quinta-feira, 8 de maio de 2014

Conversando sobre Arte entrevista com o artista Daniel Lie



Quem é Daniel Lie? 
 Nasci e cresci na região  central de São Paulo em 1988, sou mestiço, filho de migrantes e imigrantes. Meu pai e sua família vieram da Indonésia, de Semarang, na ilha de Java por volta de 1958/59 fugindo de um regime ditatorial e minha mãe veio de Garanhuns, Pernambuco também com sua família para tentar uma vida melhor. Ambas famílias se estabeleceram na Zona Leste de São Paulo e batalharam muito para sobreviver e viver nesta cidade. Cresci próximo à região conhecida como Baixo Augusta onde haviam vários puteiros e a partir do ano de 2001 começaram a abrir clubs/baladas undergrounds que comecei a frequentar. Estudo artes desde que me lembro, me formei em Bacharelado e Licenciatura em Artes Visuais pela UNESP. Trabalho com o coletivo Voodoohop e no espaço Cultural Casa do Povo.

Como a arte entrou em sua vida?
 Arte nunca deixou de estar na minha vida, minha lembrança mais distante é quando estava na creche e um professor de arte estava fazendo algum tipo de tinta que ele precisava derreter o pigmento. Essa mudança da matéria me fascinou. A minha relação com arte vai até antes da minha vida, lá na Indonésia minha família tinha uma editora de livros e histórias em quadrinhos, minha avó paterna e meu pai era muito envolvidos no fazer artístico. Lembro também, quando criança, de pedir para meu pai fazer desenhos para mim e de ter pastas e pastas de desenhos que fazia junto com meu irmão. Minha mãe também tem um papel importante nessa memória, lembro dela fazendo rascunhos e desenhos incríveis ao falar ao telefone. A relação de arte e vida para mim nunca teve separação.

Qual foi sua formação artística?
 Meus pais sempre apoiaram muito esse meu interesse e desde os 6 anos fiz cursos de desenho. Durante a época da escola odiava todas as aulas exceto artes, aos 12 entrei em um curso de desenho na antiga Fábrica de Quadrinhos que hoje se chama Quanta Academia de Artes e estudei 4 anos lá. Por volta dos 17 anos fui morar durante um ano em uma cidade de 500 habitantes no interior dos Estados Unidos  e cursei o último ano do colegial, lá era bem legal pois podia escolher várias aulas e enchi minha grade de cursos de arte, esse período foi bem importante pois tomei a decisão de me formar em Artes Visuais. Em 2008 ingressei no Instituto de Artes da UNESP no curso de Bacharel e Licenciatura em Artes Visuais e lá foi um grande encontro. Abriu minha cabeça para experimentar, pirar e criar. O encontro com o meio foi muito empolgante era como se tivesse encontrado algo que procurava a vida toda. Além disso a orientação dos professores tanto no curso de bacharel quando de educação foi edificante. Além disso em 2010 comecei a trabalhar como assistente da artista Leda Catunda e trabalho até os dias atuais, a Leda é extremamente generosa e para mim nossa relação é de aprendiz e mestre, sou muito grato. Neste mesmo ano ingressei no coletivo que realiza festas e eventos artísticos, a  Voodoohop, lá conheci os artistas mais incríveis e senti que com a Voodoo meu trabalho tomou força. Me graduei em Bacharelado em Artes Visuais em 2011 e em Licenciatura em Artes Visuais em 2013.

Que artistas influenciam em sua obra?
 Os artistas que senti que mais influenciaram minha vida são as pessoas que pude ter uma relação pessoal. Eles e elas ajudaram e ajudam a compreender o que é ser artista o que é arte.  Isso desde o curso de desenho como o professor Octavio Cariello até artistas que foram meus professores na graduação e alguns que trabalhei junto como o Alcindo Moreira Filho, Sergio Romagnolo, José Spaniol, Leda Catunda, Mônica Nador. Amigos também foram cruciais, meus amigos da UNESP, amigos do meio que conheci como a Paula Borghi, o Bruno Baptistelli, Márcia Beatriz Graneiro, Alessandra Falbo e os amigos da Voodoohop como Kaloan Meenochite, Pilantropov Pausanias, Volatille Ferreira,  Thomas Haferlach, Marina Sarno, Laurence Trille, a dupla Jardim Elétrico e minha esposa Aline Tima. Na esfera de influência de artista que estudei e piro são Marina Abramovic, Ai Wei Wei, Hélio Oiticica, James Turrel, Anish Kapoor, Tunga, Joseph Beuys, Olafur Elliason, Matthew Barney e a Geração 80 brasileira. Também considero uma das ideologias do movimento punk muito influenciadora -  Faça você mesmo.


