quarta-feira, 12 de março de 2014

Conversando sobre Arte entrevista com Rachel Korman



Quem é Rachel Korman?
Mineira de nascimento, polaca de sangue e passaporte, carioca por adoção, lisboeta de coração. Estudei comunicação social e me formei em jornalismo, profissão que exerci durante muitos anos no Brasil e nos Estados Unidos da América. Passei pela publicidade, fui produtora de arte, trabalhei com fotógrafos de moda para revistas internacionais, participei da criação e direção de um centro cultural para arte contemporânea - Carpe Diem Arte e Pesquisa, em Lisboa. Vivi em diversos países, conheci várias culturas, aprendi outras línguas.
Sou artista visual e produtora cultural.
Sou a mistura de todas as pessoas com quem convivi e convivo, das diversas profissões que exerci, dos lugares que conheci e dos sentimentos que colho há 58 anos.


Como a arte entrou em sua vida?
Desde menina sou tocada pela arte.
Um dos meus irmãos é arquiteto e pintor. Eu costumava posar para ele e gostava de ver surgirem os desenhos e as pinturas. Na adolescência foi o teatro que me pegou. Atuei em peças infantis.     Aos 20 anos, fui morar fora do Brasil pela primeira vez. E a partir daí as viagens pelo mundo afora foram constantes e despertaram para sempre meu interesse pelas artes plásticas. Museus e galerias tornaram visita obrigatória. No final dos anos 90,  trabalhava numa agência de publicidade e estava decidida a mudar o rumo da minha vida. Me matriculei na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, no Rio de Janeiro. No primeiro dia de aula, fundamentos da pintura com o artista e professor Luiz Ernesto, ele me disse: essa tela vai mudar a sua vida. Foi o que aconteceu.


Como foi sua formação artística?
Como minha graduação não foi em artes plásticas, frequentei escolas livres de arte, seminários, workshops, muita leitura, visitas a museus e galerias para observar e mergulhar naquilo que me interessava.
A Escola de Artes Visuais do Parque Lage foi a porta de entrada. Primeiro foram aulas de pintura com Luiz Ernesto. Paralelamente, cursos de desenho e história da arte. Quando o artista Nelson Leirner tornou-se professor no Parque Lage, em 1997, passei a frequentar seu curso. Ele me apresentou a inquietação da arte contemporânea. Foi uma reviravolta no meu fazer artístico e por três anos seguidos participei do grupo de estudos que se encontrava semanalmente no atelier do Nelson. Foram várias exposições, individuais e coletivas e participação em salões, com prêmios no Paraná, Goiás e Bahia.
Em 2007 mudei-me para Lisboa, Portugal. Por dois anos frequentei os cursos Avançado de Fotografia - acompanhamento de projetos e Arte em Movimento no Ar.Co – Centro de Arte e Comunicação, em Lisboa.   E o Independent Art Studies Program da Maumaus, escola internacional que atua em Lisboa como alternativa para a educação artística no nível de pós-graduação. Em Portugal minha prática se intensificou e minha atuação no meio artístico ainda é constante, com exposições e residências artísticas, também em outros países europeus.
Um fato marcante em Portugal foi a criação, em 2009, do Carpe Diem Arte e Pesquisa, centro de arte contemporânea em Lisboa idealizado pelo amigo e curador Paulo Reis (em memória), do qual fui uma das fundadoras e diretora de comunicação e de projetos especiais. Convivi com muitos artistas e pensadores da cultura contemporânea, que ajudaram a fundamentar meu pensamento artístico.


Que artistas influenciam seu pensamento?
Pelo humor, criatividade, coerência e sobretudo pela sabedoria - Nelson Leirner. Seus conselhos são meu guia.
E artistas que trabalham com o retrato e a auto-representação. Real ou ficcionada. Artistas que tratam do corpo como objeto identitário. Também me interessam a paisagem, a observação do cotidiano e a memória como objetos de reflexão. O cinema é fonte constante de aprendizado. E a poesia uma inspiração.

Como você descreve seu trabalho?
Desde o começo me experimento como corpo nas artes. Tenho sido meu próprio modelo desde as primeiras deambulações fotográficas, indexando meu corpo às paisagens - urbanas, rurais ou ficcionadas.  Trafego pelo território da auto-representação.
E trabalho com diferentes registros, formatos e linguagens que incluem fotografia, vídeo, som, desenho e pintura, objetos e instalações.

É possível viver de arte no Brasil?
Sim, é possível viver da arte. De arte nem sempre. Ser artista é uma profissão e como todo profissional é preciso trabalho árduo, dedicação, perseverança. Para viver de arte tem que estar inserido no mercado. Eu vivo da arte mas não de arte, sempre precisei que outros afazeres subsidiassem o meu fazer artístico.


