quarta-feira, 16 de julho de 2014

Pintura Muda de Luiz Ernesto com texto de Agnaldo Farias






À Má,

que ama

os objetos


Prato, espelho, copo, guarda-chuva, despertador, garrafa, lápis... Luiz Ernesto prossegue em seu inventário de objetos comuns, particularmente os que povoam nossas casas, membros imprevistos da nossa família, que vão chegando trazidos por nós mesmos ou presenteados ou ainda esquecidos por aqueles que nos visitam, vai saber como, quais são as rotas que eles traçam pelo mundo. Mas vão chegando e permanecendo, às vezes em razão de um interesse nosso por uma atividade qualquer, uma tarefa urgente que nos obriga a comprar matéria prima e instrumentos, e há também os que restam de gostos abandonados, produto dessa inexplicável ternura que em certos momentos da vida devotamos por uma determinada classe de coisas, um desejo de apego que também é a manifestação de uma vontade de estender nossos domínios. O elenco desses objetos é virtualmente infinito, a começar pelas roupas, nossa pele portátil mais à mão, que não mais usamos e que sempre nos esquecemos de dar, que se quedam quietas, suspensas e encerradas nos armários tendo aos pés o couro suado dos sapatos, enchendo-se de pó e da morrinha que inutilmente tentamos minimizar pelo recurso as flores secas que recheiam os sachês acetinados.


Os objetos contam com a nossa desatenção para continuarem por ali, coabitando nosso espaço; sobrevivem a nossa volta em parte porque nunca lhes deitamos a vista mas também porque adiar é uma prática doméstica. Por outro lado, há que se considerar sua notável habilidade no exercício da fuga e ocultamento, o quanto se esgueiram por debaixo e detrás dos móveis, no fundo das gavetas, como se refugiam cômodos nas prateleiras mais altas, como se prestam ao contato íntimo e promíscuo com outros objetos, transformando-se em tralha triste, socada e amafumbada no interior das caixas empilhadas nos porões, sótão, garagens e nos quartos denominados, a propósito, quartos de despejo.



Há anos Luiz Ernesto vem pensando os objetos, colocando-os em suspensão. Toma coisas comuns, um prato de porcelana com a borda ornamentada por um relevo; dois guarda-chuvas pendurados lado a lado na parede, a espera de serem utilizados; um copo de plástico, desses cuja textura canelada sequer consegue impedir que se deforme quando o pegamos para beber água; um despertador de corda azul, de pé e de costas, ostentando as pontas achatadas das engrenagens com as quais acertamos seu funcionamento; uma folha de papel pautado, arrancada do caderno espiral e levemente amassado; um espelho que parece refletir uma cortina, que em lugar de abrir uma passagem, veda-a.


Os objetos são, como se vê, simples, mas o artista trata-os como se não fossem, ao contrário, como se fossem magníficos, resultado de uma operação longa e calculada, que principia sempre com uma fotografia, vale dizer, a escolha de um objeto, a construção de um ângulo e de uma pose, o retrato. A imagem sempre sofre uma edição: o objeto é eviscerado de seu contexto, separado da mesa, parede etc, em que foi fotografado. Embora a nitidez da imagem seja preservada, ela é fixada numa superfície turva constituída de fibra de vidro e resina epóxi. Sai assim do espaço real para ocupar o espaço pictórico, o espaço da linguagem, o espaço de produção da realidade.


Do objeto à imagem, da imagem à pintura, cada objeto selecionado por Luiz Ernesto, subtraído de seu contexto, sobra solitário. Somente ele e a luz que acusa sua presença. Pousado num lugar quase abstrato, um quadrilátero com pretensões de neutralidade não fora os rumores que atravessam seu corpo leitoso, manchando-o, desmentindo sua aparência atmosférica, deixando-o palpável o suficiente para que os objetos se acomodem nele e possam deitar suas sombras. Sob a luz, cada objeto é uma fábrica de produzir sombras.


O que são, afinal, os objetos? o que trazem consigo, embutidos? que sorte de enigmas? o quê e o quanto revelam? Indagações como estas flutuam sobre cada uma dessas pinturas.