Como você descreve seu trabalho?
 Tive toda minha formação de base no desenho. Na conclusão do bacharelado encerrei um processo de quatro anos de um desenho abstrato que tinha como base mandalas, repetição mantra e transes intitulado “ Âmago”. Com essa conclusão senti que precisava tomar outros rumos e experimentar de outras maneiras então  me dediquei muita a Voodoohop e comecei a desenvolver instalações, performances, cenografias.
Hoje desenvolvo meu trabalho na forma de instalações e objetos. A temática desses gira em torno do tempo e da relação entre vida e morte. Tenho interesse também nas misturas e na translado de limites, assim como a pintura e o desenho são interligados penso a performance e a instalação. Então nas instalações que desenvolvo elementos da performance são a base, como a efemeridade, a presença, o tempo. Com isso utilizo matérias que clássifico em 3 tempos, o primeiro, o tempo orgânico, nas obras plantas e frutas são dispostas recém colhidas e permanecem em exibição até apodrecer ou morrer. O segundo tempo, o tempo prolongado dos elementos orgânicos, utilizo pedras, minerais e cristais, todos objetos “sem vida” mas que  resultam de uma reação química orgânica e que para serem constituídos precisaram em alguns casos milhares de anos. O terceiro tempo, das coisas criadas pelo homem que não perecem, como cordas de plástico e fios nylon, objetos que possuem grande força de resistência e são imperecíveis e que utilizo como estrutura das instalações. A minha produção começou a ter um sentindo maior para mim quando comecei a misturar com minhas histórias pessoais, dos objetos que desenvolvo (os O.P.Ps - Objetos Para Pescoço/Parede/Pessoas), também penso na transição de meios e de suporte como a performance e a escultura, como o corpo e o espaço como suporte.  Também agrego esse valor de histórias pessoais quando alguém me pede ou me encomenda uma obra,  peço emprestado um objeto pessoal desta pessoa, um suvenir e desenvolvo a obra a partir desta.


É possível viver de arte no Brasil?
 Essa foi a pergunta que sempre me fiz desde o momento que decidi cursar Artes Visuais e ainda busco a resposta. Antes de ver profissionalmente o meio, achava que só era possível ser artista no Brasil se você provinha de uma família de classe alta. Infelizmente as vezes ainda tenho essa impressão e luto para estar errado. Felizmente tenho vivido de arte desde o início da graduação. Para mim, ter que pagar as contas com arte é algo bastante árduo e vejo nosso meio ainda longe de uma estrutura de qualidade para o desenvolvimento profissional. Então para que o fazer se torne um financiamento é necessário desdobrar a palavra Arte em todas suas camadas  e em várias frentes profissionais, no meu caso como produtor cultural, cenógrafo, diretor de arte, por meio da pesquisas acadêmicas,  professor, assistente de artistas e produtor de um espaço cultural. Por um lado esse conhecimento de todas as partes que constituem o meio é importante como uma forma de entender o sistema, por outro, o tempo que isso consome para que eu possa desenvolver a principal ocupação que almejo, a de criador e produtor de arte  é reduzido. Mas tento ver tudo como uma coisa só, o Artista Etc como diz o Ricardo Basbaum.



