quarta-feira, 24 de julho de 2013

Conversando sobre Arte entrevistado Marcelo Oliveira


Marcelo foi indicado como um dos artista revelação da ARTIGO-2013.

Quem é Marcelo Oliveira? 
Nasci na Baixada Fluminense, mais precisamente, Pilar – Duque de Caxias. Tive uma infância livre e sem muitos adultos por perto. Pescava, jogava bola de gude, rodava pião, pique polícia-ladrão, bandeirinha, comia fruta em cima da árvore. Essas coisas bem próprias de criança pobre de subúrbio. Aprendi a ler aos nove, quase dez, ia à Escola quando queria e quase nunca queria, preferia ir pescar ou brincar com os brinquedos que fabricava.
Só via a minha mãe aos finais de semana, ela trabalhava em casa de família, em Laranjeiras, meu pai, desempregado e com problemas com bebida. Este não gostava mesmo de trabalho, vivia nas barracas tomando sua cachacinha e jogando sinuca e baralho, o que fazia muito bem. Mas os dois com um imenso amor e carinho, duas vítimas sociais. Eu, aos oito ou sete anos, ia ao centro de Caxias junto com outros mais velhos e mais novos ver o mundo. Hoje, concluo que era como esses meninos que perambulam pelas ruas do centro em bandos, descalços, praticando pequenos furtos, em especial livros infantis. E nos perguntamos: Onde andam os pais dessas crianças?? Não havia noção de certo e errado, não havia uma educação formal, da maneira que conheço hoje de escola e família. Aos nove, meus pais se separam e fomos morar em Jacarepaguá. Antes disso, passei um ano na casa de Tia Santana, minha segunda família, até tudo se ajeitar. Minha referência de família unida e feliz, mas que não era a minha. Em Jacarepaguá conheci outro universo, minha mãe, agora não era mais empregada doméstica, podia vê-la todos os dias, era do Lar. Fui matriculado em outra escola, onde aprendi a ler e escrever e até tirava boas notas. Ganhei mais um pai.  Aos quinze anos, tendo terminado a oitava série sem saber que a letra “M” se usava antes de “P” e “B”, já trabalhando, me perguntei o que queria fazer da vida: ser como meu pai e minha mãe, ganhar salário mínimo a vida toda?? Não era isso o que eu queria. Resolvi mudar esse ciclo. Conversei em casa, e contei sobre meus planos: Ficar aquele ano inteiro só estudando para o concurso das Escolas Técnicas. Fiz a matrícula em um cursinho preparatório que meu irmão e meu pai pagaram para mim. Em um ano de curso, aprendi tudo que não aprendi em todos os anos de escola. Passei para as Escolas Técnicas, Colégio Naval, Epcar,  Sargento da Aeronáutica, nas primeiras colocações, o que nem eu acreditei.  A partir daí fiz Colégio Naval, Escola Naval, mas sabia que militarismo não era a minha praia, pedi baixa e fui fazer Economia na UERJ, onde me formei e trabalho até hoje. Fiz um concurso e fui ficando por lá.

Como a Arte entrou em sua vida?
A arte sempre esteve presente, desde muito cedo criava e fazia meus próprios brinquedos. Pintava o pião de várias cores, ficava encantado com os matizes que resultavam quando ele começava a girar. Cada balão que fazia tinha uma séria de cores e formas, e, às vezes, desenhos, a mesma coisa com as pipas. Lembro que ia à papelaria América no centro de Caxias, com sete anos, e um dos livros que furtei apresentavam desenhos encantadores. Foi a primeira vez que via imagens associadas a textos tão extensos. Os passarinhos e peixes me deixavam em transe, ficava perplexo com suas cores e formas. Ficava um tempo admirando-os. E quando tinha papel e lápis, desenhava, ou então fazia pequenas peças de tabatinga tirados da beira do rio.

 
Como foi sua formação artística?
Posso dizer que a peculiaridade da minha vida foi o estofo básico para minha formação e que os grandes mestres foram Otávio Avancinni e Gian Shimada, dois artistas de excelência e amigos sem igual. Com Otávio iniciei meus estudos de desenho e pintura, na UERJ. Fiquei lá por quatro anos, depois, veio a gravura com Gian, no atelier de Gravura do Sesc Tijuca, onde estou até hoje. O convívio no atelier de gravura, a troca entre os amigos-artistas são preponderantes nesse processo. Estudei também com Mallu Fatorelli, na Uerj e José Maria Dias da Cruz, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage, por um breve período. Bem no início, 1999, em dúvida sobre minha vocação , essas coisas que a gente tem, perguntei à Mallu se ela achava que minha origem e as escolhas variadas em termos profissionais tinham a acrescentar no meu processo. Ela me esclareceu que tudo que eu tinha vivido, visto e ouvido são os alicerces e tijolos de tudo que eu poderia fazer em termos de arte, e que eu deveria me apropriar disso, que isto era um grande privilégio. Certa vez, também, no início, em conversa com Regina Marconi, falei das minhas pretensões artísticas e ela me deu uma dica valiosa: Dá uma lida no livro da Faiga Ostrower – Universos da Arte.
 Na realidade, vejo que ainda estou engatinhando, se pensarmos que comecei a estudar, efetivamente, em 1999,e sempre de uma maneira bem informal. Por outro lado, reconheço que tudo tem o seu tempo, então, comecei na hora certa.
         
