terça-feira, 14 de maio de 2013

Conversando sobre Arte entrevistado Jung, Rio de Janeiro






Atualmente  dividido entre a advocacia e a arte, Jung vem aos poucos construindo uma obra séria e consistente. Na realização dessa entrevista, agradeço a gentileza do Jung e a disponibilidade da nossa amiga comum Marcia Zoé Ramos, que muito ajudou em sua preparação.


- Conte algo sobre sua história pessoal.
Nasci em setembro de 1963, no Rio de Janeiro. Desde criança foi influenciado por meu tio, Luizandro Guerreiro, comerciante, antiquário e colecionador, com um grande acervo na década de 70 em sua casa e na loja de Copacabana.  Através dele, tive o privilégio de conviver desde muito cedo com o universo das artes. Esse contato foi importante para minha vida. Conclui o curso em Direito, mas não abandonei em nenhum momento essa relação com a arte. Hoje tento administrar as minhas duas paixões e minha rotina alterna os problemas de um escritório de advocacia com a tranquilidade do ateliê.

- Como a Arte entrou em sua vida?
Ninguém fica imune convivendo com obras de arte. Tive o privilégio de estar entre elas desde cedo. Esse convívio foi cercado de admiração e respeito pelos artistas e o processo de fruição se iniciou ai. Meu lado intuitivo sempre contribuiu muito pra seguir esse caminho, assim, tive a oportunidade de participar de um grupo de pintores que trabalhava ao ar livre. No começo, uma experimentação pictórica, depois, o início do trabalho artístico se deu por influencia desse grupo de artistas.  Eles me incentivaram e comecei a pintar na rua, sempre em grupo, na busca da melhor técnica, especialmente com trabalho figurativo. Esta experiência livre me levou a buscar algo mais didático e assim passei a frequentar as aulas de modelo vivo ministradas pelo Mestre Ilídio Bandeira de Mello, pessoa fantástica que guardo com muito carinho em minhas recordações. 

Um fato curioso é que minha obra abstrata teve origem a partir da tentativa de destruir um trabalho que não me agradava. Na tentativa de refazer uma tela; pois imaginei um trabalho com o fundo preto, após colocar muita tinta, grata surpresa!  O fundo colorido da pintura original sobressaiu ao ponto de fazer com que eu decidisse que o quadro estava pronto, ABSTRATO.  Parece simples quando recordo agora essa passagem, percebo a importância que essas “aulas” tiveram em minha formação “não acadêmica” em arte.

- Como foi sua formação artística?

Como citei anteriormente, minha formação acadêmica se deu no campo do Direito e a artística eu diria que se inicia em atelier livre por volta do ano de 2000.

Frequentei o atelier de Bandeira de Mello e muito depois busquei em instituições como o Escola de Artes Visuais, Parque Lage, cursos que pudessem me abrir novos caminhos. Tenho que fazer um agradecimento todo especial ao professor e agora amigo Franz Manata que me ajudou muito na compreensão da arte moderna e a contemporânea. Também não poderia deixar de citar uma pessoa que tem influenciado muito meu pensamento quanto à arte, o mestre Paulo Roberto Duarte, que recentemente iniciou um curso na EAV - Moderna e contemporânea | Passagens e persistências na arte.
Atualmente frequento a turma de pintura do professor João Magalhães na EAV, e alguns cursos livres no MAM com a coordenação pelo Luiz Camilo Osório.
Ademais disso, tenho recebido constantemente a orientação artística da Marcia Zóe Ramos com quem mantenho uma parceria no sentido de aprofundar a minha pesquisa conceitual. Essa parceria vem se desenvolvendo desde meados de 2012 e tem sido de grande valia para o desenvolvimento do meu processo artístico.

