terça-feira, 26 de novembro de 2013

Conversando sobre Arte entrevistado Bruno Belo









Quem é Bruno Belo?

Aquela maldita, mas justa pergunta, e em que para mim o etc normalmente é a questão!
Um cara inquieto e observador. Que se cobra muito e que até trava por isso, mas que enxerga na complexidade desta inquietação uma forma para conseguir tirar o melhor. E ainda precisa aprender a se permitir cada vez mais.
O melhor amigo de três cães, que muitas vezes deitam no atelier e parecem estar me vendo pintar. (Isso me lembra algumas fotos da Joan Mitchell no seu dia dia com Pastores Alemães por todos os lados.)
De uma família com pessoas maravilhosas, mas como todas, cheia de problemas. E isso reverbera em muita preocupação.
Que já se dedicou a atividades diversas e aprendeu muito com elas.
Que tem sorte em poder fazer algo de um empirismo tão grande e que considera tão potente. Sorte pelas pessoas que apareceram e aparecem ao seu lado.






Como a arte entrou em sua vida?
Entrou quando ainda era novo com uma vontade de pintar não sei bem por que. Minha mãe comprou umas tintas a óleo e comecei a me divertir com aquilo. Depois em 97 vi uma exposição do Monet no MNBA, no Rio, e isso mexeu comigo de uma forma muito marcante. No meu caso a pintura tem uma relação muito direta com minha forma de pensar, não tenho um olhar linear, nem tátil para com o mundo. Enxergo as coisas de forma fragmentada, em que se complementam quase por um processo de fusão, como que vistas por manchas ou transparências. Esse já é um olhar e um pensamento muito pictórico. Acho que é a mania de fechar um pouco os olhos para enxergar as coisas.




 Como foi sua formação artística?
Comecei a pintar como autodidata ainda novo. Optei por cursar a faculdade de Arquitetura, onde os estudos e história da arte, oficinas voltadas à prática do desenho, apresentação de projetos, croquis, desenhos aquarelados e demais sempre foram muito interessantes para mim. Retornei à faculdade como professor do último período da cadeira de desenho, ensinando exatamente sobre as formas de apresentação e  comunicação em projetos de Arquitetura. Porém o que eu queria através do desenho e da pintura não cabia dentro da arquitetura ou da simples representação.
Decidi começar a estudar artes a fundo e procurei principalmente os cursos do Parque Lage, onde já fiz mais de dez cursos, apesar de não ter procurado os voltados diretamente à técnica da pintura. Investi em cursos mais teóricos, sobre processos de criação e visualização, alguns com análise de trabalhos e demais.
Destaco uma experiência bacana sobre análises de trabalho com um grupo de artistas, acompanhados pela crítica e curadora de arte Daniela Labra, fora da EAV em um momento inicial e de bastante empirismo. E principalmente ser selecionado para o Programa Aprofundamento em 2011 (coordenado pela Anna Bella Geiger, Fernando Cocchiarale e João Modé), depois para o Projeto de Pesquisa em 2012 - A imagem em questão (coordenado pela Glória Ferreira e Luiz Ernesto Moraes).

 

Que artistas influenciam seu pensamento?
Acredito que as influências nunca vêm apenas de um foco específico, vêm de pessoas, fatos e coisas que influenciam a construção das idéias, que despertam a sensibilidade para algo e, até mesmo de áreas de trabalho diversas. Mas posso citar alguns nomes.
De uma forma geral alguns professores ocuparam esse espaço do despertar. Em destaque eu agradeço a Anna Bella Geiger e ao Luiz Ernesto, que de uma forma simples se encaixaram neste território.
Agora olho para pintores ao longo da história da Arte e artistas contemporâneos diariamente, mas destaco a construção na pintura da Cecily Brown e a influência direta vista em seu trabalho por conta das entrevistas e conversas que seu pai, o crítico de arte David Sylvester, teve com Francis Bacon. Os pensamentos que surgem desta troca estão muito presentes no trabalho dela, a forma como ela os recoloca hoje é muito influente para mim. Com certeza nos meus últimos trabalhos houve uma ambiência presente nos trabalhos do Michaël Borremans.
Como uma influência no modo de pensar alguns trabalhos do Miguel Rio Branco e, principalmente, passagens do livro “Notes on the tides” que está sempre presente na minha rotina. A idéia de montagem, de cut up... são coisas que permeiam meus pensamentos e que estão mais claras nos estudos do que no resultado final. Talvez, com o tempo, isso possa se tornar mais evidente.


Como você descreve sua obra?
Há uma hibridez presente no processo, na forma como os estudos são pensados, captando e mesclando imagens de fontes diversas, gerando ruídos... A pintura é a interface para tornar isso visível, mesmo que em algum momento se escolha manter a imagem como promessa, ou melhor, é exatamente aí que a pintura, para mim, é fundamental. É através dela que vira outra coisa.
Além de imagens, acho que no trabalho há uma discussão entre a tradição e a tentativa de acrescentar algo à mesma. Discutir a figuração revelada por fragmentos, construção, pictórico...
O que escrevi no início deste ano para a publicação do Projeto de Pesquisa acredito ser o que melhor resume, o que permeia o processo e consequentemente o trabalho.
“...pensando nas coisas construídas por fissuras, de natureza incompleta, fragmentada, ou quem sabe mais completa que envolva seu meio, um mimetismo, uma construção solúvel, a fragmentação que divide para reordenar...
Liquefeito à pintura, o enredo bóia em uma imagem pouco referencial. A idéia não é reproduzir o visível, mas entorná-lo neste meio liquefeito, pictórico, de cores lavadas... Assim, as imagens surgidas a partir de construções narrativas e em outras extraídas de notícias jornalísticas, já tão saturadas, gastas e pasteurizadas, se confundem à essa pintura nas quais ambas não dariam conta da experiência que se referem. Não é para ilustrar a experiência, mas revelar a nova substância. A consciência descrita por círculos, em que a imagem é um desdobramento de camadas, aguada, é de outra natureza.”


