terça-feira, 25 de março de 2014

Mise en Scène de Eloá Carvalho com curadoria e texto de Ivar Reinaldin





Mise en Scène

O termo que dá título à exposição de Eloá Carvalho, se traduzido de modo literal, significa “colocado em cena”, e seu uso, ao migrar do teatro para o cinema, marca a crescente valorização da figura do diretor como aquele que organiza e controla a construção dramatúrgica do filme em todos os seus detalhes. Não que a artista tenha desenvolvido aqui um diálogo direto com o cinema – mesmo que alguns de seus trabalhos anteriores apresentem tais referências. O que fez foi assumir uma operatividade que em si pode ser aproximada da prática do “metteur en scène”.

Assim, o termo torna-se indício de como o olhar autoral da artista reconfigura e contextualiza personagens de diferentes características, feições e procedências históricas num espaço cênico comum, seja ele o da superfície do papel ou pintura ou mesmo o da Galeria de Arte do Ibeu. Sinaliza o arranjamento dos corpos e das coisas através de tais espaços, como também a dimensão mais ampla da encenação presente nesses elementos. Suas personagens encenam seus papéis: aqueles que acreditam desempenhar e aqueles que a artista as põe a representar.


O projeto aqui exposto teve início com uma extensa pesquisa no acervo iconográfico do Ibeu. Nesse arquivo, a artista selecionou suas personagens entre os registros fotográficos das diversas aberturas de exposição promovidas pelo Instituto, dos anos 1950 aos nossos dias. Em seguida, tais figuras foram desenhadas e recombinadas em novos conjuntos, encontrando-se parte desses desenhos acessíveis nesta mostra. Alguns deles, no entanto, continuaram a ser trabalhados por meio da pintura e, dispostos em novos contextos, ganharam maior densidade e corporeidade.

Vistas em conjunto, as imagens contidas nesses desenhos e pinturas representam um evento construído por camadas de tempo superpostas. Por um instante, todas essas personagens coexistem, mantêm-se presentes nesse espaço que habitaram em algum momento no passado. Instalados na Galeria do Ibeu, os trabalhos de Eloá Carvalho prolongam suas dimensões e nos convidam, como espectadores, a compartilhar do estado imersivo de suas figuras. Mas é preciso não nos deixar inebriar pela aparente naturalidade das poses. Na cena, nada é espontâneo.
 
                                                                                                                                          4 apontamentos sobre Mis en Scène
 
                                                                                                                                                                    Por Ivair Reinaldin
 
1 Em L'année dernière à Marienbad (1961), Alain Renais e Alain Robbe-Grillet reforçam a construção da narrativa fílmica através da sobreposição de diferentes camadas de tempo., apresentando-nos um presente mediado por aquilo que se constituía a memória possível de um encontro passado. Desse modo, o presente em Marienbad era percebido não apenas como algo em si, mas por meio da inflexão entre um fato, que poderia ou não ter ocorrido, e a expectativa futura, o desejo de algo que pudesse ou não vir a acontecer, tornar-se real. A intenção não é confundir o espectador na sua busca por uma evidência ou comprovação incondicional daquele encontro, mas reforçar o quanto o tempo narrativo é construído mediante o cruzamento de diferentes subjetividades. Robbe-Grillet diria: "Não existe ano passado, e Marienbad não se encontra mais em nenhum mapa. Esse passado tampouco tem qualquer realidade fora do instante em que é evocado com tanta força; e quando enfim triunfa, torna-se simplesmente o presente, como se  jamais tivesse deixado de ser. "Essa estrutura, de algum modo, encontra-se também im Mis en Scène: na aproximação das imagens selecionadas e trabalhadas por Eloá Carvalho e na ênfase sobre sua presentificação em um mesmo espaço. Assim, presente e passado passam a se confundir na ficção criada pelo artista. Marienbad é a história de uma persuasão: Mis en Scène é a exposição enquanto cena. A Galeria de Arte do Ibeu, preenchida por suas personagens, guarda algo da imobilidade de Frederiskbad.
 