 

- Como você descreve sua obra?
Sou um artista cuja experiência pictórica sempre falou mais alto. Mas, em meio a tantos questionamentos, encontro-me como pesquisador inquieto, aquele que reflete, analisa sobre o significado e importância da arte, não me detendo a uma linguagem específica como pintura, escultura ou fotografia. Eu entendo que a “arte” é o todo em que o específico esta inserido. Obviamente esses meus questionamentos sobre o que é “Arte”, de sua complexidade, surgem inúmeros vetores importantes para se pensar e contrapor visões. Seria uma leviandade dizer que ignoro preocupações como beleza, forma e seus possíveis significados para meu processo criativo.
Nada contra pensar projetos com início, meio e fim.  Particularmente, eu prefiro o imprevisível, os problemas que enfrentamos do início ao fim da execução.
Atualmente pesquiso outras formas que busco nos meus próprios trabalhos e tenho trabalhado com aguadas, procurando investigar os sinais que elas me revelam.

- Que artistas influenciam seu pensamento?

Falar de influências é muito interessante.  Buscando a opinião dos meus pares, comecei a tomar conhecimento de que não estava só nesse mundo, sempre considerei as trocas de ideias algo muito importante. Aprender com o outro, ver o que está sendo produzido é de vital importância pra quem também cria. Dentre tantos artistas nacionais, (certamente vou esquecer alguns) IBERÊ CAMARGO, ANTONIO BANDEIRA, ANTONIO DIAS e CARLOS VERGARA. Impossível deixar de citar os mestres KAREL APPEL e MILTON RESNICK, este último, de forma muito especial.

 

- O que é ser um pintor no século XXI?

Há vários desafios lançados ao status do “pintor” no séc. XXI.
Para alguns, o pintor (artista plástico) tornou-se uma “subespécie”, ou relegado a uma categoria inferior da arte. Para outros permanece o status da “grande arte”.
Atualmente, a visão artística contemporânea está muito focada no conceito e não na forma.
É extremamente importante o convívio simultâneo da arte moderna e da contemporânea.  Permitir ou tentar separá-las é desvalorizar a arte (lato sensu).
Acho que trabalho puramente conceitual afasta o público de menor informação, construindo um verdadeiro abismo entre o espectador comum e o artista. Diante disso resta uma indagação: o artista visual pretende popularizar a arte ou mantê-la sofisticada para poucos? Acredito ser esse o maior embate atual.
Outro fato relevante do século XXI reside na “ausência” do artista na execução efetiva da obra, o que corrobora como questões de autoria e, o que é uma obra de arte, quem elege o que é uma obra de arte?
Retornando para o público em geral, o deslocamento desse status entre os espaços estéticos desconstrói a imagem do artista de outrora.  O que podemos notar, quando pensamos no papel que o “Artista” e a “Arte” ocupam no século XXI, significa refletir sobre a negação desse status e deparamo-nos com a desvinculação dessa imagem elaborada ao longo dos tempos.
O que podemos perceber até nossos dias é a multiplicidade de facetas do “Artista” da “Arte” e da “Obra” e que não há um único caminho a percorrer entre preferências, rótulos e tendências. Cada situação deve ser considerada a partir do contexto que está inserido, seja psicológico, físico, social, cultural...
A Arte Conceitual é composta de ideias, que são seus os aspectos fundamentais, assim, ideia torna-se arte e a execução é um procedimento. 

Especificamente, quanto ao meu trabalho, verifico que na maioria das vezes em que uma pessoa tem contato direto com o meu trabalho, seja ele da série “Regular”, “irregular” ou a “orgânico” o instinto do apreciador é imediato de ter contato tátil com os elementos que estão ali inseridos.  O volume e a intercessão dessas séries faz com que o espectador interaja de forma quase obrigatória. Chego a conclusão que o artista do sec. XXI,  encontra territórios e aborda o caráter da vida como um todo, seus conflitos são inesgotáveis e as possibilidades de expressão são combinadas a elementos amalgamados por um espectro criterioso de impressões.

