terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Conversando sobre Arte Roberta Segura

Roberta vive e trabalha em São Paulo. Realiza sua interessante obra fotografando objetos descartados nas ruas da cidade. Parabéns Roberta, muito sucesso. Obrigado Marcio


Fale algo sobre sua vida pessoal.
Nasci e me formei em Artes Visuais em Sao Paulo e depois passei mais de oito anos na Inglaterra, trabalhando e vendo exposiçoes.

Como foi sua formação artística?
Alem da Faap, fiz alguns cursos em Londres, mas aprendi muito visitando exposiçoes e tambem trabalhei numa galeria. Agora faço algumas disciplinas na Pos-graduaçao que me ajuda BASTANTE.

Que artistas influenciam seu pensamento?
Artistas que trabalham em mais de uma midia. desdobram uma idéia em diferentes formatos. Presto atençao em artistas como Francis Alys, Gabriel Orozco- onde numa exposiçao pode-se ver foto, video, pintura. O trabalho como mediador de uma ideia, e
alguns artistas conseguem deixar isso claro. Gosto também de ver pintura- quando boa e imprevisivel como por exemplo de um polonês chamado Wilham Saznal, e em escultura o trabalho da Rachel Whiteread.

Como você descreve sua obra?
Sempre encontro na cidade material para minhas obras, geralmente não altero as estruturas que encontro, só fotografo-as e as pessoas acham que fui eu que montei para a foto. Também pinto, a pintura já funciona diferente, é como se você criasse um histórico com o material e cada vez que trabalha aplica esse histórico.

Além dos estudos sobre arte que outros estímulos influenciam em seu trabalho?
A cidade, arquitetura e design.

Qual a sua expectativa para a coletiva dos Artistas sem Galeria?
O “Sem Galeria” involve o interesse profissional de múltiplas partes. O meu interesse é de compartilhar meu trabalho, e quem sabe...

Você tem uma rotina de trabalho?
Sim, dou aulas e trabalho no atelie.

É possível viver de arte no Brasil?
Acredito que sim, vc conhece a lei dos 20 e 80%? 80% dos crimes sao cometidos por 20 % de presos. 80% do dinheiro fica com 20% das pessoas 80% dos trabalhos e práticas artísticas são comercializadas por 20% dos artistas. O lance é entrar nesses 20%!

O que é neccesário para um artista tornar-se um ícone?
Depende o que você chama de icone? Pela qualidade do trabalho ou pela fama? Tem pessoas que se dizem artistas, vendem, mas não tem nenhum conteudo no trabalho. Acho que o artista precisa atuar em diversas frentes- galerias, palestras, aulas, curadoria, Bienais. Uma frente alimenta a outra. Acho que essa ideia de icone é uma coisa do modernismo. Hoje em dia os icones são mais temporários, e geralmente a midia faz os icones, mais do que o trabalho. Por exemplo Damian Hirst, tenta fazer obras chocantes para invadir a midia e encher o bolso! Além disso foi descoberto e patrocinado por Charles Saatchi que é um publicitario.
O que você pensa sobre os Salões de Arte?
Tem uns mais serios que outros, mas é dificil julgar,, porque tem trabalhos bons que não entram em salão. A distribuição dos prêmios poderia ser repensada, seria mais justo transformar alguns prêmios dado a um, dois ou três artistas, em ajuda de custo para todos os selecionados, contribuindo para fortalecer a qualidade dos trabalhos nos salões.

Qual sua opinião sobre as Bienais e Feiras de Arte?
Elas alimentam o Mercado de arte, acho importante.
Quais são seus planos para o futuro?
Comprar uma bicicleta nova!
O que você faz nas horas vagas?
Tudo menos ver televisão.



Desplacement (2010) Luminoso e impressão fotográfica.


Displacements (2010) Luminoso e impressão digital



Casa-caixa (2011) Impressão fotográfica.


Casa-caixa Impressão fotográfica


Casa-caixa Impressão fotográfica.


Casa-caixa. (2011) Impressão fotográfica.




Casa-caixa (2011) Impressão fotográfica.




Fotografias de Roberta Segura na coletiva de Estúdio Buck, SP.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Pablo Picasso Fases Azul e Rosa

domingo, 29 de janeiro de 2012

Imagem Semanal In Memoriam Reprise ampliada.