Os objetos estão em repouso, estáticos, reluzentes em sua solidão montada sobre uma superfície que oscila entre nuvem e pedra, parede caiada e céu pesado, quase chão. Daí enigmáticas, daí magníficas. Esse lugar que as imagens ocupam paira acima de onde estamos, e converte-se em território propício a sugestões e devaneios, que o artista fertiliza através da inclusão de textos.


Luiz Ernesto vem abrindo um caminho singular no âmbito da pintura. Antes exclusivamente dedicada a representação de objetos, a partir do começo da década passada sua pintura passou a incluir palavras isoladas, verbos e substantivos. A incorporação da linguagem verbal, de natureza abstrata, coincidiu, como forma de compensação, com o tratamento cada vez mais “objetual” que ele passou a dar a sua pintura, trocando a tela de tecido convencional por planos realizados a partir de fibra de vidro, construídos a partir de sucessivas camadas de resina. Ao invés do suporte clássico, o tecido de linha à lona esticada no chassis, tema final das investigações pictóricas pertencentes ao alto modernismo, expresso nas pinturas monocromáticas, nas telas cortadas por Lucio Fontana, o artista optou por uma matéria-prima própria a indústria, amplamente utilizada em automóveis, pranchas de surfe, ainda que passível de ser trabalhada artesanalmente.


A presença de sentenças organizadas em desenhos próprios a poesia, algumas semelhantes a haikais, significou uma alteração substantiva de seu projeto original, transformando sua pintura em pintura-poesia, algo aparentado com o projeto “verbivocovisual”, nascido na esteira de James Joyce, responsável pelo termo, aqui instaurado pelos poetas Haroldo e Augusto de Campos, Décio Pignatari, José Lino Grunewald e Ronaldo Azeredo, e que visava garantir a integração entre  som, sentido e visualidade. Em Luiz Ernesto, contudo, a imagem é mantida, prova de sua força e irredutibilidade e, conquanto suas poesias sejam cuidadosas no que se refere à forma e conteúdo, sua novidade consiste em confrontar os dois, ícone e símbolo, imagem e palavra, fazendo com que do entrechoque os sentidos se proliferem. Colocando-os juntos - justapostos, lado a lado, um sobre o outro etc, fica-se sem saber o que nasce antes, o que equivale a dizer que o trânsito entre ambas linguagens, entre imagem e texto, fecunda-as. Como prova, basta o exemplo do copo frágil, matéria branca sobre campo branco, parcialmente tomado pela sombra que se prolonga numa lâmina, por efeito da luz que incide sobre ele, e o jogo de palavras produzido pelo vocábulo “ínfimo”, com seu primeiro “i” retraído, grave, em contraposição a claridade de “dia”, contida no interior da palavra que fecha o verso.


O apuro em calibrar os poemas, garantindo que não se reduzam a legendas das imagens, espraia-se na série de fotografias que o artista apresenta nessa sua nova exposição, um benvindo desdobramento dessa pesquisa poética fundada no despojamento, na eloquência do silêncio e da solidão.


O amontado de lápis remete a queda e desarranjo do feixe em que anteriormente estavam organizados. Um acidente e, consequentemente um embaralhamento de cores, todas elas comedidas em seus corpos longilíneos exatos. Texto e imagem enlaçam-se na construção de um resultado que, não obstante sua fixidez, reconduz ao movimento ocorrido, a dança compreendida como a fonte de um arco de cores que jorra pelo ar.     


Em várias dessas fotografias os objetos não estão a sós com as palavras, mas apresentados na situação em que estavam quando de seu registro. Os corpos e cores dos textos, dos objetos retratados e dos lugares em que estavam, chegam-nos juntos, e a tudo isso, a essa interpenetração de dimensões basculantes, ensina-nos Luiz Ernesto, chamamos  espaço. Como acontece com o corpo liso e reflexivo da garrafa que condensa e expande o azul para o alto, em direção ao céu, para os lados, parede e mesa, fazendo desta a borda de um mar no qual flutua, horizontalmente exata,  o verso hendecassílabo que afirma a poder dos objetos, por pequenos que sejam.


Agnaldo Farias








Nenhum comentário:

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
Now