segunda-feira, 2 de junho de 2014

Conversando sobre Arte entrevistado André Rigatti

André vive e trabalha em Curitiba. É professor da Faculdade de Arte do Paraná.




Quem é André Rigatti? Local e data de nascimento, família, infância, juventude, experiências fora da arte.

Sou artista visual e professor, trabalho com pintura, gravura, desenho e vídeo. Possuo graduação e Mestrado em Artes Visuais. Nasci em 1982 em Xanxerê, oeste do estado de Santa Catarina.  Atualmente sou representado pela Galeria Virgílio de São Paulo.

Minha família é de imigrantes italianos que se estabeleceram no sul do Brasil em meados do século XX com o intuito de trabalhar a agricultura e o comércio de culturas cerealistas, e o fizeram até o final da década de 1990. Mesmo num ambiente familiar distante da arte, o desenho foi uma atividade muito presente e ao mesmo tempo intuitiva durante toda minha infância, nunca me disseram que eu tinha que desenhar, ou o que desenhar, simplesmente era algo que acontecia e que preenchia os grandes períodos ou tardes sozinho, assim começaram as primeiras experiências ou vontades artísticas. Cresci em meio a natureza, a florestas, rios, plantações, paisagens e horizontes de uma cidade pequena, no interior, com algumas viagens rumo ao litoral.

 

Como a arte entrou em sua vida?

A arte era assunto desconhecido naquele meio social e familiar, era vista como algo grandioso, para pessoas sonhadoras, uma profissão difícil, irreal e fora de questão (lembravam meus pais). Durante a adolescência, por volta dos 13 anos, lembro que passava sempre em frente a um ateliê de pintura que vendia os trabalhos do professor e dos alunos, o desejo de comprar uma daquelas pinturas, e a tal impossibilidade financeira de um adolescente, me fizeram pintar minha primeira tela, pois, já que não poderia comprar faria a minha própria. Assim, que dei por terminado o primeiro trabalho, decidi que seria artista, e começaram então, as próximas pinturas e, até mesmo, exposições em minha cidade natal. Busquei quase que imediatamente informações através de livros, revistas e museus, mas, uma formação artística, ocorreu mesmo algum tempo mais tarde.

Qual foi sua formação artística?

Quando decidi que seria artista, direcionei meus estudos e esforços para o desenho. Fiz algumas aulas e busquei por cursos. Em 1999 me mudei para Florianópolis, sem muito sucesso. Em 2001 fiz uma viagem para Antonina, litoral do Paraná, e participei do Festival de Inverno da UFPR, ali fiz o curso da artista paulistana Mônica Nador que me influenciou bastante naquele período e me ajudou a desvelar muitos mitos e sanar muitas de minhas ignorâncias, mesmo em um curto período, foi como um choque, ou uma farta imersão. Neste Festival conheci a artista Carla Vendrami que também ministrava um curso, e soube que ela havia acabado de voltar da Itália onde tinha estudado com Luciano Fabro, expoente da Arte Póvera, Carla era professora do curso de artes visuais da universidade Tuiuti, e como na época, eu estava pesquisando por uma graduação e uma nova cidade para morar, escolhi Curitiba. Tive o privilégio, junto com outros colegas, de fazer a graduação em artes visuais com a orientação de Carla Vendrami, mas também de contar com aulas de professores como Décio Pignatari, Peñuela Canizal e outros artistas e teóricos da cidade que lá lecionavam, como Simone Landal e Daniela Vicentini. Após a graduação ingressei no Mestrado em Artes Visuais na UDESC em Florianópolis, de 2010 até 2012, com a orientação de Regina Melim, onde tive a oportunidade de desdobrar inúmeras questões que nutrem e direcionam meu trabalho como artista e, atualmente, também como professor.

 

Que artistas influenciam em sua obra?

Brancusi, Cézanne e Matisse foram os principais artistas que me confrontei desde os primeiros estudos nos anos noventa, e que ainda, freqüentemente estão em minha  pasta de estudo. A maneira como estes artistas lidavam com a superfície, a cor e o espaço sempre me instigou, e me fez procurar adentrar cada vez mais em seus territórios de criação.

No entanto, a obra de Rothko, Barnet Newmann, Robert Ryman, Hélio Oiticica, Philip Taaffe e Richard Diebenkorn, colocam-se como minhas principais referências, assim como o trabalho de Paulo Pasta, Rodrigo Andrade e Fabio Miguez.

 

Como você descreve seu trabalho?
 
Minha realidade, meu meio, minhas relações sempre foram motivos de trabalho. Nunca me intitulei de pintor, gravador, desenhista ou o que fosse, sempre experimentei tudo e transitei entre muitas linguagens. A técnica nunca foi meu ponto central de atenção, sempre me dediquei a pensar em como “fazer ver” determinado elemento ou reflexão, e para isso, me concentrava nesta ou naquela linguagem. Atualmente, a pintura é o caminho que consigo trilhar, que me motiva, e que se apresenta como o único instrumento ou meio capaz de impulsionar minha poética. Mas sem dúvida, a pintura sempre esteve por trás de tudo, ou, sempre esteve em tudo.

Minha pesquisa atual, discute uma posição dialética da paisagem na pintura, construída por aproximações entre entes operacionais e conceituais muitas vezes opostos. O isolamento, o espaço vazio e a construção de lugares sempre foram os principais pontos de meu interesse, e que se materializaram em desenhos, gravuras, performances, vídeos e pinturas. Em todas estas ações a cor colocou-se enquanto elemento ativador destes espaços, um fio condutor que conduz e direciona minha pesquisa. Gosto de pensar em lugares de natureza antagônica, formados por densidades, matérias e sensações conflituosas ou díspares. Operar entre paisagem e geometria, entre organicidade e artificialidade, entre construção e desconstrução, entre opostos e complementares buscando rompimentos.