“...E quantas mortes ainda serão necessárias
Até que se perceba que pessoas demais
morreram?
A resposta, meu amigo,
Está soprando no vento.”
Bob Dylan Blowing in the Wind.





Jane R. Hammond (1950-) artista americana. Influenciada pelo músico e artista John Cage. Trabalhou com os poetas John Assberry e Rapahel Rubstein. Estudou poesia e biologia antes de receber MFA em escultura pela Universidade de Wisconsin. Fallen 2004. A instalação em andamento incluiu 1511 folhas feitas à mão com o nome, escrito pela artista, de cada soldado americano morto no Iraque. A obra foi comprada pelo Whitney Museum e exibida em 2006 com o título Two Years continha, então, 3786 folhas. Um fundo doWhitney Museum permite a continuação do trabalho. Dois dias por semana, Jane Hammond recolhe folhas de diferentes árvores de diversas regiões do país, faz uma cópia em papel exatamente igual a original e escreve um nome de mais um soldado morto. Quantas folhas ainda serão incorporadas à instalação?





Felix Gonzalez Torres (1957-1996). Artista contemporâneo nascido em Cuba. Viveu em Porto Rico e desenvolveu sua obra em Nova York. Morreu de AIDS em Miami. Sem título (1992) Fotografia monocromática de uma cama vazia transformada em painel e exibida em Nova York. O trabalho foi feito em homenagem a seu companheiro Ross, logo após sua morte por AIDS. Foi representado nas Bienais de São Paulo e de Veneza






Hannah Wilker (1940-1993) Nasceu em Nova York. Pintora, escultora, fotógrafa e artista performática. Graduou-se na Tyles School, Temple University, Filadélfia. Foi companheira do artista Claes Oldenburgo. In Memotiam Selma Butter (Mommy) nessa série, a artista retratou os últimos momentos de sua mãe Selma em estágio final de câncer. Hannah Wilker teve bastante destaque durante sua vida artística com exposições no MoMA, Whitney Museum of American Art, MAC, Los Angeles  e Centre Pompidou, Paris.






Stinkfish Nasceu em Bogotá, morou no México. Desde 1985, vive e trabalha em Bogotá. artista colombiano especialista em street art. Seu trabalho in memoriam (2003) de John Kennedy foi feita pela reprodução da famosa foto de John F Kennedy Jr em pose militar saudando o cortejo fúnebre de seu pai assassinado no Texas.


Joseph Noel Paton (1821-1901) Estudou na Royal Academy of London. Pintava no estilo Pré Rafaelista e tinha preferência por temas históricos e religiosos. In Memoriam(1857) foi dedicado pelo artista inglês como reconhecimento pelo heroísmo cristão das mulheres e crianças inglesas mortas na insurreição de 1857 de exército da Índia contra o domínio da Inglaterra. Coleção Particular Londres.







Taj Mahal Palácio localizado em Agra, Índia. O príncipe Kurran enamorou-se por uma princesa de 15 anos. O casamento ocorreu, após cinco anos sem que eles se vissem, em 1612. O imperador rebatizou a noiva como Muntaz Mahal (a eleita do palácio). O príncipe foi coroado imperador em 1628 com o nome de Munhaz Jahan. Ao dar a luz ao seu 14º filho, Muntaz Mahal morreu aos 39 anos. Para que ela nunca fosse esquecida, foi erguido o Taj Mahal entre 1630 e 1652 por 22 000 homens. Passagens do Corão estão gravadas em suas paredes. A abóbada tem fios de ouro. Um magnífico jardim cerca o palácio. O nome do arquiteto é desconhecido.Taj Mahal é patrimônio da Humanidade e foi eleito  uma das Sete Maravilhas do Mundo.



Sugestões: Poema sinfônico do compositor americano Douglas Moore em honra aos soldados mortos na segunda guerra mundial.
In Memoriam Jane Hammond. Art in América, 2008.
Felix Gonzalez Torres. Julie Ault, 2006.