Você passou um longo período em Portugal, você poderia contar a experiência?
Portugal é um país muito especial. Pequeno pedaço de terra banhada pelo Oceano Atlântico, tem uma imensa diversidade geográfica e cultural. Atravessa-se o país de norte a sul e percebe-se diferentes paisagens, culinária diversa, outros costumes, até a própria língua portuguesa muda a cada região. E Lisboa é uma cidade encantadora, iluminada pelo sol e banhada pelo rio Tejo, que às vezes mais parece o mar. Assim como o carioca, o lisboeta também não gosta de dias nublados.
Sou apaixonada pela cidade.
Em Portugal me aproximei da África. Pois deste Portugal contemporâneo fazem parte as recentes ex-colônias africanas. Estudar, discutir, analisar e buscar novas perspectivas para as questões pós-coloniais estão na pauta diária de alguns pensadores e agentes culturais portugueses.
Portugal é um país que viveu a euforia da União Europeia. De repente, viu-se rico, sem na verdade o ser. Uma euforia que durou pouco. Portugal ainda é um país pobre. Periférico. E com governantes despreparados e corruptos (qualquer semelhança não é mera coincidência).
Mas apesar de todas as mazelas de uma Europa em estado de falência, a cultura portuguesa sobrevive. Mesmo com a falta de apoio institucional e privado, sem investimentos e sem mercado, ainda se faz muito boa arte no país. Com um espírito coletivo e uma atitude de colaboração. Portugal produz uma arte diversificada, engajada, comprometida e de excelente qualidade. É preciso descobrir!

Que diferença você vê entre os mercados brasileiro e português?
Não há mercado de arte em Portugal. Já no Brasil o mercado dita as regras da arte.

O que é preciso para um artista ser representado por uma galeria?
Nunca fui representada por alguma galeria.  Acredito que o que faz o artista é sua arte. Com pensamento, criatividade, dedicação e determinação, aliados à boa técnica, ao cuidado com a apresentação, são fatores determinantes para que uma galeria se interesse por um artista.



Quais são seus planos para o futuro?
O futuro é aqui e agora. Estou de volta ao Rio de Janeiro depois de viver quase seis anos em Portugal. Sou uma artista independente, quero criar e mostrar minha obra pois é preciso a troca com o público para que o trabalho se complete.
Entretanto, um trabalho que me dá muito prazer em realizar e à qual procuro me dedicar atualmente é a catalogação de coleção particulares. Em Portugal, tive a oportunidade de estudar os Manuais de Inventários dos Museus e desenvolvi um processo de catalogação com foco na arte moderna e contemporânea. Esta é a minha meta de trabalho aqui e agora.

 





Pure Pleasure, 2013

vídeo / 4:3 / p/b / som  / 2'43''

 

As fronteiras entre o conceito de erotismo e pornografia numa coreografia entre som e imagem feita de sugestividade, ocultação e exploração do imaginário sexual.

 

Exposição Marinhagem nos Maus Hábitos, Porto e Livraria Sá Costa, Lisboa

 

Para assistir: www.rachelkorman.blogspot.com.br


 

 
 
 
 


Confissões, 2001

instalação visual e Sonora

 

www.soundcloud.com/rachel-korman/confissoes-confessions

 

A obra questiona o entendimento do sexo e da sua exposição.

Trata-se dum diálogo de desejo carnal entre homem/mulher, destituído de qualquer artifício romântico de linguagem ou intenção e, dessa forma, exposto aos ouvidos de qualquer um, assumindo a nudez moral, narrativa e expressiva, permitindo que os géneros sejam ouvidos sem mise-en-scène da sua conduta moral.

 

(trecho do texto da curadora Emília Tavares, por ocasião da exposição mandei-o matar porque não havia razão, na Torre do Tombo e no Espaço Avenida, Lisboa - Maio/Junho 2011)


 

 


Tocar o silêncio, 2011

impressão sobre tecido 240 x 240 cm

 

Exposição coletiva Intervenções contemporâneas na Casa Museu Dr Anastácio Gonçalves, Lisboa.

 

“Era um homem solitário, muito reservado, figura estranha recolhida a um universo personalíssimo. Um colecionador envolto em mistérios”. Assim o descrevem quem com ele conviveu. O paradigma da Casa Museu é mostrar a casa como foi habitada pelo Dr. Anastácio Gonçalves, com seus aposentos íntimos, quarto e banheiro, alí representados.

Em Tocar o silêncio imagino uma noite de amor na cama do colecionador.


 

 


Marginal (depois de Oiticica), 2010

impressão sobre tecido 100 x 80cm

 


Procura-se, 2010

desenhos digitais_impressos em papel A4

Através de um programa de retrato-robot usado pela polícia para identificar pessoas procuradas, 132 pessoas foram convidadas a desenhar de memoria o retrato da artista.

 

Exposição coletiva De heróis está o inferno cheio44 -  Plataforma Revólver, Lisboa


 

 

 

 

The shadow of my being, 2009

Grafite sobre papel  200 x 150 cm

Exposição individual na galeria Rosalux, Berlim


 

 

 
 

Da série corpo na paisagem, 2010

Fotografia digital

 


Heróis de Inferno está Cheio, Lisboa.


Rachel Korman
+55 21 979 50 70 30
skype: rachelkorman
www.rachelkorman.blogspot.com.br
 

Nenhum comentário:

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
Now