quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

Conversando sobra Arte entrevistado Marcello Jardim




Marcelo Jardim artista autodidata natural de Cruzeiro, formado em engenharia. Vive e trabalha em seu ateliê na Serra da Mantiqueira. Uma bela surpresa. Obrigado Marcelo.
Quem é Marcello Jardim?
Nasci em Cruzeiro, SP, dez de março de 1966, cidade pequena que teve origem principalmente quando, no início do século passado, estabeleceu-se ali uma confluência ferroviária nessa montanhosa divisa dos estados de São Paulo, Rio e Minas.
Minha família é bem típica dessa região do Brasil, com ramificações de origem portuguesa estabelecida na cidade do Rio de Janeiro, uma avó com ascendência indígena e um avô calabrês.
Ali mesmo estudei e vivi minha infância, os estudos secundários na vizinha Lorena  onde que frequentei os salesianos. Depois vieram os cursinhos em São Paulo e São José dos Campos, uma passagem pela academia da força aérea em Pirassununga e finalmente a engenharia, onde me formei na escola federal de Itajubá. Mas a pintura e o desenho sempre estiveram presentes.
Construí eu mesmo meu ateliê num lugar de sonho prá mim, a serra da Mantiqueira, onde vivo e trabalho a cerca de 1600 metros de altitude. Não sou casado e tenho uma linda filha de cinco anos, Bárbara, que mora em Passa-Quatro, sul de Minas.

 

Como a Arte entrou em sua vida?
 Desde que posso me lembrar as cores e as formas sempre foram para mim uma experiência de alegria e fascínio. Não existiu um acontecimento notável a partir do qual eu poderia dizer que a Arte tenha chegado. Creio que ela foi se revelando através do olhar, como coisa inata. Sou simpático à percepção de que a pintura está no olhar do pintor, assim como a música no ouvir próprio do músico.

 

Como foi sua formação artística?
 Não frequentei escolas ou cursos de arte e, conquanto não me faltassem referências na educação que tive, minha prática e meus métodos estabeleceram-se de forma bastante solitária, autodidata.

 

Como você descreve sua obra?
Meus meios são pintura e desenho, óleo sobre tela, papéis. Sobre papel faço experiências com materiais diversos, ceras e solventes, efeitos de transparência e tons muito escuros.
Quanto ao modo como percebo meu trabalho, vejo menos a formalização clara de um conceito representativo do que uma vontade, um impulso de me reconhecer (ou desconhecer...) diante de algo que vai assumindo certa autonomia, uma beleza talvez que me surpreenda diante daquilo que inicialmente eu possa ter projetado. Uma sensação da mesma espécie que já tive, por exemplo, na contemplação de uma natureza morta ou uma banhista de Cezanne ou ainda diante de um Rothko.

Que artistas influenciam seu pensamento?
Gosto muito de ler poesia e também me arrisco escrevendo um pouco, na verdade interesso-me por muita coisa, filosofia, história, filmes e por aí vai. De modo que poderia citar muitos artistas que me influenciam, mas de um modo geral são todos aqueles que percebo ou imagino tocados pelo que há de misterioso no visível, aqueles que, atentos à realidade em que vivem, de alguma forma concordariam com o que disse Paul Klee em sua “Confissão Criadora” : “A arte não reproduz o visível, mas torna visível.”. Posso dizer também da presença em meus pensamentos de artistas não pintores  como o Fernando Pessoa dizendo que “a realidade exterior é um verdade interior”, ou Albert Camus afirmando não haver “nada mais profundo que a superfície do mundo”. Não posso me esquecer também de E.A. Poe, impressionado que fui por sua leitura ainda criança.

 Que outros estímulos servem para construir seu trabalho?
Creio que tudo que experimento, relações, viagens, leituras, caminhadas, observação e fruição do trabalho de outros artistas, enfim, são coisas igualmente importantes como fonte de estímulo ao meu trabalho. Porém, talvez mais relevante do que a variedade desses estímulos seja o modo pelo qual eles acabam atuando, via exercício imediato das memórias que tenho deles quando estou na necessária solidão e silêncio do meu ateliê. Parece haver algo de incontrolável, até de intratável, na hora exata em que o trabalho se faz, algo sempre novo numa velha ruptura. Novamente cito Paul Klee : “Hoje é a passagem do ontem-hoje. No grande fosso da forma há destroços de que ainda dependemos em parte...”... “Encontramos o caminho a partir dos destroços”.