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sábado, 28 de janeiro de 2012

Galeria Celma Albuquerque

Salvador Dali O Mestre do Surrealismo





Salvador Dali (1904-1989) Nasceu em Figueres. Pintor catalão ligado ao Surrealismo. Estudou na Escola de Desenho Municipal em Figueres. Mudou-se para Madrid e foi admitido na Academia de Artes San Fernando, de onde foi expulso por criticar a qualidade dos professores. Ilustrou o livro As Bruxas de Lleers do poeta catalão Carlos Fogio de Cimment. Com Buñel fez os filmes Um Chien Andaluz e L’âge dór. Colaborou, ainda, com a Disney e com Hitchcock. Em 1924, foi a Paris conhecer Picasso, que juntamente com Miró teve significativa influência em sua obra. Em 1934, casou-se com Gala. Ela era dez anos mais velha do que ele e participou ativamente de sua vida. Morou em Nova York. Retornou a Espanha durante o regime franquista e, sofreu a acusação de apoiar a ditadura. Em 1960, começou sua obra mais importante o Museu Teatro Salvador Dali localizado em Figueres. O museu era o antigo teatro da cidade, onde o artista fez suas primeiras exposições. Bombardeado durante a Guerra Civil Espanhola foi reconstruído pela Prefeitura de acordo com os desejos do artista. Aberto em 1974, teve sua ampliação até 1980. Lá estão obras significativas do pintor e de alguns de seus amigos. O seu túmulo encontra-se no Museu. Dali passou pelo cubismo e pelo dadaísmo antes de ligar-se ao Surrealismo. Sua obra caracteriza-se pela qualidade plástica e o uso de símbolos. Houve influência de Freud e sua teoria do inconsciente.





Retrato de Buñuel (1924) Centro Reina Sofia. No retrato Dali abandonou o Cubismo e voltou à figuração. As cores frias e a paisagem surrealista do fundo criaram um clima melancólico.



Arlequim (1927) Centro Reina Sofia. É uma incursão no Cubismo. O fundo real e plano é dividido pela luz em dois planos e sobre ele reflete a figura de um arlequim.





Sonho Causado pelo Vôo de uma Abelha ao Redor de uma Romã um segundo antes acordar (1944). Coleção particular. Uma mulher dorme sobre pedaços de rocha flutuando sobre o mar. Ao lado da mulher, seria Gala, uma peque na romã. De outra romã sai um peixe que cospe um tigre diferente do outro ao seu lado. Ao fundo, um elefante com pernas longas e finas. A espingarda representaria a picada da abelha. Uma das interpretações seria a representação da teoria da evolução.



Girafas em Chamas (1937) Kunstmuseum Basel, Basiléia. Ao fundo, ma girafa pegando fogo. Ela tem várias manchas marrons e uma espina à esquerda. Duas formigas sobem pela sua pata e um carrapato está grudado em suas costas. Em primeiro plano duas figuras fêmeas, uma delas cheias de gavetas. As estruturas que saem das costas parecem apoiar-se em muletas. A girafa queimando seria algo apocalípito e poderia sugerir a Guerra Civil Espanhola.


Spectre du Soir la Plage (1959) Coleção particular.


A Chemist Lifting with Extreme Precautions the Cutiele of a Grand Piano (1926) The Art Institute, Chicago.



Bird of Liquid Desires (1931-1932) Guggenheim Museu, Nova York




Museu Teatro Gala Salvador Dali. Início em 1960. Figueres.



Sugestão: Dali _ Harry N. Abrams, 1968.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Conversando sobre Arte Entrevistada Isabel Sanson Portella



Com sólida formação acadêmica Isabel além de museóloga é curadora. Na entrevista, ela divide conosco sua experiência na Arte. Obrigado Isabel.


Isabel, conte um pouco de sua história pessoal 
Como uma boa aquariana  e carioca do dia 5 de fevereiro os meus interesses são diversos. Fiz a faculdade de museologia na Uni-Rio, escolha bem diferente de todos os meus amigos que optaram por arquitetura, direito ou engenharia. Depois fiz o curso de pós graduação da PUC em História da Arte e Arquitetura do Brasil e não parei mais de estudar.  Fiz mestrado em crítica de arte na EBA e em 2010 terminei o doutorado em crítica de arte também na Escola de Belas Artes da UFRJ. Há cinco anos atrás fiz o concurso do então IPHAN hoje IBRAM e atualmente trabalho no Museu da República como pesquisadora de acervo e como consultora de exposições na Galeria do Lago – Espaço de Arte Contemporânea do Museu.



