Scott Macleay
Scott nasceu no Canadá e, depois de uma vitoriosa carreira artística em Paris, veio morar em Florianópolis, onde pretende dar continuidade à sua carreira e promover o ensino da arte. Obrigado pelo seu brilhante depoimento e muito sucesso.
Scott, você poderia conta algo de sua
história pessoal?
Eu nasci e cresci em uma
pequena cidade no norte da Província de Ontário, no Canadá, cidade esta chamada
Thunder Bay. Está localizada na parte superior do Lago Superior, no centro do
país, e seu isolamento e as condições climáticas extremas ajudam a moldar
personalidades distintamente fortes. Os habitantes tendem a ser muito
determinados e independentes e gostam de passar muito tempo ao ar livre em
ambiente natural.
Meu pai era descendente de
escoceses e minha mãe descendente de italianos e por isso eu cresci com
referências culturais diversas. Havia sempre muita discussão sobre comida,
vinho, música (de todos os tipos) e sempre muitas viagens nacionais e
internacionais. Tive influências populares e intelectuais. Acho que este tipo
de experiência é especial na América do Norte e talvez ainda mais no Canadá, (ao
contrário da Europa), onde a idéia de classes sociais é definitivamente uma
coisa do passado. As pessoas eram de certa forma "as mesmas", mais ou
menos educadas, mais ou menos abastadas, não diferentes, socialmente falando, no
sentido "classe" do termo. Esta foi uma importante força cultural e
acredito que ajudou-me a desenvolver uma noção profundamente democrática do
desenvolvimento de todos os tipos, incluindo o desenvolvimento cultural. A
noção de mérito, associada àquela do trabalho sério, é um conceito fundamental
e a força motriz neste tipo de sistema - muito mais do que o dinheiro. Acredito
que a situação deteriorou-se nos últimos 20 anos, com considerações monetárias
assumindo um papel mais predominante. Então, eu considero que tive a sorte de
crescer quando e onde eu fiz.
Sempre fui um bom aluno na
escola, mas com a chegada dos Beatles e os Stones no início dos anos 60, a
música tornou-se uma parte importante da minha vida. Como muitos jovens da
minha geração, eu atuava em um grupo musical durante os meus tempos de colégio
e a experiência de realizar a cada semana uma performance foi muito importante
para mim. Era uma banda de blues e nós tocávamos música muito mais marginal que
a maioria dos grupos locais. Isto deu-me o primeiro gosto em estar um pouco contra
corrente. Foi tanto esclarecedor e enriquecedor. Esta experiência chegou ao fim
quando eu terminei o ensino médio. Eu lamentei profundamente isso.
Para meus pais, eu estava
destinado a ser um advogado internacional ou um professor de pesquisa
universitária – alguma coisa de sério, certamente não um artista. Estudei
economia na Queen’s University, no Canadá, passando a obter um mestrado em
Teoria Econômica (especialização em desenvolvimento econômico) na London School
of Economics and Political Science (LSE), na
Inglaterra. De lá, eu ganhei uma bolsa de doutorado do Canadá Council para
ensinar e trabalhar durante meu doutorado na University of British Columbia, em
Vancouver, Canadá. Eu sempre fui um aluno muito dedicado e entusiasmado mas depois
de me mudar para Vancouver, pela primeira vez em minha vida, estive entediado.
Eu tinha feito um erro em voltar para o Canadá. Eu deveria ter continuado meus
estudos na LSE, na Inglaterra. Este erro foi o melhor erro que fiz pois mudou
profundamente minha vida. Minha falta de interesse pelos estudos de doutorado
levou-me a procurar um passatempo que tirasse de minha mente minhas obrigações
acadêmicas e decidi assim fazer um curso noturno de fotografia de 5 semanas. Este
curso estava relacionado com o desenvolvimento de trabalho em preto & branco
e como eu não tinha absolutamente nenhuma experiência fotográfica, parecia um
bom assunto para começar. Fiquei muito feliz em ter como professor Ted Scott,
um arquiteto / designer gráfico / fotógrafo americano. Ele foi rigoroso e
exigente e falou com entusiasmo incontido sobre um assunto que normalmente é
considerado seco e técnico. Sua paixão contagiante colocou- me em uma jornada
criativa que continua até hoje. No dia seguinte da conclusão de seu curso, eu
fiz uma reunião com o Diretor do Departamento de Economia para informá-lo que
eu estava devolvendo o dinheiro da bolsa e abandonando meus estudos de
doutorado. Eu seria um fotógrafo. Isso foi no final de março de 1975. Eu tinha
25 anos.
Como a arte entrou em sua vida?
A arte entrou na minha vida,
por osmose, a partir da infância. A maior parte dessa educação artística foi no
campo musical. Eu estudei piano, violoncelo e saxofone tenor enquanto criança e
adolescente. Eu não era particularmente talentoso em qualquer destes instrumentos
porque eu sempre parecia estar mais interessado no desenvolvimento de idéias e em
escrever canções que em praticar as escalas. Eu queria compor e arranjar. Ser
um grande músico não era uma prioridade. Eu só queria ser bom o suficiente para
compor. No entanto, a influência mais importante foi sem dúvida a de meus pais.
Minha mãe apresentou-me a música clássica e o meu pai o blues e jazz. Eu ouvia
música o tempo todo. Um dos meus melhores amigos na época era Paul Shaffer, que
as pessoas agora conhecem como o chefe da orquestra CBS em Nova York e líder da
banda e Diretor Musical do David Letterman show na CBS. Na adolescência, passávamos
horas a cada dia ouvindo jazz e blues. Nós éramos fanáticos. Um amigo, Rick
Lazar (atualmente percursionista e chefe da Samba Squad em Toronto) apresentou-nos
a Paul Butterfield Blues Band e a homens de blues de Chicago, como Muddy Waters
e todo um mundo novo abriu-se para nós. É uma paixão que dura até hoje. Então,
houve uma mistura de influências clássicas e modernas. Eu ainda não estava
interessado no que é conhecido como arte ou música contemporânea. Minha cidade
natal de Thunder Bay estava demasiadamente isolada para oferecer alguma luz
nesta área. Isto veio mais tarde na universidade. Como mencionei anteriormente,
eu viajei muito com meus pais nos EUA e na Inglaterra e fui exposto a uma ampla
variedade de experiências de museu, que também marcou a minha adolescência. Eu
fui inicialmente atirado pela pintura figurativa moderna do início do século
20. Lembro-me que "Les Demoiselles d'Avignon" de Picasso deixou-me
uma impressão muito importante como o fez o brilhante trabalho gráfico de Hans
Hartung. Lembro-me de detestar os impressionistas. Com a exceção de Van Gogh,
ainda não sou um grande fã.