Como você descreve sua obra?
Ligada às questões de relação, do afeto, do cotidiano e da urbanidade. E de muitas coisas que se situam, de certa forma, na marginalidade. Por exemplo, quando faço minhas pinturas-gravuras de LAVA-JATO, tenho a intenção de mostrar como esses cartazes populares são diretos, eficientes e, muitas vezes, de uma beleza bruta, e, mais do que isso, é trazer à tona que essas comunidades vivem muito bem e obrigado. Distantes da norma culta, com uma economia informal, afastados da presença do Estado. Carentes e ao mesmo tempo auto-suficientes, com suas próprias normas de ocupação do espaço, da vida e da visualidade urbana.

 Que meios utiliza para construí-la? 
 Os meios são os mais inusitados. Desde matrizes de papel paraná, trabalhadas com pontas secas e sucessivas camadas de seladora e colagens, para chegar a nuances de linhas, forma e textura, passando por placas de PVC e acetato para extrair gravuras em côncavo, até fundos de gaveta de eucatex, para fazer xilo. Um material em abundância hoje pelas ruas, dada à qualidade dos móveis vendidos nas Casas Bahia (rsrsrsrsrsrs). De maneira geral trabalho sobre papel. Quase sempre realizo interferência sobre as estampas, que podem ser realizadas com canetas permanentes, monotipias, spray, fitas adesivas e resina asfáltica. Por isso tenho classificado meus trabalhos como pinturas-gravuras, ou, como o meio prefere de técnica mista. 


Que artistas influenciam seu pensamento?
Arthur Bispo do Rosário, o profeta Gentileza, Matisse, Paul Klee, Basquiat, Pierre Verger, Manuel Messias, a produção  dos artistas com transtorno psiquiátrico, entre outros.


Além do estudo de arte, que outras influências entram em sua obra?
Teatro, cinema, bons livros e filmes, a cerveja com os amigos no bar da esquina e o churrasquinho de gato com os companheiros da gravura em frente ao atelier, a relação com minha família e com meus gatos e cachorros - tudo isso é fonte de inspiração e motivação para criar – diria que primordial.


É possível viver de Arte no Brasil?
Tenho a impressão que as pessoas sobrevivem, poucos são aqueles que vivem efetivamente de vender obras, por exemplo. Muitos complementam suas rendas dando aula, trabalhando com produção, elaborando projetos, o que de maneira geral é a maior parte do dinheiro que entra. E a maioria tem outros empregos não ligados necessariamente à arte. Penso que o artista contemporâneo precisa se produzir para se lançar no mercado e abrir portas, fazer exposições, se unir aos outros artistas e grupos para se tornar mais forte. Aliás, enquanto os artistas não se conscientizarem que precisam trabalhar para criar público, digo, gerar formação de público para as artes visuais, não sairemos dessa situação. Mas, na realidade, essa é uma função do Estado que deveria ter políticas públicas com esse fim. Algo que tenho observado bastante, também, são produtores que montam projetos de exposição com verba pública e que não prevêem pró-labore/cachê para os artistas. Sendo que este mesmo projeto remunera a todos os envolvidos, do profissional que faz a limpeza até o curador. Considero isto um erro imperdoável, á medida que sem este artista nada aconteceria.     

 O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria?
 Esta é uma pergunta à qual gostaria de ter a resposta.

Como você estuda, como se atualiza.
Em geral leio e pesquiso muito, vou aos locais objeto de minhas investigações, vejo filmes, teatro, vou a exposições. Sempre com olhar atento e reflexivo.
 
Alguns pensam que as obras em papel, em virtude de nosso clima, durem menos que as pinturas e por isso tem procura menor, você concorda?
Existe um grande preconceito do mercado com relação as obras em papel, mas isso é uma ignorância, porque todo tipo de obra de arte precisa de algum cuidado específico. E tem outra coisa, o que seria dos restauradores se não houve material para eles restaurarem? Hoje temos uma quantidade enorme de técnicas e materiais de conservação.