É possível viver de arte?
É possível. É preciso que isso seja cada vez mais viável pela sua capacidade transformadora em vários níveis. Mas na maioria dos casos, é necessário recorrer a alternativas paralelas para viabilizar esta edicação.
 
. Você foi selecionado para diferentes salões de arte, como foi a experiência? Alguma sugestão para aprimorá-los

Acho que os salões, residências, e editais em geral, são mecanismos necessários para possibilitar a inserção do artista no meio, movimentar e inquietar o cenário artístico. Na maioria dos casos é onde ocorre a primeira troca, o primeiro lugar do conhecimento.
Mas acho que esta troca ainda é muito rasa, morre em uma exposição. Muitos formatos ainda são ultrapassados, mas começam a existir transformações, modelos novos, que expandem essa possibilidade de troca com o artista, com o meio urbano, críticos, público e entre artistas. Proporcionando a expansão desta comunicação. Porém, acho muito errado a responsabilidade do artista custear uma parte deste processo. Melhor seria, por exemplo, que não existisse uma premiação em troca de uma ajuda para o transporte das obras. Pois ter que pagar por isso inviabiliza a participação de muitos artistas e dificulta o envio para longas distâncias. Assim como não concordo com prêmio aquisição, muitos em valores baixos, que mais me parecem alternativas para se construir um acervo de forma barata. Melhor seria o dinheiro empregado de uma forma mais ética, reconhecendo o trabalho do artista, suas limitações e promovendo o maior dinamismo possível.

 O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria?
A minha primeira preocupação é com a qualidade da pesquisa e do trabalho. Este com certeza é o foco principal, aliado a estratégias de visualização e colocação do trabalho no circuito, no qual os salões de arte cumprem um papel importante ao artista iniciante. Mas existe uma questão mais importante que é a qualidade desta troca para ambos os lados. A identificação do artista com esta galeria e os demais artistas representados, como a galeria enxerga sua produção e o coloca no mercado. Não pode ser apenas uma relação de venda. Acredito que nessa troca um fator determinante é a comunicação e entendimento para que exista um respeito à liberdade do artista divulgar seu trabalho nos salões, por exemplo, o que traz frutos positivos para ambas as partes.



Sabemos haver excelentes artistas em todo Brasil, mas existe arte fora do eixo Rio-São Paulo?
Arte? Claro! Principalmente hoje em que há tanta hibridização nos processos de criação dos artistas e o interesse em atuar diretamente no mundo, onde processos derivados de fontes dessemelhantes, vindos de lugares e áreas de atuação distintas, se fundem na produção de novos sentidos. E com a velocidade com que se propaga a informação hoje, tudo é mais fácil e as trocas estão cada vez mais presentes. Quando participei da Bienal do Recôncavo (BA), o evento não aconteceu em Salvador, o que seria bem normal, mas em uma pequena cidade chamada São Félix. Foi excelente! Um dos poucos casos de um evento que participei em que existiu de fato essa troca com o artista, com o meio urbano, críticos, público e entre artistas, que citei como necessário aos salões.O mercado de arte certamente ainda é muito concentrado, mas cada vez mais rompe com isso.


 O material produzido no Brasil para arte já pode ser considerado de boa qualidade?

Faz um tempo que praticamente não uso produtos nacionais, porque quando se compara com os importados a qualidade ainda é bem diferente. Mas acredito que algumas coisas têm evoluído.

 
 Você e outros excelentes artistas moram em Petrópolis, existe mercado de arte na
cidade?
Realmente existe uma grande quantidade de bons artistas hoje em Petrópolis. A proximidade com o Rio facilita, e é um diferencial pra quem ainda procura um lugar um pouco mais reservado para produzir. Mas um mercado de arte não se desenvolve, principalmente por essa proximidade, existindo apenas um mercado informal.
 
 
Quais são seus planos para o futuro?

O plano principal é me permitir explorar cada vez mais, já que não estou trabalhando com nenhum projeto específico
O resto vai ser fruto da entrega nesse processo e do trabalho diário.




Habitam. Andam em pares, 2013.Acrílica sobre tela. 110 x 154 cm (formado por três telas)









Purgatório, 2013 Acrílica sobre tela. 80x160cm



O dia do pombo, 2012. Acrílica sobre tela. 70 x 53 cm.

O conserto, 2012. Acrílica sobre tela. 70 x 130 cm.


Sala branca, 2012. Acrílica sobre tela. 53 x 100 cm.


A morte do elefante - O último adeus, 2012. Acrílica sobre tela. 70 x 130 cm.

Sem título #2, 2012. Acrílica sobre tela. 25 x 50 cm.

 
Novas regras para criadores de aves | “The Duck”- para Michaël Borremans, 2013.Aquarela sobre papel de algodão. 17,5 x 21 cm.


Ainda que num ritmo mais lento, 2013. Aquarela pintada sobre gravura da artista Evany Cardoso. 32 X 24 cm
O estadista, 2013. Aquarela e lápis sobre papel. 17,5 x 21 cm




House of lions, 2013 Aquarela e lápis sobre papel. 17,5 x 21 cm
 
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Maurizio Cattelan

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