segunda-feira, 19 de maio de 2014

Conversando sobre Arte entrevista com o artista Alfredo Nobel





QUEM É O ALFREDO NOBEL?

 
O garoto magricela, mulato de cabelo vermelho queimado pelo sol nasceu em Belo Horizonte no Bairro Carlos Prates.

Ficava horas a fio sentado ao meio fio olhando demoradamente tudo. Muitas vezes pegava um gravetinho e retirava todos os fragmentos em torno das pedras que calçavam a Rua Cambuquira. Ali resolvia todas as coisas que precisava organizar em sua cabeça de criança curiosa e atormentada com os problemas familiares. O lugar preferido era a janela de madeira e os telhados da casa e da vizinhança. A casa era a única que tinha cerca de arame e tela e um quintal imenso que o pequeno Alfredo sabia de cor. Ele amava seu pé de goiabas, esconderijo e refúgio das horas felizes e tristes. Poderia falar horas e horas sobre estes tempos de menino.

Hoje eu tenho certeza que a Arte não entrou em minha vida. Eu sempre fui Arte.

Atualmente, conto a minha “História Arte” através dos materiais expressivos que sempre conversei e brinquei em meu quintal e casa.

Lembro-me da trepadeira de flores azuis e púrpura (glória da manhã) e meu coração disparava ao ver dezenas de abelhas, de manhã, buscando o interior daquelas flores. Os frutos e sementes desta trepadeira são maravilhosos. Eu fazia cigarros destas folhas com papel de pão e fumava como meu pai fumava de pernas cruzadas no sofá. Só que eu ficava mais doido ainda!

 

QUAL FOI SUA FORMAÇÃO ARTÍSTICA?

 

            Minha mãe me levava em tudo nesta cidade: cinema, teatro, museu, me lembro com saudade do filme Menino Mogre na super tela do Cine Brasil. Eu enlouqueci naquele dia!

            Não me adaptava em escola, fui descobrir que era dislexo muito tempo depois de ter tomado muitas “bombas”. Até que entrei em uma escola que não tinha muros “Centro Pedagógico da UFMG”. Foi ali que me aceitaram, me compreenderam. Eu tinha aula de Arte, Filosofia. Então o garoto mudo teve voz. Tornei-me alguém para mim mesmo e para os outros.

            Foi neste momento que senti a vontade de aprender outras coisas, foi difícil, detestava teorias, até hoje troco S por C, U por L, CH por X, odiava Gramática, Matemática. Meu pai e minha mãe se convenceram que eu precisava ter uma profissão e, felizmente, me colocaram em uma escola que tenho também um carinho muito grande e gratidão, SENAI, onde fiz os cursos de Tornearia, Ajustagem e Fresa. Hoje, não tenho dificuldade alguma em fazer qualquer coisa pois me tornei um ferramenteiro.

            Trabalhei por dez anos no Departamento de Física da UFMG. Trabalhava para um grupo de Astrofísicos que precisavam de excelência em todos os seus equipamentos. Eles eram muito exigentes. Foi muito bom para mim tudo isso. Fiz um curso de Técnico em Mecânica Industrial na UTRAMIG e me especializei ainda mais. Buscava precisão no acabamento compulsivamente.

Subia todas as noites a Avenida Afonso Pena para a escola e ficava encabulado de ver pessoas muito diferentes das demais com seus pastões azuis, verdes, vermelhos descendo uma escadinha super simpática que dava acesso ao porão do “Palácio das Artes”. Um dia resolvi entrar e descobri que a coisa mais linda que existe de todos os Palácios são seus porões. Foram 7 anos de Guignard. Meus professores foram fantásticos sem exceção. Muito que sou como artista aprendi com eles. Todos geniais e complexos, “estranhos educadores artistas”, amigos. Cada um ao seu jeito “rico de ser”.

Detestava ainda as teorias, “falava muita merda”, mas com o tempo amadureci e aprendi de fato a gostar de aprender. Hoje, amo Literatura e ando correndo contra o tempo para ler tudo que deixei de ler.

Lembro-me com alegria e saudade do professor Moacyr Laterza que subia sobre a mesa da sala e recitava de braços abertos trechos imensos da Obra de Shakespeare. Era magnífico! Tínhamos o nosso Ariano Suassuna e não sabíamos. Sentar a noite ao meio fio e fazer desenho de observação era tudo. Gouveia o Mestre dos Mestres do Desenho nos apresentando o universo em que vivíamos . “Eu amo a Guignard”. Convivíamos com todos os artistas da Fundação Clovis Salgado. Dançarinos, músicos, atores. Tomávamos cafezinho com Raul Belém, é mole!? Ter sido aluno de Sara Ávila, Julia Portes... foi uma riqueza que ninguém pode me tirar. Foram muitos professores maravilhosos que tenho receio de citar e esquecer-me de mencionar algum. Obrigado meus Mestres da Guignard.

 

QUE ARTISTAS INFLUENCIAM SUA OBRA?