Como foi sua formação artística?
Durante muitos anos atuei na área museológica como conservadora e restauradora de quadros e papel.  Como a grande maioria dos quadros eram do século XIX e nesse período estava estudando e pesquisando sobre o pintor Antonio Parreiras, minha formação inicial foi voltada para arte brasileira do XIX.

 Que artista influenciam seu pensamento?
Na Pós da PUC e no mestrado da EBA fiz um trabalho sobre pintura de paisagem no século XIX e o artista do Grupo Grimm Antonio Parreiras. Nesse momento, pesquisei paisagem, romantismo alemão e isso me abriu o olhar para entender o percurso da arte brasileira.


O que é necessário para ser um curador?
Olha, acredito que não exista uma formula, mas um olhar voltado para o todo. Quando fiz uma curadoria coletiva como O Jardim das Delícias em 2006, nos Jardins do Museu da República, juntamente com outros dois curadores, nós procuramos a arte performática e a utilização do espaço público e aberto do museu. O nosso intuito foi de levar a arte contemporânea a todos. E assim fiz também com a exposição SESC Arte 24 horas, uma exposição que foi realizada em 2010 em exatas 24 horas onde  priorizava o Working in progress e o site specific. Outro trabalho coletivo que me deu muito prazer foi a exposição Parágrafo 0 realizada no Museu da Maré. Foi um convite feito pelos organizadores do museu para pensar a questão da moradia em relação à constituição de 1988. E como para os moradores a questão da moradia é um ponto muito crucial, resolvemos chamar dez artistas contemporâneos para tratar esse assunto.
Esses foram algumas curadorias coletivas mas tenho feito trabalhos com artistas individuais como foi para exposição Toys é nóis de Claudia Hersz e Arte Lúdica de Patrícia Gouvêa. Esses dois casos eu nem considero curadoria, mas sim um trabalho de acompanhamento e reflexão sobre uma obra  que eles já tinham em mente, um suporte na realização de um texto que ajuda  a ressaltar alguns pontos e trazer à tona outros.
Esse último trabalho com a Patrícia Gouvêa e a Isabel Lofgren,  Banco de Tempo (Galeria do Lago do Museu da República) foi um convite da Martha Niklaus para escolher os próximos artistas para a série Duplas, um programa da galeria. Nessa Serie são selecionados dois artistas que trabalham juntos (ou tenham uma grande afinidade) e que possam criar conjuntamente um trabalho especificamente para a Galeria. A única recomendação é que esse trabalho seja inédito e que tenha um link com o museu, com o parque, com a história da República. As artistas passaram mais de um ano pesquisando e experimentando no Museu e assim surgiu o Banco de tempo.


Não havendo um curso específico para formação de curadores, que sua sugestão você daria
 para aqueles que se interessam pelo tema?
Frequentar  todas as exposição do circuito, visitar os artistas em seus ateliês e ler muito, estar sempre estudando.


Você escolhe o artista ou o artista escolhe você para realizar uma curadoria?
RS, RS, RS as duas coisas. No caso das coletivas eu escolho e nas individuais já existe um encaminhamento de afinidades.


De que maneira o curador é remunerado?
Bom, quando são exposições na Galeria do Lago isso já faz parte do meu trabalho e está embutido no meu salário como funcionária da casa. Nos projetos grandes são convites ou através de editais. No caso da Maré foi totalmente sem remuneração aceitei, pois achei o projeto bárbaro.


Além dos estudos sobre arte, o que serve de inspiração?
Uma viagem, um artigo de jornal ou revista, um livro, na verdade as idéias surgem nos momentos de lazer.

 Qual sua opinião sobre os Salões de Arte?
Acredito que seja importante, para o artista que está começando, participar de um ou dois, mas depois não acho que seja relevante.

 A multiplicação de Bienais e Feiras de Arte interfere no trabalho dos artistas?
Acredito que sim. Acho que o artista precisa de tempo de ateliê. Não necessita ficar preso a este espaço, mas deve  refletir, pensar na obra e quando se tem tantas obrigações de agenda  e fica um compromisso em apresentar novidades que nem sempre estão totalmente amadurecidas para eles.