Qual foi sua formação artística?
Eu não tenho nenhuma formação formal
como artista com exceção da educação musical da minha juventude. Toda a minha
formação universitária foi em Ciências Sociais - teoria econômica e um pouco de
ciência política e matemática. Os sólidos fundamentos da minha educação
cultural geral devo aos meus pais. Todo o resto eu aprendi por conta própria.
Como meu pai costumava dizer: "Trabalho duro e sacrifício é o único
caminho para o sucesso".
Minha educação nas
ciências sociais ensinou-me como teorizar, como "sintetizar" a
realidade. Afinal, isto é o que os cientistas sociais fazem. Eles tentam
explicar as complexas relações que existem no mundo real através de uma seleção
de parâmetros-chave que sentem comunicar melhor as inter-relações que sustentam
padrões comportamentais importantes. Esta educação também ensinou-me a
estruturar o pensamento e desenvolver enquadramentos conceituais. Considero-me excepcionalmente
feliz por não ter estudado arte na universidade. Eu acredito que a minha
experiência em ciência social foi muito mais útil e permitiu-me tomar um
caminho muito diferente daquele da maioria dos meus contemporâneos. Na verdade,
acredito que o enquadramento conceitual do meu trabalho como artista nos campos
da fotografia, de vídeo e musical é muito semelhante ao de um cientista social.
Tenho sempre construído séries de
trabalho baseadas no isolamento de um pequeno número de parâmetros de base e
das suas potenciais interações. Eu não acredito que quando deixei o trabalho
acadêmico para tornar-me um artista eu mudei fundamentalmente de profissão, mudei
somente o meio em que eu escolhi para trabalhar. Eu ainda estava preocupado com
a condição humana, com as relações que nos ligam ou nos separam e com as
diferenças entre as aparências e o que eu, ou outros, percebem como real.
Outro elemento que desempenhou um papel
na minha formação artística foi o trabalho comercial de fotografia que eu realizei
para ganhar a vida em Vancouver após ter deixado meus estudos de doutorado. Eu
era novo no campo, não tinha idéias preconcebidas sobre como as fotos deviam
parecer e por isso o meu trabalho tendia a ser um pouco diferente. Eu não tinha
bagagem; não tinha referências.
Eu tinha 25 anos e estava começando em
uma nova estrada. Rapidamente escolhi fotografia de moda e retrato editorial
para tentar ganhar algum dinheiro, porque eles pareciam oferecer mais liberdade
de expressão. Tive a sorte de encontrar alguns designers de moda muito
originais em Vancouver que me deram "carta branca" para fazer o que
eu quisesse e rapidamente desenvolvi um estilo muito pessoal. Eu gostava de
trabalhar com cores e descobri que para os fotógrafos ainda não era realmente tempo
para pensar em termos de controle de paleta. Eles tinham uma tendência a aceitar
o que a realidade combinada com o filme comercial disponível, tinha a oferecer.
Eu escolhi manipular, distorcer, dobrar e perverter as cores de todas as
maneiras que pudesse e gastava centenas de horas no meu estúdio fazendo testes
de iluminação, com diferentes filmes, diferentes fontes de luz, tecidos e
fundos diferentes, etc. Quando em 1978 comecei a trabalhar em minha primeira série
conseqüente de trabalho autoral, eu já possuía um banco de dados extenso de
informações sobre como controlar a minha paleta de cores, o que continua a
servir atualmente.
Que artistas influenciam seu pensamento?
Acho que todos nós temos vários níveis
de influências, há aquelas que afetam o enquadramento conceitual de seu
trabalho de uma forma muito profunda e aquelas que afetam apenas uma parte de
quem você é como um artista.
Se estamos falando de influências
globais que tiveram um profundo e duradouro impacto sobre o meu trabalho, então
acho sem qualquer dúvida, que o compositor John Cage foi uma influência
fundamental em todos os aspectos do meu desenvolvimento artístico. Não posso
pensar em uma única pessoa mais importante na história da arte do século XX do
que Cage. A natural generosidade e respeito inerente à sua abordagem de
enquadrar o ato de criação permitiu-me descobrir coisas sobre mim que eu não
tinha idéia que existiam e viajar para terras conceituais cuja existência eu nem
tinha tido conhecimento.
Meu primeiro encontro com o seu trabalho
foi em meados da década de 70, mas conheci realmente de forma intima quando trabalhei
no American Center for Artists em Paris. Eu
fundei o Departamento de Fotografia e tornei-me Diretor do seu Center
for Media Art and Photography. Cage e o coreógrafo Merce Cunningham
colaboraram regularmente com o Centro e os anos de 1980 a 1987 foram
simplesmente uma experiência incrível para mim. Eu me considero muito feliz por
ter sido convidado a trabalhar em um ambiente freqüentado por artistas como
eles, Steve Reich, Philip Glass, Douglas Dunn, Molissa Fenley, Karole Armitage,
Rhys Chatham, Édouard Locke, Bill Viola, Gary Hill, Joan Logue, William Wegman,
Tony Oursler, Thierry Kuntzel, Hervé Nisic, Robert Cahen, Michel Jaffrennou – e
a lista continua. Nós colaboramos com The Kitchen em
Nova York e muitas outras instituições internacionais, como o Centro Pompidou e
o Museu d'Orsay - realizando co-produções e séries de conferências, bem como
instalações, exposições e encontros com artistas. Foi um momento emocionante e o
Centro era um pólo avant-garde de atividade excitante, particularmente nas
artes cênicas contemporâneas e tecnológicas. Todos os dias era uma educação.
Era o lugar para estar e eu estava lá. A vida não poderia ser melhor do que
isso.
