Quem é Jonas Aisengart?
Nasci
no Rio de Janeiro, curiosamente em casa por não ter dado tempo de chegar ao
hospital, em 30 de junho de 1987. Meu pai é urbanista, formado em arquitetura
na Santa Úrsula na mesma geração do Tunga e do Pedro Paulo Domingues, foi
através dele que tive o primeiro contato com o mundo das Artes visitando
exposições e também com o fazer artístico já que na minha infância o meu pai
passava bastante tempo desenhando.. Minha mãe é geofísica, inteligente,
aplicada... Estudei em apenas 3 colégios: Espaço Educação, Bennet e EDEM, esta
terceira foi bastante importante na minha escolha definitiva de me dedicar às artes
plásticas e abriu minha cabeça pra muita coisa. Depois dali fui fazer pintura
na escola de Belas-Artes da UFRJ onde acabei saindo no 7o período sem me formar
e sempre desde o colégio e paralelo à faculdade fiz cursos complementares de
desenho e pintura... Frequentei a EAV do Parque Lage em diversas fases da minha
vida a partir dos 15.
Sou
casado há 3 anos e tenho uma filha de 2, fato que mudou completamente o meu
modo de agir e pensar sobre tudo.
Qual foi sua formação artística?
Desenho
de observação a partir dos 12, Escola de Artes Visuais do Parque Lage a partir dos 15 e Pintura na UFRJ.
Além disso, desde muito novo pesquiso artistas, imagens e pinto com uma
assiduidade bastante grande (quase diária) desde os meus 13, 14 anos.
Que
artistas influenciaram seu pensamento?
São
muitos e por diferentes motivos. El Greco, por exemplo, na minha infância eu
pirava com as pinturas dele, depois o Escher, apesar de não ter muito a ver com
o meu trabalho atual eu sonhava que o cara fosse vivo pra me dar aula quando eu
era criança... Hoje, sinceramente, imagino que ele seria um professor meio
chato. E por aí vai, Picasso sempre achei genial pelo poder de se reinventar,
Gauguin sou apaixonado, Van Gogh é a coisa mais fantástica que eu já vi ao vivo.
David Lachapelle, Daniel Rischter, Eduardo Berliner, Munch, Chagall, Frida,
Andy Warhol e Basquiat sem dúvida, são artistas que influenciaram muito o meu
trabalho e o meu pensamento sobre arte. Alguns desses, eu olhei muito nesse
processo da produção recente... E tem também vários amigos artistas que na troca
de ideias, nos encontros da vida, acabam influenciando até mais do que esses
que citei... Acho essa troca especial e fundamental.
Como
você descreve seu trabalho?
O
meu trabalho, eu acredito que fica entre proposição e comentário. Eu tenho
intenção de propor mudanças, ideias, mas isso se dá de fato quando as pessoas,
os outros, mudam seu pensamento e depois suas ações então você proporcionar
reflexão através de comentários, críticas, mensagens, é um caminho. A ideia tem
sido criar com a pintura um universo fabuloso e alegórico que mostre de uma
forma irônica, o meu entendimento do que é a sociedade atual. Isso muitas vezes
passa pelo que é a minha vida, a minha história, a minha experiência dentro
desse caos que é viver nesse mundo em uma cidade como o Rio. Alguns dos
personagens que povoam os trabalhos são faces da minha personalidade, revelam diferentes
posturas que se manifestam em diferentes situações. Através das situações, das
narrativas, que ocorrem nesse universo da minha pintura busco sugerir críticas
ou ao menos um retrato social.
É
possível viver só de arte no Brasil?
Espero
que sim! Na verdade acredito que sim, mas neste momento, ainda não alcancei
isso.
O
que você estuda? Como você se atualiza?
Eu
frequento muito as exposições, procuro conhecer o que está sendo produzido aqui
e fora através de sites, blog... Procuro contato com as pessoas que estão, como
eu, correndo atrás de produzir e acho essa troca fundamental... Gosto muito de
pesquisar em publicações de arte contemporânea também, mas, no momento estou
sentindo falta de frequentar alguma aula ou grupo de estudos... Penso em voltar
para o Parque Lage ainda este ano... Vejo que (dentro da realidade do Rio de
Janeiro) lá existe essa preocupação em se discutir arte de forma atualizada,
pensando no que está sendo feito agora.
