteado - Campinas - SP
- 2010/2011 X
Bienal do Recôncavo - Centro Cultural Dannemann - Bahia
- 2011 Handmade -
Galeria nuVem - São Paulo
- 2011 Nova
Perspectivas - Galeria de Arte e Fotografia Solange Viana - SP
- 2010 Paradiso
Sul Mare - Arte Brasiliana – Anzio - Itália
- 2010 Mostra
Mercato d'Arte Moderna e Contemporanea di Padova - Itália
- 2010 Galeria
Penteado - Campinas - SP
- 2010 III Salão
de São José do Rio Preto - Menção Honrosa - SP
- 2010 Chelsea International Fine Art Competition -
New York - EUA
- 2010 Galeria
Belvedere Paraty - Prêmio Belvedere Paraty - Paraty - RJ
- 2010 61º Salão
de Abril - Fortaleza - CE
- 2009 Biennale
Internazionale dell'Arte Contemporanea – Florença - Itália
- 2008 Museu de
Arte do Parlamento de São Paulo - SP
- 2007 Proarte
Galeria - São Paulo – SP
- 2002 Novíssimos
2002 - Galeria de Arte IBEU - Rio de Janeiro - RJ
- 2002 X
UniversidArte - UNESA - Rio de Janeiro - RJ
- 2002 Salão Internacional
de Pintura - MG
- 2001 MostraArte
II - Galeria Maria Martins - Rio de Janeiro - RJ
- 2001 Fundição
Progresso - Rio de Janeiro - RJ
- 2001 Escola de
Artes Visuais Parque Lage - Rio de Janeiro - RJ
- 1999 Espaço
Cultural Constituição - Rio de Janeiro - RJ
- 1998 Espaço
Bananeiras - Rio de Janeiro - RJ
- 1998
Interferências Urbanas - 3ª Edição - Santa Tereza - Rio de Janeiro - RJ