O que você pensa sobre os salões de arte? Alguma sugestão para aprimorá-los?
 Nunca gostei de salões, pois via e as vezes ainda os vejo como a permissão e aprovação do outro para que meu trabalho aconteça. Porém, por outro lado, vejo como algo indissociável da estrutura profissional do artista no nosso meio. Ao ver outras áreas de criação acho que os salões são importantes pois eles auxiliam na inserção no meio profissional, pensando que outras áreas, como a Moda, que não possuem esse tipo de financiamento.
Acho que ainda há muito a ser aprimorado. Se pensarmos os salões como a principal porta de entrada profissional dos artista algumas coisas precisam ser extintas e repensadas. A minha crítica principal são os salões que concentram boa parte de sua verba em prêmios  para poucos. Como salões que selecionam em média 20 artistas e desses elegem 3 para receber prêmio. Por que esse prêmio não é divido de forma igual a todos? Uma vez que esses tiveram que arcar com os custos para que seu trabalho estivesse lá?
 Além disso sou contra salões que não oferecem nenhum tipo de financiamento para que o trabalho de arte aconteça. Como salões que o artista tem que ter todos os gastos de envio de obra e montagem, além desse já ter arcado financeiramente com o desenvolvimento da sua pesquisa e realização da obra. Esse editais, que ao meu ver nada colaboram com o desenvolvimento profissional de qualidade do meio me recuso a participar e faço questão de boicotá-los.
 Uma aprimoração que está acontecendo e espero que seja integrada em todos os editais é a possibilidade de inscrição online, pois possibilita uma maior participação, uma vez que não há o custo de impressão de portfolio e envio por correio. Acho que seria interessante também que os critérios de seleção forem transparentes.


 O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria?
 Atualmente tenho pensado no caminho oposto, como um artista pode se estruturar e ter visibilidade sem uma galeria? Tenho a impressão de limitação  nas possibilidades de viabilização profissional no  nosso meio quando vejo  a estrutura salão-galeria e acredito em alternativas como os espaços autônomos de arte para a existência e subsistência de arte.


Qual a importância da Residência Red Bull Station, para a qual você foi selecionado?
 Para mim ter sido aceito nesta residência tem muita importância, a primeira por possibilitar uma imersão na pesquisa e criação e essa possibilidade vem com a estrutura: ateliê, financiamento das obras, pró-labore, acompanhamento crítico, espaço expositivo e visibilidade do trabalho. A segunda é a importância do grupo, para mim pensar arte é algo que toma potencia no grupo/com o outro, das minhas experiências passadas como a Universidade, o programa Experiência do Itaú cultural e a Voodoohop, a grupo foi crucial para entender e fazer arte. Além disso, a Red Bull contemplou em edições passadas jovens artistas que tiveram destaque após o período de residência, então vejo essa oportunidade como um grande incentivo para minha carreira.


As outras Residências Artísticas frequentadas por você de que maneira influenciaram sua trajetória?
 Participei da residência da Serrinha, da segunda edição do programa Experiência do Itaú Cultural, da residência 6B em Saint Denis na França com a Voodoohop e viajei por meses com o coletivo. O maior valor que pude agregar nesses períodos foi a troca com outros artistas, isso ajudou a ampliar meus horizontes e reverberou de forma intensa na minha produção.



Daniel, de que maneira as suas obras são patrocinados?
 Muitas delas saem do meu bolso. Que hoje, é o limite de onde financio meu trabalho. Como a pergunta como viver de arte no Brasil me persegue há anos, também sempre estou em busca de respostas. Se não tivesse entrado na universidade pública dificilmente teria feito faculdade. A Voodoohop também tenho muito a agradecer pois lá tive e tenho possibilidade de realizar minhas instalações, performances e propostas e ser financiado para isso. Além disso sou muito grato à Casa do Povo pois lá é um espaço que vejo a possibilidade de realizar projetos e experimentação.


Quais são seus planos para o futuro? Algo no Rio de Janeiro?
 Meu plano para o futuro é me dedicar cada vez mais para minha produção e para produção cultural. Hoje trabalho na Casa do Povo, espaço cultural que existe desde 1953 e está em faze de retomada institucional, estou fazendo parte da equipe e tenho meu ateliê neste espaço. É um local que reúne diversas frentes de arte como teatro, performance, dança, artes visuais, música e ensino. Tenho bastante confiança e  esperança no desenvolvimento de lá. Então para o futuro espero desenvolver e fazer parte de projetos para lá, continuar participando de iniciativas com a Voodoohop e me dedicar  a minha produção. Como artista meu plano é estar envolvido em coisas que fazem a minha existência e a do outro valer a pena.
 No momento não possuo nenhum projeto ou plano no Rio de Janeiro.



