quinta-feira, 6 de março de 2014

Conversando sobre Arte entrevistada Renata Cruz






Quem é Renata Cruz?
Nasci em Araçatuba, Estado de São Paulo em 23 de setembro de 1964.

Como a arte entrou em sua vida?
Sobretudo através do meu interesse pelo desenho. Mas também pela literatura e música.

Qual foi sua formação artística?
Sou formada em Comunicação Visual pela Unesp e Educação artística pela Unaerp. Frequentei como aluna estrangeira a Faculdade de Belas Artes em Madri e fiz uma Pós graduação em Arte Integrativa pela Anhembi Morumbi.
Há dez anos participo dos encontros entre artistas do Ateliê Fidalga em São Paulo.

Que artistas influenciam em sua obra?
Uma grande influência foi ter tomado contato enquanto estudava em Madri, com a vasta obra gráfica de Picasso, e de vários outros artistas do período moderno. Os pequenos desenhos, as gravuras, trabalhos que estabeleciam relações com o texto e a palavra, colagens, me influenciaram muito e definiram um interesse de pesquisa.

Como você descreve seu trabalho?
Me interessa a relação entre o texto e a imagem, o espaço que se cria e as relações que se estabelecem ou não entre eles. Muitas vezes me aproprio de materiais como enciclopédias e atlas, materiais que chamo de objetos de intermediação, e que geralmente utilizamos em nosso período de formação, para pesquisar estas relações. As imagens de caráter ilustrativo presentes nesses livros direcionam também um pouco o tipo de desenho que desenvolvo.

É possível viver de arte no Brasil?
 Possível É, acho que cada vez mais.

O que você pensa sobre os salões de arte? Alguma sugestão para aprimorá-los.?
Os salões e os editais em geral são espaços teoricamente democráticos para apresentar os trabalhos e projetos. Aos poucos eles vão se atualizando e alguns já oferecem ajuda de custo aos participantes, catálogo, que é a documentação da exposição, envio do material para a seleção totalmente online além de pessoas bastante comprometidas com critérios de qualidade, para a seleção das obras.
Mas há alguns editais que parecem estar fora do tempo.

Como foi sua experiência no curso de arte em Madrid?
Foi importante naquele momento para ampliar o olhar sobre o que é o projeto poético de um artista, e sobre o processo de trabalho.
Meu contato com a obra de muitos artistas que admirava, deixou de ser apenas através dos livros que geralmente apresentavam as obras mais representativas de cada período.

Como você poderá ser conhecida em âmbito nacional?
Não sei, acho que seguir trabalhando. Se o que eu faço tiver alguma relevância, talvez possa ampliar seu espaço de comunicação com as pessoas.

Que comentário você faz sobre The summer is on - Blau Projects, SP?
Foi uma exposição coletiva que participei na Blau Projects, galeria que me representa.
O que é preciso para um artista ser representado por uma galeria?
Estar interessado que seu projeto de trabalho participe do mercado de arte. Alguns artistas optam por construir uma carreira mais institucional, outros acreditam que o mercado é também um bom espaço de circulação.

Quais são seus planos para o futuro?
Dia 12 de abril inauguro uma exposição na Blau Projects.


Dissecação para Objetos de Valor Afetivo 2, 2013. 36x100 cm.


Dissecação para Objetos de Valor Afetivo -Carta, 2013. Aquarela sobre papel. 39,5x150 cm.


Cartografias de Verdades Temporárias, 2013. Aquarela sobre Papel. 800x56 cm.



Cartografias de Verdades Temporárias, 2013. Aquarela sobre Papel. 56x76 cm.



Cartografias de Verdades Temporárias, 2013. Aquarela sobre Papel. 56x76 cm.



Cartografias de Verdades Temporárias, 2013. Aquarela sobre Papel. 56x76 cm.


Classificação de uma Casa, 2012. Aquarela sobre papel. 36x27,5 cm.


Livres Trocas, 2011. Vista da exposição Livres Trocas com desenhos realizados a partir de objetos  adquiridos no sistema de trocas. SESC Ipiranga. 350 x 250 x 300 cm.




Junho de 2011, 2011. Grafite e aquarela sobre papel 150x150 cm.





Setembro de 2011, 2011. Grafite e aquarela sobre papel 150x150 cm.





 
Criando mundos, e modos de atuar no mundo da arte




Porque a frase, o conceito o enredo o verso (E, sem dúvida sobretudo o verso)

É o que pode lançar mundos no mundo.

Caetano Veloso



O uso de frases soltas que compõem os desenhos de objetos de Renata Cruz não passará despercebido pelo público que visitar sua exposição. Ou por quem conhecer seu trabalho por meio de suas brochuras, edições cuja circulação é facilitada por trocas propostas pela artista. Trata-se de pequenas inserções em cada desenho, o que parece, à primeira vista, ilustrar o campo visual ou por ele ser completado, uma espécie de cumplicidade literária-visual que forjaria o desmanche de atribuições de cada categoria artística. Contudo, ao passar por alguns desenhos e ler suas respectivas frases, é possível perceber que ambos carregam linguagens intransitivas. Retiradas de obras literárias e desmembradas pela artista, a colagem de frases nas páginas das brochuras parece igualar-se à poemas em prosa. Potencializadas em campo isolado, cada frase é dissociada de sua narrativa original, tornando-se vozes genéricas, sem suas personagens, sem chão e temporalidade específicos. “Escapou do tempo. É um sobrevivente” – são frases que acompanham os desenhos de uma garrafa de refrigerante vazia e uma folha de árvore seca.


