
Quem é Allan de Lana ?
Allan de Lana
Frutuoso é a pessoa, nascido em Brasília, 1980. Pai e mãe mineiros, aposentados
como psicólogo e professora, preocuparam-se em transmitir aos filhos seu apreço
ao "faça você mesmo", que aprenderam ainda muito novos, trabalhando seja na
marcenaria ou na mercearia.
Morávamos na cidade satélite do Cruzeiro
Velho, onde os becos, bastante largos, eram cenário de muita brincadeira, às
vezes recebiam varais com roupa estendida da vizinhança ou fogueiras com muita
gente ao redor!!!!!! Ainda criança, tentei ser vendedor de jornal, mas a timidez
era grande para abordar as pessoas e a comissão ficava sempre muito baixa. Foi
meu primeiro trabalho infantil (rsrsrs!)
Junto a tudo isso, havia o
cenário da abertura política e as crises do país. Lembro, por exemplo, de ter
ficado fazendo companhia a meus pais em uma fila durante mais de hora, devido a
um racionamento de comodities, onde cada família só poderia comprar até um litro
de leite e cinco pães - coisas assim, do arco da velha, que eu achava muito
pitorescas.
Depois mudamos para a Asa Sul, onde as ruas eram desertas e o
medo da criminalidade era maior… Passei a frequentar shows de rock e a tocar em
uma banda punk da escola. Tentei largar tudo para tocar guitarra. Passei por
algumas bandas, mas ainda era condescendente demais para uma escolha como essa,
que exigia mais radicalismo e dedicação do que eu era capaz. Hoje, o som é uma
das matérias mais fortes de que posso lembrar.
Quanto à formação escolar,
as crianças da família foram matriculadas em escolas do governo, a meu ver,
devido a dois princípios: primeiro, de que nelas nelas haveria inúmeros bons
educadores apaixonados pelo ofício e, em segundo lugar, está a idéia de que o
sujeito ser bom é mais consequência de sua autodeterminação que de imposições
alheias. Uma escolha epicurista que foi mais positiva para minha formação do que
terminar o ensino médio ou passar no vestibular. Em minha opinião, em Brasília,
esta cidade-utopia, o preparo do sujeito para o mercado não deveria ser o
principal norte da educação.
Uma máxima de Epicuro diz que "o maior fruto
da autodeterminação é a liberdade", só faltou dizer que a "liberdade" estava
sujeita a atentados, acasos e imprevistos e é, em grande parte, alheia ao
esforço individual.
Talvez sob influência daquelas escolhas
paternas/maternas, hoje, tento viver intensamente o urbanismo de minha cidade…
Esta é uma cidade linda, o Plano Piloto é uma obra rara da modernidade que a
sociedade contemporânea optou por condenar e virou as costas. O transporte
público local é marcado por "concessões" vitalícias e sucateamentos, a ocupação
do espaço se tornou impulsiva e selvagem…
Coloco a opção por uma
experiência urbana intensa entre as primeiras linhas que contam para que eu seja
esta pessoa e este profissional. Certa vez, um redator de texto de uma
instituição mais que séria extirpou essa referência em duas linhas de uma curta
biografia e esqueceu de deletar os sinais de pontuação, entre os quais ficou o
vazio da minha identidade excluída. Quando observei o erro, eles corrigiram a
pontuação errada, mas não quiseram nem saber de publicar coisas sem
diploma.
Além de trabalhar com arte, sou Técnico Bancário.
Como foi sua formação
artística?
Muito boa para mim mesmo, como pessoa! Havia
passado dos 20 anos de idade quando percebi a arte como possibilidade. Eu tinha
me matriculado em uma turma de pintura da qual minha mãe fazia parte e, com o
passar do tempo, isso levou a certas lembranças. Quando criança, o desenho, os
trabalhos com papel, o violão e, posteriormente, a guitarra, tinham feito parte
inegável de meu desenvolvimento. Configuravam formas de linguagem e acesso a
idéias que, na língua corrente e na minha timidez diante de um mundo esquisito,
eram interditadas.
Então, parei de ver essas coisas todas como
passa-tempo, pois na verdade elas são mesmo é um modo de viver a vida (o que não
deixa de ser uma forma de passar o tempo - rsrsrs!) Foi quando comecei a buscar
linguagens capazes de driblar determinismos. Passo a gostar de ler, a ter um
contato prazeroso com a filosofia e a literatura, etc. pois elas me conduzem
pelo mundo histórico e os mundos possíveis. Principalmente, quando não utilizam
um léxico, mas o reinventam a cada frase.
