Pedro Meyer Barreto.
Pedro, conte um
pouco sobre sua história pessoal.
Nasci em 6 de novembro de 1978, em Niterói,
filho de Luiz Antonio Barreto, ator, engenheiro agrônomo, fiscal e sindicalista
e Marta Martins Meyer, artista plástica, assistente social, professora e
cozinheira de mão cheia. Morei no Rio de os seis anos de idade. Depois fui para Nova Friburgo
onde residia entre uma fazenda e um apartamento no centro da cidade, nesse período
tive um contato muito próximo com a natureza. Ficava fascinado com a fauna e a
flora da Mata Atlântica, passava todos os dias brincando livre, desenhando e
andando à cavalo.
Cursei o ensino fundamental em Nova Friburgo,
no D. Pedro e no Anchieta, o primeiro um colégio pequeno e intimista, o segundo
um grande colégio jesuíta. O ensino médio foi no Rio de Janeiro, no CEAT, um
colégio mais alternativo.
Trabalho como artista plástico, principalmente
com pintura e desenho, também sou professor assistente e pesquisador, também
ilustro, desenvolvo projetos gráficos e atividades ligadas à produção cultural.
Como foi seu encontro com a Arte?
Meus pais sempre
desenvolveram trabalhos artísticos. Minhas lembranças mais antigas estão
relacionadas a eles. Sempre tive muita liberdade e incentivo, contato com pintura,
desenho, teatro, música, dança... A exposição mais significativa na infância
foi “Pablo Picasso”, no Paço Imperial,
em 1986.
O encontro com a
arte ocorreu também através dos livros, filmes, desenhos animados, histórias em
quadrinhos, vídeo games...
Percebo que esse encontro foi especialmente
marcado por duas viagens: uma temporada de férias na residência do artista
Luciano Maurício em Tiradentes, quando conheci o barroco mineiro; e minha
primeira viagem à Europa, Egito e Oriente Médio, em 1994, onde tive contato com
parte significativa da cultura ocidental conhecendo artistas como Goya,
Velásquez e El Greco e tradições antigas no Cairo, no Vale dos Reis, em
Jerusalém. Em Madri descobri o Graffiti, que influenciou meu desenho durante um
período de pichação adolescente.
Qual foi sua formação artística?
Minha formação inicial foi em casa, no
próprio cotidiano familiar. Alguns artistas foram importantes na minha
formação. Luciano Maurício foi um exemplo de liberdade, desprendimento e humor.
Ele influenciou uma fase infante na qual meus desenhos eram uma espécie de
investigação naturalista amadora. Com Gianguido Bonfanti mantive uma relação próxima entre os anos 2000 e
2005 e trabalhei principalmente questões relacionadas ao Modelo Vivo, à gravura
e à pintura. Um artista fundamental no meu aprofundamento crítico e
experimental foi Carlos Zilio. Conheci o Zilio em seu ateliê em 2004 e na
sequencia frequentei livremente suas aulas na EBA (Escola de Belas Artes).
Posteriormente ele foi meu orientador no mestrado em Linguagens Visuais,
concluído em 2008.
Na
Esdi estudei ainda com professores ligados à arte como Amador Perez, que sempre
apoiou e trouxe pontuações precisas para minha trajetória; Lauro Cavalcanti, que
me apresentou aos circuito e pensamento contemporâneo, e Rafael Cardoso, que trouxe
um conjunto vivo de abordagens da historia das imagens. No Parque Laje fiz
cursos desde 1996 com vários artistas e críticos, entre eles Anna Bella Geiger,
José Maria, Fernando Cochiaralle e Paulo Sérgio Duarte. Em 2010, concluí o curso
de Aprofundamento do Parque Laje, com coordenação de Glória Ferreira e
participação de Livia Flores e Luiz Ernesto.
Atualmente
continuo na Linguagens Visuais, cursando o doutorado com orientação do Paulo
Venancio e está sendo ótimo. Questões precisas no tempo certo.
Existem
inúmeros artistas e pessoas que contribuíram na minha formação, toda troca é
construtiva. Acredito que nunca deixamos de estar em formação.
Que artista influenciam seu pensamento?
Quando encontro,
converso e convivo com artistas sou de alguma maneira influenciado por eles.
Existem alguns artistas que me interessam mais como conversa de linguagem: Marlene
Dumas, Mathias Weischer, Iberê Camargo, Hélio Oiticica, Daniel Richter, entre
outros.