2 Seria igualmente possível aproximar o ato criador de Eloá Carvalho ao argumento principal de a Invenção de Morel (1940), livro de Adolfo Bioy Casares, centrado na criação de uma máquina capaz de criar reproduções humanas, Capturadas e transformadas em projeção de suas imagens, as personagens do livro foram desse modo eternizadas: viverão para sempre na ilha de Morel, repetindo os mesmos gestos, as mesmas falas, as mesmas poses. Passam a existir apenas naquele lugar e em função da estrutura que as mantém "vivas". Mediante o uso de da reprodutilidade, o dispositivo técnico possibilita a aproximação de pessoas temporal e espacialmente distante uma das outras, fazendo o que fazendo com que passem a existir simultaneamente. Torna-se difícil distinguir realidade, imaginação, simulacro e alucinação. "Quando intelectos menos menos toscos se ocuparem de sua invenção, o homem escolherá um lugar apartado, agradável, reunirá as pessoas mais caras e perdurará num íntimo paraíso. Um mesmo jardim, caso as cenas a perdurar sejam gravadas em momentos distintos, alojará inúmeros paraísos, cujas sociedades, ignorando-se entre si funcionarão sem colisões, quase no mesmo lugar". As personagens de Mis en Scène também foram transformadas em imagens, aprisionadas em seu próprio jogo cênico. Encenam suas histórias e aqui coexistem (ou aparentam coexistir) seja entre si ou mesmo com aqueles que com elas interagem, seus espectadores. A invenção de Eloá aprisiona suas imagens no lugar que um dia habitaram.

3 Contudo, não estamos diante apenas de imagens. Sua existência em Mis en Scène - após serem selecionadas de um arquivo fotográfico institucional - está condicionada pelas escolhas da artista, ora as reelaboradas através do desenho, ora por meio da pintura. É preciso considerar então que "grafite" e "tinta óleo" fornecem novas propriedades a essas figuras. Inicialmente capturadas pelo aparelho fotográfico - a maior parte em preto e branco -, as imagens foram então "traduzidas" em desenho.  Tanto a proximidade com o procedimento fotográfico (mediante apropriação de imagens do arquivo) quanto a opção pela escola de cinzas do grafite (diferente da escala química de cores da fotografia) aproximam a artista de algumas idéias de Vilém Flusser. Em Filosofia da caixa preta (1983), por exemplo, o outro argumenta: "Não pode haver, no mundo lá fora, cenas em preto e branco. Isto porque o preto e o branco são situações "ideais", situações- limite. O branco é a presença total de todas vibrações luminosas: o preto é a ausência total. O preto e o branco são conceitos que fazem parte de uma determinada teoria da Ótica. De maneira que cenas em preto e branco não existem". As figuras de Mise en Scène existem dentro dos limites do PB. Mas cabe ressaltar que Eloá Carvalho recorre, embasada também em conceituações, aos chamados "cinzas cromáticos", resultantes de misturas e procedimentos caro às técnicas de pintura à óleo. A realidade expressa nesses trabalhos é fruto de uma visão conceitual do mundo, anterior a qualquer ato ou ação operativa.

4 Pela primeira vez as figuras pintadas por Eloá Carvalho viraram-se completamente em direção ao espectador, dando a ver sua tez acinzentada. Se antes suas imagens eram representadas quase sempre de costas, eventualmente de perfil, com essa decisão, não só a fisionomia, como também o encarnado passaram a ser aspectos a serem considerados de modo mais intensa pela artista. Em  a pintura encarnada (1985) Georges Didi-Huberman desenvolve um pensamento da (en)carnação em arte, tratando a questão como espécie de limite da pintura, de transição entre o visível (imagem) e o tangível (pigmento) entre a dimensão óptica e o aspecto háptico. "O encarnado visa , pois , ser duplamente notável: pelo que sugere de uma subjacente (...). Esse colorido por excelência está, pois, sob influxo de um imperativo categórico do entremeio: entre superfície e profundidade. "Assim, o encarnado é aquilo que é visto na superfície - a "pele" - mas que também evoca a profundidade - o "interior" do corpo, um meio pelo qual "a pintura pode se imaginar como corpo e como sujeito". A cor é um elemento que se dá a perceber não apenas como pura qualidade da superfície, mas como índice de uma profundeza transparente. Certas figuras de Mise en Scéne são personagens apenas se vistas enquanto imagens "encarnadas", isto é, corporificadas por e na pintura.
 
 





Eloá Carvalho e o curador Ivair Rinaldim.






Quem é Eloá Carvalho?
Nasci em Niterói e cresci querendo ver de perto a paisagem do outro lado da Baía de Guanabara. Acho que vem daí meu interesse em observar a paisagem e tentar descobrir o que existia além dela. Tive uma infância muito feliz. Venho de uma família numerosa (sou caçula de três irmãos) onde desde cedo aprendi a compartilhar. Muitas vezes inventava meus próprios brinquedos e isso foi muito valioso porque me ajudou a ser uma pessoa com um olhar mais aberto e menos formatado, que sempre busca uma alternativa para as adversidades. E que acaba nos levando a caminhos muito mais interessantes também.

