sábado, 31 de maio de 2014

Homenagem a Orlando Mollica



 
 Orlando Molica (1944-2014) Arquiteto e Urbanista, Artista Plástico, caricaturista com publicações no Pasquim, Globo, Jornal do Brasil, Jornal do comércio, Opinião, Playboy e outros. Capas e ilustrações para livros, editoras ZAHAR, José Olympio, FTD e outras. Prêmio de “Ilustrador do Ano”, Clube de Criação – S.P - 1989, Prêmio da Fundação Nacional do Livro “Melhor Ilustração Infantil" - 1989. Mestrado e doutorado em comunicação ECO-UFRJ. Professor adjunto da faculdade Santa Úrsula, de 1975-2000. Professor de desenho e pintura da Escola de Artes visuais do Parque Lage com o curso "Desenho Contemporâneo: produção de sentido e narratividade" - autor do livro "Arte, Artistas e Arteiros" 2011 (versão digital)Editora Gato Sabido




Giverny em Acari, 2012
 
 

Grande Devaneio de Cabral, 2012.



Porto das Mil Maravilhas, 2012.
 
 

Tráfego, 2012.
 
 

 Amigo que Foram dos Amigos, 2012.


Uma crônica paisagística da ZN (Zona Norte) como acontecimento pictórico que se realiza na própria fruição estética da mesma: eis a obra.

Desprovidas de um tempo cronológico que inclui um passado, um presente e um futuro precisos, a pintura paisagística; assim como a paisagem de um conjunto de áreas da ZN como o Rio Comprido, Catumbi, Rocha, São Cristóvão, Caju, Del Castilho, Inhaúma, Pilares, Higienópolis, Bonsucesso, Manguinhos, Maré, Abolição, Engenho de Dentro, Encantado, Água Santa, Barreira do Vasco, Pavuna, Vigário Geral, Parada de Lucas, Cordovil, coexistem num tempo mítico e impreciso: indeterminado e desmedido, somente capaz de ser percebido poeticamente como fenômeno singular e autônomo, independentemente da marcha inexorável do tempo histórico: das grandes obras rodoviárias que estupram o Rio de Janeiro em sua marcha para o progresso.

Assim como esses lugares da ZN desacontece como lugar do progresso, “a pintura é fatal” (G. Braque). Ambas tangenciam o tempo cronológico. Resistem como cultura e linguagem respectivamente, permitindo-se perceber apenas no tempo mítico da contemplação e da fábula: o tempo da crônica, como quer Deleuze. E no caso específico deste trabalho, trata-se da contemplação de paisagens consideradas como fora daquilo que caracteriza a ciade do Rio de Janeiro, ou seja, paisagens que não se encontram na categoria de “cartões postais” da cidade.

Todavia, a contemplação dessas paisagens da ZN do Rio, ora em questão é oposta àquela que se produz na indústria do espetáculo midiático, por meio de um voyeurismo fugaz, histérico, marcado comumente pela banalização da violência, exposta diariamente ao cidadão comum, que sentado confortavelmente em sua sala de jantar, tudo assiste no noticiário de TV, impassível e impotente.

Neste trabalho este telespectador é representado pela sua própria ausência, nas cadeiras e mesas vazias pintadas à margem das cenas. De um lado ou de outro da tela, esses prosaicos arranjos de mobiliários típicos dos interiores das casas aburguesadas simbolizam a indiferença e a impotência apática do cidadão comum.

Nesse sentido, a melhor forma que encontrei como artista visual para pensar, perceber, e visualizar as paisagens desses lugares da ZN, e dá-los a ver fabulados como pintura, que remete do ponto de vista de uma classificação dentro da história da arte mais genérica aos movimentos“Impressionista” e “Pós-Impressionista”. Esses movimentos surgidos na segunda metade do século XIX e nas primeiras décadas do século XX, no seio da modernidade e da industrialização européia, com o passar do tempo se configuraram como “escolas” de pintura se espalhando pelo mundo ocidental, sofrendo adaptações singulares em cada país, muitas vezes exageradas e mal assimiladas, resultando daí, no entanto, frequentemente pintores que criaram uma pintura muito pessoal.

No Brasil, especialmente no Rio de Janeiro, essas áreas da Zona Norte e mais especificamente do Centro estão associadas a pintores paisagistas como Antonio Parreiras, Eliseu Visconti, Lucílio e Georgina de Albuquerque, Rodolfo Chamberlland, Gustavo Dall’Ara, irmãos Timótheo da Costa, Carlos Oswald, Bustamante Sá, Gastão Formenti, Manuel Santiago, pintores do Núcleo Bernardelli, e outros artistas, como o desenhista e gravador Oswaldo Goeldi; todos muito importantes como cronistas visuais das grandes transformações “progressistas” do Rio de Janeiro, desde o começo do século XX, no Governo do Prefeito Pereira Passos, com a abertura da Av. Rio Branco, e mais tarde, com o Plano Agache, o Desmonte do Morro do Castelo e a abertura da Av. Presidente Vargas.

Todo esse pensamento urbanístico reincidente que provém de um olhar das classes abastadas da população, as elites pensantes, os políticos em geral, privilegiou a ideologia rodoviarista (a abertura de grandes avenidas, viadutos e túneis), em detrimento a um projeto mais amplo e mais complexo que, além de levar em conta as questões sócio-culturais e patrimoniais da cidade, tentasse também resolver sobretudo a questão da carência de habitação, que atinge, ainda hoje e cada vez mais, dramaticamente, as classes menos favorecidas. Definitivamente no Brasil, assim como no Rio de janeiro não existe, de fato, uma política habitacional digna desse nome.
Em outras palavras, todas essas obras foram pensadas e executadas exclusivamente privilegiando o capital.