 
O que é ser um pintor no século XXI ?
Acho que é lidar da melhor forma possível com as ameaças que sofre tudo que é visível, sobretudo a pintura, sob o paradigma da novidade incessante, de uma temporalidade que só se presta ao descarte porque, na vida e na arte, são tempos da mais estúpida obediência aos caprichos da produção e do consumo como valores em si mesmos, obediência ao dinheiro. Ou seja, zero valor, se pensamos alguma liberdade e autonomia como coisas inseparáveis do fazer artístico.

 O que você pensa sobre os salões de arte? Alguma sugestão para aprimorá-los?Creio que podem ser muito importantes principalmente quando resistem a ser um mero sim aos interesses de mercado. Importantes quando são um espaço de recepção e discussão tanto do novo e do diverso quanto do que permanece belo e eloquente. Penso mesmo que os bons salões, considerando aqui a universalidade da Arte, devem recepcionar muita coisa, menos as facilidades vulgares ou as licenciosidades comerciais.
Você mora numa cidade pequena, como comercializa seus trabalhos?
De todo jeito possível, pequenas exposições, consignações e contatos diretos. A visibilidade na internet é muito importante.

 O que é preciso para ser representado por um galeria?
Imagino que um artista pode parecer interessante aos olhos de uma galeria por muitos motivos. É claro que a qualidade de seu trabalho, seu currículo, enfim, terão valor, mas o que me parece decisivo é o valor comercial, para cuja formação talvez importem bem mais a própria posição da galeria enquanto empresa e de tudo o que isso dependa de propaganda e dinheiro, com o trabalho e o nome do artista retroalimentando esse círculo. Não digo isto como crítica, mas apenas procuro constatar o que me parece acontecer.
É possível viver de Arte no Brasil?
 É tão possível quanto difícil ganhar dinheiro pintando. Falo por mim mas acredito que vale para a maioria dos pintores. Acho importante notar aqui que ninguém é verdadeiramente artista por causa de alguma demanda (ainda que muita arte de primeira tenha sido encomenda de ocasião), assim como quando nos formamos engenheiros ou advogados porque o mercado está “em alta” para essas profissões. O artista nasce artista e como tal ele pode ou não “viver de arte”, do dinheiro que ganha vendendo sua arte.Muitos não artistas vivem da arte alheia, mas certamente só ao artista cabe a dor e a delícia de viver para a arte. A inutilidade sagrada da Arte, a Arte mesma, só me parece possível quando o talento se soma à coragem do artista que a ela se devota.

Quais são seus planos futuros?
Quero minha vida simples assim como tem sido. Quero pintar mais, escrever mais, contemplar mais, enfim, viver com dignidade de - e
 
 

 
A Bailarina. Técnica mista sobre papel 20x30 cm 
 
Bailarina. Técnica mista sobre papel. 20x30 cm.



Bailarina. Técnica mista sobre papel. 20x30 cm.


 
Bailarina. Técnica mista sobre papel. 20x30 cm.

 
Bailarina. Técnica mista sobre papel. 20x30 cm.


Figura. Técnica mista sobre papel. 100x60  cm



Figura. Técnica mista sobre papel. 100x60 cm.

 
Figura. Técnica mista sobre papel. 100x60 cm.
 

 
 
Figura. Técnica mista sobre papel. 100x60 cm.

 
Lady Pink. Técnica mista sobre papel 100x100 cm.
 

 
 
Quatro Figuras. Técnica mista. 100x60 cm.

 
 
Sem título. Técnica mista.  100x80 cm.
 
 

2 comentários:

Lengo D'Noronha disse...

Mais uma vez o Márcio nos proporciona conhecer melhor um grande artista.
Marcello, já gostava de seus trabalhos postados no facebook, agora sua entrevista veio para aumentar minha admiração por sua obra/vida.
Forte abraço e parabéns ao Marcello e ao Márcio.

Anônimo disse...

Marcello é um artista nato e um amigo de todas as horas. Crescemos juntos, nós divertimos muito, e passamos por alguns perrengues que nós fizeram amadurecer na raça. Sou fã dos trabalhos dele desde sempre, e torço para que o laboratório que traduz a sua vida em arte, seja uma eterna fonte de recomeço, dia após dia, lhe trazendo satisfação e o incentivo que o move. Esteja sempre em Paz meu amigo, e que DEUS te abençoe. Duda Portugal (Cruzeiro-SP).

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
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