Marcel Martins Diogo
Fale algo sobre sua vida pessoal.
Nasci
em Belo Horizonte no ano de 1983, durante certo período da minha infância meu
pai foi um imigrante latino americano em Nova York e a minha mãe dona de casa.
Estudei em escolas públicas e privadas, atualmente vivo com a minha família em
uma casa situada na fronteira entre duas grandes cidades que compõem a região
metropolitana de Belo Horizonte, a respeito disso, certa vez escrevi a seguinte
nota:
Vivo em uma zona de fronteira entre duas grandes cidades, os limites são, ao mesmo tempo, os dois territórios e a "terra de ninguém"... mas talvez a fronteira seja mais a "terra de ninguém" que qualquer outra coisa. Ignorados pelas suas respectivas cidades, esses confins mergulham no esquecimento. Apenas a ausência de políticas públicas torna visível a fronteira. A linha divisória é imaginária, invenção humana. Na "terra de ninguém" os limites são invisíveis.
O dicionário classifica
cidadão como sendo aquele que vive em uma cidade e goza de direitos civis em um
território livre. Estamos em época de eleições para presidente de nossa
república, as propagandas televisionadas dizem todo o tempo que votar é um ato
de cidadania... ainda não encontrei o candidato político que represente a
fronteira... talvez ninguém irá cuidar da famigerada "terra de
ninguém".
Como foi sua formação artística?
Sempre desenhei desde criança, na adolescência fiz
durante certo tempo um curso de pintura a óleo sobre tela, experiência essa que
me motivou a ingressar-me na Escola de Belas Artes da UFMG. Em 2006, me formei
em pintura e mais tarde concluí uma continuidade de estudos para Licenciatura. Acredito
que a formação artística é contínua, a cada dia, a cada experiência absorvemos
novos conhecimentos que influenciam em nosso aprendizado.
Que artistas influenciam seu
pensamento?
Refletindo sobre um conceito ampliado da ideia de
pensamento, posso dizer que não somente artistas influenciam o meu imaginário.
Filósofos, sociólogos, historiadores também são fontes de inspiração para a
construção dos meus trabalhos. Entre os pintores tenho certa predileção por
Caravaggio, a luz e a sombra barrocas me fascinam. Rembrandt, Vermeer,
Velásquez também são pintores importantes dentro dessa ótica. Influenciam-me
também Delacroix, Eric Fischl, Neo Rauch, Gerard Richter, David Hockney, Lucian
Freud, Arcimboldo, Edward Hopper, Almeida Júnior, Cándido López, Odilon Redon,
Gustav Klimt, John Everett Millais, Goya, Chardin, Courbet, John Willian
Waterhouse, Matisse, Cézanne, Van Gogh, Tolouse Lautrec, Jean Luc Godard, John
Baldessari, Akira Kurosawa, Frans Snyders, Masaki Kobayashi, Hokusai, entre
outros...
A literatura também é uma fonte importante de
referências para a construção dos meus trabalhos. Kafka, Dostoiévski, Machado
de Assis, Homero, Lima Barreto, são alguns exemplos de autores que permeiam
meus pensamentos. Entre os filósofos, os membros da “Escola de Frankfurt”,
principalmente Adorno e Horkheimer, exercem considerável influência sobre
minhas ideias.
Dentro da sociologia, leio Jean Baudrillard, Milton
Santos, Josué de Castro, Roberto Da Matta entre outros escritores que tratam
das relações sociais. Guy Debord e José Antonio Maravall são também exemplos de
escritores que também me influenciam.
Como você descreve sua obra?
Considero os meus trabalhos intimamente ligados à história da arte e concomitantemente à história do homem. Sendo assim, almejo construir imagens que se relacionam com o hodierno, além de estabelecer conexões com tempos antigos. Opto por uma imagética figurativa, a pintura, a cor e as relações humanas são estruturas importantes dentro dos meus trabalhos. Contudo, considero-me incapaz de descrever em palavras as imagens que construo, mesmo porque, é exatamente a necessidade de conceber meus pensamentos transfigurados em imagens o que me motiva a construí-las. Desenvolvo trabalhos em vários meios, cada ideia demanda uma mídia específica, portanto, construo os trabalhos tendo em vista a melhor forma, em minha opinião, para concebê-los.