O mesmo ocorre com os objetos que a artista recebe de suas trocas. Sua proposta se resume da seguinte maneira: por um objeto pessoal de valor simbólico, ela oferece uma brochura com desenhos de objetos da mesma natureza, intercambiados em outras ocasiões. Sendo pequenos, a escala de todos é mantida sobre o papel, de modo que as brochuras podem parecer catálogos de uma coleção de coisas sem valor explícito, desenhos verossímeis veiculando valores subjetivos. Neste quadro, as brochuras acabam sendo a moeda de troca por meio da qual a artista recebe objetos aparentemente sem valor, mas que não são outra coisa que a matéria prima de seu trabalho. E os desenhos, afiliados ao seu procedimento de trabalho, são meios que aproximam-no da esfera relacional da arte, transformando o espectador em participante-ativo, como dizia Hélio Oiticica. Assim, em trocas que parecem ações anódinas, a artista fundamenta seu modo de relacionar-se com a arte e seus interlocutores, transformando objetos corriqueiros na ferramenta que engendra ações subjetivas e agregando valor a cada peça inserida em sua coleção. Uma caixa de fósforo, uma paçoca Amor, um preservativo, um pequeno sachê de chá, aromatizantes; assim como um grampo de cabelo, uma escova de dentes, uma fita métrica ou pinça para sobrancelhas são deixados com a artista. Instaura-se nesse momento a possibilidade de burlar convenções, redefinindo tanto o ato de relacionar-se com o outro, quanto códigos de conduta instituídos. Ou a possibilidade de reavaliar o estatuto da representação, do mercado, da utilidade das coisas. A artista fabrica seus próprios valores e circula-os mantendo contradições aparentes em seu modo de atuar no mundo. Seu trabalho é a incessante tentativa de operar no contra fluxo de paradigmas que fomentam à domesticação de nossas relações e formação subjetiva.


Apesar de aparente familiaridade processual, existe algo que situa essas brochuras e desenhos a milhares de léguas das Brillo Box, serigrafias de Andy Warhol, apresentadas em Nova York na Stable Gallery em 1964. Chegam a ser universos paralelos avizinhando-se apesar das diferenças. E, se há encontro no processo de ambos artistas, este se dá quando elegem um objeto do cotidiano e interrogam o valor de sua representação. Ainda assim, se uma caixa Brillo de Warhol pode ser confundida com sua versão mantida no depósito da indústria que a fabrica, os desenhos de objetos de Renata Cruz não têm tamanha pretensão. Eles sequer pretendem instaurar a dúvida, criando ilusões entre o objeto e sua representação. Por conta disso, tudo levaria a crer na inutilidade de  aproximar esses artistas, não fosse o interesse recente de Renata Cruz em arquivar e inventariar os objetos que troca, criando uma coleção de pequenas coisas que recebem o mesmo estatuto de seus desenhos e brochuras. E o tamanho indicado desses objetos colecionados remete também ao seu valor inicial: ao visitar o ateliê da artista, surgem descrições sobre como cada objeto chegou ali, mas poucos parecem insubstituíveis. Nada parece entrar em sua coleção por preciosismo ou valor especulativo agregado pelo mercado, qualquer que seja o segmento. Mas, logo é notável o quanto a artista consegue agregar valor simbólico a cada um deles, de modo que as brochuras e desenhos parecem transformarem-se em parte do processo de catalogação de uma coleção contendo embalagens de biscoitos, garrafas de refrigerante, um boneco de plástico, um par de tênis, um livro... Nesse sentido, trocar uma brochura por um par de tênis velho é mais que um ato utópico; é um ato utópico capaz de tangenciar a política da arte e o processo de subjetivação compartilhado, por meio do qual a artista consegue criar “mundos no mundo”. É deste modo que os objetos e desenhos de Renata Cruz travam certo diálogo com as garrafas de refrigerante, latas de sopa, talheres e embalagens de Warhol, ainda que sem a fluência necessária para manterem longas conversas. Mesmo existindo em realidades distintas, ambos refreiam a valoração desmedida das coisas ou instigam a fabricação de novos valores para objetos corriqueiros. Por outro lado, enquanto coleciona objetos e frases que chegam até ela por meio da troca ou apropriação, Renata Cruz arquiteta bases sólidas para sua relação com a arte. Já que a continuidade desse trabalho é voluntariamente condicionada à fabricação de lugares e histórias incompletos, sua concretude não se forma de modo linear. É preciso pensar na organicidade do mundo e na ressignificação da sintaxe para adentrar em sua maneira de atuar no mundo da arte.

Josué Mattos



Renata






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Rua Tut    



 

 

Renata Cruz  




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Araçatuba, SP, 

Renata Cruz


Araçatuba, SP,









Formação:


2011
 

 





Rua Tutóia,

(11) 998 42 94  

Formação:
2011/2013 -
Exposições:
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