 

Alguns artistas vivem e viveram muita a reflexão sobre a criação e a liberdade deste processo delicado que experimentamos. Todos os segundos de nossas vidas, quando vejo as pinturas de Cêzanne eu me emociono, me endago, penso na poética do meu trabalho e na feitura de minhas “esculturas mortas”. Elas são minhas paisagens, a natureza viva em mim. Queria muito pintar e desenhar.

A influência que tenho em meu trabalho nem sempre vem de “Artistas Visuais”, mas de artesãos, artífices, escritores. Lembro-me muito das palavras do artista mineiro Marcos Coelho Benjamim quando aqui em BH iniciavam-se as primeiras prosas com os artistas. Ele falou que vivia a Arte em tudo o que fazia, mesmo quando alimentava. Não esqueci isto, nunca em minha vida. A obra dele é muito linda, sofisticação do simples, um corte de uma espada samurai.

Penso que absorvemos tudo que é verdadeiro e poético, que o mundo ao meu redor me influencia e minha Obra demonstra isso. Campos de Carvalho, Augusto dos Anjos, Guimarães Rosa, Marcel Proust, Charles Baudelaire. Ando em busca do tempo que não perdi.

 

COMO VOCÊ ESCREVE SEU TRABALHO?

 

Meu trabalho é como um sumi-ê, é o que eu sinto e vivo, sem retoque, ele não é erro nem acerto, é Espírito Budô.

 

O MATERIAL NACIONAL PARA ARTE JÁ É DE QUALIDADE SUFICIENTE ?

 

            Sim! Todo material é de qualidade. O mundo é um bom material. Uma obra pode ser efêmera com um material considerado maravilhoso e muitas obras efêmeras se tornam maravilhosas. A contradição é muito importante.

 

É POSSÍVEL VIVER DE ARTE NO BRASIL?

 

            Acredito que é muito difícil quando não se tem um suporte familiar que te sustente até se consolidar um trabalho e ser aceito no mercado. Eu sou professor. Tenho uma vida modesta, muito modesta, mas não dependo do Mercado da Arte. Fico feliz quando alguém compra um trabalho meu. Trabalho muito para ganhar uns R$ 4 mil reais por mês.

 

QUAL SUA OPINIÃO SOBRE O MERCADO DA ARTE EM SÃO PAULO?

 

            Sei pouco sobre Mercado de Arte. Estou à margem. Deve ser difícil para todos, tudo é muito concorrido. Em um país de desigualdades sociais e absurdas desigualdades de valores tudo fica ainda mais complicado. Toda Obra de Arte tem muito valor, o Ser Humano tem muito valor! O que determina este valor? Isto dá pano pra manga...

 

NA SUA OPINIÃO, QUAL O EXATO PAPEL DO CURADOR?

 

Lembro-me com muita gratidão de uma Instituição e de algumas pessoas com esta pergunta: Instituto Cultural Itaú, Márcia Galliani, Maria Eugênia Saturni, Miguel Sebastião e Marcel Diogo.

Quando se tem um Curador ou um Grupo de Curadoria que conhece profundamente um trabalho e o artista tudo dá certo. A Curadoria irá defender e viabilizar integralmente sua ideia, sua proposta. Sempre dei sorte. Um Curador tem que ser seu parceiro mesmo se não for seu amigo, rssssss.

 

O QUE É NECESSÁRIO PARA UM ARTISTA SER REPRESENTADO POR UMA GALERIA?

 

            Existem muitos artistas talentosos aqui em BH e a maior parte não tem Galerias que os representem e, raramente, vendem suas obras. Acredito que para ambas as partes o talento determina quase tudo. Existem Galerias em BH que são bem talentosas em sobreviver representando um número pequeno e seleto de artistas.

VOCÊ ESTÁ INAUGURANDO UMA EXPOSIÇÃO AGORA NA CIDADE. QUAL SUA PERSPECTIVA?

 

            Partes destes trabalhos foram expostos na FAOP, foi super bom tudo que aconteceu lá! Mas eu queria mostrá-los aqui onde moram meus amigos. O objetivo maior sempre foi o diálogo, falar sobre o que pensei, senti nestes anos de pesquisa e produção. É fundamental compartilhar. Oferecer o que acreditamos, o que temos de melhor, dividir nossas dúvidas e anseios, trocar informações, ser parceiros de outros artistas.

 

QUAIS SÃO SEUS PLANOS PARA O FUTURO?

 

            Vou enterrar estes trabalhos que mostrei na COPASA. Ficarão 10 anos no Cerrado sofrendo transformações como meu corpo aqui na superfície. A ideia é, pacientemente, observar meu comportamento e minhas mudanças físicas deste período. Se tudo der certo vou mostrá-los novamente, vamos envelhecer.

            Estou com muita vontade de desenhar. Sinto que chegou a hora. Quero uma vida ainda mais contemplativa. Ando pesquisando sobre os ratos e seus comportamentos sociais, suas interações urbanas. É surpreendente como eles se parecem com uma parcela da nossa sociedade. Eles serão um dos temas para meus desenhos e pinturas. Farei uma escultura por mês com muita calma.







 

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Maurizio Cattelan

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