Essas intervenções a que nos referimos acima se consolidam na segunda metade do século XX com o Plano Doxíades, com a abertura dos túneis e viadutos que cortam o Catumbi e o Rio Comprido, e mais tarde as Linhas Vermelha e Amarela. Nesse momento da história da cidade (2012), a sanha rodoviarista continua associada ao capital financeiro internacional em projetos articulados com as grandes corporações e pretensamente ligados à criação de novas centralidades para a cidade, como o Porto Maravilha. Rodoanéis, túnel da Covanca, em Jacarepaguá, expandindo a fronteira urbana do Rio rumo a Guaratiba complementam esse macroplanejamento.

Com efeito, o meu trabalho como artista visual foi associar a minha própria memória afetiva, seja como morador da ZN por dezoito anos da minha vida, seja mais tarde como arquiteto urbanista, nas minhas andanças por alguns desses lugares, com impressões e sensações visuais diretas que eles me causam agora, sem me deixar levar por quaisquer tendências ou modelos estéticos que comumente têm sido apresentados como “contemporâneos”.

A solução plástica que encontrei e que me parece que responde e corresponde às sensações, de um modo geral, que senti ao longo do trabalho surgiu da prática direta da pintura dentro do atelier, com base em anotações e estudos feitos o pastel oleoso em papel formato A-4, sobre colagens e desenhos realizados de memória que remetiam incidentalmente a essas escolas que provém do Romantismo da passagem do século XVIII para o XIX e das primeiras vanguardas que se sucederam da segunda metade do século XIX até a primeira metade do século XX: Impressionismo, Pós-Impressionismo, Expressionismo.
Nesse sentido, posso compreender e mesmo assumir como atitude e partido conceitual deste trabalho, a revisitação de técnicas e soluções estéticas já adotadas pelos pintores, acima citados, sobretudo os que pintaram a cidade do Rio de Janeiro até a metade do século XX, agora porém trabalhadas em telas de grandes formatos com novos materiais e novos procedimentos muito diferentes das tradicionais tinta a óleo sobre a tela de linho cru, usadas comumente por aqueles pintores.

Penso que, longe de celebrar um saudosismo estético, essa“repintura”, ou “pós-produção, no sentido de uma mixagem de clichês rearranjados de maneira diferente por mim, traz de novo com ela, repõe na cena artística deste começo de milênio, narrativas bem humoradas, satíricas, retomando um colorido assumidamente dissonante, que provém em sua gênese dos pintores do Veneto Renascentista.

Juntamente com essa preocupação formal de rever o problema da harmonização de uma multiplicidade de coloridos muito contratantes mantendo, no entanto, algumas convenções clássicas do paisagismo, o presente trabalho pretende somar esforços e contribuir para a discussão da pintura e seu papel como linguagem plástica dentro do contexto das artes visuais, como imagem na atual fase da modernidade, assim como avaliar como sua potência como meio de expressão artística e capacidade poética para retratar a paisagem dessas regiões inexpressivas da ZN do Rio de hoje, permitindo exercer minha melhor forma de pensá-las, senti-las, bem como de dá-las a ver, criticamente, ao público.

Orlando Mollica
Abril - Maio/2012




 Texto do artista e professor José Maria Dias da Cruz sobre um quadro de Orlando Molica.




Mollica

Estou anexando uma imagem de seu quadro. Seguem algumas considerações.

Há uma horizontal e bem abaixo da pedra da Gávea vc rompe o tom e chega a uma cor oposta ao azul dominante, um certo alaranjado. Há inclusive uma pequena manifestação do cinza sempiterno. Não houvesse esse pequeno detalhe o quadro se desintegraria. Repare: há um preto à direita em baixo. Esse perderia totalmente o sentido sem aquele rompimento e o cinza sempiterno. Agora se você eliminasse esse preto mas deixando aquela manifestação do cinza sempiterno e a oposta do azul, você tem uma outra possibilidade de paisagem. Portanto há no quadro, se você querer vê-lo em possíveis desdobramentos, outras possíveis realidades.

O curioso e que esse detalhe do cinza sempiterno e da oposta situa-se na linha horizontal, ou na extensão segundo Cézanne.

Esses desdobramentos te impedem de se fechar em uma lógica conclusiva, e assim você nos faz pensar no enigma.

Agora um retrospecto. Os quadros de Mondrian reduzidos às horizontais, verticais às cores primárias e esbranquiçados são resultantes de uma síntese da paisagem. Creio que Mondrian deve ter percebido que esses quadros estavam tangenciando uma conclusão, daí ele os ter abandonados no fim de sua vida e pintado aqueles dois últimos quadros nos quais se até, além de um ritmo fantástico permitiu uma interação cromática e nessas até uma insiuação de esverdeados resultantes dos vermelhos ao lado dos cinzentos (prefiro me referir a cinzentos no lugar de cinzas para enfatizar que queria esses cinzentos como cores).

Daí estar insistindo no fato em que você está realmente nos trazendo uma outra percepção da paisagem. Aqui posso me corrigir. Você vai além de uma simples percepção. Há um saber do olho principalmente graças a um pensamento plástico muito sofisticado.

Para você pensar: segue abaixo um artigo que encontrei no Google. Faz uma referência à extensão e à profundidade.

Me diga, será que com essa troca de ideias estamos reunindo elementos para um bom texto? De minha parte digo que estou entusiasmado. E acho que agora as coisas estão ficando mais claras para mim.

Forte abraço
JM

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Maurizio Cattelan

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