Na universidade, pude explorar
o entusiasmo de transitar entre diversos contextos de linguagem (sobretudo
visuais e verbais). Desenvolvi a capacidade de formalização de um pensamento.
Desfrutei muito, também, da possibilidade de não seguir estritamente os ditames
do fluxo de disciplinas. Utilizei fartamente a Biblioteca Central (UnB), onde
tive contato com correntes de pensamento como o existencialismo, a
fenomenologia, a Dialética e a Estética hegelianas, o criticismo kantiano, os
estruturalismos… Às vezes, tinha até leitura sobre arte. Isso e as pessoas com
quem me relacionei e relaciono empenhadas no mesmo tipo de busca continuam
agindo em minha formação.
Que artistas influenciam seu
pensamento?
… Certas influências importantes ocorrem de
forma pouco clara ou mediadas por um texto de outro autor. Mas os artistas que
eu posso citar, mais facilmente são: Werner Herzog; Guimarães Rosa; Cildo
Meireles; Hélio Oiticica; Lygia Clark; John Cage; os minimalistas e
conceitualistas americanos; Redson (da banda Cólera); Oscar Niemeyer; Laurie
Anderson; Joseph Beuys; Fluxus; o pessoal do ambiente, da instalação, Robert
Smithson, Alan Kaprow; da arte-processo, Francis Alys, Paulo Bruscky etc. Além
dos amigos conterrâneos, contemporâneos e congêneres, que me fervem de questões.
Além do estudo de arte o que ajuda na
elaboração dos seus trabalhos?
Além dos aspectos
citados, o que me faz continuar trabalhando é o saber que a arte põe em ação. A
cada dia, atualmente, tenho sido mais atraído pela vontade de conhecer,
perceber, ver, ouvir, tocar. A busca pela escuta do mundo em que vivo é uma das
coisas que me impelem a forçar a vista, o tato, o ouvido, me colocar a caminho à
exaustão e elaborar os trabalhos mais recentes. Mais ou menos como Ives Klein
quando dizia (algo como) querer tocar "o lado de lá" do azul do céu… Em termos
práticos, ainda é bom morar sozinho e poder utilizar o apartamento minúsculo
como ateliê e estúdio.
Como você descreve seu trabalho como
artista?
Essa é uma tarefa difícil, quando a relação
trabalhador-trabalho se inverte facilmente. De modo geral, eu não saberia
discernir a linha divisória entre "artista" e "pessoa" sem criar duas
caricaturas. Para esse trabalhador, o trabalho nem sempre é o que se leva a
público (o produto fabricado), mas inclui o esforço ou laboração e um processo
em geral complexo. No meu caso, pode incluir caminhadas, viagens, anotações,
fotografias, gravações de áudio, vídeos, desenhos, pequenas pinturas etc. e
esses meandros são guardados, de modo que posso consultá-los.
O que
pretendo ver e mostrar, no final, quase sempre está relacionado a de que modo o
trabalho se dá no lugar em que será apreciado. É importante que a obra seja um
nascimento mútuo de tudo o que a constitui e, se está na rua, que proporcione
também o aparecimento dessa rua escondida pelo uso. Tem uma influência
existencialista nisso, mas também me parece que uma presença do pensamento
escultórico - esculpir, ou fazer aparecer - e da relação de coexistência
imediata que o desenho cria entre materiais e suportes.
Acho que meu
trabalho tem sido uma tentativa de experimentar e propor mudanças de olhar
mínimas para que um contexto se desdobre em outro(s). Algumas vezes, inclusive,
chego a mais de uma instalação ou intervenção em momentos ou lugares distintos e
algumas instalações são, na verdade, momentos de uma investigação posta em obra.
Isto é, uma ação ou acontecimento dialético mostrado em diferentes
etapas.
Em Achados: diário de uma artista errante, por exemplo, no
primeiro momento o diário era facilmente acessado pelas pessoas, sobre a mesa de
uma residência - onde foi montado pelos próprios moradores dessa residência. No
segundo momento, já levado para uma galeria, foi posto no meio de um grande
retângulo de fino véu de poeira marrom sobre o chão de mármore e esse frágil
novo elemento (pó coletado no caminho e depois geometricamente soprado no piso)
se colocava como convite aos visitantes a acreditarem na representação, pois, de
outro modo, caso desacreditassem, poderiam muito facilmente invadir o frágil
retângulo e acessar o diário, sob pena de destituírem o caráter de obra
instaurado pelo espaço de distanciamento ou representação que ela
necessita.
