terça-feira, 25 de março de 2014

Marcelo Solá Amor e Agressividade Luciana Caravello Arte Contemporânea.






Durante anos, o preto sobre o branco, mais forte, incisivo, foi a marca registrada de Marcelo Solá. O lápis, a caneta, o pincel, o bastão, a barra de carvão, uma variedade de instrumentos que logo de saída demonstrava seu respeito pela qualidade intrínseca de cada um deles,  invariavelmente em preto, atacava a superfície branca do papel ou de uma parede – a ação de Marcelo Solá nunca se reduziu à arena clássica do desenho, a folha de papel -, para sulcá-la através de figuras ásperas, linhas escandidas, cortantes; para manchá-la com borrões, garatujas, traçados regulares realizados com obsessão e descuido calibrado, até o ponto de roçarem o ruído, bordejarem o incompreensível; para até mesmo sufocá-la através de camadas espessas de preto, como uma pele que sobrepunha a outra pele, calando-a parcialmente, mesmo que fosse para delimitar um trecho pequeno, uma região mínima do quadrilátero branco e que passava a esplender como uma autêntica conquista.

Desenhar limita-se com apropriar, tomar posse. Lançamos nossas ideias nos papéis, desenhamos sobre a areia, cravamos nossos nomes em árvores e pedras movidos pelo atávico desejo de estar e permanecer além dos nossos próprios corpos. É esse impulso ancestral que Marcelo Solá toma para si e atualiza. E o realiza fazendo uso da equivalência dos gestos, de um entendimento agressivo de que palavras e frases escritas, silhuetas esboçadas através de linhas de contorno, rendilhados ornamentais, estruturas que enunciam volumes no espaço tridimensional, tudo isso pertence ao âmbito do desenho, tudo isso tem a ver com o gesto gráfico, com a prática de um exercício cuja invenção significou nossa própria invenção. Desenhar é uma ação de raiz dupla: por um lado retém aspectos do visível, por outro implica em lançar e projetar nossas ideias, faz com que ganhem matéria e corpo, coloquem-se à luz.

Trocando a oposição do preto contra o branco que lhe é tão cara, Marcelo Solá foi ampliando sua conquista introduzindo cores até chegar a essa nova série, surpreendente, na qual persevera quase exclusivamente sobre o preto. Sobre um campo onde a luz cessa engolida, onde a claridade é travada pelo mistério das trevas, emergem, luminosos, os gumes e os planos coloridos de seus desenhos. Uma profusão de cores floresce no papel, e também aquém e além dele. Justapostos, intercalados, embora em alguns casos haja interpenetrações e mesmo sobreposições, os motivos como que se ajustam preenchendo os espaços no preto. Há formas arquitetônicas, algumas nítidas outras embaralhadas, que se despacham para o fundo, abrindo perspectivas no plano escuro; há silhuetas e rabiscos, contornos retráteis que se encolhem ou se exaltam em reverberações semelhantes às que encontramos à tona dos lagos; há palavras, letras e números, sentenças variáveis, datas e lugares, que nos levam a espaços mentais e temporais, fazendo-nos deslizar em outros sentidos, como é típico da linguagem escrita; há, por fim, o plano chapado das cores, a expansividade do vermelho e do amarelo, a iridescência do dourado, o retraimento do azul e do violeta, invadindo o espaço que separa nosso olhar da folha de papel ou puxando-nos para o seu interior. Tudo sempre muito agressivo, sempre sórdido, mas também sempre amoroso.
Agnaldo Farias
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Marcelo Solá – Love and Aggression 

For years, Marcelo Solá’s trademark has been his use of striking black and white. From his earliest work onwards, he has employed pencil, pen, paintbrush, charcoal, and a variety of other tools, demonstrating his respect for the intrinsic qualities of each. His work is almost exclusively in black, attacking the white surface of the paper or a wall, and can never be seen simply in terms of classical drawing on a sheet of paper. It gouges out rugged figures, striking cutting lines into the support; smearing it with blurs, scribbles, regular strokes, obsessively executed with carefully calibrated abandon, to the point where they cut out the noise, border on the incomprehensible; and even suffocate the support with thick layers of black, as if one skin were superimposed upon another, partially stifling it, albeit to mark out a tiny rectilinear patch of white that shines out as if it were a splendid achievement.

Drawing is bordered on appropriation, taking over. We put our ideas down on paper, draw in the sand, carve our names in tree-trunks and stones, in an atavistic desire to be and to remain beyond our own bodies. Marcelo Solá takes up this ancestral drive and makes it his own. And he does so by making use of the equivalence of gestures, of an aggressive understanding that written phrases and words, outlined silhouettes, ornamental lacework, structures that suggest three-dimensional volume, all of these belong to the realm of drawing, are relevant to the graphic gesture, with an invention that signified the very invention of ourselves as a species. Drawing has twin origins. On the one hand, it retains visual features; on the other it involves projecting out our ideas, exposing them to the light of day and giving them a material bodily form.
Moving on from his beloved contrast of black and white, Marcelo Solá started introducing colors and eventually arrived at this new surprising series, in which black prevails. The shiny blades and colored planes of his drawings appear over a field in which light is swallowed up and clarity shot through with a mysterious darkness. A profusion of colors blossoms on the paper, beyond and before it. Juxtaposed, interspersed, and in some cases interpenetrating or even superimposed motifs appear to adjust themselves to the spaces left by the swathe of black. There are architectural forms, some clear, others blurred together, fading into the distance, opening up lines of perspective in the dark plane. There are silhouettes and scribbles, open outlines that shrink or expand in movements similar to those we find on the surface of lakes. There are words, letters and numbers, various sentences, dates and places, which open up mental and temporal spaces, shifting us in other directions, as is typical of the written language. Finally, there is the overwhelming plane of colors, the expanses of red and yellow, the iridescence of gold, the muted violets and blues, invading the space that separates our gaze from the paper or draws us into it. It is all always very aggressive, messy, but also always deeply imbued with love.
Agnaldo Farias

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Maurizio Cattelan

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