Quem é Bianca Madruga?
Sou carioca,
artista visual e mãe das gêmeas Nina e Sophia. Trabalho com vídeo, fotografia,
pintura, objetos e instalações. Possuo um ateliê no Morro da Conceição, centro
do Rio. Minha graduação é em Filosofia pela UFF, com pesquisa na área de
Estética. Ministro oficinas de artes visuais e filosofia em diversas instituições
de ensino.
Como a arte entrou em sua vida?
Quando pequena,
visitei algumas exposições e conheci o trabalho de artistas que me espantaram,
como Anna Bella Geiger e Adriana Varejão. Eu costumava perguntar ao meu pai,
que também é artista plástico, por que aquelas obras eram consideradas “obras
de arte”, já que não pareciam “bonitas”, de acordo com a minha visão infantil.
Ele me respondia que a beleza não era a questão mais importante. Mas se essa
não era a questão, então qual era? Aquilo se tornou um mistério pra mim. Aos
poucos fui descobrindo que beleza estava além dos aspectos superficiais e
imediatos. Mas é o mesmo mistério que continua me espantando até hoje. Aos 9 anos conheci o Claudio Paiva em uma
exposição, e como ele sempre foi excepcionalmente gentil e generoso, passou um
bom tempo conversando com aquela criança sobre o seu trabalho. Lembro-me com
nitidez desse encontro, pois foi o Cláudio quem me incentivou a fazer uma
primeira “coleção de nada”.
Qual foi sua formação artística?
Em princípio,
apenas acompanhava o trabalho dos artistas que me atravessavam. Passava horas
no ateliê do meu pai, pintando e inventando coisas, pirando, com vontade de
participar daquele universo. Logo depois ingressei no Parque Lage, que frequentei
durante cinco anos. Foi quando comecei a participar das oficinas do David Cury
e do Ronaldo do Rego Macedo, dois dos maiores artistas que já conheci. E ali
pude me aprofundar nos problemas da arte, desenvolver uma pesquisa e me
apropriar das ferramentas. David e Ronaldo certamente mostraram as coisas mais
importante sobre o que é fazer arte, e por que fazê-la.
Que artistas influenciam sua obra?
Além dos citados
acima, sem dúvida devo me referir a Eva Hesse, às Lygias, Hélio Oiticica, Louise
Bourgeois, Nuno Ramos, Carmela Gross, Doris Salcedo, Tunga, Sandra Cinto,
Francesca Woodman e muitos outros. A lista é grande. Na verdade, essas
influências são escolhas conscientes, baseadas numa grande admiração. Isso não
quer dizer que o trabalho se desenvolva no sentido de tornar essas influências visíveis.
Como você descreve seu trabalho?
É sempre melhor falar dos pontos de
partida, das motivações do que dos efeitos. Na maior parte das vezes o trabalho
escapa às intenções do artista, e na verdade isso é muito bom; pelo menos um
indício de que o trabalho aconteceu. O
que tem me interessado até aqui são os quases, as camadas, os desaparecimentos.
Alguns dos trabalhos mostram ações que
se repetem incessantemente, outros acontecem pela união de fragmentos de
objetos em desuso. Por vezes, um simples deslocamento é suficiente para que o
objeto adquira outro modo de estar no mundo. A linha aparece na tentativa de
revirar a função da palavra: sentido, limite, contorno das coisas que
conhecemos. Mas o que se pretende revirar é o próprio olhar. Como se estivéssemos
sempre atrasados no existir, o que se tem de si é sempre o que já escapou. Os
empreendimentos, constantemente falidos, são não só uma proposição lírica sobre
a transitoriedade da existência, mas também a própria realização do impossível
que toda obra de arte parece propor. Retorna a questão da transitoriedade ou do
devir, e o tempo do fenômeno é eternizado pela fixidez da imagem. Mas o que o
observador encontra é sempre atualizado pelo instante. Nessa tensão entre
desaparecimento e resistência o mundo aparece sob o registro de uma presença
mínima, do espaço da repetição do mesmo ao lugar da reinvenção, das pequenas
conquistas que se dão na sobreposição dos instantes.
É possível viver de arte no Brasil?
Sim. As dificuldades dizem respeito mais à
realização do trabalho que ao comércio das obras. Certamente existem
dificuldades ínsitas à realidade cultural brasileira, mas não acredito que seja
assim tão diferente do resto do mundo. Viver de arte é um desafio em qualquer
parte.
O que você pensa sobre os salões de arte? Alguma sugestão para
aprimorá-los.?
Os salões são uma
boa maneira de divulgar novos artistas e disseminar a arte do país, muito
embora o recorte proposto muitas vezes não corresponda ao que tem se produzido
e pensado no momento. Quando o trabalho curatorial é preconcebido e se sobrepõe
aos fatos de arte, os salões não cumprem seu papel.
Como você poderá ser conhecido em âmbito nacional?
Não acredito que
haja fórmula. Talvez seja questão de tempo, de persistência. O mais importante
me parece ser o investimento no próprio trabalho.
De que maneira a sua formação em Filosofia interfere no seu trabalho?
Por um lado, arte e
filosofia se encontram ao se inclinarem mais pelas perguntas do que pelas
respostas. Por outro lado, o trabalho artístico se dá primeiro na experiência e
no convívio. A teoria vem depois, para desdobrar o acontecimento. Fazer arte é
exercitar a liberdade, por isso a filosofia é bem vinda se vier em forma de
dúvida, nunca como uma maneira de engessar o trabalho ou de estabelecer regras
fixas. As questões teóricas podem ser suscitadas a partir da obra e não como
substituto. Na verdade, tudo o que vemos, estudamos, experienciamos acaba
virando matéria-prima do trabalho. Trata-se de reinterpretar, inventar, tecer
um modo outro de estar no mundo. Nesse caso, pouco importa se fazemos
filosofia, engenharia ou marcenaria.
O que é preciso para um artista ser representado por uma galeria?
Não sei exatamente
o que é preciso. Mas certamente o que a maior parte dos galeristas prioriza é a
confiança na continuidade do trabalho. Quando se faz uma aposta, se espera no
mínimo que o artista continue produzindo, amadurecendo e, naturalmente, que a
pesquisa vá adquirindo densidade.
Qual tem sido sua experiência com a galeria virtual FaceArte?
Pertencer a uma
galeria virtual é interessante pelo fato de que muitas pessoas acabam tendo um acesso
facilitado às obras. Além disso, o artista está sempre confrontando os efeitos do
seu trabalho. Não há especialista, não há leigo, há olhante, comentador,
interessado. Tudo isso acaba sendo ferramenta da produção. Esse fluxo
incessante de comentários e de desdobramentos acaba mostrando questões importantes
do trabalho. No caso do FACEARTE isso se torna ainda mais forte e potente
porque acima de tudo somos um grupo de artistas com inúmeras afinidades. Nós nos
encontramos, debatemos, fazemos projetos em conjunto. Não existem sentimentos
hierarquizantes. Enfim, temos um
pensamento de arte muito próximo e compartilhamos, descobrimos, inventamos
juntos. A nossa convivência nos torna melhores.
Quais são seus planos para o futuro?
Poxa, essa pergunta é a mais difícil, porque
na verdade não consigo nem saber pela manhã o que farei depois do almoço. Essa
é a maior dificuldade dos hiperativos. Mas brincadeiras à parte, no fundo o meu
maior desejo é o de continuar trabalhando, que é o que me faz estar de pé.
"A flor produziu raízes imensas (a vontade de amar apesar da morte)"
Dois Pares Espessos
Sem título da série retrato
"
Quando os cimos desse céu se unirem, minha casa terá um teto."