Parece-me que um trabalho de arte nem sempre pode ser
confundido, portanto, com a informação extrínseca que ele veicula. Às vezes, ele
é isto, ou seja, sua própria transpiração.
Você participou do Rumos Itaú Cultural,
como foi a experiência?
Intensa. Fui selecionado para
realizar uma intervenção que começou em 2008, no Espaço Piloto da UnB, e
ampliara-se em 2010, no CCBB Brasília, quando ganhou inclusive o nome de Setor
Faroeste. Uma referência às noções históricas do oeste como lugar do novo e da
prosperidade, bem como à divisão do espaço urbanístico de Brasília em setores e
à criação do famigerado, polêmico e especulado Setor Noroeste, exemplar para
conhecer o crescimento atual de Brasília e de outras cidades.
Trata-se de
um trabalho de grandes dimensões, que contém sons captados em matas, áreas
rurais (animais) e estúdio (flautas) e instalada em lugares de transição
(parede, calçada, estacionamento etc.). Porém, sua visualização e escuta exigem
muito do visitante, pois atua em níveis sonoros baixíssimos e os componentes
visuais são camuflados ou omitidos. Além disso, no projeto inscrito no Rumos, a
obra se estendia em duas partes altamente separadas em termos espaciais, em uma
investigação do que constituiria a unidade de uma instalação.
Setor
Faroeste 1 é o som de áreas rurais de MG lançado moderadamente no ambiente
expositivo e a criação de uma região vazia, sinalizada por uma iluminação
magenta. Camadas escondidas desse som podem ser acessadas no contato do ouvido
com a parede iluminada. Setor Faroeste 2 é uma composição aleatória de notas de
flauta doce emitidas com sopros longos, cuja base são as frequências dos ruídos
contínuos da cidade - que têm uma espécie de afinação impressa pela quantidade
de rotações dos motores, hélices e sistemas de energia elétrica.
A obra
foi executada na íntegra em São Paulo. Para SF 2, conseguimos apoio do Centro
Cultural São Paulo (CCSP) e da Secretaria de Cultura do Estado, para "ocupar"
uma área que vai do viaduto da Beneficência Portuguesa (acima e abaixo desse),
passando pela entrada da estação Vergueiro e no caminho que vai até o CCSP. Foi
uma grande realização com todo o empenho possível da produção e meu. SF 1 ficou
no Itaú Cultural.
Nas itinerâncias (MAMAM Recife e Paço Imperial do Rio
de Janeiro), a instalação de SF 2 teve problemas relativos à produção: o esforço
requerido é vasto e a equipe de montagem poderia correr alguns riscos que foram
evitados pelo Itaú Cultural. Por isso, no Rio de Janeiro, surgiu o Setor
Faroeste 3, mais condensado, simples e audível que o 2. Tem características mais
presentes de uma composição musical, adota elementos relativos ao campo da
música ambiente e se apropria das características arquitetônicas do edifício (do
Paço Imperial/RJ).
SF 3 inclui pequeninos elementos visuais destinados a
colaborar com a sua interpretação e é montado sobre capitéis e pórticos de pedra
barrocos, a cerca de 2,9 metros de altura. Todos os elementos da instalação,
incluindo fios, pesam 3,6 Kg.
Além disso, conheci alguns contemporâneos cujo
trabalho já me admirava. Tive oportunidade de ouvir a fala de todos os
participantes e sou muito grato por essa oportunidade, que nem sempre faz parte
do programa e foi uma escolha dessa curadoria geral. Vi pesquisas próximas de
campos a que tenho me aplicado, como a instalação e a audioarte… Realmente, sou
muito grato por estar ali entre os selecionados e poder até contar com alguns
gurus que me auxiliaram com o poder de sua mente, como o Paulo Miyada e o Matias
Monteiro.
Qual a sua expectativa para a exposição no
Paço Imperial, Rio de Janeiro?
De início, assim: "Uau,
vamos para o Rio, berço do neoconcretismo!!!" O entusiasmo foi tanto que Setor
Faroeste se expandiu, mas minha postura não passava de um preconceito. Na
verdade, os movimentos de arte brasileiros deixaram marcas indeléveis na
produção contemporânea, mas também legaram um fator a ser historiado. Como é que
sambar, nos dias de hoje, no Rio de Janeiro, continua a ser um ato político
abordado pelas instituições do mesmo modo como o foi na época da
Apocalipopótese?
Na grande metrópole cultural ainda é possível notar o
sentido do que chamamos de "antiarte", uma expressão demasiadamente naturalizada
e banalizada hoje em dia, como se fosse o mesmo que "arte". E essa constatação
significa que as instituições necessitam de conservação no sentido estrutural.