Acho que pode-se dizer que eu era um
fotógrafo que amava as artes do espetáculo e isto começou a manifestar-se no
meu trabalho de composição e de vídeo iniciado por volta de 1983/84 com o
trabalho musical para coreógrafos americanos e franceses. Desde então e até o
final da década trabalhei simultaneamente em fotografia e projetos musicais com
raras incursões no mundo do vídeo e não pode haver dúvida de que isso teve um
efeito tremendo na minha fotografia. Tornou-se mais e mais orientada à
performance, no que diz respeito aos meus assuntos e a mim mesmo. Encontrei-me
literalmente andando no meu próprio palco, em movimento com minha câmera em
todo o tipo de louca forma, explorando cada aspecto do movimento indo do tremor
a grandes gestos largos.
Em 1989 eu estava trabalhando quase que
exclusivamente em criações musicais para vídeo-arte e dança contemporânea e
tinha formado um grupo de música contemporânea “Private Circus” o qual realizou 2 CD durante o período
1990/1995 - um contemporâneo de ópera cabaret “Small Crowds” e
uma coleção de música para a dança contemporânea "L'Autre Moitié de
l'Histoire". Eu não voltei para a fotografia até 2004, quando o trabalho
digital estava começando a florescer e eu mais uma vez vi um futuro para a
fotografia.
Então, minhas principais influências não
foram fotográficas, foram musical e coreográfica. Meu trabalho figurativo em
cor de 1980-1987/88 foi fortemente influenciado pela dança contemporânea não-narrativa
e teatro. Adorava o modo como a mente de John Cage funcionava. Eu admirava
muito o trabalho da coreógrafa belga Anne Teresa de Keersmaeker. Estava
impressionado pela elegante cenografia de Robert Wilson e pela energia bruta de
Meredith Monk. Por fim, a chegada da performance arte como uma força motriz na
arte contemporânea completou o quadro para mim. No início dos anos 80, o enquadramento
conceitual criativo de artistas performistas como Marina Abramovic exerceu uma
forte atração em mim.
Mesmo os aspectos mais técnicos do meu
trabalho teve pouco a ver com a comunidade fotográfica. Por exemplo, a minha
paleta de cores tinha mais em comum com a de "arte pop" do que com
qualquer fotógrafo da época. Também não há dúvida de que as xilografias
japonesas Ukiyoe de artistas como Utamaro teve uma influência direta sobre a
minha utilização de superfícies planas sem detalhes no meu trabalho inicial em cor.
Eu era um admirador apaixonado de Ukiyoe o que acredito teve um profundo efeito
sobre o meu desenvolvimento estético inicial como artista.
E ainda havia alguns fotógrafos que tiveram
uma profunda influência sobre a maneira como inicialmente abordei o uso do
espaço e luz. Por exemplo, o trabalho inicial de Ralph Gibson em preto &
branco foi uma grande influência sobre a organização do espaço bidimensional.
Ele parecia ser capaz de quebrar regras sem que percebêssemos. Para mim, suas
imagens eram como pequenos poemas não-narrativos. Eugene Smith foi uma profunda
influência sobre a forma como abordei a fundamental “dualidade verdade /
mentira" da fotografia. O eufemismo elegante do trabalho preto &
branco de Irving Penn e Richard Avedon definitivamente influenciou a minha
utilização de luz em estúdio. Eu acho que a estética de retratos de Arnold
Newman e a confrontante qualidade gritante de Diane Arbus também afetaram a
forma como abordei meus assuntos. Finalmente, o espírito independente e a
polivalência de Man Ray inspirou-me a questionar cada aspecto do campo.
Mas quando eu estava começando meu
trabalho como artista no final dos anos 70, o trabalho preto & branco ainda
dominava o cenário fotográfico artístico e eu estava trabalhando na cor. Eu
estava contra corrente e buscava em fotógrafo de arte, como Stephen Shore e em fotógrafos
comerciais, tais como Pete Turner, Jay Maisel e Ernst Haas, os caminhos a
seguir. Não é certamente por acaso que a minha primeira exposição em Nova York
em 1980 foi na Space Gallery, uma galeria que foi iniciada por Turner, Maisel e
Haas como um local para mostrar a fotografia experimental em cores que, na
época, ainda era grosseiramente sub-representada em galerias de arte de NY,
Paris e Londres.
Meu trabalho inicial em Vancouver e
Paris, foi trabalho figurativo não-narrativo. Muito influenciado pela mesma
razão que fui tão apaixonado pela fotografia inicialmente, pelo que chamo de
"dualidade verdade-mentira" inerente à fotografia. Eu não escolhi a
fotografia por suas qualidades ou características técnicas ou estéticas, nem pela
sua tradição de documentário social ou jornalístico, eu escolhi porque ela
poderia, simultaneamente, mentir e dizer a verdade de forma tão eficaz. Talvez
isso explique minha falta de influências puramente fotográficas e minha
tendência natural em olhar para outras mídias (música / dança / teatro) como
espíritos afins e inspiração conceitual.
Eu realmente não posso descrever meu
trabalho, porque não seria uma visão objetiva, mas eu posso expressar o que é
importante para mim e o que eu tento conseguir com isso. Sou apaixonado pela
noção de ambigüidade e de mensagens conflitantes. Eu amo a idéia da confusão
que se esconde atrás da aparente estabilidade e calma. Parece-me que a
"dualidade verdade-mentira" torna a fotografia ideal para estas
preocupações. A fotografia é uma magnífica ilusão e eu a exploro por isso.
Como eu disse em um
recente artigo na revista Photo Magazine "Para mim era óbvio que a
fotografia quase sempre dizia "uma" verdade e "uma” mentira, ao
mesmo tempo. É sempre inerente a algo real e alguma forma de interpretação
disto, imposta, manipulada, inferida ou deixada totalmente aberta. Realidade e
ficção estão intimamente entrelaçados. Para mim, a fotografia não era para
comunicar o conteúdo no sentido concreto do termo, era mais sobre como nos
aproximamos deste conteúdo - a nossa perspectiva pessoal sobre o mesmo. A
fotografia era inerente ao "processo". Era o que estava acontecendo
em nossas mentes e como tínhamos escolhido traduzir o que estava acontecendo.
Era mais do que pessoal, era íntimo. Afinal, o que molda o conteúdo é aquilo
que somos, é a"nossa identidade". Isto parecia evidente, porque, na
verdade, para mim, não havia realmente nenhum conteúdo novo, no sentido
objetivo do termo.
