quarta-feira, 23 de julho de 2014

Conversando sobre Arte entrevistado Bruno Duque




Quem é Bruno Duque? Como arte entrou em sua vida?
Sou Bruno Duque, nascido em Belo Horizonte em 1983. Filho da artista plástica Canuta Duque, cresci em meio a obras e arte e decidi seguir esta mesma carreira em 2001 optando por uma graduação na Escola Guignard.
Qual foi sua formação artística e como você descreve seu trabalho?
Tive algumas experiências no exterior, tendo realizado um intercâmbio na República Tcheca entre os anos de 1999 e 2000, e vivendo na Espanha entre 2006 e 2010, onde iniciei um curso de doutorado em História da Arte, o qual decidi deixar inconcluso em 2009, por motivos diversos, inclusive a possibilidade de não validação do diploma em território brasileiro. Nestes locais, pude visitar obras de arte que somente havia visto em livros, o que aumentou meu interesse por pesquisar sobre as diferenças entre obras e suas reproduções fotográficas. Interesse esse que crescia na Escola Guignard enquanto eu explorava possibilidades pictóricas da produção fotográfica e ao mesmo tempo utilizava esta técnica para reproduzir meus próprios trabalhos bidimensionais, notando grandes diferenças estéticas. Meu interesse pelo efeito do realocamento da obra de arte através de sua imagem digital se firmou como centro de minha produção artística partir de 2009, quando passei a, além investigar o tema, a produzir obras lidando com essas reflexões. A primeira série destas obras foi intitulada "fotógrafos" e apresentava pessoas fotografando obras de arte, enquanto elas mesmas eram a obra fotografada e pintada. Esta série foi exposta na feira ArteBa em 2010 através da Galeria Belizário (hoje Galeria Orlando Lemos). Em seguida criei outras obras pictóricas com o mesmo tema, explorando características diversas como mudança de escala, reflexão nos vidros de proteção da pintura, influências mútuas entre arte e moda, entre outras. Na série “fotógrafos II” passei a utilizar peças de madeira com as medidas de maços de cigarros, fazendo referência a um vício fotográfico. Nesta série os fotógrafos aparecem de corpo inteiro e isolados no ato de
fotografar. Ao mesmo tempo iniciei uma série de fotografias retratando obras de arte abstratas modificadas, em uma tentativa de resignificar os ícones que estas obras se transformaram ao se consagrarem na história da arte.
Iniciei um relacionamento com Thatiane Mendes, artista multimídia dedicada a poéticas em arte eletrônica e passamos a realizar trabalhos em cooperação. Um destes trabalhos foi o vídeo “objetos de cura” apresentado na Galeria Kitchen de Barcelona e depois no Sesc Palladium de Belo Horizonte. Nesta obra utilizamos edição de vídeo para inserir elementos de videogame em ambientes reais, criando uma interação entre transeuntes e estes objetos. A partir do início deste relacionamento passamos a influir mutuamente nas pesquisas um do outro.
É possível viver de arte no Brasil?
Acredito que é sim possível viver de arte no Brasil. No meu caso eu vivo de arte indiretamente, pois sou instrutor no SENAI, lecionando no curso de Comunicação Visual, sou também fotógrafo de obras de arte. Reunindo estas fontes de renda posso dizer que vivo de arte no Brasil. Não me sinto seguro para abandonar o emprego no SENAI para me dedicar exclusivamente a produção porque o cenário artístico é muito instável, há momentos de bom retorno financeiro e outros de escassez. Isso não é nenhuma novidade para mim já que por toda minha vida vi minha mãe lidar com esta mesma situação.
Qual sua opinião sobre o desenvolvimento da arte contemporânea em Belo Horizonte?
Creio que os artistas de Belo Horizonte tem gerado boas obras de arte contemporânea. Como em todas grandes cidade temos aqui diversos cenários artísticos. Há grupos de artistas que se apoiam uns aos outros e outros artistas mais individualizados.

Que artista influenciam seu pensamento?
Como grande devoto da imagem pictórica tenho meus artistas favoritos locais como Manuel Carvalho e Gustavo Maia. Algumas de minhas influências vêm de David Hockney, Anselm Kiefer, Cristiano Pintaldi, Sandra Gamarra, Regina Parra, Kit Galloway & Sherrie Rabinowitz, Yosef Kosuth, Kitano Takeshi, entre
outros.

