terça-feira, 15 de abril de 2014

Conversando sobre Arte entrevistado Evandro Machado






Quem é Evandro Machado?
Nasci em Blumenau, Santa Catarina em 1973, mas morei em Florianópolis desde 2 anos de idade. Tive uma vivência no interior do Mato Grosso, entre 1984 a 1986, morando em fazendas e garimpos, e em 2007 vim para o Rio de Janeiro onde vivo e trabalho.

Como a arte entrou em sua vida?
A arte sempre esteve na minha vida através de desenhos, e com 16 anos, iniciei no jornal Diário Catarinense como ilustrador-cartunista profissional. Depois de frequentar o curso de Oceanografia em Itajaí, desenvolvi materiais de educação ambiental com os desenhos, em jornais, e campanhas  junto da Universidade, UNIVALI. Sempre tive a sensação de que em algum momento da vida, eu deveria viajar, para estudar arte e buscar novos horizontes para meus trabalhos. Em 2006 fiz uma primeira viagem para Londres com o grupo organizado por Charles Watson, onde tive o impulso de me transferir em 2007 para o Rio de Janeiro, e iniciei minha trajetória de estudos e trabalhos.

Qual foi sua formação artística?
Depois de participar do Dynamic Enconters em 2006, viajei nos anos seguintes para vários países da Europa e América do Norte visitando exposições, museus, galerias e ateliês. Participei de grupos de estudos no Ateliê Mundo Novo e no Capacete. Em São Paulo, Ateliê Aberto com Jailton Moreira, também fiz vários cursos no Parque Lage, com Fernando Cocchiarale, Anna Bella Geiger, Franz Manatta, Luiz Ernesto, Glória Ferreira, Lívia Flores, Chico Cunha, Bob N, Márcio Botner e outros. Fiz parte do Programa Aprofundamento em 2010, e Acompanhamento de Pesquisa em 2013.

Que artistas influenciam em sua obra?
Tenho trabalhado com desenhos, pinturas, filmes e fotografia. Os artistas que mais me influenciam são, Gerhard Richter, Franz Arckermann, William Kentridge, Quay Brothers, Jan Svankmajer. No Brasil, Luiz Zerbini, Cao Guimarães e Dora Longo Bahia.

Qual foi a importância da Curso de Aperfeiçoamento da EAV do Parque Lage?
Acredito que a EAV Parque Lage é um lugar ímpar no Brasil para a formação de artistas e teóricos da arte, pois sem qualquer pré-requisito acadêmico, aceita e informa pessoas de diferentes formações, origens e experiências, com discuções, práticas, teóricas e promovendo debates com importantes figuras do cenário atual da arte, no Brasil e no exterior. Foi fundamental para minha vida artística ao sair do sul do Brasil, ter um local para estudar e conhecer as múltiplas visões dos professores e alunos, e criar relações de comparação entre conceitos e algumas das mais atuantes personalidades da arte.

Ao trabalhar com fotografia, quando você é fotógrafo e quando você é artista?
Eu realmente não vejo esta distinção de postura entre fotografar e ser artista. Tenho exemplos de filmes meus que são gerados através de acúmulo, que durante a captura por fotografias ou filmagens, não é previamente definido quando ou como vou utilizar estas imagens. Algumas são usadas com lapsos de 5, 6 anos entre a captura e a edição. Construo um grande banco de imagens, e com o tempo, algumas imagens são resgatadas e alimentam os trabalhos. A intuição é para mim a principal ferramenta de descobertas e evolução. Busco acima de tudo, manter a mente capaz de se influenciar, por quaisquer tipos de fontes... Alguns filmes são realizados onde a última cena é a única referência que aceito para seguir uma narrativa, e a lógica e a sequência é estabelecida no processo de forma livre e até para mim, imprevisível. Vivo trabalhando e trabalho vivendo. Meu leme é a minha vontade de me desafiar e de tentar me surpreender com os meus resultados. Já aconteceu de um sonho noturno ser a minha proposta de trabalho.