Cada tema tinha sido tratado muitas
vezes antes. Certamente, era a maneira como abordava-se o assunto que
continuava a fazer nosso trabalho relevante para os outros e foi o que permitiu
à visão fotográfica de evoluir. Esta é uma das razões pelas quais eu sempre
preferi dividir a fotografia em dois tipos básicos: "aditiva" e
"subtrativa". Esses termos referem-se ao tipo de processo envolvido
com a realização de fotografias em vez de com o tipo de conteúdo que tratam... Eu
acredito que a fotografia necessita cultivar as possibilidades criativas
inerentes a esta dualidade para sobreviver porque essa dualidade constitui um
dos recursos mais singularmente precioso da fotografia. Remova isto e você
estará amputando uma grande parte de sua alma."
Eu era e continuo sendo um fotógrafo
"aditivo". Eu começo com uma parede de estúdio em branco e adiciono
coisas que eu escolho para a imagem. Eu não acredito na importância da
fotografia “full frame” e eu não acredito que as regras de composição (como são
tradicionalmente ensinados) são relevantes para o trabalho contemporâneo.
Acredito que a dominação da fotografia preto & branco e do fotojornalismo
tradicional fizeram muito mal ao desenvolvimento conceitual da fotografia o que
atrasou sua entrada no mundo das belas artes.
Enquanto
literalmente todas as outras forma de expressão criativa estavam passando por
mudanças revolucionárias no período de 1920 a 1970, a fotografia, em sua maior
parte, manteve-se fiel à sua vocação tradicional de descrever a realidade (nunca
ficou muito claro para mim de quem era esta realidade) de maneira muito
convencional. Lembro-me de ter ficado devastado após visitar uma grande
retrospectiva do trabalho de Cartier-Bresson, em Paris, no início dos anos 80 -
não porque eu não achasse que ele fosse talentoso, seu talento era evidente.
Era o enquadramento conceitual onipotente que abrigava este talento que me
incomodou. Pelo que me lembro, a exposição era composta de centenas de impressões
preto & branco 30 x 40 cm em molduras idênticas de tamanhos idênticos colocadas
em uma linha simétrica aparentemente interminável. Eu me perguntava como era
possível que parâmetros importantes como cor e escala pudessem estar totalmente
ausentes do trabalho de uma vida nas artes visuais. A resposta era clara. O
trabalho não era uma parte das artes visuais. Era algo diferente - algo que não
me diz respeito.
Meu mundo era um em
que cor e escala de impressão eram muito importantes. Eu acreditava na criação
de situações dinâmicas que geravam caminhos desconhecidos a serem explorados.
Aprendemos tomando riscos e com uma dose importante de desdém em relação ao
status quo. Eu acho que a produção de um trabalho, e não o discurso sobre ele, é
que permite que se faça progressos. Acredito que o "fracasso" é parte
integral do processo de aprendizagem. É importante para jovens artistas ter um lugar onde possam
falhar sem conseqüências graves para suas carreiras. Fotografia artística é
como ciência pura, em oposição à ciência aplicada. Pesquisamos porque pesquisa
é o que fazemos, não porque estamos necessariamente procurando por uma resposta
detalhada a uma pergunta muito específica. A arte é sobre o levantamento de
questões interessantes, às vezes muito difíceis. Quando ela começa a dar
respostas, aproxima-se de publicidade e / ou propaganda, e eu admito que
rapidamente perco o interesse. Eu acredito que a arte pode fazer poderosas constatações
sociais, mas não quando aponta com dedos acusatórios. Por exemplo, eu acho que a
obra de performance arte “12 Square Meters” do
artista chinês Zhang Huan, de 1994, realizada em um imundo banheiro público no distrito
Dong Cun de Pequim foi um poderoso comentário social sobre as condições esquálidas
da região, mas também levantou questões mais gerais sobre a existência do homem
e sua relação com o lixo que ele gera, bem como sobre as condições de vida em
áreas de rápido desenvolvimento em todo o mundo, onde as condições insalubres
co-existem com magníficos arranha-céus contemporâneos.
Em todo caso, eu
simplesmente tento expressar o que sinto, o que me preocupa, mas não o que
vejo. Sempre achei estranho que fotógrafos sejam obcecados pela tentativa de
compartilhar o que seus olhos vêem. Não tenho nenhum interesse em propor
representações bi-dimensionais do que vejo. Eu
prefiro fotografar idéias e conceitos. Eu sempre tenho. Eu prefiro o trabalho
que é aberto, onde o espectador completa a obra. Creio que o triângulo
constituído por autor, obra e espectador é fundamental para a potencial universalidade
e intemporalidade do trabalho e uma sensação de elegância orgânica, ao invés de
beleza estética. Estas preocupações abrem um número infinito de possibilidades
para eu estudar a natureza humana tendo minha mente como o principal animal de
laboratório.
Quando comecei meu
trabalho na década de 1970, o trabalho fotográfico estava mais preocupado com a
tentativa de gerar a impressão de três dimensões em um espaço bidimensional.
Minha paixão por Ukiyoe levou-me a estudar as relações espaciais entre planos,
superfícies de cores pastéis sem detalhes, incluindo a superfície da pele dos
meus modelos.
Nas séries iniciais
(ATTITUDES: 1978-1980), eu queria o efeito gráfico frio que a falta de detalhes
pode gerar em duas dimensões. Isto permitiu-me dizer coisas duras de uma forma
muito suave e minimalista. Tudo parecia estar indo bem no mundo visual que eu
tinha criado, mas um olhar mais atento revelava rachaduras na parede. Os
personagens estavam sozinhos, alienados e trancados em espaço e tempo. Houve
ambigüidade em todos os lugares, nada era como aparecia. Com o passar do tempo,
eu empregava uma paleta de cores mais saturadas (FRAGMENTOS: 1980-83) e o
movimento desempenhou um papel mais importante (WAVELENGTH: 1983-1988).
A única exceção foi PRIMATES 1’s, 2’s 3’s que
começou ao mesmo tempo WAVELENGTH.
Até PRIMATES quase todo o meu trabalho tinha uma
qualidade de luz diurna. Era aberto e arejado. Suponho que em resposta a anos fazendo
este tipo de trabalho, eu precisava de uma mudança e eu comecei a fazer uma
série sobre relacionamentos primais em um ambiente noturno, argiloso. As cores
eram castanho e azul profundos. Era como se os pensamentos mais sombrios dos
temas de meu trabalho em cor pastel tivesse encontrado uma voz.