Você acabou de ser selecionado para o Salão Anapolino, que você pensa sobre os salões de arte? Alguma sugestão para aprimorá-los?
Recentemente fui selecionado para o Salão Anapolino de Arte com a obra “luz”. Este conjunto de pinturas foi um respiro que dei fora do meu tema usual. Foram as pinturas mais espontâneas e prazerosas que já fiz. Eu quis trabalhar com um tema um pouco mais afastado da fotografia, mas o mais longe que cheguei foi falar de luz (rss). Queria ter imagens potentes contidas em formatos pequenos. Usei camadas espessas de tinta para inquietar o olhar.
Creio que os salões de arte são de grande ajuda para os artistas. Porém acho que as seleções são muito irreais porque o que o júri tem acesso são fotografias das obras, o que normalmente pode ser muito diferente do objeto real. É claro que há um fator de subjetividade muito grande. Dependemos do humor dos selecionadores… Creio que consegui ser selecionado porque fiz uma boa reprodução fotográfica de minha obra. Imagino que os jurados devem se decepcionar constantemente ao receberem as obras as quais selecionaram através de fotografias.
Não acho que seja o caso desta minha obra porque tenho certeza de sua qualidade.

O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria?
Nunca trabalhei com nenhuma galeria de arte de forma exclusiva. Tive trabalhos em galerias, porém nunca fui "artista da galeria”. Provavelmente trabalharei com a galeria Mamacadela, que foi um atelier a alguns anos atrás e está pronta para reinauguração como galeria. Nunca precisei de uma galeria porque minha mãe, além de artista é uma boa negociadora de arte e sempre me conseguiu os clientes que eu precisei, porque tem bons contatos. Passarei a trabalhar com galerias em breve porque creio que o momento em que minha produção está preciso de alguém para me representar e expandir mais minha rede de contatos.
O que é o Diametral Coletivo e a que se refere o projeto Noturno nos Museus?
O trabalho no qual estou mais empenhado ultimamente é o projeto Diametral. Idealizado em 2011 trata de criar uma plataforma de interação entre Brasil e Japão utilizando ferramentas de vídeo conferência e substituindo os monitores por projetores: Diametral é uma obra de arte telemática que conecta o Brasil e o Japão, pontos diametralmente opostos no globo terrestre. Os artistas criam "portais" entre os
dois países onde pessoas são projetadas no outro país em espaço público. O contexto espacial é o ponto extremamente oposto do planeta. O contexto temporal é o pôr do sol de um lado que é o sol nascente do outro. Apesar de a comunicação se dar em tempo real o Japão esta avançado doze horas no calendário, por isso metade do tempo ele esta um dia a frente do tempo brasileiro.
O projeto seria realizado em cooperação com Eduardo Roedel Fernandez, diplomata que na época se encontrava em Hamamatsu, Japão. Naquela época um tsunami causou o desastre que resultou no acidente nuclear de Fukushima e por esse motivo muito triste o projeto ficou "engavetado" até 2014.
Como o Eduardo já havia sido trasladado para outro país, busquei através das redes sociais entrar em contato com artistas japoneses para encontrar um novo parceiro para efetivar o projeto Diametral. Devido a uma série de parâmetros que deveriam ser observados para realizar os eventos de conexão entre os países, principalmente os referentes aos solstícios e equinócios o projeto teve necessidade de expandir para outras cidades do Japão e do Brasil. Foi criado um coletivo atuante no projeto contando com Bruno Duque, Thatiane Mendes e Ricardo Macêdo em
Belo Horizonte, Shunsuke Nakamura em Tokyo, Ryo Fujii em Okayama, Daryl Mitchel, Mao Aoyagi em Naha, Okinawa. O coletivo tem se expandido, incluindo artistas de Porto Alegre e de outras cidades japonesas.
Após experiências com pequenos grupos em locais privados, realizamos o primeiro evento público entre os presente no Centro Cultural Banco do Brasil de Belo Horizonte no dia 18 de julho de 2014 às 5 p.m. onde brasileiros interagiram com japoneses de Okinawa que estavam no Cafe Ciphe- no dia 19 de julho de 2014 às 5 a.m. A comunicação foi em tempo real com atraso de menos de um segundo. O evento foi realizado graças a Fundação Municipal de Cultura de Belo Horizonte, fazendo parte do “Noturno nos Museus” e teve o apoio do CCBB,BH.
Quais são seus planos para o futuro?
Desejo continuar com o projeto Diametral convidando artistas brasileiros e japoneses para proporem trabalhos específicos para esta plataforma. Em uma etapa futura, pretendo expandir o projeto entre outros países diametralmente opostos no planeta, tais como Taiwan e Paraguai, China e Argentina, Espanha e Nova Zelândia entre outros. Ainda neste semestre, realizaremos outro evento entre Belo Horizonte e um navio de cruzeiro em águas japonesas, pois contamos com um membro do coletivo trabalhando a bordo deste navio.
Pretendo seguir com minha produção de pintura, fotografia e vídeo com o mesmo conceito trabalhando ao longo destes últimos 5 anos: deslocamento funcional de imagens!











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Maurizio Cattelan

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