terça-feira, 22 de janeiro de 2013

Conversando sobre Arte entrevistado Alan Fontes






1 - Quem é Alan Fontes?   
Atualmente sou um artista plástico e professor de pintura na Graduação da Escola Guignard. Resido e trabalho em Belo Horizonte, onde vivo desde 2000, quando iniciei a Graduação em Artes Visuais na Escola de Belas Artes da UFMG. Nasci em 1980 na cidade mineira de Ponte Nova. Minha rotina atual está muito restrita a estas duas atividades.

 

 

2 - Como a Arte entrou em sua vida?
Estudei em uma escola, na qual tive um bom espaço para ter contato com artes plásticas, o que me levou aos 12 anos iniciar um curso de pintura particular na minha cidade, mas até então como uma experiência acadêmica e artesanal. Em 1999 preparei-me para fazer vestibular para o curso de Arquitetura, mas no dia da inscrição optei por Belas Artes e passei. Bem, isso foi mesmo decidido na última hora, pois o desenho e a pintura já ocupavam boa parte da minha vida. Mas ainda planejo fazer Arquitetura.

 

 

3 - Como foi sua formação artística? 
Considero que minha formação artística tenha começado mesmo em 2000 na escola de Belas Artes. Fiz o bacharelado em Artes Visuais com habilitação em Pintura e Desenho. Iniciei também a habilitação em cinema de animação, mas só tinha interesse em uma parte da habilitação e não conclui. Creio que na EBA/ UFMG todas as sementes foram plantadas, a escola estava em um ótimo momento, com uma boa estrutura e grande oportunidade de pesquisa e intercâmbio com muitas áreas do conhecimento, proporcionado pela localização da escola dentro do campus da universidade. Em 2007 voltei à Escola de Belas Artes da UFMG para fazer um mestrado em artes. Realizei uma dissertação intitulada “Rumos da Pintura na Era da Imagem Técnica”, uma pesquisa que buscava produzir um ensaio de classificação dos principais rumos da pintura contemporânea e também produzir um relato da minha produção plástica. 

 

 

4- Como você descreve sua obra? 
Descrevo como algo semelhante a uma bola de neve. Recebi essa descrição simplificada do meu trabalho de um amigo em uma conversa em 2006. Concordei com ele e acho que metaforicamente o centro da bola é a pintura e toda a experiência estética que tive na minha formação, sendo acrescida e transformada pelos fatos da minha vida pessoal... A partir desse ponto o trabalho vai crescendo... Uma fase se desdobra diretamente da anterior a da experiência que tenho da realização da mostra do trabalho, daí segue o próximo... Um processo interligado que vai crescendo em torno de um núcleo. As mostras individuais marcam os ciclos do meu processo.
Em relação às questões conceituais tratadas, percebo a pintura e os problemas próprios da linguagem como centrais no meu trabalho, mas acho que o que alimenta minha produção são mesmo as questões da minha vida pessoal.  Isso fica mais evidente em alguns trabalhos, e acho que é o que sustenta meu processo criativo e o modifica. Creio que a Casa, tanto no seu aspecto do íntimo do seu interior, como no contexto do espaço urbano das cidades, surge como um elemento simbólico e pré-texto da minha obra até o momento.

 
5 - Que artistas influenciam seu pensamento?
Bem, isso é muito difícil de responder, pois são muitos, até alguns artistas que não gosto influenciam-me de algum modo! A lista de pintores seria infindável, mas para citar alguns artistas mais presentes e isso não me referindo unicamente às semelhanças formais, diria: David Hockney, Lucian Freud, Frida Kahlo, Tom Wesselmann, Gehard Richter, Daniel Richter, Neo Rauch, Franz Ackermann, Matthew Ritchie, Katharina Grosse, Francis Alys, Adriana Varejão, Cristina Canale, Tatiana Blass... ah e o Cildo Meireles...


6 - Você é professor da Escola Guignard, como essa atividade interfere em sua obra?
Dar aulas de pintura na Escola Guignard interfere positivamente! Iniciei minha experiência docente ainda na graduação da Escola de Belas Artes da UFMG, dando cursos na extensão e na graduação. Essa atividade sempre foi uma parte da minha formação. Creio que dar aulas me mantém mais atento ao meu processo criativo e aos caminhos que o trabalho vai tomando. O processo ganha importância em relação à obra final. Estar em contato com alunos diferenciados ajuda você como artista a estar conectado à pesquisa e é um elemento incentivador da renovação do trabalho. Creio, entretanto, que é uma atividade que não deve ser excessiva ao ponto de atrapalhar a rotina do atelier...  Minha prioridade até o momento é o atelier... E estar no atelier contribui muito na minha atuação como orientador dos alunos.