Quando penso sobre meu trabalho inicial,
não posso deixar de pensar como fui feliz por ter boas galerias que representavam
meu trabalho na década de 1980, particularmente a Marcuse Pfiefer Gallery em
Nova York. O apoio de Cusie Pfiefer foi fundamental para minha evolução como
artista. Embora ela esteja agora aposentada, continuamos bons amigos. Na
verdade, ela foi fundamental na organização de uma exposição do meu trabalho
que está programada para o início do próximo ano no México. Também tive a sorte
de ter o apoio de instituições como o American Center
onde fui um artista em residência da Rockefeller Foundation em 82/83 e Paris
Audiovisual (Jean-Luc Monterosso), organizadores do
Mês da Fotografia, em Paris. Este apoio foi essencial para me ajudar a
integrar o cenário da arte fotográfica, tanto na Europa como na América do
Norte durante a década de 1980.
Desde que mudei para o Brasil minha
preocupação com a ambigüidade e confusão discreta permanece intacta, mas o
trabalho (CUTTING INCLINATIONS, SITUATIONS/ EVENTS
& REMNANTS) não é mais exclusivamente figurativo.
Meu caso de amor com uma ausência de detalhe continua também, mas eu comecei a
experimentar com formas gráficas simples em um enquadramento conceitual mais
abstrato. O trabalho é mais colorido e mais demonstrativo - talvez a influência
de dois anos mergulhado na cultura brasileira. Em todo caso, é uma nova etapa em
um percurso contínuo. Continuo principalmente preocupado com o processo. Estou
tratando temas da instabilidade inerente, caos, desequilíbrio e situações de evoluções dinâmicas e é uma aventura
verdadeiramente apaixonante. Eu sinto que estou aprendendo todos os dias. O
aspecto abstrato é um território novo para mim e não há nada mais estimulante
do que mover-se em águas desconhecidas.
Ao mesmo tempo, vou continuar a produzir
trabalho "escova & scan" que combina trabalho acrílico e aquarela
com técnica de scanner e tratamento digital.
Como afirmei anteriormente, a
música e a dança foram as influências mais importantes no meu trabalho
fotográfico. Estudos de silêncio de Cage tiveram uma profunda influência sobre
a forma como abordei a quietude. Antes de descobrir Cage, considerava a
ausência de movimento e a quietude como sendo basicamente a mesma coisa. Quando
comecei a analisar a questão com mais cuidado, ficou muito claro para mim que
eu estava comparando coisas erradas. Deveria estar comparando a presença de quietude
com ausência de movimento. Quando fazemos isso, muda tudo. A presença de quietude
é um conceito "ativo", uma ausência de movimento é
"passivo". Comecei a buscar ativamente maneiras de tornar a quietude presente
e aparente. Comecei a estudar maneiras de criar a presença de silêncio em
imagens (ao invés de uma ausência de ruído, que em uma foto é, por definição o
caso). Estas preocupações foram um resultado direto da influência do pensamento
de Cage e sua filosofia da composição. A idéia de Cage que um som não precisa
ser mais nada além de si, que não tem que contar uma história ou representar
uma emoção, também foi fundamental. O mesmo poderia aplicar-se a cores ou a outros
aspectos do meu trabalho figurativo. Eu acho que o fato de que as expressões faciais
no meu trabalho sempre foram neutras, que as pessoas sempre estiveram despidas
e que raramente estão indo "fazer" qualquer coisa foram as
influências indiretas de maneira como Cage abordava os sons. Meu
"povo" não tinha que "ser" alguma coisa, mas o que eram,
eles não tinham que contar uma história, a justaposição de cor, elementos
gráficos e uma presença figurativa permitiria a coexistência de múltiplas
narrativas, com o espectador, em última análise, concluindo os trabalhos. Eu
criei um ambiente, eu coloquei em funcionamento uma dinâmica que era para ser
concluída pelo espectador.
As técnicas do acaso usadas por
Cage e Cunningham me ensinaram a importância de não querer controlar tudo. Este
foi talvez o mais difícil para mim. Fotografia tem uma tendência a atrair
"maníacos pelo controle" e talvez eu também fosse assim em minha fase
inicial. Em todo caso, em trabalhos, tais como a minha série "Metro",
abandonei o controle do momento em que as imagens foram feitas deixando isto
completamente ao acaso. Contentei-me com a criação de um enquadramento conceitual
em que as ações específicas que eu tinha definido iriam ocorrer. Era uma forma
de performance arte com um quadro independente para determinar em que momento
as imagens seriam feitas. Foi uma experiência libertadora e pavimentou o
caminho para muitos outros experimentos com este tipo de enquadramento conceitual.
Comecei a produzir peças com múltiplas imagens utilizando técnicas do acaso na
justaposição de elementos.
Por último, penso que a
música minimalista repetitiva de Steve Reich e Phillip Glass também teve uma
profunda influência em meu trabalho por volta de 1981. Comecei a criar grandes peças
em preto e branco, intituladas “Body Bits”, compostas de vários fragmentos de
fotos que foram repetidas em combinações e padrões específicos, gerando um
ritmo visual que encontrou sua inspiração na música contemporânea. Atualmente,
estou trabalhando em uma série "EYE AM" (uma subseção da série CUTTING
INCLINATIONS) em que criei protocolos similares para repetir e justapor imagens
individuais para criar ambientes caóticos introspectivos. Há um estranho aspecto
meditativo com a noção de repetição, que pode alterar nossa percepção da
identidade.
Para ser perfeitamente
honesto, eu acho que fotografia artística tal como definido antes da era
digital é uma morte lenta (se já não está morta). Acredito que o atual debate
sobre os prós e contras do trabalho digital versus o analógico é relativamente
estéril e que já entramos em outra época - a de novas mídias baseadas em arte através
de lentes. As fronteiras que costumavam separar fotografia do vídeo e outras
artes tecnológicas borraram até o ponto onde não há mais qualquer distinção
real entre o trabalho realizado com scanners, câmeras fotográficas, câmeras de
vídeo e como cada um deles se relaciona com as artes gráficas digitais. Todos
eles requerem um computador e basicamente o mesmo tipo de software. Eles são
ferramentas, apenas ferramentas, mas são ferramentas comuns que, até
recentemente, representavam diferentes ambientes criativos. Agora, eles
compartilham um ambiente comum e acredito que isto muda fundamentalmente as
coisas. Eu acredito que esse desenvolvimento abre uma infinidade de portas para
jovens artistas.