Isto é, que elas repelem ou censuram o que aparentemente não pode ser tratado
como anedota ou pura ficção.
Justamente na Cidade Maravilhosa, um gestor
cultural me questionou: "por que vocês artistas têm essas idéias? Por que vocês
fazem esse tipo de coisa?" Foi um momento de transe para mim. Transe e
metempsicose, eu me transformei em uma pedra.
Mas a exposição está montada e
tão maravilhosa quanto a cidade. Além disso, sempre admirei a forma como o Paço
Imperial conserva a memória de nossa realeza. Um espetáculo!
Como você descreve o mercado de arte em
Brasília?
Sou um pouco "out" no mercado (fico mais
dedicado mesmo à pesquisa), mas tenho alguma visão dele. Os espaços
institucionais de bancos, que promovem uma circulação ampla de arte
nacionalmente, são os mais presentes e frequentados. Os empresários menores
costumam encontrar dificuldade em concorrer com essas instituições. Mas a
tendência, me parece, é que surjam cooperações, já que atualmente os bancos têm
interesse em exercer um papel social reconhecido, por questões de imagem. Uma
vez, uma dona de um espaço, muito simpática, me disse assim: "ingressos a preços
populares é dumping!!! Como é que eu vou conseguir público desse jeito?". Os
ateliês coletivos e com iniciativas próprias de produção e difusão tem sido algo
interessante - cito, por exemplo, algumas palestras que assisti e uma que
apresentei no Espaço Laje, organizadas pelo Virgílio Neto e pelo pessoal da
revista Samba, iniciativas totalmente independentes. Há ainda um mercado
crescente de galerias particulares e uma quantidade eterna e também crescente de
"artistas emergentes" (?). Mas se, de fato for implementada uma escola superior
de arte, que está na ordem do dia, certamente esse quadro mudará e até o sistema
de cultura do DF poderá passar a um novo patamar dentro de poucas gerações.
Você escreve sobre seu
trabalho?
Às vezes faço anotações teóricas, mais para
mim mesmo, para me situar melhor na pesquisa e nas escolhas. E às vezes escrevo
sobre alguma idéia de trabalho por que sei que não terei como realizá-lo tão
cedo…
É possível viver de arte no
Brasil?
Eu acredito que sim mas, como é que faz isso, eu
já não sei.
O que pensa sobre os salões de Arte?
Alguma sugestão para aprimorá-los?
Até hoje, só consegui
ser selecionado para um único salão, com uma série fotográfica e, quando cheguei
à abertura da exposição, tinha até foto misteriosamente dependurada de cabeça
para baixo. Historicamente, os salões não-oficiais têm uma relevância grande,
pois proporcionaram um entendimento mais verdadeiro sobre a arte desvinculada
das narrativas mestras, além de serem um estímulo à pesquisa de artistas que de
outro modo teriam mais dificuldade ainda em bancar seu próprio trabalho. Hoje,
os salões assumem papéis diversos e, os melhores que conheço, não são
distribuidores de prêmios, mas inserem o artista no mercado de galerias. Desse
ponto de vista, parece-me que algo como um salão pode ter seu valor, uma vez que
organiza recursos de uma coletividade para projetá-la, e não é apenas uma
loteria. Muitos salões preservam a moda antiga que o próprio nome sugere e,
então, eu não tenho muito interesse nisso. Contudo, me parece interessante essa
mentalidade meio de "consórcio".
Quais são seus planos para o futuro?
Estou empenhado em uma individual a ser realizada em São Luís do Maranhão, na galeria do SESC, que está bem próxima. Depois disso, não sei o que acontecerá. Gostaria de lhe agradecer a oportunidade de responder a essas perguntas.
"Milhões de vespas dançando com valentia no último raio do Sol poente - pormenor do ateliê do artista";
Ding, 2006.
"Regiões Audíveis (o Piscar de Olhos) - Espaço Piloto (Universidade de Brasília), 2008";
"Achados: diário de uma artista errante, Espaço Cultural Marcantônio Vilaça, Brasília, 2009";
"Achados: diário de uma artista errante - casa participante do projeto Moradas do Íntimo, Sobradinho/DF, 2009";
"Ryu Halls Móveis Deley - loja de móveis Hill House, Brasília/DF, 2012";
Setor Faroeste.
Plano de Inserção. Setor Faroeste, 2012. Centro Cultural São Paulo.
"Montagem de 'Por favor, não ultrapasse a linha branca' - Espaço Cultural Renato Russo, Brasília, 2011."