sexta-feira, 9 de maio de 2014

Conversando sobre Arte entrevista com o artista Fernando Ferreira de Araujo.



Quem é Fernando Ferreira de de Araújo?
 Venho de uma família pernambucana. Nasci na cidade de Caruaru, PE, mas nos mudamos para Maceió, AL, onde os maus pais tinham negócios, quando tinha menos de 2 anos de idade. Em alguns pontos sou o que se pode chamar um leonino típico, nasci do dia 3 de agosto de 1962. A minha infância e adolescência, até os meus 13 anos, foi bem confortável e dentro de uma zona de conforto, entre Maceió e Recife, que às vezes me incomodava sem saber bem o por quê. Aos 14 anos, fui fazer o primeiro ano do High School em Orlando, FL. Esta experiência me possibilitou o contato com um mundo externo e novas possibilidades que foram de certa forma seminais em minhas decisões futuras, mesmo que inconscientemente. Neste período fiz a minha primeira viagem para Nova York e lembro o quanto a cidade me fascinou. Comecei a me identificar mais com o mundo externo do que mesmo com o mundo em que vivia. Sem saber comecei a sentir que o mundo não tinha paredes, fronteiras.

 

      Como a arte entrou em sua vida?
Desde criança a arte esteve presente, através do meu irmão mais velho que era pintor, mas ao mesmo tempo achava que não seria o caminho para mim. Havia referenciais muito fortes e atingi-los parecia inviável. Fiz curtos cursos de pintura e história da arte em Maceió com o Mestre Pierre Chalita. Na minha primeira viagem à NY, aos 14 anos, o MoMA se mostrou para mim como um portal de possibilidades que até então não entendia muito bem e achava impossível. Ficou a semente. Após me formar em Administração de Empresas, em Recife, voltei à Nova York em 1986, onde morei por 1 ano e fiz alguns cursos de desenho gráfico-têxtil como base para a empresa de confecção e estamparia que montaria em 1987. Em 1989 fui selecionado pelo Salão de Novos do MAC-PE com duas obras, mas mesmo assim na época não me dediquei integralmente à pintura. A minha cofecção e estamapria supriam de certa forma a lacuna da arte, mas, claro, fazia pinturas esporádicas. Neste período participei também de algumas coletivas, mas me sentia preso ao mundo dos negócios que logo me absorveu muito.



3. Qual foi sua formação artística?
Após 13 anos como empresário, e pintor de final de semana, precise sair do meu eixo e voltar para Nova York onde sempre me senti a vontade, confortável para buscar outros caminhos - viajava todo ano para lá pelo menos 2 vezes. Passei então a ter a minha base lá e me integrei ao The Art Students League of New York, onde estudei e montei o meu primeiro atelier em Manhattan. Permaneci até 2010 quando tive o prazer de ser listado pela Vogue Magazine e a BrazilFoundation como uns dos 100 brasileiros mais influentes de NY.





4. Que artistas influenciam em sua obra?
Muitos do movimento expressionista Abstrato Americano, como Willem De Kooning, Franz Klein, Joan Mitchell, Arshile Gorky, influenciaram algumas das minhas series, mesmo sem perceber. No entanto, a minha leitura é mais ampla, vem da arte rupestre eu diria. Não daria aqui para enumerar todos que admiro e que de certa forma integram o meu DNA. Karel Appel do Movimento CoBrA também é representativo. Iberê Camargo, Soutine... a lista é grande. Percebo e identifico um ou outro com maior intensidade a depender da minha fase. Hoje depois desta última série inteira ter ficado pronta, percebo, por exemplo, algo de Mark Tobey. O importante é não se deixar dominar, a influência é inevitável e importante, mas a nossa verve deve se manter integra. Há muito tempo busco menos referências e mergulho mais no conceito e na técnica. O traço e o movimento afloram involuntariamente dentro do processo de criação.



5. Como você descreve seu trabalho?
Abstrato por essência, invariavelmente uso técnica mista. Gosto de misturar, testar novas possibilidades e suportes. Esta minha última série é toda em papel de algodão. Muito bom trabalhar em papel. No entanto, ao longo da minha carreira já utilizei lona, linho e madeira como suportes.



6. O material nacional para arte já é de qualidade suficiente?
Imagino que esteja melhorando, mas preciso ainda ter comigo pigmentos, bases, tintas e principalmente o papel importado. Já telas, temos algumas nacionais muito boas.



7. É possível viver de arte no Brasil?
Depende da expectativa de cada um. Da forma de viver de cada um. Claro que de inicio não é possível, mas com o tempo vamos encontrando meios e principalmente vamos mudando o nosso estilo de vida se assim for necessário. Não adianta pensar que se poderá viver como um industrial sendo artista. Tudo é uma questão de expectativa do que achamos que vale a pena. Precisamos redimensionar as nossas prioridades. O artista tem dificuldades de manter o investimento da arte em relação ao retorno que ela traz, enquanto arte independente e mais a manutenção da sua vida pessoal. Então, às vezes é necessário considerar um trabalho paralelo que pague as contas. É preferível isso a buscar fazer uma arte que não seja fiel à sua essência e por consequência criar o que se acha que o mercado pode assimilar. Como isso se aniquila a arte, se perde a essência do artista.





