quinta-feira, 21 de fevereiro de 2013

Conversando sobre Arte entrevistado Estan de Lau








Quem é Estandelau?   
Artista Plástico, nascido em 1983 em Contagem, Minas Gerais. Morei por um período em Governador Valadares, Minas Gerais e em 1989 mudei para Ibirité, região metropolitana de Belo Horizonte, cidade onde moro até hoje. Fui criado pela minha mãe que é professora de Biologia da rede pública de ensino e pela minha avó que é costureira. Tanto minha mãe quanto minha avó são “leitoras vorazes” e aprendi a adorar literatura pois tenho as duas como referência para tal hábito.

Como a Arte entrou em sua vida?
Foi na minha adolescência que tive meu primeiro contato com a manifestação que fez minha cabeça. Refiro-me ao graffiti. Onde moro, havia um galpão abandonado da Rede Ferroviária Federal S.A. Lembro-me como se fosse hoje que costumava acordar bem cedo e sentar nesse galpão a espera dos vagões que em sua maioria estavam pichados ou repletos de graffitis. A imagem mental da passagem dos trens “rabiscados” ficava gravada por alguns minutos na minha memória. Comecei então a tentar copiá-las e assim comecei a criar uma compilação particular de interpretação dos graffitis que via nos vagões.

Como foi sua formação artística? 
Iniciei meus estudos em 1996 no Estúdio HQ, no Bairro Santa Efigênia, na cidade de Belo Horizonte. Nessa escola tive meu primeiro contato com arte. Aos treze anos de idade e residindo em Ibirité, cidade da região metropolitana de Belo Horizonte, até então eu nunca havia transitado sozinho por Belo Horizonte. Minha mãe orientou-me a observar a arquitetura, as pichações e toda uma simbologia urbana como pontos referenciais para traçar e recordar o meu trajeto. Essa percepção do espaço fez com que eu entendesse um tipo de manifestação urbana que além de orientar meus passos dentro da cidade, chamava minha atenção. Refiro-me aos poucos graffitis que via no caminho e que impunham sua presença pela audácia. Transformei essa vivencia banal que eram as caminhadas, em uma experiência ideológica que me orientou e orienta como indivíduo presente no cotidiano dos bairros e cidades por onde passo.
Na Escola Guignard, eu tive um contato mais formal com algumas práticas artísticas que ampliaram minha visão do mundo da arte. Tive também, duas bolsas de iniciação científica uma intitulada “Guerrilha visual: imposição estética como forma de existência” e a outra “Como desviar-se da distopia – notas sobre street art”. Com o incentivo das bolsas tive a oportunidade de aprofundar meus estudos teóricos a cerca do graffiti, da street art e da pichação buscando reflexões e desdobramentos. Com isso, minhas experiências anteriores foram somadas a esses novos conhecimentos e estão dando origem a minha produção artística atual.

Como você descreve sua obra? 
Meu trabalho se desenvolve a partir justaposição entre imagem e palavra onde tenho como objetivo diluir os limites impostos pela visibilidade das imagens e pela legibilidade do texto. Isso acontece, na medida em que esses limites interagem criticamente tendo o cotidiano como temática e entendendo-o como ferramenta para prática contextualizada do diálogo. Trabalho com desenho, pintura e fotografia.


Que artistas influenciam seu pensamento?
São muitas as minhas referências artísticas nem dá para citar todas. Atualmente tenho dois amigos e interlocutores constantes que são a Juliana Gontijo e o Marcel Diogo. Apesar da diferença entre as pesquisas o diálogo entre nós é constante e positivo. Outros artistas que influenciam meu trabalho são: Brassaï, David Hockney, Grayson Perry, Miguel Gontijo, John Fekner, Steve Powers, Marco Paulo Rolla, Sérgio Vaz, Raymond Pettibon, Evol, Raquel Schembri, Tom Drahos, Robert Frank, Gordon Matta Clark para ficar nos nomes mais conhecidos.