O Brasil já produz um papel de qualidade para impressão de gravura?
Não. O que tenho usado vem de São Paulo, é um papel produzido na Argentina, porém de origem inglesa – chamasse RIVES. É de qualidade e tem ótimo preço.  

Como foi sua experiência na ARTIGO-2013?
Foi muito enriquecedora, principalmente pela possibilidade de ter contato com outros artistas e suas produções, mostrar meu trabalho e perceber, um pouco, o funcionamento desse pequeno mercado de arte.
Também, não poderia deixar de destacar a coragem e o profissionalismo nas pessoas envolvidas na realização da Artigo. Bato palmas para pessoas com espírito empreendedores que não tem medo  da crítica e que a revelia dos recursos públicos ousam sonhar e realizam seus projetos. Cabe-me agradecer, sobretudo ao Escritório de Arte Marcia Zoé Ramos pela grande oportunidade de participar da Feira e pelo profissionalismo e respeito com que fui tratado. 

Quais são seus planos futuros?
Continuar pesquisando e produzindo, participando de exposições e escoar minha produção através de uma galeria ou alguma outra forma. Propor projetos que tenham um viés de formação de público com exposição, oficinas e, se possível, palestras.


Desvio na Lapa. Gravura em côncavo  intervenções  com fita colorida, resina asfáltica e estêncil. 70x65 cm.





Lava-Jato I - gravura em côncavo com intervenções  em fita colorida e giz escolar - 70x68cm, 2012


Perdido - gravura em côncavo, matriz ´papel paraná - 70x100cm, 2010





Jogadores. Xilografia e estêncil. Módulos varáveis. 30x90 cm.

Proibido Soltar Raios  Xilografia com  Intervenções em Fita e Caneta Colorida.

Lava Jato



Mudança.


Não Entre.







Marcelo Oliveira
Perdido - gravura em côncavo, matriz ´papel paraná - 70x100cm, 2010

A partir da observação da cidade, do que está ao redor. Das cenas do cotidiano, de algo que desperta para o olhar ou dos cartazes populares que anunciam produtos, serviços ou placas de sinalização. O contexto das comunidades fora da norma culta e bem aceita. As imagens vão sendo registradas em fotos de celular ou esboçadas e espremidas da lembrança em pequenos croquis que depois se transformam em gravura/pinturas. As matrizes desses trabalhos são os mais inusitados possíveis, fundos de gaveta de eucatex, papel paraná, papelão, acetato, que serão atingidos por pontas secas, redutor, lixa, seladoras ou colagravura. Canetas de tinta permanente de várias cores, aquarela, verniz, estêncil, carimbos e outros meio de interferência gráfica são usados para dar força Às estampas.

“O trabalho atual utiliza a modulação e a repetição para afirmar o anonimato.  Uma espécie de galeria de retratos com rostos de múltiplos personagens aproxima pedaços do mobiliário com o movimento e a memória da passagem cotidiana do artista em seu trajeto pela cidade.
As marcas do fundo da gaveta guardam uma potência poética e formal que é intensifica com outros procedimentos como máscaras e estêncil. Os processos de impressão utilizados por Marcelo reforçam a presença do material, restos que revelam texturas para mostrar retratos de dentro e de fora, casa e cidade, contraponto de percurso e poética artística”    
Maria Luiza Fatorelli (Malu Fatorelli) – Doutora em Artes Visuais (EBA-UFRJ).
*(trecho do texto de apresentação da exposição Coletiva do Grupo “Cadeira Virada” na Galeria Cândido Portinari na UERJ/De Cult em 2010)


Perdei Playboy! – gravura em cor à ponta seca  - 50x60cm, 2011

 
Papo Reto - gravura em côncavo, ponta seca com intervenções em fita colorida - 70x100cm, 2012

Não entre!! - gravura em côncavo com intervenções em fita colorida e resina asfáltica - 70x100cm, 2012
Lava-Jato I - gravura em côncavo com intervenções  em fita colorida e giz escolar - 70x68cm, 2012



CURRÍCULO


Marcelo Oliveira

E-mail: marcelomoti@yahoo.com.br

Formação

2005 – 2013 Gravura no ateliê do SESC Tijuca com Gian Shimada
2005 - 2007  Escola de Artes Visuais do Parque Lage com José Maria Dias da Cruz;
2001 - 2005 “Desenho de Observação e Modelo Vivo” e “Pintura” com Otávio Avancini (UERJ);
2000  Oficina de Gravuras e Impressões com Malu Fatorelli (UERJ);