 Que artista estrangeiro você gostaria de realizar uma exposição?
Bom, aqui resolvi viajar e escolher os artistas que gosto muito, mas pouco prováveis, mas quem sabe um dia? O dinamarquês Ólafur Eliasson e a artista nascida na Colombia Doris Salcedo.


Quais são seus planos para o futuro?
Tem um livro que estou fazendo agora sobre uma artista e tenho projetos que estou tentando em São Paulo.

 O que faz nas horas vagas?
Vou ver algumas exposições que não tive tempo durante a semana, viajo e vou muito a cinema, que ADORO!!




Uma das exposições com curadoria de Isabel Sanson de Portela

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Conversando sobre Arte Entrevistado Alexandre Mury


Alexandre Mury Auto retrato azul cobalto.


Mury conte algo de sua história pessoal.
Nasci em 1976, em São Fidélis, interior do estado do Rio de Janeiro, onde moro. Sou o filho mais velho de dois irmaos. Artista por vocação, formado em Comunicação Social.

Como foi sua formação artística?
A minha mãe costureira e meu pai carpinteiro e pedreiro me permitiram observar desde muito cedo o uso de muitas ferramentas. Eu achava mágico o poder que eles tinham de transformar e de construir coisas. Mas quando tinha apenas 3 anos de idade uma professora dizia que eu era o Van Gogh dela, o artista dela... Isso não saiu da minha cabeça e fui me interessando cada vez mais por desenho e pintura. Ainda criança já era conhecido em toda a escola como desenhista.
Na adolescência, com 16 anos, fiz minha primeira exposição de desenhos, era uma individual na biblioteca municipal da cidade de São Fidélis, minha cidade natal. Os trabalhos eram todos imitações de artistas que nunca me preocupei em saber o nome ou qualquer outra referência. Eu simplesmente tomava a liberdade de usar o que apreciava como referência para reconstruir. Como não tinha grana para comprar material para trabalhar eu substituía as aquarelas por anilina, os óleos por guaches, os pastéis por lápis de cera, o carvão para desenho por carvão mesmo daqueles de fogão a lenha... Isso tudo fez parte do começo da minha formação, a experimentação foi importante para o desenvolvimento das habilidades técnicas e manuais.
Com o tempo fui buscando mais informação, mas o acesso sempre foi muito precário numa escola pública numa cidade do interior, biblioteca precária e não havia internet. Mais tarde tive que trabalhar para pagar a faculdade de Comunicação Social que eu achava que teria mais a ver com minhas habilidades artísticas e criativas e estava mais próximo da cidade onde eu morava. E na verdade meu sonho era cursar cinema e eu não tinha condições financeiras para sair da minha cidade. Na universidade, passei por uma verdadeira transformação e comecei a me interessar mais sobre o que era arte e o que não era naquilo que eu fazia. Estava ficando frustrado com minha capacidade de ser artista. Me entreguei a atividade do design gráfico que me sustentava mas nunca deixei de experimentar coisas, de produzir coisas sem utilidade e sem propósitos claros.
Desde meus 16 anos já fazia meus autorretratos e aos poucos o desenho, a pintura, a escultura, a performance estavam se misturando e virando objeto da fotografia. O desenho e a pintura serviram para aprender a compor e equilibrar. Outras habilidades, como a de cenografia, iluminação e figurino também foram explorados desde o começo. A fotografia foi exigindo de mim a performance teatral e a necessidade de vencer a timidez. Sem encontrar modelos dispostos para posar para minhas idéias, e quando os encontrava não me satisfazia o resultado na capacidade de interpretação. Era por isso que me fotografava, mas não sabia por que me fotografava.
A fotografia me fez amadurecer como artista num processo despretensioso, divertido, descompromissado. A minha história com a arte envolve todas as minhas experiências de vida. Aos poucos fui reconhecendo que meu gosto e minhas preferências foram configurando uma estética peculiar e as sucessivas abordagens aos temas universais foram incorporando os questionamentos filosóficos. O uso da auto-imagem não era mais por acaso a medida que fui tomando consciência dos meus conflitos internos, da transformação do corpo e o convívio social. O “outro“ passou ter mais importância do que o “eu”, assim como eu podia ser qualquer um, qualquer um podia ser aquele que eu representava. Percebi que podia sugerir que o outro se visse em mim.
Estou sempre encenando o icônico e o pano de fundo do meu trabalho é a ressignificação através da recontextualização. Meus impulsos são críticos, irônicos, cínicos, irreverentes e reverentes, paradoxais e questionadores mas conservando a essência de menino curioso e brincalhão o que me permite acreditar que ainda não estou formado. Ainda não me sinto seguro sobre o que é e o que não é arte. A arte tem me formado como pessoa... mas ainda não sou uma pessoa formada em arte.