Como você descreve seu trabalho?
Meu trabalho inclui diferentes meios de expressão, e como cada meio exige atitudes e materiais diferentes, minha produção reflete estas diferenças. Acredito no acúmulo e na repetição como estratégias de formação de sentido, capazes de absorver o imprevisível e os acontecimentos inesperados. Faço pinturas com tinta acrílica e óleo, buscando em cada uma, as suas diferentes características plásticas... as vezes na mesma série. Gosto de tentar eliminar limites entre o que parece antagônico. Como exemplo, numa das minhas obras (12 Brasílias), faço um esforço improvável de aproximação entre a estagnação da imagem pintada em tela e a dinâmica de movimentos das animações em vídeo. Princípios que dificilmente se associam sem controvérsia, e que representam para mim um bom desafio. Artistas na minha visão, procuram perguntas... mais do que respostas. Admiro a poética de respostas que não passam de novas perguntas. Ideas são mais fortes e pertinentes do que qualquer tipo de materialidade. A diversidade é para mim, valor em sí, e qualquer tipo de atitude que se transforme em regra, deve ser transgredida. Mesmo que estas novas atitudes estejam destinadas a fracassar. Em certa oportunidade, fui citado por um professor por ter a coragem de romper com uma linha de produção em pintura, e isso me fez entender que qualquer medo de mudar tem como base, a espectativa de concordar com o outro, que tenta sempre nos entender, ao ponto de se sentir seguro consigo mesmo. Não pretendo promover segurança no outro, e sim ideias poéticas e transgressoras, até para mim.

O material nacional para arte já é de qualidade suficiente?
Longe disso, afinal o que tem de mais instigante em termos materiais no nosso mercado, geralmente é importado. Tintas, grafites, papéis e uma infinidade de materiais que temos que evoluir industrialmente para possuir, já são disponíveis na Europa e nos Estados Unidos. Como na educação, a arte no Brasil é um assunto de minorias, que se viram como podem para romper as nossas precariedades... Lembro de uma visita a uma loja de materiais na Alemanha, onde entendi que algumas pesquisas na pintura alemã, tinham sido criadas como base, levando em conta uma certa abundância material. Exatamente contrária da nossa condição de escassez material. Não discuto a potência poética da precariedade, mas acho ruim quando ela se sobrepõe as ideias e deixa de ser uma escolha.

É possível viver de arte no Brasil?
Acredito que sim. Afinal temos bons exemplos nacionais de sucesso, financeiramente e poéticamente. Mas como todos os ofícios, alguns poucos, parecem despontar com mais competência. Numa visão mais ampla, os dias de hoje, me parecem mais promissores do que ontem. Sobreviver é parte de nossa cultura histórica humana, já viver com certa autonomia, financeira e mental, depende de fatores que são alheios a decisão de ser um artista, ou um pedreiro, ou médico, ou advogado... Um dia achei que ser artista seria uma opção na minha vida, e o que me surpreendeu, foi uma pergunta de uma amiga artista... (Elisa Castro) - Você acha realmente que você tem outra opção? E com esta pergunta, percebi que tudo que eu tinha feito até então era para chegar nesta decisão, tudo me levou a isto... Não existe plano "B" no meu caso. É uma riqueza reconhecer o que você é...

O que você pensa sobre os salões de arte? Alguma sugestão para aprimorá-los.?
Tenho certa resistência aos salões. Não acho justo, julgar através de um pequeno recorte, um trabalho, uma atitude... Apesar de saber que é tradicionalmente por recortes que montamos o mundo que conhecemos. Isso me faz pensar que devo desenvolver a aptidão de recortar minha produção, para saber apresentar de forma mais burocrática e inteligível meus trabalhos. Não creio que o processo seletivo de salões possa achar uma saída para esta condição. Afinal constroem-se carreiras baseados em testes e resultados de múltiplas escolhas, e nada disso soa estranho... Arte é ideia, processo subjetivo de construção de sentido. Acredito na continuidade das coisas assim mesmo, ou seja, produzimos injustiças na tentativa de sermos justos. Vivemos nesta contradição as dificuldades, as limitações da condição humana. Competição é a nossa certeza, e a estratégia mais óbvia... Penso que prêmios, podem ser mais justos, pois tendem a enxergar a carreira de um artista como um todo.


Na sua opinião, qual o exato papel do curador?
O Curador para mim é a figura que gera sentido incluindo artistas a uma mesma construção poética. Isso coloca estes profissionais na condição de editores, capazes de conectar diferentes atitudes artísticas e, ou defender artistas, sobre uma mesma construção.

Quais são seus planos para o futuro?
Continuar a produzir obras dentro daquilo que julgo relevante para minhas pesquisas e desenvolver a relação com o contexto da arte, no sentido de agir com coragem e profundidade poética.



Água Benta, 2014.


São Paulo, 2011.


Série Catedrais. MAM, 2010. Acrílica sobre tela. 200x100 cm.


Stll de vídeo O Termo, 2013.


Still de vídeo Desmaterial, 2011.



Série Catedral Pavilhão da Bienal, 2014. Acrílica sobre tela. 200x100 cm.


Série Mato Grosso. Autorretrato, 2012. Óleo sobre tela. 200x100 cm.


Série Mato Grosso. Autorretrato. 12 Brasílias, 2010.


Série Perspectiva. Air  Port, 2010. Acrílica sobre tela. 400x200 cm.


Para ver os filmes:

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Maurizio Cattelan

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