Primeiro de tudo, acredito
que é importante notar que o tipo de pessoa que costuma ser atraída pela
fotografia como uma forma de arte é, provavelmente, muito diferente e muito
mais aberta sobre o processo criativo do que era o caso 25 anos atrás. Acho que
isso vai continuar a desenvolver-se e que tornar-se-á cada vez mais importante
para artistas que trabalham nas artes tecnológicas que sejam versáteis e dominantes
em diversas e diferentes, mas intimamente relacionadas, mídias. Isto não
garante que a percentagem de trabalho estimulante irá aumentar, pelo contrário,
pode sinalizar a produção de mais e mais trabalho irrelevante, trabalho
superficial comercialmente-orientado.
No entanto, sempre haverá
aqueles que se preocupam com a relação entre os enquadramentos conceituais,
processos e conteúdo. Estas pessoas terão um perfil muito diferente da maioria
dos fotógrafos da minha geração. Eu pessoalmente acho que isso é inevitável e
muito emocionante.
Haverá sempre quem prefira o
mundo analógico e certamente não há nada de errado com isso. Há ainda quem monte
a cavalo toda semana, mas não monta a cavalos para ir ao trabalho e normalmente
prefere aviões que carruagens puxadas a cavalo quando querem ir a SP a partir
de Florianópolis. Trabalho analógico é um trabalho importante porque representa
uma parte integrante do patrimônio cultural da fotografia, mas acredito que seu
tempo chegou e passou como uma forma generalizada de expressão contemporânea.
Eu também acho que nossa
preocupação com impressões fotográficas será cada vez mais uma coisa do passado
no médio prazo e longo prazo, sendo relegado aos museus e colecionadores
interessados em peças muito grandes de trabalho. Telas de alta definição tornar-se-ão
mais populares à medida que as telas de importantes dimensões vão tornando-se
mais baratas e os computadores vão controlando absolutamente tudo no ambiente
doméstico. Esta tendência coloca alguns problemas. Por exemplo, os fotógrafos
jovens de hoje já não imprimem o seu trabalho e como resultado eles não vivem
com a imagem como nós fazíamos uma vez no mundo analógico. Eles têm milhares de
imagens armazenadas como arquivos em seus computadores, mas quase nenhum em
suas paredes. O processo de identificação de imagens que são capazes de ter uma
identidade independente do seu autor é processado muito mais dificilmente na
ausência de um processo que nos obriga a conviver por algumas semanas para ver
como e se, os relacionamentos desenvolvem-se. As imagens devem ter uma
existência concreta independente para que isso seja possível. Devem ser
justapostas e comparadas. É muito fácil perder de vista a importância da escala
em que tudo é reduzido a uma visualização de tela cheia em um computador. Também
é difícil estudar a construção de uma série e os ritmos alternativos possíveis
baseado na visualização em computador. Assim, existem muitas desvantagens, mas
nós passamos o ponto sem retorno e por isso temos de avançar com confiança.
O mesmo é verdade para além
do reino da fotografia de arte. Fotojornalismo, no sentido tradicional do
termo, é uma profissão agonizante. Há cada vez menos jornais e revistas
impressas, um processo que começou há muito tempo com a invenção do rádio. A
partir do desenvolvimento da notícia no rádio, da notícia na televisão e agora da
notícia on-line, é difícil traçar um caminho positivo para o fotojornalismo
tradicional. A evolução atual implica em um quadro operacional e estético
completamente diferente como a noção de hiperlinks e dinâmicas de vídeo on-line
tornam-se cada vez mais importante e comum. Fotojornalistas de amanhã, certamente,
não se parecerão com aqueles da década de 1990.
Acredito que todas essas
tendências sejam inevitáveis no curto e médio prazo. Isso não significa que eu as
considere desejáveis. Mas porque são inevitáveis, as pessoas que reagem com
entusiasmo sobre a importância das raízes culturais, enquadramentos conceituais,
integridade do processo e da natureza do conteúdo têm a obrigação de participar
ativamente no desenvolvimento de novas linguagens e plataformas de mídia.
Deixar este desenvolvimento para aqueles que jogam com software como
brinquedos, satisfazendo necessidades puramente estéticas, garantirá o
desenvolvimento de uma favela digital de grandes proporções em todo o mundo. Desde
minha mudança para o Brasil, eu tive o prazer de conhecer muitos jovens
artistas e, embora muitos da velha guarda parecem mais determinados do que
nunca para não desistir de qualquer terreno, a geração mais jovem parece bem
armada para tomar o controle. Os próximos dez anos serão muito interessantes.
As grandes livrarias estão repletas de
livros de fotógrafos e as fotografias ocupam importante espaço na arte
contemporânea, estamos na era da fotografia?
Se eu tivesse que descrever o
período atual, seria a idade das artes tecnológicas.
Como eu disse anteriormente
creio que estamos entrando na era da arte baseada em lentes com a destruição
das linhas que mantinham separados fotografia, vídeo e novas mídias. Eu
acredito que esta tendência vai continuar. Demorou um tempo para o mundo da
arte tradicional reconhecer a importância e a contribuição da fotografia para a
arte contemporânea. Isto começou de uma forma séria no início dos anos 1970 quando
o fotojornalismo começou lentamente a dar lugar a formas menos concretas de
expressão fotográfica. Nos meus termos, "fotografia aditiva" (imagens
fabricadas elemento por elemento) começou a aumentar em importância, em
detrimento da "fotografia subtrativa” (fotojornalismo / trabalho de
documentário / paisagens).
A dualidade verdade / mentira
tornou-se uma posição aceitável, substituindo a idéia excessivamente moralista
que o papel da fotografia era para dizer a verdade sobre o mundo que nos rodeia
- uma posição insustentável que teve suas origens como meio de documentar a
Grande Depressão nos EUA, como ferramenta de propaganda na Alemanha nazista e
na Rússia comunista e durante a Segunda Guerra Mundial. Esta tendência cresceu
em importância até que a guerra no Vietnã e outros eventos do período da guerra
fria começaram a lançar uma luz sobre a importância de não acreditar em tudo
que vemos.