Que artista influenciam seu pensamento?
Aprecio muitos artistas que aparentemente não tem nada a ver com o que faço de escultores a escritores. Se o que me firmou como artista foram os autorretratos, o primeiro a exercer influencia nisso tudo foi o Van Gogh, depois a Frida Kahlo dois grandes artistas que se autorretrataram muitas vezes. Depois fui aprendendo muita coisa observando muitos Cânones da pintura passeando por todos os períodos da história da arte.
O meu processo de formação não foi sistemático e minha busca por um estilo ou o que eu pudesse me encaixar nos "ismos" da arte só serviu para incorporar um pouco de cada coisa. A cultura popular, a mitologia, a poesia, a art pop, a publicidade e tudo que vivencio incorporo na minha obra. Admiro muitos fotógrafos, e principalmente os pintores. E não há como negar a presença de elementos do cinema e do teatro na construção de minhas fotografias.
Tive muita influencia de autores que não são necessariamente artistas. Muito dos meus questionamento vieram das idéias contidas em alguns livros que por acaso mexeram com minha consciência. Não foi uma busca voluntária, como pesquisa para minha produção. Simplesmente deixaram marcas profundas naquilo que realizo. Posso citar alguns que estou lembrando agora: O império do grotesco, Antropológica do Espelho ( Muniz Sodré ); História da Sexualidade ( Michel Foucault ); História da Beleza, História da Feiúra, A Vertigem das Listas ( Umberto Eco ); O Homem e Seus Símbolos ( Carl Gustav Jung ); Da Sedução ( Jean Baudrillard ); O erotismo ( Georges Bataille ); Modernidade e identidade, (Anthony Giddens)
É muito difícil arriscar uma lista de artistas, minha referência não é direta, cada um tem muito ou alguma coisa que me influencia. Aqueles que estou lembrando agora são: Velásquez, Caravaggio, Jacques Luis David, Chagall, Botero, Franz Von Stuck, Gustave Courbet, De Chirico, Gustave Doré, Ernst Ludwig Kirchner, Ingres, Bernini, Antonio Canova, Magritte, Salvador Dali, Willian Blake, Vemeer, Peter-Paul-Rubens, Monet, Millais, Alma Tadema, Bouguereau, duchamp, Man Ray, Jeff Koons, Banksy, Helio Oiticica, Nelson Leirner, Cildo Meireles, Nuno Ramos, Olaf Breuning... tem muito de Robert Mapplethorpe, joel peter witkin, Jan Saudek, Irina Ionesco, Erwin Olaf, Nobuyoshi Araki, Tseng Kwong Chi, Annie Leibovitz, David LaChapelle, Pierre et Gilles, Orlan... Alguma coisa Almodóvar, Pasolini, Stanley Kubrick... Fernando Pessoa... Carlos Moreno, Chico Anysio... François Sagat... Nietzsche... Björk... etc.

