quarta-feira, 21 de maio de 2014

Carolina Ponte Só o Excesso Luciana Caravelo Arte Contemporânea.




Dispêndio glorioso

A exposição "Só o excesso", de Carolina Ponte, reúne produções em desenhos e objetos, onde a artista se destina a mostrar o excesso, a sobra, o que emoldura vazios. Assim, Carolina nos exibe partes de arquitetura, como frisos, ornamentos que, em teoria, deveriam circunscrever conteúdos. Com este gesto, Ponte ativa uma dualidade, uma ambivalência em nos colocar ante ao que não teria protagonismo, anulando uma possível parte principal.

A produção de Carolina Ponte se dedica, justamente, à observação dos ornamentos, do gesto excessivo, do “gasto improdutivo”, nos termos de Bataille. Ao produzir objetos em crochê e desenhos multicoloridos, a artista nos faz espectadores de imagens originalmente ligadas à decoração de templos. Por outro lado, também, vinculadas a ritos profanos, momentos em que temos contato com o gasto improdutivo: enfeites, fantasias para consumações catárticas. O trabalho da artista se aproxima de uma espetacularização da forma. Orna para nada. Perdendo o núcleo, frisos e molduras são, em si, assunto principal, janelas cegas. Carolina apaga, anula as informações, e nem por isso atentamos para a falta, mas, antes, para a vontade humana de se dedicar ao excesso.

Georges Bataille lança o conceito-chave para estas discussões quando, em 1933, tratou do dispêndio, do “gasto improdutivo”. Bataille nos explica que “há uma pressão permanente provinda de um excesso que perturba os organismos vivos, havendo, então, a exigência do desperdício, do gasto ou da descarga.” Ou seja, a moldura, as ordens decorativas, o enfeite art nouveau são, sob esta perspectiva, uma exigência do desperdício. E tal exuberância só pode pretender o vazio, o lugar do sentido, para sempre velado. É este o jogo que o trabalho da artista nos indica.

A arquitetura funcionalista moderna tinha horror ao ornamento em oposição ao horror vacui (horror ao vazio), do período Vitoriano. Sabemos que o uso excessivo de imagens e elementos ornamentais teve grande influência das culturas não-ocidentais, ativadas pelo primitivismo que se anunciava em fins do século XIX.

Os trabalhos de Carolina Ponte nos situam nesta ambivalência, fornecem ornamentos, cores, volutas, detalhamentos excessivos para o vazio. Neste sentido, criam o que Bataille chamava de fenômeno cósmico. Sim, explosões, espirais, poeiras de estrelas geram condições para que percebamos o infinito, como no cosmos.

Esbanja-se, destrói-se, perde-se, estas são conjugações de verbos para a construção da arte. Obviamente que ao tratarmos da perda, pensamos numa sociedade justificada entre o trabalho e a fabricação capitalistas, desfazendo-se da artesania, em favor da produção industrial. Ser perdulário, assim, é um gesto de inconsequência, de certa barbárie para os usos da civilização.

A arte ganha esta tarefa inglória, produzir para nada, criar o “gasto improdutivo”. E, culturalmente, ligar-se ao excesso, só ao excesso. Mas a vida não cabe em si. Nada se atém aos seus limites, o jogo, o sexo, os espetáculos. Damos, cotidianamente, sentido ao excesso, ou melhor, compartilhamos os excessos, o alimento, as vestimentas, os rituais. Buscamos o lirismo, a junção dos sentimentos. É difícil conter o lirismo. Impossível separar o desejo.

Carolina Ponte, em seus trabalhos, cria gestos para o excesso, linhas demais, cores demais, amplos pedaços de crochê. Aproxima-se, com isso, da poesia de Manuel Bandeira que se declarava farto do “lirismo comedido”, daquele lirismo “bem comportado”, “com livro de ponto, expediente, protocolo e manifestações de apreço ao Sr. diretor.” Bandeira proclamava, antes, o lirismo dos loucos, dos bêbados.

Aqui, não devemos perguntar à artista, para quê? Para quem? Não queremos “saber do lirismo que não é libertação.”
Marcelo Campos
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Glorious Profligacy

Carolina Ponte’s exhibition, "Only Excess" brings together drawings and objects, in which the artist aims to demonstrate excess, surplus, that which frames empty spaces. Ponte therefore does not exhibit architectural parts, such as friezes or ornaments, which should, in theory, circumscribe content. With this gesture, she activates a duality, an ambivalence, confronting us with something that has no protagonist, erasing a possibly principal portion.

Carolina Ponte’s work is devoted precisely to the observation of ornaments, excessive gestures, “unproductive expense”, as Bataille terms it. Producing crocheted objects and multicolored drawings, the artist turns us into viewers of images originally connected with the decoration of temples. On the other hand, these are also connected with profane rites, occasions on which we come into contact with unproductive expense: frills, fancy-dress for cathartic consummations. The artist’s work is practically a spectacularization of form, ornate for no reason. Shorn of their nucleus, friezes and frames are, in themselves, the principal subject matter, windows blind to the world. Ponte expunges, erases information; yet this does not make us notice what is missing, but rather the human desire to dedicate oneself to excess.

Georges Bataille first developed the key concept for these discussions, when, in 1933, he wrote of profligacy, “unproductive expense”. As this scholar puts it “there is permanent pressure from an excess that perturbs living organisms and there is therefore a demand for waste, expense or discharge.” The frame, decorative features,
art nouveau frills are, from this perspective, a demand for wastefulness. And such exuberance can only aim for the void, the locus of meaning, which is always veiled. This is the interplay that the artist’s work points to.

Modern functionalist architecture abhors not a vacuum but the ornamentation of the Victorian era. We know that the excessive use of images and ornamental features had a great influence in non-Western cultures, drawn on by primitivists of the late 19th century.

Carolina Ponte’s work places us within this ambivalence, provides ornaments, colors, fluting, and excessive detail for the void. She thus creates what Bataille called a cosmic phenomenon: explosions, spirals, stardust generate conditions in which we can perceive the infinite, as in the cosmos.

It is frittered away, it is destroyed; it is lost: these are the conjugations of verbs for the creation of art. Clearly, when we address loss, we think of a society justified between capitalist labor and manufacturing, rolling back craftsmanship in favor of industrial production. Being a spendthrift is thus an inconsequential gesture, somewhat too barbarous for civilized use.

This inglorious task has fallen to the artist: producing for nothing, creating “unproductive expense”; in cultural terms, connecting with excess, only excess. But life is too big for itself. Nothing is restrained by its boundaries: play, sex, spectacle. On a daily basis, we confer meaning on excess, or rather, share excesses, food, rituals, couture. We crave lyricism, the union of feelings. It is hard to containn lyricism. It is impossible to separate out desire.

In her work, Carolina Ponte creates gestures of excess, too many lines, too many colors, extensive crocheting. In this it resembles the poetry of Manuel Bandeira, which declared itself to abound in “reserved lyricism”, the “well-behaved kind of lyricism”, “that clocks in and out, has fixed working hours, protocols and compliments the managing director.” Previously, Bandeira advocated a lyricism of madmen and drunkards.

It would be wrong here to ask the artist what or who it is for. We do not want to “hear anything about a lyricism that provides no liberation.”
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Tel: (21) 2523.4696 l contato@lucianacaravello.com.br
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Maurizio Cattelan

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