Você
tem uma rotina de trabalho?
Tenho
uma rotina de trabalho e não é a rotina que eu gostaria de ter na verdade.Trabalho
em horário comercial com móveis, em uma loja bastante interessante, mas isso me
limita muito em matéria de horário e em função disso deixei o ateliê que tinha
na lapa e montei um estúdio em casa. Chego
lá por volta das 19h e começo a pintar ou estudar 8, 9 horas da noite pra parar
11, meia noite, 1 hora da manhã... É uma rotina cansativa, mas é a forma que
tenho de manter uma relação constante com o meu trabalho de arte.
Você
escreve sobre seu trabalho?
É
um excelente exercício e não acho fácil. Fiz isso recentemente para dar uma
direção no press release, mas não é uma coisa que faço constantemente. Quero fazer
mais, é enriquecedor e esclarecedor sem dúvida.
Você
participa no momento de uma exposição na Galeria Jaime Portas Vilaseca, qual o
significado para sua carreira?
Sou
um artista jovem. Esse é o momento mais importante da minha carreira até agora,
é minha primeira exposição individual. Uma individual é a oportunidade de você
sustentar um discurso, apresentar ideias. Com essa exposição eu pude propor
algo com o meu trabalho, mostrar um trabalho que ao menos se pretende
consistente e que se relaciona com um discurso. A exposição é um trabalho em
si, a questão da montagem, da escolha das obras por um motivo, a corelação dá
outra dimensão pra uma obra. É uma oportunidade realmente maravilhosa e muito
importante que o Jaime me deu através de sua galeria e eu estou muito feliz e
bastante satisfeito com esse trabalho que realizei.
O
que você pensa sobre os salões de arte, alguma sugestão para aprimorá-los?
Olha,
percebo que a linha dos salões varia muito de acordo com as bancas de
jurados... Isso é natural, mas me chama atenção porque um mesmo salão pode
mudar completamente de um ano pro outro. Acaba que você conhecer um pouco as
pessoas que estão atrás daquele edital faz toda diferença. Não estou criticando
pois isso é realmente inevitável, é apenas uma constatação, as pessoas fazem as
coisas.
Acho
muito importante que existam salões de Arte contemporânea, mas talvez tenhamos
poucos tendo em vista a enorme população de artistas e o alvoroço que é o mercado
de arte no Brasil e do exterior para com o Brasil atualmente.
Quais
são seus planos para o futuro próximo e distante?
Emendando
com a pergunta anterior, quero focar agora em editais de salões e residências.
Nunca fiz uma residência e imagino que seja uma experiência muito especial e
importante. E espero também ter a oportunidade de participar de novos projetos
como exposições coletivas, mostras... Enfim, dar continuidade ao meu trabalho e
buscar novas experiências que possam me enriquecer como artista.
Além
dessas questões mais práticas penso que agora que acabo de fazer essa
exposição, é um momento para pensar o meu trabalho e experimentar algumas novas
possibilidades que façam sentido pra mim.
Em
longo prazo, tenho um objetivo que é realmente poder me dedicar integralmente
ao meu trabalho como artista plástico. Penso nisso todos os dias.
Como
você aproveita o seu tempo livre?
Tenho
muito pouco tempo livre porque faço jornada dupla de trabalho (pintando + emprego)
6 dias por semana, mas sempre que posso estou com a minha família... Minha
mulher e milha filha principalmente. Encontro também toda semana pelo menos uma
vez os meus pais e meus irmãos. Vou muito ao chorinho que tem todo domingo na
praça em frente ao meu apartamento e saio de noite... Uma vez por semana,
geralmente sábado, de noite saio pra beber e dançar.