Como a arte entrou em sua vida?
Começa pelo desenho que sempre fez parte da minha vida de uma forma natural. Presentear as pessoas com desenhos era a minha forma mais genuína de demonstrar afeto. Mas, por volta dos meus sete anos, nascia a empresa que pai e meu tio, sem nada entender do meio tão corajosamente se arriscavam em começar: uma fábrica de telas de pintura. Sem saber o que aquilo um dia significaria para mim, gostava mesmo era do cheiro do cedro e de entrar embaixo das enormes mesas que eram usadas para entelamento. Lá descobri coisas curiosas, como quando meu pai ganhou um livro de um cliente com suas pinturas e os nomes tinham a ver com bules, laranjas e berinjelas. Ou quando li o nome de um novo cliente que se chamava Iberê. Assim conheci Carlos Scliar e Iberê Camargo.

Qual foi sua formação artística?
Fiz graduação em pintura na EBA, UFRJ. Quando me formei não tinha muita noção do que era arte e muito menos de arte contemporânea. Levei algum tempo para entender que para seguir nesse caminho teria que recomeçar e ir em outra direção. Frequentei cursos teóricos na Instituição Eva Klabin, fui ouvinte em algumas matérias na pós-graduação de Arte na UFF, até chegar no Parque Lage onde estudei por dois anos com Suzana Queiroga, que foi fundamental na minha trajetória. Nestes últimos dois anos, participei do grupo de estudos com o crítico Ivair Reinaldim, onde pude desenvolver e amadurecer meu pensamento artístico.

Que artistas influenciam em sua obra?
Caspar Friedrich, Malevich, Pistoletto, Paula Rêgo, Regina Silveira, Gentileschi, Robert Ryman, Goeldi, Hopper, Luc Tuymans, Morandi.

Como você descreve seu trabalho?
Meu trabalho atual é o desenvolvimento de uma pesquisa que iniciei em 2009. Como utilizo imagens figurativas, criei um arquivo fotográfico que serve de referência para os personagens que crio nas pinturas e desenhos. No início, era mais uma relação dessas figuras no espaço“vazio” e de como a atmosfera psicológica dos personagens sugeriam paisagens subjetivas. Com o tempo, fui me descolando dessa ideia e os personagens passaram a dominar esse espaço com relações mais intrigantes e improváveis. A edição e construção desses trabalhos veio sendo criado por outras relações que essas imagens me instigavam de alguma forma.
Sempre utilizei o desenho e a pintura como meus principais instrumentos, mas tenho começado a pensar e a realizar alguns trabalhos em outros meios porque meu pensamento tem me levado a isso. Atualmente tenho trabalhado com tinta óleo pela exigência da própria pintura que venho fazendo.

É possível viver de arte no Brasil?
Difícil, mas acho que sim. É privilégio para poucos.

O que você pensa sobre os salões de arte? Alguma sugestão para aprimorá-los.?
Acho que são uma boa forma para os jovens artistas começarem a circular seus trabalhos, de serem vistos e conhecidos.

O que representou para você a exposição no IBEU?
Uma oportunidade incrível! Acho que foi um momento em que consegui dar um bom passo em direção ao amadurecimento como artista. Eu me coloquei esse desafio. Tem diversas questões envolvidas nesse projeto, começando por ser minha primeira individual numa galeria como a do Ibeu. Adorei pensar e desenvolver um projeto específico para um determinado espaço, que não era apenas o espaço físico mas que utilizou a memória daquela instituição como referência para construção dos trabalhos. E o principal é o caráter instalativo que o projeto tem. Então foram muitas camadas conceituais e processuais que ainda estou percebendo e compreendendo, que certamente abrem novas frentes no meu trabalho.

Como você poderá ser conhecido em âmbito nacional?
Acho que trabalhando muito (e com um pouco de sorte).

O material nacional para arte já é de qualidade suficiente?
Para a pintura, infelizmente, não.

O que é preciso para um artista ser representado por uma galeria?
Isso é complicado mas acredito que não tem regra. Existem tantos artistas interessantes sem representação.

Quais são seus planos para o futuro?

Gostaria de ter oportunidade de continuar criando projetos específicos e também de fazer residências artíticas. E trabalhar muito! rs


Sobrevoo, 2011. Óleo sobre tela. 85 x 35 cm.


Second Floor, 2011. Óleo sobre tela. 70 x 90 cm.

Fim de Semana, 2012. ÓLeo sobre tela. 100 x 160 cm.


E Dove Sei? 2012. Óleo sobre tela. 100 x 170 cm.


Daqui a Duas Horas, 2012. Óleo sobre tela. 80 x 100 cm.


Como Deve Ser, 2012. Óleo sobre tela. 165 x 160 cm.



Na Sala de Jantar 4, 2013. Óleo sobre tela. 95 x 85 cm.

Quase Aquivo No 3, 2013. Óleo sobre tela. 150 x 180 cm.
Projeto para Cena ao Longe, 2013. Óleo sobre tela. 200 x 180 cm.
Director's Cut Série # 1, 2012. Grafite sobre papel vegetal. 200 x 180 cm






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Maurizio Cattelan

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