 

 

7- O que você pensa sobre os salões de arte? Alguma sugestão para aprimorá-los?
Acho os salões de arte um dos principais instrumentos da movimentação do circuito artístico, e isso inclui a produção dos artistas, a atuação das instituições até a formação do público. Sem dúvida acho que há muitas formas de incentivar o artista, mas sinto que os salões, com sua periodicidade e relativa isenção em relação preocupação da venda da obra, como uma oportunidade de priorizar o experimental e a inclusão de novos artistas.
Para aprimorá-los, apenas como uma entre muitas sugestões seria priorizar o pró-labore do conjunto de artistas selecionados, ainda que se tivesse que diminuir a importância paga aos premiados... creio que a maior premiação para artista é entrar para um salão e mostrar seu trabalho e não a disputa que coloca a subjetividade de uma obra apresentada como elemento de ganho de um prêmio financeiro. Como prêmio bastaria uma menção honrosa. Atualmente a maior parte dos salões só premia uma pequena parte dos artistas participantes, quando poderia dar uma ajuda de custo a todos os selecionados para cobrir despesas como a produção, transporte e embalagem das obras. Essas despesas muitas vezes inviabilizam a produção da obra e a participação do artista.

 

 

8 - Que mensagem você enviaria para seus alunos?
Pensar que a produção de arte não é uma atividade que cessa como o fim do expediente de um trabalho comum e que exige dedicação, disciplina e às vezes renúncia. O hábito de ir para o atelier produzir ou pensar na produção deve poder existir. E tentaria mostrar que existe diferença entre produzir arte e ter uma carreira de artista... isso é complexo, mas tento diferenciar e discutir isso sempre que posso em sala. Para produzir arte você precisa encontrar um sentido interno independente de tudo para produzir o trabalho, para ter uma carreia de artista, além disso, você precisa saber viver aspectos mais objetivos do mercado de arte do seu tempo.

 

 

9- Você está realizando uma individual na Galeria Laura Marsiaj, RJ, qual o significado para sua carreira?
Bem, a exposição atual é uma grande oportunidade de ampliar o alcance do meu trabalho. A mostra na Galeria Laura Marsiaj ainda tem uma característica importante que é a primeira mostra, na qual consigo apresentar simultaneamente as duas pesquisas que venho realizando, a pesquisa dos interiores e das cidades. Estar envolvido na produção dos dois trabalhos me permitiu muita reflexão acerca do processo. Até o momento revezar entre as duas pesquisas sempre foi uma forma de conseguir descansar a mão de uma série e conseguir tempo para pensar na etapa sequente. A mostra da atual permitiu unir tudo! Acrescentam-se outros fatores positivos que favoreceram a mostra como uma estrutura física ideal à realização do projeto e a grande colaboração da galeria em realizá-la.

 

 

 

 

10 - Que comentários você faz sobre o mercado de arte em Belo Horizonte?
O circuito de arte de Belo Horizonte é muito rico, mas ainda existem barreiras “geográfico-culturais” grandes. Temos um número de espaços culturais crescente e a presença importantes instituições como o Inhotim, a Casa Fiat, o novo CCBB, duas faculdades de arte, mas ainda sinto forte limitação de intercâmbio em relação a outros mercados como São Paulo e Rio de Janeiro. As galerias também me parecem não encontrar aqui um mercado de arte que lhes dê uma existência com a mesma possibilidade de crescimento e investimento como algumas galerias de São Paulo e Rio possuem.

 

 

11- É possível viver de Arte no Brasil?
Sim é possível. Temos que diferenciar o “viver de arte” aqui... Indiretamente muita gente vive de arte, mas artista vivendo de arte não é a maioria. Existem maneiras de você conciliar a produção de arte com outros trabalhos em áreas próximas que permitam você ter menos pressão em relação à venda da obra, acho que isso pode ser positivo para alguns artistas. Mas viver de arte com a produção também é possível quando você consegue ter disciplina de trabalho no atelier, ter uma boa produção e somado a isso, ter uma boa galeria como parceira. Apostar em editais e residências artísticas que financiem o trabalho também é uma boa opção. Como disse, a carreira de artista neste aspecto prático não é muito diferente das outras, precisa dedicação.

 

 

 

12 - Quais são seus planos futuros?
Estou em um momento de descansar da última mostra. Tenho ideias, mas preciso de um tempo para iniciar outro ciclo. Tenho alguns projetos parados diferentes das duas séries que desenvolvi e creio que agora possa realizar. Enquanto isso, tenho ido para o atelier pesquisar imagens e produzir por pura diversão. Academicamente esse ano, pretendo iniciar um doutorado como aprofundamento de uma das questões tratadas na minha dissertação de mestrado. Estou em processo de iniciar esse ano um grupo de estudos sobre pintura contemporânea. É isso.

 
 

 

 

 

 

 

 

 

 


 

Segue o link para meu blog, no qual mostro o desenvolvimento do meu trabalho de 2003, até a última mostra na Galeria Laura Marsiaj.

 

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Maurizio Cattelan

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