Sou
do tipo que dá muito crédito às experiências sensíveis, acho que deixar de
estudar pra tomar uma cerveja e trocar ideias com pessoas interessadas e
interessantes às vezes pode ser muito proveitoso e devemos desfrutar esses
momentos sem culpa.
Red, Mister C.B. e a Super Cachorra, 2012
160 x 120 cm
The Fabulous Sunday Stroll, 2012
acrílica s/ tela
Crazy Bunny e Outras Lendas, 2012
120 x 80 cm
acrílica s/ tela
Friends, 2011
acrílica s/ tela
50 x 40 cm
The Dog Society, 2012
acrílica s/ tela
Crazy Bunny and crazy chick, 2012 | acrílica s/ tela | 40 x 30 cm
EM PLENO JARDIM
A obra de arte, como sugere R. Barthes, é um fragmento amoroso. Ela se constrói
por referências, desejos, inquietudes, frustrações, prazeres e conquista seu lugar
no mundo como instrumento humano de superação dos limites e transformação
do real. Entretanto, para que esse ímpeto inicial da ação artística se concretize é
preciso conectar-se com outros olhares – outros sentimentos – e estabelecer uma
rede de canais de comunicação que amplia e reverbera a ação criativa através da
sua inserção no circuito da cultura. Esse é o seu destino, nascer no imaginário
individual para tentar se perpetuar no espaço do conhecimento coletivo.
Assim, a obra de arte atua como um estranho instrumento da verdade e da dúvida;
ela se revela e se esconde, provoca o espectador e o convida a percorrer suas
histórias, dialogando com outras imagens, identificando-se com personagens e
situações conhecidas ao mesmo tempo em que o surpreende e encanta pela revelação
de um universo novo e pessoal regido pelo mistério e pela beleza.
A pintura de Jonas Aisengart invade a retina do espectador com a criação de um
mundo povoado por seres e mistérios de grande potência visual. Ele recria um
universo lendário, um mundo essencial, um jardim fantástico onde a inocência e o
pecado caminham de mãos dadas, no qual a ternura e a perversão compõem uma
atmosfera humana, demasiado humana. Há, por isso, um diálogo poderoso com
o expressionismo, um olhar provocante sobre a história da arte através de uma
curiosa relação com a arte nórdica e germânica, nem sempre muito presente nessas
terras tropicais. Aqui não há espaço para silêncios, para grandes áreas vazias,
tudo aqui conspira para a criação de um cenário repleto de antíteses, conflitos e
encantos, estruturados por um cromatismo fauve que dialoga com artistas como
Gauguin, Ensor ou Nolde.
Sobre tais referências históricas a juventude do artista incorpora o mundo das
imagens banalizadas, a crueldade e o encantamento contemporâneo, os ursinhos
tarados, o pink bunny autorreferencial, o mundo pop espetacular na sua glória e
sua efemeridade. Jonas não foge ao diálogo com o universo infantil em toda sua
complexidade; ele cria e recria personagens e cenários de forte impacto cromático
e simbólico, e acaba por construir um universo surpreendente, integrando adequadamente
ideia e ação, força expressiva e clareza conceitual. Trata-se de uma evidente
vocação de pintor e seus trabalhos atestam que a pintura ainda pode ser hoje
um poderoso instrumento de provocação e de diálogo com a tradição e o novo.
Essa é a meu ver a principal qualidade de Jonas Aisengart: a sua capacidade de
criar um universo simbólico original e ousado, buscando referências com a história
da arte e se comunicando diretamente com as questões do mundo dos dias atuais.
A sua pintura bruta, urbana, referencia e acentua as conquistas da arte dos anos
80 e estabelece curiosas relações com certos aspectos do design contemporâneo,
como os irmãos Campana, e com ícones do neoexpressionismo alemão. Em sua
primeira exposição individual o artista processa todas essas informações com inteligência
e talento, acentuando a sua evidente capacidade de recriar e transformar
o mundo contemporâneo com os instrumentos tradicionais da práxis pictórica.
Marcus de Lontra Costa
Rio de Janeiro. Abril de 2012.









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