Aqui entre nós, Instalação Pedra, fio de nylon e árvore.

 
Coração Perecível, 2014. Instalação. Planta (Cascata), Cristal de quartzo e cordas. Obra realizada no centro de São Paulo na encruzilhada das ruas São Bento e Miguel Couto. Exposta no evento SP na Rua.

 


Da especulação do valor do coco, 2013. Instalação realizada no edifício Planalto, no centro de São Paulo. Escada de madeira, lona plastica, fio de nylon, bandeira do brasil de plástico e cocos verdes.


Hierarquia Tropical, 2013 Coco verde, lona plástica, fita hellermann. Instalação realizada na cobertura do Edifício Planalto.




 
Um fruto que ao flutuar apodrece, um flutuar que ao apodrecer enfrutece, 2014. Instalação. Cordas, árvore, plantas de plástico, sementes, pedras, cristais, quartzos, macacão de segurança, lona plástico, bandeira do brasil de plástico, nylon. Instalação realizada no espaço cutural Casa do Povo.
Aqui entre nós, Instalação Pedra, fio de nylon e árvore.




E não desisto nunca, 2013 Bananeira, coração de bananeira, fio de nylon, pregos e tempo. A instalação tem o tempo como um dos principais elementos, assim a bananeira que foi colocada ainda verde, recém colhida, permaneceu no espaço até apodrecer . O período total da instalação foi de oito semanas. Instalação realizada na Casa do Povo, no bairro do Bom Retiro/ SP.





Âmago, 2011. Exposição individual com desenhos e gravuras em metal realizados entre 2008 a 2011. Instituto de Artes da UNESP, Barra Funda, São Paulo.

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Daniel Lie 
Currículo
31/05/88 – São Paulo/SP
 
liedaniel.art@gmail.com  www.cargocollective.com/liedaniel
Artista Visual, indonésio-pernambucano, vive e trabalha em São Paulo. Formado em 
bacharel em Artes Visuais pela UNESP em 2011, tem como principais exposições a
“nós-moçada #1” e “nós moçada #2,“Neo-Tropicalism” na Inglaterra e sua exposição 
individual “Âmago”. Participou do programa Experiência do Itaú Cultural, as 
residências artísticas na Fazenda da Serrinha e Le 6B na França. Além disso é artista 
participante do coletivo Voodoohop e integra a equipe da Casa do Povo.
Exposição Individual
2011 – “Âmago”, Instituto de Artes da UNESP, São Paulo/SP
Exposições Coletivas 
2013 -  ”Feira Parte” -  stand da galeria 103– Paço das Artes. São Paulo/SP
“Projecto Múltiplo” – Centro Cultural São Paulo, São Paulo/SP.
2012  -“30º Bienal de São Paulo – Encerramento/ Voodoohop”, São Paul/SP.
“Lote”, Instituto de Artes da UNESP. São Paulo/SP.
“Laço”, Paço das Artes, São Paulo/SP. 
“Para todos”, Liceu de Artes e Oficio, São Paulo/SP.
“Fabrique à Rêves, Le 6B, Saint Dennis, França
“NEO-TROPICALISM: Brazilian art in constant mutation”, Espaço Camp and 
Furnace, Liverpool/ Inglaterra.
“Nova Contemporary Culture Festival”, Casa das Caldeiras/MIS-Museu da 
Imagem e Som, São Paulo/SP.
“nós-moçada – TAZTU”, Centro Cultural São Paulo, São Paulo/SP
“nós-moçada #2”, Ateliê Veredas, São Paulo/SP.
“nós-moçada #1”, Casa Contemporânea, São Paulo/SP.
2011  - “GIRA”, Peras Del Olmo, Buenos Aires, Argentina.
“]ENTRE[“, Galeria do Instituto de Artes da UNESP, São Paulo/SP.
"Mônica Nador com autoria compartilhada“, Pavilhão das Culturas Brasileiras, 
São Paulo/SP. 
“Operaçión Pegada”, Valpara

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