Como você descreve sua obra?
Não me sinto muito confortável com o rótulo de fotógrafo. São tantas coisas envolvidas, todo processo antes da realização do "click" é muito importante. Acredito que muita força do meu trabalho está em tudo que intervenho, na construção de cada detalhe. Cuido do figurino, maquiagem, cenário, iluminação e ainda tem toda carga performática na atuação. A fotografia pode ter muitos desdobramentos e possibilidades técnicas, expressivas, discursivas... eu penso a fotografia como um desenhista e um pintor... mas também como um ator e um diretor de arte.
Além de todo tratamento estético, existe um esforço muito grande para construir uma comunicação com o espectador através de um discurso crítico. Todo simbolismo dos elementos que tem lugar comum no imaginário coletivo é recontextualizado para questionar paradigmas. As minhas referências não são meramente estéticas, eu busco um paralelo e um comentário visual nas releituras. Minhas obras não são enigmáticas mas resgato muitas informações que os conhecedores da história da arte apreciarão outros níveis ou camadas de informação.
Mas em muitas obras sou mais explícito na provocação do debate relacionado a temas como sexualidade, política e religião que pode trazer algum desconforto para algumas pessoas. Mas me preocupo em manter os limites. Não quero ser desrespeitoso. Estou sempre me apoiando no humor que é uma forma simpática de suavizar muitos temas extremamente sérios. O que faço está livre para interpretações, não quero afirmar nada, apenas exercitar a possibilidade de se colocar no lugar do outro ou de rever o significado das coisas. Sobretudo, me divirto. Quem apreciar poderá rir e tentar imaginar cada experiência. A fotografia é, para mim, um suporte para infinitas possibilidades.
Por muito tempo fui usando câmeras emprestadas de amigos. A falta de grana me fez inventivo, também, na produção. Virou uma característica na minha obra. O que no começo era uma mera substituição, uma gambiarra virou um recurso com respaldo teórico e aprofundamento discursivo.
Sou formado em comunicação Social e sempre me preocupei em separar o artista do publicitário. Talvez meu trabalho de arte ainda lute contra a estética perfeita e irreal da publicidade. Não uso estúdio ou iluminação profissional, não tenho assistentes profissionais. A maioria das minhas fotos procuro realizar sozinho, exceto, casos onde não consigo me locomover a tempo de posar antes que o timer acione o disparador ou coisa parecida. O tripé me permite realizar enquadramento e toda programação para a captura da imagem e as vezes peço alguém que obedeça meu comando de voz para pressionar o dedo. Sempre realizo um seqüência de fotos para depois serem editadas. O conceito de "instante decisivo" que por muitos anos ficou ecoando na minha cabeça, nunca foi, na prática, uma orientação para meu trabalho. Pois levo horas, dias ou meses para realizar uma foto. E repito muitas vezes até sair como desejo. A maioria das fotos são feitas em casa com ajuda da, mãe, irmã, sobrinhos ou amigos.
O improviso não é só uma coisa de bastidores, muitos detalhes estão propositadamente em cena. Cuido para que tudo esteja sob meu controle. Nada impede que com mais recursos eu continue garantindo uma linguagem só minha, mesmo com auxílio de outros profissionais. A minha consciência estética não é algo imutável mas há uma consistência no estilo que amadureceu em muitos anos de experimentação.


Você tem rotina de trabalho?
Detesto rotina. Mas pesquiso regularmente história da arte em livros e internet, vivo catalogando imagens. Vou muito à mercados populares e coleciono objetos kitsch. Sou muito intenso e trabalho o tempo todo. Minha vida é meu trabalho e meu trabalho é minha vida. Do entretenimento às obrigações burocráticas, às necessidades físicas e biológicas, à espiritualidade, às relações de amizade, afetos e desafetos… tudo isso me influencia e inspira novos temas e projetos. Meu envolvimento emocional é muito intenso, sempre vivi para a arte e agora vivo de arte. A rotina não tem a ver comigo…me permito tentar fazer a "mesma coisa" diferente, sempre.

Você escreve sobre seu trabalho?
Eu tentei escrever mas achei desastroso. Meu trabalho é um comentário visual. Minha obra é questionadora, não posso responder ou afirmar nada. Tudo que proponho é um convite à reflexão suscitando as possibilidades de leituras variadas. Tudo que quero é promover o debate a partir da minha obra. Mas acredito que vou conseguir escrever sobre muitas coisas que poderão contribuir e ampliar o entendimento daquilo que proponho. Responder a esta entrevista já é um exercício e também fornece dados biográficos clarificadores.

Além dos estudos sobre arte, o que serve de inspiração?
Estou sempre visitando o canônico, o emblemático, o icônico, o simbólico... Adoro provérbios, ditados, máximas, aforismos, poemas, contos, folclore, mitologias, lendas, correntes filosóficas, classificações e rotulações. Adoro listas e colecionismo, adoro estatísticas de popularidade. Adoro paradigmas, gambiarras, reaproveitamento, reutilização…

