terça-feira, 22 de abril de 2014

Conversando sobre Arte entrevistada Mariana Felix.




Quem é Mariana Felix?
Nasci em Beirute, Líbano,em 1972 de pais brasileiros a serviço do Brasil. Cresci no bairro de Laranjeiras e com 14 anos fui morar em Chicago. os 18 voltei a morar no Rio para cursar arquitetura. Comecei a frequentar o Parque Lage por não ter afinidade com cálculo. Passei da arquitetura para o design, onde obtive meu diploma universitário. Trabalhei na EMI Music como designer até ganhar uma bolsa de estudos para cursar a École National de Beaux Arts em Paris. Voltei ao Brasil e trabalhei como free lancer até 2OO2, quando me instalei na França, onde resido atualmente.
Quem eu sou?  Respondo com Simone de Beauvoir "que nada me defina, que nada me sujeite". Eis, a liberdade. 

Como a arte entrou em sua vida? 
Com os meus pais, ambos poetas.  Talvez eu tenha nascido destinada para isso sem contar com o ambiente familiar, ou quem sabe o fato de brincar sozinha na minha pequena infância, filha caçula de quatro irmãos mais velhos. 

Qual foi sua formação artística?
Comecei ainda adolescente desenhando no Art Institute de Chicago. Depois cursei dois anos de arquitetura, e  em seguida design, mas foi na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, como aluna de Molica, Milton Machado, João Magalhães, Katie van Scherpenberg, Charles Watson e Nelson Leirner, que me conscientizei  ser este  meu caminho, embora tenha sempre perseguido essa trilha.

Que artistas influenciam em sua obra?
Há muitos que eu adoro, uns que me influenciam, outros não. Prefiro não citar nomes, pois certamente estaria esquecendo outros importantes. Cada época tem seu encanto, expresso por indivíduos, movimentos ou artistas anônimos.  Prefiro a arte que me toca emocionalmente.  Às vezes pode ser o único trabalho de um artista desconhecido, ou todos de Giotto.

Como você descreve seu trabalho?
Podemos pensar em fazendeiros e viajantes...o fazendeiro se atém à terra, a um ponto fixo,  a experiência do tempo nutrindo seu profundo conhecimento de sua fazenda e de seu gado. No meu caso, me vejo como viajante, concentrada somente na ideia de inventar coisas...No Parque Lage, desenhava e pintava formas figurativas. Quando virei designer, trabalhei com meios digitais. Quando tive minha filha, voltei a pintar paisagens coloridas e abstratas, tal um bebê, ainda sem personalidade definida. Morando na França a invenção desencadeou-se na criação culinária. Daí as mãos  passaram da massa à argila, às cerâmicas em vez do pão. Gosto mesmo é desta liberdade...mês que vem vou dirigir meu primeiro clipe de música!

É possível viver de arte no Brasil ou na França?
Sim é possível, mas confortavelmente bem não é para muitos. Na França podemos ter um salário, tipo bolsa família que vai dar o bastante para não se passar fome ou frio. Mas não devemos esquecer que a saúde e o ensino público são gratuitos, além de ajuda para o aluguel. Os artistas conseguem até ajuda para pagar seus ateliers. Não sei até que ponto este tipo de segurança  pode inibir a criatividade, não só nas artes, mas em qualquer tipo de projeto ou sonho.
Sempre me orgulhei da maneira com que os brasileiros são criativos para ganhar um dinheirinho de algum lugar.  Sim, muitos não pagam impostos, mas nutrem a família, e não vivem como parasitas de um sistema que só visa enriquecer as grande corporações, E nossos impostos? Boa pergunta...estão majoritariamente servindo para alimentar esta máquina de corrupção, velha de 500 anos, e ainda em vigor.
Pessoalmente, dou aula de arte para crianças, preparo jantares como chefe de cozinha e procuro trabalhos que possam pagar meu pão nosso de cada dia, mas que me garantam liberdade para criar. Não vivo como assistida da sociedade, mas procuro ser econômica no meu dia a dia e, felizmente, posso contar com a ajuda da família, caso haja alguma eventualidade, o que gera certa paz de espírito.

Que diferenças você aponta entre a arte contemporânea no Brasil e na Europa?Nós estamos todos no mesmo barco, é muito novo! Com o avanço dos meios de comunicação, surge uma certa banalização, o que é uma pena! Era mais rico e diverso quando não nos comunicávamos com tanta rapidez. Contudo, não temos nada a fazer senão aceitar esta condição e evoluirmos dentro dela. Não há marcha ré.

A mulher e o homem já estão em igualdade de condições no mercado de arte? Mulher e homens não são iguais de forma alguma, são complementares. Sabemos que os homens são mais numerosos no mercado, na história da arte e ganham mais. No entanto, na maioria das vezes, os homens nunca deixariam de ir trabalhar para cuidar de um filho doente, isso parece ser a função da mulher, portanto, eles tem mais tempo para investir em suas ambições. Muitas mulheres se sentem divididas, e claro, que outras não. 

Na sua opinião, qual o exato papel do curador?
Acho que o de organizar um pouco a loucura dos artistas..rsrsrsr . Eles tentam fazer algo legível para os espectadores. Penso que é isso...mas um curador deve poder responder melhor. Eu só quero fazer arte.

O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria?
  Sorte, e principalmente, perseverança. Infelizmente não é apenas a qualidade dos trabalhos, tem muito artista bom sem galeria, e muitos pseudo-artistas espertos com galeria.

Você está inaugurando uma exposição na Mercedes Viegas,RJ qual a sua expectativa?
 Que minhas obras possam falar em silêncio...que as pessoas possam abrir os ouvidos para escutá-las.


Quais são seus planos para o futuro?
  Tenho uma lista de grandes e pequenas utopias. Que vão desde eu ser presidente, desativar as usinas nucleares de Angra, passando por questionamentos da atual forma de democracia , intercâmbio das UPPs do Rio em centro de educação lúdica  para jovens e crianças, sem esquecer do projeto de transformar prisioneiros em jardineiros de produtos orgânicos, até a simplicidade de dar aulas de culinária e cerâmica. Adoro sonhar acordada, gostaria de poder continuar sonhando.


 Geléia, 2012. Terra cotta.



 Lazer, 2013. Terra cotta.

 Alpha, 2013. Terra cotta e esmalte.


Titus, 2014. Terra cotta, carborandite e madeira.





Atualmente Mariana Felix participa de exposição na Mercedes Viegas Arte Contemporânea, RJ.

 

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Maurizio Cattelan

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