8. Qual sua opinião sobre o mercado de ate em São Paulo?
Em franco crescimento e sem duvidas ainda o maior do Brasil.

  Na sua opinião, qual o exato papel do curador?
Acho o papel do curador importante quando se entende o verdadeiro papel do curador e principalmente em que tipo de evento de arte estamos falando. Vejo-o como um maestro, um ‘alinhador de conceito, ideias e produção artística. Às vezes o artista tem uma produção muito grande e não compatível ao espaço expositivo, daí o curador tem o papel fundamental de fazer uma leitura onde as obras dialoguem entre sim e comungem com a montagem. Em se tratando de uma mostra macro onde uma fase, uma época ou um período de produção esteja sendo mostrado como representativo de uma região, geração ou tema proposto o curador precisa ter a uma visão apurada, atualizada, imparcial e blindada de possíveis intervenções do mercado. Quando isso não acontece o seu papel passa a ser questionado, mas só quando isso acontece.



1  O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria?
Diria que consistência e coerência em seu trabalho. Paciência também é ingrediente importante. Não tentar queimar etapas para não queimar a sua careira.



1Você está inaugurando uma exposição em SP, qual a sua expectativa?
Depois que voltei de Nova York fiz algumas individuais importantes, resaltaria a que fiz no Centro Cultural Correios, em Recife, e a do MAC-PE, além de coletivas importantes em Recife e SP. No entanto, em São Paulo, esta é a primeira mostra individual que faço. Portanto, a perspectiva gira em torno de mostrar o meu trabalho mais recente. Uma série que me levou 2 anos trabalhando com papel como suporte. A mostra fala por si só, na medida que revela a minha trajetória dos últimos anos. Nela faço um depoimento quase autobiográfico através de texturas e sobreposições de matérias que são cortadas de forma caligráfica. O Ganibete D é uma galeria com espaço e iluminação impecáveis. A curadoria foi de Eduardo Machado, uma vez que tinha mais de 35 obras desta série para serem escolhidas 26. Wair de Paula fez o texto de apresentação. Tendo, portanto, uma participação importante na leitura desta série.



1Quais são seus planos para o futuro?
Meus planos se resumem sempre em buscar novas possibilidades através de pesquisa de novas matérias e suportes. Já tenho o estudo da próxima serie iniciado. Pretendo começar ainda este ano e devo levar uns dois anos para concluir. Quero também sedimentar mais a minha carreira aqui no Brasil. Nos EUA já tenho certo mercado, principalmente o de leilões, que me permite priorizar o Brasil nesta minha fase, mais especificamente São Paulo. Em longo prazo pretendo voltar à Nova York, por um tempo, onde tenho convite para duas individuais, mas preciso estar lá, produzir lá. Portanto este plano fica para 2016 provavelmente.
 
 
 
 

 

 
 
 


 

 
 
 

 





‘REMNANTS’

Papéis pintados, colados, reprocessados, rebocos de paredes, camadas de sedimentos de ordem quase geológica e a pureza que pode estar contida no acúmulo. O título desta série de Fernando Ferreira de Araujo poderia, à primeira vista, encaminhar nosso olhar e sentidos para o fato dele se utilizar de sobras, restos, para compor a intrincada superfície de suas obras. Mas uma análise mais acurada vai nos levar a outro significado deste termo – resquícios.
 
Fernando trabalha com o tempo, com vestígios, com sua própria história (a gênese deste trabalho data de mais de uma década, desenvolvida no período em que o artista morava em New York) para criar superfícies matéricas, intensas, meticulosamente edificadas sob uma aparente desordem. Reforça na arquitetura arqueológica de seu trabalho o pensamento de Mario Quintana, de que o passado não reconhece o seu lugar, pois está sempre presente. Mas, ao contrário do procedimento arqueológico, em que os sedimentos são minuciosamente retirados para que se descubra o objeto histórico, aqui o método é igualmente meticuloso, mas oposto – a sucessão de pequenos elementos, fragmentos de uma (outrora) mesma área que vão compondo um panorama cujas referências parecem encontrar paralelo na obra filosófica de Jacques Derrida, em sua necessidade de levar ao limite os contrastes, à desconstrução ante a forma.
 
Resíduos intensamente carregados de camadas e camadas de tinta junto a fragmentos de embalagens industriais, em franco contraponto em suas essências, criam uma dialética única, onde visualmente, neste processo, o paradoxo se impõe ante à desconstrução – parecendo que as obras foram escavadas, não construídas. Desta forma, o artista visita seu repertório e revisita seu método de forma analítica, escavando de sua própria narrativa pictórica os elementos imprecisos que sugerem o caminho, reforçando o dogma de que definir é matar, sugerir é criar.

j. wair de paula

A mostra “Remnants” do artista plástico pernambucano, Fernando Ferreira de Araujo, residindo atualmente em São Paulo, estará aberta ao público do dia 10 de maio a 07 de junho no Gabinete D, na Rua Estados Unidos 273, no Jardim Paulista. A abertura será sábado, dia 10 de maio das 11h00 às 17h00.


2 comentários:

jessica martins disse...

BELAS PAISAGENS METAFÍSICAS, ONDE MISTÉRIOS PROVOCAM O OLHAR..

lara disse...

parabens !! fernando que maravilha ficou a montagem , tambem né esta em boas mãos .
parabens tambem a sr eduardo machado e wair de paula.

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
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