 - O que é o Atelier Jung?
Como autêntico carioca, mantenho meu ateliê no centro boêmio do Rio de Janeiro, no bairro da Lapa.
O Atelier Jung é esse espaço destinado à criação, pesquisa e reelaboração da arte. É a busca incessante de fazer uma releitura do belo como simetria, como expressão e verdade.
No Atelier, entre obras e amigos o exercício e a disciplina encontram o prazer no fazer, na descoberta do inusitado que contribui para o crescimento e o desenvolvimento dessa consciência estética e perceptiva.
Não tenho o objetivo de reinventar a roda, pelo contrário!  Buscar novas formas, com outras fórmulas e materiais pouco explorados. Sempre na busca do “belo” concreto ou conceitual, fazendo uma releitura da pintura da maneira que mais me agrada, buscando o equilíbrio no imprevisível.

- É possível viver de Arte no Brasil?

A dificuldade de viver no Brasil independe da profissão escolhida.  A arte como qualquer outra profissão é difícil, especialmente no início. Você cria uma expectativa que na maioria das vezes é frustrada por uma ou mais razões. Aqui dependemos muito da educação da população em geral. A Arte não é “gênero” de primeira necessidade para a maioria da população e por isso poucos têm acesso.  Penso que a educação seja a chave para melhorar essa situação, viabilizando uma melhor qualidade no ensino desde o básico até chegar ao mercado propriamente dito.
Uma população que ainda carece de insumos básicos como saúde, moradia, segurança etc... Falar em arte não é fácil, mas é possível. Toda a manifestação artística é importante, e criar ações educativas que despertem a valorização da arte, do artista, criar mais espaços para exposições, discutir e incentivar novos artistas, possibilitando a fruição, são situações que precisam ser constantes.  Divulgar arte é imprescindível e apropriar-se dela como elemento agregador de conhecimento é fundamental.

Como descreve sua obra?
A partir 2007, ocorre uma modificação em minha pintura,  e com muito vigor, essencialmente expressionista sem deixar de lado o experimento de novos materiais. Abandonei quase que totalmente a figuração, muito embora ela esteja presente, especialmente nos meus manuscritos e  material de pesquisa  sobre arte. Assim, meu trabalho que sempre carregou marcas do expressionismo, atualmente passa por  uma investigação pictórica à qual aparece o volume como grande fator de relevância.

 Qual o lugar que a arte do século XXI ocupa dentro e fora das galerias?
A arte existe e vai existir independentemente das galerias.  Elas deveriam servir como facilitadoras de divulgação, introduzindo o artista no mercado, mas  infelizmente  não acontece na maioria das vezes.
O artista de forma geral ambiciona o reconhecimento do seu trabalho no lado “oficial” e a Galeria se presta a fazer o lado burocrático da arte: expor, divulgar, mostrar e vender.
Em síntese, eu penso que as galerias sérias são importantes, principalmente, quando atuam em parceria com o artista.

 

- Quais são seus planos futuros?
Pretendo continuar com o aprendizado teórico e o Parque Lage tem se mostrado muito eficiente, especialmente, em razão do “time” de professores que a EAV nos proporciona.
Pretendo ampliar o Atelier para desenvolver alguns trabalhos em maior escala e estabelecer um intercâmbio baseado em vivências. Acho que as trocas permitem um crescimento muito grande do trabalho próprio e de outros parceiros.
Espero continuar recebendo os amigos que gostam de arte, os artistas amigos, professores ou qualquer pessoa que se interesse por arte. Tenho uma alegria enorme com a presença de todos. 

- O que faz nas horas livres?
Tenho uma bela família, composta de uma linda mulher e duas meninas de 7 e 10 anos, que me dão tudo que eu necessito para continuar a desenvolver o meu trabalho artístico, ou seja, o apoio da minha família é incondicional.   Por isso, todo o tempo livre, que já é pouco, dedico às minhas mulheres.
Aos amigos revelo que depois de velho tive que aprender a brincar de boneca .


Série Regulares


Série Regulares



Série Regulares


Série Iregulares

Série Iregulares


Série Negra.


Monotipia.



Série Sem tinta.

Série Sem Tinta.


Série Irregular.


Série Regulares.


Série Enigma



Série Enigma.




Série Enigma.


Série Enigma.

Série Enigma. 

Um comentário:

Anônimo disse...

Parabéns Jung. Gostei de sua entrevista e de conhecer mais sobre você e sua arte que admiro tanto.Ireci Maria.

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
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