 

É possível viver de arte no Brasil?

Vivo do meu trabalho há alguns anos, mas também me dedico ao ensino, o que de certa forma, me permite respirar e produzir mais tranquilamente. Apesar de muitas dificuldades, hoje muitos artistas bem ou mau vivem graças a seu esforço e trabalho. O mercado de arte cresceu e o artista como profissional soube se localizar e se estruturar neste meio. Existem muitas possibilidades profissionais e os mais diversos caminhos e estratégias, cabe a cada um direcionar sua atenção. Seja no Brasil ou fora dele, viver como artista não é coisa simples e requer planejamento e muito trabalho.

 

 

O que você pensa sobre os salões de arte? Alguma sugestão para aprimorá-los.?

Bem, acredito que os salões cumpriram seus objetivos. Não vejo mais razões para que este velho modelo continue. Devemos apostar na transformação deste pensamento, na construção de outras plataformas que impulsionem o fazer e o relfetir da arte. Encontros, intercâmbios, trocas de experiências, sensações transpassadas em produções, exposições, convivências, debates, enfim, outros eixos, outras oportunidades.

 

Qual sua opinião sobre o mercado de arte em Curitiba?

Gosto de pensar não em “mercado de arte em Curitiba”, e sim em “meio de arte em Curitiba”. O meio de arte aqui sempre foi muito atuante, a cidade conta com  diversos espaços institucionais públicos e privados, o que possibilita ver e participar de um grande volume de exposições de tempos em tempos.

Existem quatro universidades de artes visuais, com grandes professores e muitos alunos interessados na carreira artística e na prática docente. Algumas mostras internacionais e nacionais passam pela cidade, seja pelo Museu Oscar Niemeyer ou através do Instituto Goethe, ou ainda, através de outras instituições como a Caixa Cultural e a Bienal de Curitiba. A Fundação Cultural possui uma política que apoia a produção artística através de editais, abrindo espaço para jovens e veteranos. Mas em se tratando de mercado mesmo, galerias e venda de obras,  acredito que seja um espaço em expansão e que a cada ano ocorre um avanço e mais ações nesta área se desenvolvem. A cidade conta com poucas mas competentes galerias, o que deixa um espaço em aberto para que novos empreendedores se lancem na construção deste mercado.

 

Como você poderá ser conhecido em âmbito nacional?

Atualmente, sou representado pela Galeria Virgilio de São Paulo, cujo trabalho, junto ao mercado de arte brasileiro, é amplamente reconhecido, e que de certa forma me apresenta e me situa no cenário nacional.

 

O material nacional para pintura já tem qualidade?

Estou habituado a trabalhar com marcas estrangeiras pela segurança dos materiais e força dos pigmentos. Mas nos últimos anos algumas marcas nacionais tem apresentado materiais e composições com qualidade. Mas ainda é um setor que precisa de mais estímulo e pesquisa para garantir ao artista materiais nobres e eficazes. Os produtos europeus ainda fornecem mais poder de permanência e pigmentos muito mais puros e limpos.

 

O que é preciso para um artista ser representado por uma galeria?

 Em primeiro lugar, ser um artista. E aí nem todo artista precisa de uma galeria. É importante pensar em ter um trabalho, uma produção consistente, ser profissional e competente, e depois disso pensar se precisa e quer trabalhar com alguma galeria. Esta pareceria acontece em muitos casos de forma natural, um se reconhece no outro, e daí surgem experiências profissionais gratificantes, pois há uma ligação entre artista e galerista que consolida o trabalho.

 

Artista e professor?

Sim, trabalho como artista e professor. Acredito que um lado alimenta o outro, numa via de mão dupla. Minha experiência com a criação e com o circuito da arte nutre minhas aulas, assim como minhas experiências de pesquisa e troca com os alunos alimenta minha obra. Em muitos momentos, acontecem cruzamentos muito especiais, e questões trabalhadas em ateliê são divididas e expandidas com a reflexão desenvolvida junto aos alunos. A pesquisa em poéticas visuais que desenvolvo tanto em ateliê, como em sala de aula, é a questão que me aproxima de ambos os universos: o particular e o coletivo.

 

Quais são seus planos para o futuro?
 
Viver! Isto significa não apenas respirar, mas produzir, ensinar e estudar. Planejo ainda viver em diversas partes do Brasil, sair do sul, viver no norte, nordeste, sudeste, enfim, mudar os ares, as influências, trazer coisas novas para nutrir a produção e vê-la crescer... continuar meus estudos, seguir em um doutoramento e sempre me dedicar ao ensino, lugar em que tanto

 

 
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Sem título, 2013. Óleo e acrílico sobre tela. 100 x 300 cm.


Sem título, 2013. Óleo e acrílica sobre tela 150 x 200 cm.


Sem título, 2013. Óleo e acrílica sobre tela. 150 x 190 cm.


 Sem título, 2013. Óleo e acrílica sobre tela. 150 x 190 cm.


Sem título, 2013. Óleo e acrílica sobre tela. 150 x 190 cm.


Sem título, 2012. Óleo sobre papel fixado em painel de madeira. 70 x 105 cm.


Vista da exposição individual, 2013.   Galeria Virgilio, SP.

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Maurizio Cattelan

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