O desaparecimento da
fotografia como "verdade" e o fim do imperialismo tonal de preto
& branco libertou a fotografia para tomar o seu lugar ao lado de outras
formas de arte. Ela já percorreu um longo caminho nos últimos 35 anos. O fato
de que, se agora é uma forma estabelecida de expressão artística é, obviamente,
um desenvolvimento positivo, como é o desenvolvimento de um mercado mais sólido
para a arte fotográfica. A era fotográfica começou no final dos anos 1970,
ganhando o seu lugar ao lado de outras formas de expressão visual na década de
80 e 90. Para o público em geral, é verdade que a descoberta da fotografia como
uma forma de arte é mais recente e por isso, neste sentido, sim, é verdade que
entramos na era da fotografia - somos o mais novo show na cidade, no que diz
respeito ao grande público. Esta é uma evolução perfeitamente normal de
consciência. No entanto, na verdade acredito que já estamos no meio de deixar
esta época por causa das ramificações da revolução digital e que o mercado e o
público tornar-se-ão intimamente conscientes desta mudança ao longo dos
próximos dez a quinze anos.
Preço desta magnitude
significa que há quem acredita no futuro a longo prazo do mercado para obras fotográficas.
Ninguém investe esta quantia de dinheiro exclusivamente porque gosta das cores
ou do conteúdo. É um investimento. Como todos os investimentos e todos os
mercados de hoje, eles são tão fortes como as pessoas acreditam que sejam. Como
moedas ou ouro ou qualquer outro investimento, o mercado é sempre mais
potencialmente frágil do que os preços nos levaria a acreditar. Que significa
isto para o artista que trabalha com a fotografia como um meio de expressão?
Provavelmente não muito, do ponto de vista de sua existência diária. Eu sou
relativamente antiquado quando se trata deste tipo de assunto. Eu acredito na
especialização do mercado. Grosso modo, os artistas produzem trabalhos, os
agentes promovem os artistas, galerias vendem as obras, museus / historiadores
de arte / curadores colocam as obras em um contexto cultural e histórico e
críticos analisam novos trabalhos para o público. Assim, embora possa haver
alguns jovens artistas que sonham em vender trabalho por um monte de dinheiro,
a realidade da criação de trabalho para o artista médio o trará sempre de volta
à terra. Ser artista é um maldito trabalho duro (financeira e psicologicamente)
para aqueles que estão genuinamente comprometidos com seu trabalho e eu não
acredito que o fato do trabalho estar sendo vendido a preços assim faz uma
diferença fundamental para o artista trabalhar. Eu conheci muitos pintores em
Paris para quem o fato de que Picasso foi vendido por dezenas ou centenas de
milhões não mudou uma coisa sequer sobre a sua abordagem ou sobre suas rotinas
diárias.
Dito isto, é verdade que os
preços elevados e crescentes tendem a mudar a maneira em que atuam os agentes,
galerias e críticos. Eles geralmente tendem a tornar-se mais orientados pelos
fenômenos de moda e tendências de mercado o que pode ter um efeito indireto
sobre temas e estilos que prevalecem no mercado de arte. Isto, evidentemente,
tem um efeito nos jovens artistas. Mas tem sido sempre o caso e não vejo
nenhuma razão para pensar que seria diferente para o mercado da fotografia. Assim,
embora os preços elevados e crescentes não possam afetar a vida cotidiana ou as
motivações finais do artista, podem exercer uma influência sobre o tipo de
assunto a escolher e todo o estilo do seu trabalho. Não tenho certeza, no
entanto, que estas serão escolhas conscientes. Se ela é poderosa o suficiente,
a influência pode ser simplesmente subliminar.
Depois de 30 anos em Paris era hora de
uma mudança. Embora eu viajasse regularmente para Nova York e em vários
destinos na Ásia, chega um momento em que ao invés de inspirar, a cidade
grande, simplesmente suga sua energia e se torna uma força contraproducente. Eu
tinha atingido esta fase. Eu precisava de um ambiente mais natural e queria
sair da Europa, que é um museu magnífico, mas tudo o que realmente tem
olhando-se para frente é o seu passado. Era hora de voltar para o Novo Mundo.
Eu amo o Brasil e eu adoro Florianópolis e por isso a mudança foi muito natural
e fácil.
No que diz respeito ao meu trabalho, não
haverá muita mudança, embora o ambiente físico certamente vai deixar uma marca
de alguma forma. Vou continuar a trabalhar nas três direções que sempre foram
minhas prioridades:
1.
Trabalho todos os dias em meus projetos. Eu estou trabalhando atualmente em 2 importantes
séries novas mídias:
o
Uma série abstrata globalmente
intitulado SITUATIONS / EVENTS que
consiste de várias mini-séries diferentes. Ela combina elementos da fotografia
com gráficos digitais e como mencionei anteriormente trata conceitualmente de
noções de instabilidade, caos, desequilíbrio e evolução de situações dinâmicas
provocadas por eventos inexplicáveis.
o
Uma série figurativa intitulada CUTTING
INCLINATIONS que explora o impacto mental e emocional
do corte e re-enquadramento seletivo de imagens combinadas com o uso de elementos
gráficos afiados em representações figurativas. É uma abordagem totalmente nova
para mim e eu estou achando excitante. Estou utilizando tanto imagens antigas como
imagens recém-criadas para esta série.
Eu sempre trabalhei
em mais de um projeto ao mesmo tempo. Cada um permite-me tirar uma folga do
outro (s), continuando a trabalhar.
Também tenho um par
de projetos de vídeo em que estou trabalhando para que venha a ser realizado em
2012/2013. Meu trabalho vídeo continua a ser figurativo, de natureza
não-narrativa e preocupa-se principalmente com a noção de identidade (mental,
física e emocional). É de natureza altamente gestual e coreograficamente
abstrato.
Por último, estou gastando
uma quantidade considerável de tempo visando descobrir novas formas de imprimir
trabalho novas mídias usando o estado da arte das técnicas de jato de tinta.
Por muitos anos em Paris o meu trabalho foi impresso exclusivamente utilizando
técnicas de carvão direto Fresson feito pela família Fresson nos arredores de
Paris. Técnicas de impressão foram sempre extremamente importantes para o meu
trabalho e eu pretendo dominar cada aspecto da impressão fine arte que utiliza a
tecnologia contemporânea.
