sábado, 15 de março de 2014

Guilherme Ginane An Ninféias de Monet



As Ninféias de Monet. 

Toda vez que fico frente a uma pintura que me toca demasiadamente, eu me sinto desconfortável. Talvez seja caraterística de um pintor; por ter à sua frente, de alguma maneira, um diálogo de linguagens não verbais – “um certo equilíbrio ou desequilíbrio peremptório das cores das linhas perturba a quem descobre que a porta entreaberta ali é a de outro mundo” (Merleau-Ponty, O olho e o espírito).

Este ensaio tentará dar conta das sensações íntimas produzidas pelo impacto das conhecidas Ninféias de Monet, em mim.

Quando Monet começou a produzir as Ninféias, as vanguardas da época não o viam com bons olhos e o consideravam uma espécie de impressionista tardio, fora de um tempo já dominado pelo início do cubismo. “Depois de 1918, como sabemos, a estima do público esclarecido – bem como da crítica – voltou-se decididamente para Cézanne, Renoir, e para Van Gogh, Gaugin e Seurat”*. Compreender a perseverança pela poética e saber que ele continuou firme, mesmo com uma idade avançada, enfrentando um problema de catarata que lhe turvava a visão, seus contemporâneos e seus medos (como ele mesmo escreveu em uma carta ao seu marchand em 1912: “Sei que elas são muito ruins e tenho certeza disso.”*) me foram a porta de entrada para algumas novas sensações em relação a estas pinturas.

Recentemente assisti a uma aula em que o pintor Paulo Pasta fez uma colocação sobre Monet que tornou-se outro dado importante para que eu voltasse a atenção para essa construção “sublime” do pintor francês. Paulo falou sobre a vontade de Monet de refletir o mundo real na água. Seria isso uma forma de o pintor chegar ao instante máximo, a uma espécie de “pura essência da criação”, dando um tom quase divino a sua obra.

No Musée Marmottan, depois de ver algumas obras de fases distintas do pintor, cheguei na parte da charmosa mansão onde ficam as Ninféias. O primeiro impacto se deu quando constatei a luta de Monet em querer reproduzir um lugar real com um espaço que já lhe era abstrato. As bordas são inacabadas, as folhas surgem da parte inferior da tela e atravessam nuvens brancas que estão abertas a interpretações do que elas seriam. A força das misturas que aconteceram na própria tela, a insegurança que cobre no seu limite outras camadas de tinta, tudo isso, repito, para dar conta de um jardim que estava lá, delicadamente construído por Monet, flor a flor, cor a cor. 

Cézanne certa vez disse que Monet tinha um olho muito bom, em um tom que tirava a profundidade de sua pesquisa. Apesar de concordar com o mestre sobre o “olho de Monet, eu tentaria retirar qualquer tipo de tom pejorativo que essa conclusão possa conter. Ele tinha, sim, este olho referido por Cézanne, mas acrescento que Monet pensava muito por e com ele. 

Pela segunda vez me coloquei diante das Ninféias – agora, frente aos painéis do Orangerie. Foi ainda mais forte a sensação de sublimação construída por Monet. A escala das telas não tira sua força íntima. Apesar do número de pessoas nas salas, não há barulho. É como se houvesse uma música cósmica tocando em trombetas divinas. Giverny é reconstruído de forma sensível. O seu microcosmo estava posto de maneira brilhante, onde nenhum galho, papoula ou o que ali estivesse como paisagem ficasse maior que a vontade do pintor de fazer pintura. Um outro aspecto a ser relevado é que em nenhum momento senti alguma forma de contágio por uma suposta irradiação de felicidade, ou mesmo de um paraíso sem as duras penas da realidade. É uma sublimação paradoxalmente real. Diante do painel Reflets Vert, uma sensação de transcendência me tomou (sem nenhum sentido místico). Um conforto propiciado por um jardim que promove um vácuo entre a realidade e o sonho, conquistado pela vontade incessante de querer superar dia a dia uma própria visão pessoal do mundo. 

Palavras jamais darão conta para descrever o que exatamente são as Ninféias, nem mesmo serão suficientes para dissecar tudo o que Monet buscou na sua história (muitas vezes de forma grosseira e sem qualidade, por tamanha força do fazer, como se refere Greenberg), mas acredito que palavras faltem, sim, para colocar Monet no lugar que lhe cabe dentro deste espaço tão aberto e atemporal da arte contemporânea.  


* Clement Greenberg – O último Monet – Arte e Cultura




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