Considero os meus trabalhos intimamente ligados à história da arte e concomitantemente à história do homem. Sendo assim, almejo construir imagens que se relacionam com o hodierno, além de estabelecer conexões com tempos antigos. Opto por uma imagética figurativa, a pintura, a cor e as relações humanas são estruturas importantes dentro dos meus trabalhos. Contudo, considero-me incapaz de descrever em palavras as imagens que construo, mesmo porque, é exatamente a necessidade de conceber meus pensamentos transfigurados em imagens o que me motiva a construí-las. Desenvolvo trabalhos em vários meios, cada ideia demanda uma mídia específica, portanto, construo os trabalhos tendo em vista a melhor forma, em minha opinião, para concebê-los.
Que exposição sua, você considera
a mais importante?
Considero todas as exposições importantes. Tendo em
vista a multiplicidade de imagens com as quais convivemos, acredito ser
extremamente importante para o artista, enquanto um construtor de imagens, o
momento de exibição das mesmas. Porém, para destacar uma mostra específica,
rememoro a minha primeira exposição individual, onde apresentei pela primeira
vez as pinturas da primeira série de naturezas mortas, um vídeo relacionado à
pintura outonal de Giuseppe Arcimboldo e um grupo de fotografias.
Como você descreve o mercado de
arte em Belo Horizonte?
Se pensarmos que Belo Horizonte talvez seja a
terceira capital mais rica do país, logo concluímos que o atual mercado de arte
não condiz com tal realidade. Os investimentos em arte contemporânea na cidade
são irrisórios. Ultimamente as coisas estão melhores, mas, o mercado ainda é
muito aquém da qualidade dos artistas da cidade e infelizmente é comum observar
jovens artistas que não produzem por falta de incentivos ou condições financeiras
para desenvolverem suas obras. Porém, também podemos pensar, segundo uma ótica
otimista, que a ausência de um mercado de arte mais incisivo, permite uma maior
liberdade de experimentação para os artistas mineiros, uma vez que estes não possuirão
imposições mercadológicas.
O que é necessário para um jovem
artista ser representado por uma galeria?
Podemos pensar que um bom trabalho é suficiente para
que um jovem artista seja representado por uma galeria, porém, uma coisa é a
produção artística de determinado local e outra é a representação que as
galerias fazem. Um artista em início de carreira indubitavelmente é
desinteressante em se tratando do mercado de galerias de arte, pois, além de
nenhum prestígio entre os colecionadores tal pessoa também terá um valor de
mercado baixo, fatos que conspiram para o desdém das galerias. Essa situação
existe porque as galerias visam o lucro, afinal, representam antes de qualquer outra
coisa um negócio, sendo assim, entre negociar uma obra de um artista consagrado
que demanda uma maior procura e apresenta maior valor de mercado e a obra de um
artista iniciante com valores baixos, logicamente a galeria preferirá a
primeira opção. Portanto, os jovens artistas apenas serão representados por
galerias que visam investir geralmente em projetos experimentais, em pesquisas
alternativas que não visam um lucro imediato. Sinalizo que não pretendo
demonizar as galerias através dessa reflexão, apenas esclarecer que em
determinadas instituições um jovem artista não será representado porque é economicamente
desinteressante. Dentro dessa esfera, os artistas também são corresponsáveis, é
necessário ética e comprometimento por parte de todos os envolvidos nesse
trabalho de representação e divulgação de um artista.
Além dos estudos sobre arte que
outros estímulos influenciam em seu trabalho?
O próprio cotidiano é fonte de estímulos para a
construção dos meus trabalhos. Como mencionei anteriormente, a história e as
relações humanas alimentam o meu imaginário. Geralmente, assuntos externos ao
universo da arte são fontes ricas para a construção de novas ideias. A partir
de uma simples conversa com um amigo, talvez surja uma reflexão que,
relacionada ao campo da arte, pode me gerar um trabalho ou uma pesquisa nova,
por exemplo. Há mais de quatro anos estou fazendo um vídeo cuja ideia surgiu a
partir de uma conversa com o meu professor de francês na época, tal docente
falava sobre o seu país de origem, o Senegal, um lugar especificamente me
chamou atenção e a partir dessa conversa estou construindo um vídeo.
Você tem uma rotina de trabalho?
Não tenho especificamente uma rotina de trabalho.
Posso dizer que trabalho todos os dias, alguns mais, outros menos, mas, sempre
estou trabalhando ou planejando algo.
O que você pensa sobre os Salões de Arte?
Os salões de arte são importantes estímulos,
principalmente para os jovens artistas. Premiações e grandes exposições
diversificadas contribuem para uma maior diversificação e profissionalização
das artes visuais no país.
Qual sua opinião sobre as Bienais
e Feiras de Arte? Alguma sugestão para melhorá-los?