Eu comecei um
movimento chamado “The Creative Process” aqui
em Florianópolis para a organização de seminários sobre as artes tecnológicas e
passei a oferecer aulas on-line e ao vivo em Florianópolis, Belo Horizonte e
Curitiba. Uma oficina no Rio está sendo planejada. O movimento está em seus
estágios iniciais de desenvolvimento, mas estou confiante de que faremos
progressos sólidos no ano que vem. A idéia não é criar uma escola, mas manter o
conceito de um "movimento" sempre presente. Eu gosto da dinâmica
desta abordagem. Escolas inevitavelmente teriam uma tendência a tornarem-se conservadoras
e reacionárias.
3. A concepção e realização de um
projeto para o desenvolvimento das artes tecnológicas para jovens artistas
brasileiros que irá ajudar a promover a exportação de seus trabalhos de novas
mídias para a América do Norte, Europa e Ásia. A atenção será inicialmente
concentrada em jovens artistas de Santa Catarina.
Acredito
que um dos principais problemas no Brasil é a maneira de curto prazo em que
muitos projetos culturais não-institucionais são obrigados a operar por causa
de uma ausência de financiamento a médio prazo.
Eu
acredito que seja impossível para as universidades e outras instituições gerar
o tipo de dinâmica necessária para que os trabalhos dos jovens artistas sejam
vistos em outros países. Um projeto deste tipo exige uma abordagem multifacetada
que reagrupa durante todo o ano festivais, palestras e seminários, workshops por
artistas internacionalmente reconhecidos e viagens constantes para os mercados
estrangeiros para forjar novas parcerias. Estou completamente ciente das
dificuldades e eu não sei se terei sucesso no plantio da semente necessária,
mas vou certamente tentar. Parece que o economista do desenvolvimento dos meus
dias de universidade ainda está vivo e lutando por uma chance de evoluir no
campo cultural!
De que maneira a fotografia brasileira é
vista no exterior?.
Não sei se estou realmente qualificado
para responder a esta questão de forma detalhada, mas eu tenho algumas
impressões gerais fortes.
Em primeiro lugar, quando eu morava em
Paris, para muitas pessoas, fotografia brasileira era sinônimo de
personalidades internacionais, como Sebastião Salgado. Isto é normal. Ele é uma
figura maior de tremendo talento, dedicação e integridade. Eu também acho que
as pessoas tendem a associar o trabalho brasileiro em geral, com a tendência da
América Latina em direção ao fotojornalismo social e / ou politicamente
orientado, bem como com a fotografia que lida com alguma forma de celebração da
beleza natural.
Acredito que estas idéias mais
estereotipadas a respeito da fotografia brasileira começaram a mudar
radicalmente nos últimos cinco ou seis anos com o surgimento na cena
internacional de artistas como Cris Bierrenbach, que parece-me ter transformado
completamente a impressão de que as pessoas tinham de trabalhos fotográficos do
Brasil. Na verdade, para mim, Cris Bierrenbach é um bom exemplo do tipo de
artista que me referi quando falei de multitalentosos artistas que apagam as
fronteiras entre as várias artes tecnológicas. Ela é uma brilhante artista de
novas mídias perfeitamente à vontade utilizando e combinando fotografia, vídeo
e performance arte. Seu uso de daguerreótipos em alguns de seus trabalhos
levanta outro ponto interessante sobre o uso de técnicas de impressão
tradicionais do Brasil. Eu posso dizer honestamente que nunca vi tanto
interesse em literalmente todos os aspectos de impressão das tradicionais
técnicas do século 19 para métodos contemporâneos como eu já vi desde que me
mudei para o Brasil há dois anos. Os jovens estão fazendo e utilizando câmeras
pinhole, em seguida, scaneam e manipulam os resultados digitalmente. Há uma infinidade
de pessoas que fazem cianótipos. Um bom exemplo é a exposição de Luisa Malzoni
de trabalhos que utilizam técnicas do século 19 na exposição Fotografia Contemporânea
Brasileira no "Photon - Centro de Fotografia Contemporânea" (junho
2012).
Uma nova geração de artistas de nova
mídia está explorando técnicas tradicionais no quadro conceitual contemporâneo.
Esta não foi a minha experiência na França. Isto é parte de uma abordagem brasileira
muito original para as novas mídias? Não tenho a pretensão de ser qualificado
para dizer, mas eu não tenho pessoalmente experimentado esse fenômeno a este nível
em outro lugar.
Acho que podemos ver a mudança de
perspectiva em relação às abordagens resolutamente contemporâneas por meio de
eventos como a exposição recente (Março de 2012) da fotografia experimental
brasileira na Maison Européen de la
Photographie, em Paris. Esta é apenas uma de uma
multiplicidade de exposições organizadas em grandes centros europeus e na
América do Norte nos últimos 5 anos. Há também um aumento sistemático do número
de galerias estrangeiras e curadores que visitam e / ou participam de grandes
eventos em São Paulo e outros importantes centros culturais.
A recente abertura em 2010 da galeria
1500 em Nova York dedicada exclusivamente à obra fotográfica brasileira é mais
uma indicação do aumento e durabilidade da demanda por imagens brasileiras em
mercados estrangeiros. Esta é uma tendência que só pode aumentar em importância
à medida que o público em geral descobre novas gerações de talentos brasileiros.
Há uma forma especificamente brasileira de lidar com um assunto que é muito
orientado para o design e tem uma força de confronto cru sensual.
O Brasil está muito em voga nos grandes
centros na América do Norte, Europa e Ásia. As pessoas estão falando mais e
mais sobre a cultura brasileira, o design brasileiro e a economia brasileira. À
medida que o país toma seu lugar ao lado das nações mais poderosas do mundo, a
sua cultura vai penetrar em novos mercados com facilidade muito maior do que
acontecia anteriormente. Este é, na minha opinião, apenas o começo de uma
aventura cultural brasileira muito importante.











2 comentários:
MUITO BOA ESTA ENTREVISTA !
ESPERO PODER UM DIA CONHECER MELHOR ESTE ARTISTA E VER O SEU TRABALHO PRINCIPALMENTE À PARTIR DE AGORA, INFLUENCIADO POR ESTA MUDANÇA DE AMBIENTE.
Muito bom... Uma analise com muita profundidade sobre a fotografia no mundo da arte.
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