Como você descreve sua obra?
Como uma relação
entre eu, você, os presentes leitores e as pessoas que são tocadas pelo
trabalho. Uma forma de (r)existência no mundo, de tentar significar, duvidar e
ir além.
Trabalho
principalmente com pintura e desenho, nos quais noto uma predominância da
figura. Me interesso por muita coisa e gosto do risco das novas experiências.
Qual foi sua exposição mais importante?
Não sei. Todas
marcaram um momento, uma tomada de consciência sobre algum processo de
desenvolvimento do trabalho e sua inscrição.
Considero que
minha atuação como artista começa na exposição que fiz em Belo Horizonte, na
Galeria Cemig, em 2004. Foi meu primeiro prêmio e minha primeira exposição
significativa.
A pintura site
specific que fiz em Recife em 2007 foi especial por seu resultado e novidade.
Na Bienal de Amsterdam aconteceu uma situação parecida.
Qual sua opinião
sobre as Bienais e Feiras de Arte?
Existem muitas
Bienais e Feiras de Arte. Talvez as grandes Bienais com forte poder de
institucionalização estejam cedendo espaço para outras, menores e com
singularidades mais orgânicas.
As Feiras de Arte
são ambientes privilegiados para operações de mercado. Nelas são movimentados
valores monetários, conceituais e de legitimação. De maneira salutar, as feiras
quebram relativamente o distanciamento estratégico do cubo branco, deixam o
caráter mercantil da obra mais explícito.
O que você pensa
sobre os Salões de Arte? Alguma sugestão para aperfeiçoá-los?
Os salões são
oportunidades para o artista mostrar sua produção, iniciar um caminho no
circuito, trocar com outras pessoas, experimentar a linguagem, e, às vezes, ser
remunerado por isso. Como a arte é socialmente construída, esse reconhecimento
coletivo é fundamental.
Sugestão para os
salões: remunerar bem os artistas e incentivar o diálogo crítico.
Além de artista
você e professor, como você vê o ensino de Arte no Brasil?
Um espaço
fundamental para a troca entre artistas, para o desenvolvimento de pesquisas e
transformação social. Considero também o ensino no Brasil (de maneira geral)
como uma área extremamente carente.
O artista na
universidade deve reivindicar as especificidades e a legitimidade das suas
linguagens de pesquisa. É comum as normas acadêmicas entrarem em conflito com o
caráter experimental e livre da arte.
Acho também que a
universidade deve ter uma relação orgânica com o circuito e ao mesmo tempo
preservar uma autonomia crítica, menos mediada pelos interesses privados de
sucesso pessoal. A universidade é um espaço de construção coletiva.
Que contribuição o
Mestrado e o Doutorado deram para sua formação?
É ótimo trocar com
outros artistas, especialmente quando vários deles já possuem trabalhos mais
amadurecidos. Pode ser também uma oportunidade excelente para pensar o trabalho
com mais profundidade, questioná-lo e experimentar. O mestrado e o doutorado
ainda são qualificações necessárias à minha atuação como professor.
A quase totalidade dos artistas do Rio matriculados nos cursos acadêmicos, procuram a EAV do Parque Lage, o que você pensa sobre o fato?
Como dizia um
amigo baiano: normal... O Parque Laje é uma escola livre, tem uma diversidade
de professores e qualquer um pode chegar lá e fazer um curso. O problema é ser
pago... Tomara que consigam aumentar o número de alunos bolsistas. Além disso a
localização é uma delícia.
Que sugestões você
daria para um jovem estudante de Arte?
Mergulhar na arte
e na vida. Conhecer e conversar com outros artistas.O que torna o artista um ícone?
A intensidade de sua transformação do mundo.
Quais são seus
planos para o futuro?
Ver minha filha crescer.
Ela está com sete meses, linda e sorridente e eu estou completamente
apaixonado, babando... Continuar desenvolvendo meu trabalho e prosperar com
ele.
Todas as horas são
livres. A maior parte do meu tempo dedico à pesquisa artística que é a maneira
pela qual encontro sentido na vida. Isso inclui momentos de letargia nos quais
fico sozinho, sentindo o vazio nostálgico e especulativo do ócio.
Mulata.
Instalação em Recife.
Banheiro Travesti.
Apartamento das Travestis. Instalação Recife.
Mureb.












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