As Bienais e Feiras de Arte não possuem mais o
caráter de grandes eventos que ocorrem para mostrar trabalhos inéditos vindos de
outros lugares desconhecidos pela maioria, atualmente a internet se encarrega
pela divulgação das novidades, porém, tais eventos são importantes porque
reúnem grande número de trabalhos em diversas técnicas e formatos. A “overdose”
artística que as Bienais e as Feiras de Arte são capazes de proporcionar é
importante porque constitui um momento atípico. Enfim, para os artistas, os
galeristas, colecionadores de arte, estudantes, etc. esse contato aproximado
com uma miríade de trabalhos artísticos em diversas mídias constitui um momento
de suspensão em meio ao cotidiano habitualmente ordinário. Creio que o
favorecimento de trabalhos mais experimentais traria beneficies para estes
eventos, uma vez que seriam oportunidades de contatos com obras que em outros
espaços seriam praticamente impossíveis. Uma maior representação de jovem
artistas e retrospectivas de artistas antigos também seriam feitos que na minha
opinião contribuiriam para a qualidade desses eventos.
Quais são seus planos para o
futuro?
O futuro é sempre incerto. Logicamente construo meus
trabalhos hoje pensando em uma maior visibilidade no futuro, porém, sou
bastante despreocupado em relação a expectativas futuras. Valorizo enormemente
a possibilidade de experiências artísticas, portanto, almejo continuar no
futuro construindo meus trabalhos e experimentando os trabalhos dos outros. O
encontro com outros artistas e outros lugares também são situações importantes em
minha opinião, sendo assim, tenho projetos para um maior contato e aproximação
de artistas residentes em locais menos difundidos nos grandes circuitos
artísticos, portanto, planejo para o futuro um maior contato com pessoas que
trabalham com arte em outros lugares.
O que você faz nas horas vagas?
Gostaria de me dedicar
mais a vadiagem. Acredito que um momento vago deve ser um momento vazio, um
instante de pausa na rotina, portanto preferiria possuir verdadeiramente horas
vagas e não fazer nada. A teoria do ócio criativo me parece algo bastante
interessante, pois, considero importantes e salutares os momentos ociosos
dentro da mesmice diária. Existe certa obrigatoriedade de ação no contexto
social capitalista contemporâneo, devemos deslocar o mais rápido possível,
fazer o maior número de coisas que alcançamos, acumular o maior capital
possível... somos, portanto, diariamente condicionados a uma rotina acelerada e
intermitente, que não nos permite intervalos ociosos. Dentro dessa lógica do
capitalismo, encontramo-nos induzidos a mercantilizar o nosso tempo e assim
fatidicamente a entender o momento vago como prejuízo, como perda, sendo assim,
tenho imensa dificuldade em estar desocupado, poderia até
mesmo concluir que não possuo horas vagas, pois todo o tempo estou refletindo,
pesquisando ou construindo algo, existe certa auto cobrança.
Enfim, creio que dentro
dos meus anseios atuais, a meta é buscar literalmente a hora vaga, para então,
não fazer nada.
Para finalizar, gostaria
de acrescentar que sinto a falta de uma crítica de arte contundente e
especializada em Belo Horizonte. Penso que para todos os artistas um olhar
externo que possa exprimir uma crítica interessante auxilia para melhorar a
produção artística. Observo em BH relações de “camaradagem”, onde praticamente
ninguém exerce uma opinião crítica a respeito da obra do “amigo”. Aqueles que o
fazem, são taxados como “inimigos”, invejosos, ou desdenhosos do feito alheio. Criticar,
em minha opinião, vai além de julgar como “bonito” ou “feio”, ou então o
simplório “gosto” ou “não gosto”, consiste em analisar a produção em seu
contexto, observar a qualidade em diversos aspectos daquilo que é apresentado,
estar atento aos modos de exibição, ou seja, uma critica interessante consiste
em um estudo aprofundado do trabalho apresentado e permite, a partir de então,
uma possibilidade de desenvolvimento daquele que é submetido ao julgamento
crítico.
Tomates, pintura - óleo sobre tela, 40 x
50cm, maio de 2012.
Batatas IV, pintura - óleo sobre tela, 40 x
50cm, outubro de 2010.
Ak demie d'art moderne, impressão digital, 21 x
29cm, abril de 2011
Ak demie d'art moderne, impressão digital, 21 x
29cm, abril de 2011.
Natureza morta IX, pintura - óleo sobre tela,
145 x 145cm, 2007
Natureza morta III, pintura - óleo sobre tela,
70 x 100cm, 2005.
O que nos separa é quase [in]visível, impressão
digital, 21 x 29cm, julho de 2011.
O que nos separa é quase [in]visível, impressão
digital, 21 x 29cm, julho de 2011
http://marceldiogo.blogspot.com
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