segunda-feira, 10 de setembro de 2012

Cézanne e a superfície do quadro e o plano (a atmosfera) a sua frente



Cézanne e a superfície do quadro e o plano (a atmosfera) a sua frente.

 Frases de Cézanne:

“Tratar a natureza através do cone, da esfera e do cilindro, [...].”

“Os corpos na natureza são todos convexos”

“Entre o objeto e o pintor se interpõe um plano, a atmosfera.” 

“A Natureza é mais em profundidade que em superfície.”

“Quero chegar a perspectiva unicamente pelas cores.”

Frases de Braque:

“Não é o bastante fazer ver o que se pinta, é preciso ainda fazer tocar.”

“O espaço visual. O espaço tátil. O espaço manual.”

Desdobramento

Percebemos uma superfície não em duas dimensões, mas em três, sendo que a terceira é dada  pela distância entre o observador e essa superfície. Na medida em que se aproxima dessa superfície, mais presente vai se formando a necessidade de tocá-la, ou seja, mais o tátil se manifestando.  Mais próximo ainda, chega-se ao espaço manual. Isso nos remete ao que Poussin afirma sobre as diversas distâncias quando nosso olhar é prospectivo.  Essas  distâncias demonstram que quanto mais afastado o observador estiver, mas o espaço é visual. Com a aproximação chega ao espaço manual passando pelo espaço tátil.  

 
 
 
 
 
 

 
 
 
 



 

 


 


 

Se compararmos os dois quadros de Cézanne com um de VanGogh podemos perceber que o espaço plástico cezanneano acontece à frente do quadro, e nesta atmosfera a que ele se referia, enquanto que em Van Gogh o espaço acontece além da superficie do suporte como ilusão. Cézanne rompe com o conceito do espaço plástico proposto por Alberti. 

Creio que isso pode nos levar a uma investigação mais profunda das descobertas cezanneanas, inclusive para entendermos os valores hápticos que são uma das propostas destas observações.

O que temos que investigar de início: o que ocorre neste plano que se interpões entre o modelo e o pintor? Mas se deve anotar que Cézanne conseguiu chegar a esse olhar pesrpectivo unicamente pelas cores. E um olhar, nesses últimos quadro, já totalmente desligado de quaisquer resquícios da perspectiva renescentista. 

Aqui um parêntesis. Na geometria euclidiana os sólidos geométricos são acromáticos, portanto, abstrações, uma vez que na natureza, segundo Cézanne, tudo está colorido.  E mais ainda. Para ele  cor e forma são uma só coisa. Daí ter dito que “quanto mais a cor se harmoniza, mais a forma se precisa.”

Se observarmos esses dois quadros de Cézanne, realizados em sua maturidade veremos que o espaço plástico de manifesta como uma superfície com vários acidentes sobre o plano do suporte projetando-o para frente, vindo a coincidir com este no qual nos orientamos.  Como as cores são concretas adjetivas, têm uma dimensão temporal, surgem pequenas superfícies ora cônicas, ora cilindrícas, ora esféricas (uma das formas das pequenas sensações?), pequenas superfícies  em constante transformaões.  Como estamos de tal forma condicionados a pensarmos no espaço a partir daqueles sólidos geométricos, temos que fazer um certo esforço para percebermos como Cézanne rompeu com padrões culturalmente internalizados em nossos espíritos.

Para melhor percebermos o que tento mostrar, podemos comparar esses quadros de Cézanne com a paisagem de Van Gogh. No quadro deste o espaço plástico está ainda alem da superfície do suporte,  e nele uma série de acidentes mas sem uma dimensão temporal.  

Tais fenômenos não se dão às explicações racionais e ao discurso verbal – pertencem unicamente ao pensamento plástico. Estas anotações, assim, ficam por aqui. Que o olho as faça perceptíveis, é o que pretendemos.

 
José Maria Dias da Cruz

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