Que outros estímulos servem para construir seu trabalho?
Literatura e música. Gosto de ler autores como Gregory Corso, LeRoi Jones, Sam Kashner, Neal Cassady, entre outros. Melhor dizendo tudo que cair em minhas mãos será lido. De bula de remédio a panfletos religiosos sobre o fim do mundo. Gosto de analisar como os designers personalizam as fontes, se as combinações realmente foram bem sucedidas e as possíveis interpretações que são ativadas quando estou diante de algum texto. Um livro ou texto por mais banal que pareça, aciona sua leitura e eu como leitor sobreaciono, jogando com a tipografia e suas representações. Penso a palavra como um sistema de ícones, formas e padrões que jogam comigo me desafiando a produzir meus próprios significados. O grande barato da leitura é ela tomar de empréstimo sua atenção enquanto nós tomamos de empréstimo seu “discurso”. De música fica difícil citar tudo que escuto, mas fico com Roots Manuva, Johnny Clarke, Subsolo, Matéria Prima, Monge, Burial, Late, Lee Perry, Augustus Pablo, King Tubby.

O que é ser um pintor no século XXI?
É estar diante de uma prática que exige muito tempo e concentração em uma era de aceleração e de excesso de informação desnecessária. Pintar pra mim é uma espécie de “lamento imagético” na vida de um homem. Esse ato celebra uma mesma tragédia em dois momentos. O primeiro é não conseguir o que se almeja como resultado. Seja na construção da imagem ou na repercussão da mesma. O segundo é alcançar o objetivo desejado. Porque daí em diante surge à necessidade no meu processo de mais experimentos e de desdobramentos futuros. O que geralmente resulta em falhas e que me remaneja novamente ao primeiro tempo.

Como a Street Art é remunerada?
Esse é um assunto complicado. Ao pensarmos em street art, nos deparamos com uma definição extremamente ampla e essa amplitude reflete a imprecisão desse gênero. A street art tem como antecessor o graffiti e uma dívida histórica com o mesmo. Nenhum desses dois gêneros é totalmente puro. Uma das principais razões para se fazer uma distinção entre street art e escrita graffiti é que a escrita graffiti tem uma reputação internacional muito negativa, na medida em que  infringe  normas de conservação do patrimônio público; em função disso, muitos grafiteiros preferem a obscuridade. Em uma comparação plausível, seria como pensarmos os writers (grafiteiros) no mundo como os pichadores no Brasil. Os artistas da street art estão mais preocupados com a percepção do espectador, já os grafiteiros geralmente se importam com uma percepção dentro de um grupo fechado e de iniciados dentro dessa cultura. Vemos aqui o início de um processo segmentário. Esta separação envolve vários fatores classificatórios, incluindo diferenças técnicas, motivacionais e frente ao público, tendo como principal fator as maneiras distintas de como esses gêneros realmente se percebem. O que eu quero dizer com essa colocação é que ao pensar street art devemos lembrar que existe uma história muito específica que narra não linearmente, mas de forma decisiva uma discussão estética sobre as tensões sociais e a relação de exclusão no espaço urbano que conferiu ao graffiti, principalmente o nova-iorquino dos anos 80, um lugar na história da arte. Porém, na Europa e nos Estados Unidos graffiti é uma manifestação transgressora que continua sendo vista como crime.
      Vivemos uma era onde toda e qualquer manifestação pode vir a ser comercializada e com a street art não está sendo diferente. Creio que as formas de se remunerar tais trabalhos são acordos que os artistas estabelecem com seus contratantes e não uma forma regulamentada e fixa de remuneração. O que parece ser irônico nesse jogo, é que uma manifestação que tem raízes históricas ditas “criminosas” ao ser repaginada, pode ser vendida por grandes quantias.


O que você pensa sobre os salões de arte? Alguma sugestão para aprimorá-los?
São grandes ferramentas de movimentação do mercado de arte, pois além da formação de público também criam estrutura através de premiações e visibilidade para a carreira do artista. Como sugestão, penso na criação de salões específicos para modalidades como street art e seus subgêneros. Isso funcionaria como uma espécie de novo formato para os salões e exigiria uma nova metodologia para a seleção dos artistas, para a amostragem dos trabalhos e o surgimento de uma crítica especializada e coesa para tratar da amplitude dessas manifestações.

Você mora numa cidade pequena, como comercializa seus trabalhos?
Faço algumas vendas diretamente com os consumidores, pois ainda não tenho uma representação feita por galerias.  Sou um jovem artista e tenho muita estrada pela frente. Entender e ter um posicionamento com relação a este mercado é algo que mescla competência (às vezes excessiva), um embasamento discursivo que alicerce um excelente trabalho plástico e um pouco de sorte. Creio que as vendas são um reflexo desses entendimentos. A questão geográfica não é um impedimento.