Principais exposições
Mostra Internacional de Gravura Rio x Córdoba – Museu Emilio Caraffa / Argentina / Galeria Antônio Berni / Consulado Argentina Brasil -  2012, Residência Artística Museu Emilio Caraffa / Argentina 2012, Prêmio Aquisição Museo Olho Latino 5ª Bienal de Gravura- (2011); Expo Desvio Padrão – Espaço Eu Vira e Galeria Meninos de Luz RJ 2012, Feira de Arte ARTIGO – stand da Caza Arte Contemporânea 2012, Expo Coletiva Salve Jorge - Caza Arte Contemporânea - 2012, Expo Individual Galeria do Cofre – Circuito Oriente (2012) Caza Arte Contemporânea RJ – coletiva de desenho (2011); SESC Niterói – RJ Coletiva Grupo Cadeira Virada (2012); SESC Tijuca – RJ Coletiva Grupo Cadeira Virada (2011);  SESC Madureira– RJ Coletiva Grupo Cadeira Virada (2011); Galeria Cândido Portinari – DeCult.UERJ – Coletiva Grupo Cadeira Virada (2010); SESC Teresópolis – RJ Coletiva Grupo Cadeira Virada (2010);  SESC Engenho de Dentro – RJ Coletiva Grupo Cadeira Virada (2010);  Galeria de Arte FESO (Fundação Educacional Serra dos Órgãos) Teresópolis – RJ Coletiva Grupo Cadeira Virada (2010); Instituto Maria Tereza Vieira – RJ (2010) Coletiva Grupo Cadeira Virada; SESC São João de Meriti – RJ Coletiva Grupo Cadeira Virada (2010); Gráficos Rio – Museu Nacional de Belas Artes - RJ (2009);  TRANSGRESSÕES – Galeria HRocha RJ (2009);  Galeria do Poste Niterói (2009); Pequenos Formatos - Galeria Clarabóia RJ (2008); “International Small Engraving Salon Carbonari em Maramures – Romênia (2008); “Prensas e Goivas: a produção da oficina de gravura Carlos Oswald”, Galeria Cândido Portinari – UERJ (2007); 12ª Premiu El Caliu, Olot (Girona), Espanha (2007); Amigos da Casa do Artista - Retiro dos Artistas (2006); Viva Teresa! - Rio Scenariun (2005); mostra da Oficina de “Desenho de Observação e Modelo Vivo” e ”Pintura” de Otávio Avancini (2003); mostra da Oficina de Gravuras e Impressões de Malu Fatorelli (2002); “Percepções do espaço” Galeria Gustavo Schnoor - UERJ (2005).


Experiência Profissional
2011 – Logotipo em xilo para NEGI /UERJ – Núcleo de Est. de Tec. da Informação
2010 – Produção Exposição Grupo Cadeira Virada SESC Teresópolis – RJ
2010 – Produção Exposição Grupo Cadeira Virada SESC Engenho de Dentro – RJ;
 2010 Produção Exposição Grupo Cadeira Virada Galeria de Arte FESO (Fundação Educacional Serra dos Órgãos) Teresópolis – RJ;
2010 Produção Exposição Grupo Cadeira Virada;
2010 Produção Exposição Grupo Cadeira Virada Instituto Maria Tereza Vieira – RJ; 2010 Produção Exposição Grupo Cadeira Virada SESC São João de Meriti – RJ
2009 Arte do selo comemorativo dos 65 anos da Faculdade de Serviço Social (UERJ);
2009  Cartaz em xilo para Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social – ABEPSS;
2006  Produção e curadoria da Exposição Coletiva Amigos da Casa do Artista, no Retiro dos Artistas;
2006  Capa e ilustração da revista “Em Pauta” da Faculdade de Serviço Social (UERJ);
2005  Painel de rua - praça Tiradentes, projeto de revitalização da Escola de Artes Maria Teresa Vieira;
2005  Produção e curadoria da Primeira Exposição Coletiva do Conselho Regional de Contabilidade/RJ;
2005  Programador visual e artista plástico - espetáculo teatral “O camaleão, a menina e a flor de cactos”;
2004 Produção, curadoria e pintura do banner da exposição coletiva do evento “Uma Tarde Brasileira”, no      Centro Cultural Laurinda Santos Lobo;
2000 Cartaz artístico e edital do concurso para escolha da logomarca da Faculdade de
Serviço Social (UERJ);
2000 Comissão examinadora do concurso para escolha da logomarca da Faculdade de
Serviço Social (UERJ);
2000 Cartaz artístico de comemoração do aniversário da Faculdade de Serviço Social (UERJ).

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