Você participa de uma exposição na Galeria Laura Marsiaj, o que representa para sua carreira?
Para mim foi uma grande surpresa. Eu tive a sorte de ser descoberto pelo Afonso Costa, um experiente Marchand carioca que acompanhou por alguns anos meu trabalho de fotografia e me disse logo no início que era muito bom. Mas eu não me sentia seguro para mostrar como obras de arte. E ele mostrou meu trabalho para os dois maiores colecionadores do Brasil. O que veio me legitimar como artista foi quando mostrei meu trabalho de "fotógrafo" para Joaquim Paiva, um dos maiores colecionadores de fotografia do país, o primeiro a comprar um trabalho meu em 2010. No mesmo ano o Gilberto Chateaubriand, também adquiriu várias obras e me incluiu na mostra que reuniu suas aquisições para o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Hoje o MAM tem cerca de 40 fotografias minhas, através da coleção do Gilberto. Durante dois anos, o Afonso apoiou minha produção e me apresentou para várias pessoas do meio artístico que eu era completamente distante. outros importantes colecionadores também adquiriram meus trabalhos. Estar em coleções importantes me abriu muitas portas. E a minha produção sempre foi constante, uma vivência intensa me permitiu construir uma historia como artista o que permite entender que nada acontece de uma hora para outra. Logo surgiu a oportunidade para expor numa ótima galeria, a Laura Marsiaj. É fundamental para um artista ter uma galeria que o represente. O Afonso costa, marchand associado, que me apresentou para a Laura e hoje os dois me representam no Brasil e no exterior. Já tenho vários trabalhos meus fora do país. Não só colecionares de arte importantes, mas também, colecionadores da minha obra, já que freqüentemente compram novos trabalhos. Estou muito feliz por poder viver de arte, hoje em dia, já que sempre vivi para a arte. Só tenho que agradecer a todos que acreditaram na minha ousadia.



Exposição na Galeria Laura Marsiaj.


Mury ao lado do colecionador Gilberto Chateaubriand.

É possível viver de Arte no Brasil?
Eu jamais acreditei que poderia viver de arte, acho que uma minoria consegue. A arte sempre foi e para sempre será um artigo de luxo. Investir em jovens artistas está mais acessível e é uma ótima maneira de começar uma pequena coleção. Com a venda do trabalho os artistas conseguem manter sua produção e a introdução destas obras no mercado de arte intensificam e favorecem o desenvolvimento cultural. Eu nunca fiz meu trabalho com a intenção de vender. O mercado de arte está aquecido e o Brasil é um grande expoente no cenário internacional. Aumentou muito o número de Galerias no Brasil inteiro e também aumentou o número de cursos de arte. Acho mais importante me concentrar na poética das minhas imagens do que no mercado de arte. Tive a sorte de ser acolhido. Nem todos gostarão, eu sei que meu trabalho incomoda ou não agrada aos olhos de todos. Mexo com temas polêmicos e isso já traz grande chance de recusa. Não pretendo agradar a todos. Fico muito feliz com a aceitação até agora, com ótimos resultados e excelente repercussão. Só quero continuar trabalhando, aprendendo e desenvolvendo minha arte. Só quero poder trabalhar com aquilo que mais amo com muita tranqüilidade. Meu trabalho não ganhou apenas o mercado de arte, em vários estados brasileiros muitos professores de artes estão usando minha obra como referência. E eles vem me procurar através da internet e acompanham o que estou produzindo e publicando. Me sinto valorizado e reconhecido.

Quais são seus planos para o futuro?
Construir um ateliê para trabalhar.

O que faz nas horas vagas?
Gosto de visitar museus, galerias, igrejas, cemitérios, livrarias, bibliotecas, mercados populares, manifestações folclóricas, rodoviárias, camelôs, brechós, shoppings, cinema, bancas de revista... coleciono brinquedos, adoro experimentar sabores, odores e texturas, ouço todo tipo de música. Fico muitas horas na internet, adoro viajar, caminhar, subir montanhas, entrar na mata, tomar banho de cachoeira. Brinco com animais de estimação, adoro conversar com amigos. Considero tudo isso parte do meu trabalho.



Abaporu (2010)



Anástacia (2010)



Cristo Redentor



Francis Bacon





Iacuris // Jazz (2011)



Nick Botton (2011)



Saci (2011)



O Nascimento de Venus (2010)



No blog http://alexandre-mury.blogspot.com encontraremos outras imagens e o texto Um mundo reinventado escrito por Luiza Duarte para a exposição realizada na Laura Marsiaj.

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
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