É possível viver de Arte no Brasil?
Sim é possível. Porém, é escolher trilhar um caminho árduo por uma estrada longa e cheia de espinhos. No entanto, como diria minha avó: “Ninguém falou que seria FÁCIL. Ainda sim, valorize as asperezas, tenha fé, siga em frente e se vire”! Tenho uma vida profissional dedicada, disciplinada e constantemente renuncio a muitas coisas em prol das minhas convicções.


Qual a importância da Residência Artística?
As Residências artísticas são primeiramente oportunidades de trabalho, várias oferecem remuneração para os artistas selecionados e isso é importante, pois, despesas que muitas vezes inviabilizam a execução de um bom projeto ganham a possibilidade de existência, a partir do momento que o artista é contemplado por um edital. Outro fator que julgo essencial é a Residência artística como um lugar de aperfeiçoamento profissional a partir do contato com outros artistas e suas pesquisas, orientadores, curadores e os demais profissionais da área. As Residências de maneira geral funcionam como “tripés”, porém não como três pontas isoladas, primeiro tem a questão monetária que viabiliza os projetos, segundo os contatos que são feitos na trajetória, terceiro um espaço de produção. A somatória dessas partes pode vir a gerar como produto final uma visibilidade capaz de alavancar e estimular a carreira do artista.


Quais são seus planos futuros?
O futuro nessa carreira é como uma caminhada, e demonstra a própria impermanência das coisas. A cada situação há um novo passo, e a cada passo surge uma nova situação. Penso que minha trajetória não está sendo diferente. O cenário para a produção é o da contaminação com o espaço público através de uma investigação crítica das questões que assolam meu dia-a-dia enquanto indivíduo. Com isso pretendo criar uma negociação através de uma caminhada, porém, não um trajeto qualquer. Deve ser um caminho em que, individualmente, eu possa tanto moldar um percurso, quanto elucidar o objetivo desse acordo, que é a não conformidade com o entorno nem com os demais “pedestres”. Sintetizando, pretendo continuar íntegro, produtivo e desapegado nas minhas escolhas futuras!







Graffiti - Texto: Essa é a verdade número um das três grandes verdades. Além disso o que poderia ser mais verdadeiro? – Spray e látex sobre parede - Belo Horizonte – 2010
.    Considerações sobre o atalho - Acrílica, lápis, nanquim e serigrafia sobre tela- 110 x 90 cm Galeria Guignard – Belo Horizonte - 2010.
Encruzilhada - Colagem, acrílica, spray, aquarela, lápis e nanquim sobre tela – 130 x 150 cm – Galeria Guignard – Belo Horizonte - Inexactly THIS - Kunstvlaai - Amsterdam 2011/2012.




Encruzilhada – Detalhe.



  Preza - Spray, cimento, colagem e massa corrida aplicados sobre as paredes de uma galeria – 210 x 320 cm - CEIA / Fundação Clóvis Salgado – Belo Horizonte - 2011.

Terra Firme Riddim – Movimento de um homem só - Instalação contendo quinze desenhos, onze bandeiras, duas flâmulas e um rádio que reproduz vários sons ouvidos pela população de Ibirité, compilados e rearranjados de forma a produzir um rítmo que toca em Loop – Dimensões variáveis – CEIA / Fundação Clóvis Salgado – Belo Horizonte - 2012. Para ouvir o áudio acesse: https://soundcloud.com/estandelau-1/terra-firme-original




Política das bordas - 120 x 120 cm – Vinte fotografias e três relatórios sobre uma intervenção urbana executada na região metropolitana de Belo Horizonte - CEIA / Fundação Clóvis Salgado – Belo Horizonte – 2012.


F.Y.A.– A imagem contém o texto: - Sobrevivência do mais apto - 250 x 320 cm – Fotografia e stencil na galeria - Inexactly THIS - Kunstvlaai - Amsterdam - 2012.

 Série Zoo - Galeria Escola Guignard - Vidro, madeira e luz – 21 x 31 x 10 cm - 2012.

Série Zoo – Detalhe – Acesse: http://www.facebook.com/serie.zoo



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