sexta-feira, 1 de junho de 2012

Alexandre Mury





Escrevi algo tentando responder algumas questões de 3 alunos da UMSA (Universidad del Museo Social Argentino) en Buenos Aires, Argentina. A proposta da pesquisa foi sugerida pela própria instituição. Me senti muito honrado.
O Abaporu contempoâneo - "Tupy or not tupy?"

A forma que comecei a desenvolver minhas fotografias marcou, desde o inicio, uma característica questionadora. Mas o fundamental para mim sempre foi o prazer em realizar. O compromisso que eu tenho com minha obra é a liberdade para criar me deixando levar pelos meus afetos.

Embora tenha me tornado conhecido pelas "releituras", minha obra não é, essencialmente, uma transposição de ordem técnica de alguma imagem conhecida. Tento propor algo que vá além do "Tableau vivant".

Meu interesse é o poder de comunicação de uma imagem, não exploro, somente a pintura, mas também, a escultura, o cinema, a literatura, a mitologia… O eixo disso tudo está na relação entre imaginário coletivo, pregnância visual e repertório cultural.

As minhas referências estão naquilo que se tornou "icônico". O significado das coisas mudam com o tempo e cada indivíduo entende segundo a sua subjetividade. A minha poética está na forma lúdica de recontextualizar as coisas e proporcionar multiplas leituras.

Uma de minhas obras mais conhecidas é o Abaporu, uma referência a obra da Tarsila do Amaral. É possível estratificar várias camadas de informação numa obra executada com recursos muito simples. Não uso prazos no meu processo de elaboração e nem objetivos teóricos pretensiosos. Tudo que acumulei de experiência de vida está refletido na minha obra. Meu processo de criação não é sistemático. Me dou toda liberdade poética.

Acredito que uma das primeiras coisas percebidas no meu Abaporu é a homenagem que faço a belíssima composição visual na criação da Tarsila. Ao mostrar um homem, um pé de cactos e o sol parece impossível a dissociação. Os elementos podem mudar de cor e forma mas a obra da Tarsila será sempre a referência mesmo em criações onde o criador desconheça tal similaridade. A notoriedade da obra não garante sozinha a sua condição de ícone. O Abaporu que se tornou símbolo do movimento "antropofágico" modernista no Brasil. É mais que visualidade e estética, tem uma proposta discursiva no contexto da época. A minha intenção não é atualizar ou substituir o Abaporu da Tarsila. Eu exploro a intertextualidade e dialogo em alguma instância com o original.

Eu tento criar uma intriga visual deslocando o sentido daquilo que está estabelecido. Eu proponho uma maior intimidade com a arte. Se há alguma ironia com as obras canônicas não é para sugerir a dessacralização delas mas destituir sua condição hermética e evitar que a sedução da beleza limite a um estado contemplativo.

Nas minhas primeiras experiências com fotografia improvisava tudo: cenários, figurinos, maquiagem e até o uso da minha própria figura como modelo. O que no começo era a alternativa com o tempo foi desenvolvendo como linguagem. A fotografia se desdobra em muitas possibilidades e se torma o suporte para um multiartista. O caráter performático é inegável na atuação e expressão corporal; a cenografia é latente na iluminação, cores, formas e disposição dos elementos.

Mesmo antes de conhecer o Parangolé do Hélio Oiticica, sem ter consciência do seu conceito, eu estava imerso na obra e vivendo a arte no ato performático. A minha experiência artística é possível ser imaginada pelo outro através do registro fotográfico mas jamais sentida como eu sinto, sendo fotógrafo e fotografado. E a minha obra permite uma outra sensorialidade que é a de espelho, eu me coloco no lugar do outro para o outro se colocar no meu lugar em um espelho que não reflete o indivíduo mas a sociedade e/ou um grupo identitário nos simulacros crio.

A minha releitura é uma revisão do nosso próprio tempo. A época que vivemos exige a reciclagem de tudo. O registro fotográfico do meu Abaporu está impregnado de referências da contemporaneidade. O uso da minha própria imagem o tempo todo reflete sobre o indivíduo e a construção do "eu", questiona o lugar do "outro" e a crise de identidade que afeta toda humanidade. O meu Abaporu foi censurado em redes sociais da internet, e evitado em uma exposicão institucional, isto não parece conjuntural. Mas está interagindo com a história presente. A minha releitura do Abaporu entrou em 2010 para a coleção Gilberto Chateaubriand e faz parte do acervo de um dos museus mais importantes do Brasil e respeitado no mundo todo, o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (MAM-RJ), onde a obra foi exposta este ano.

O Abaporu da Tarsila pode ser um simbolo da América Latina. O nome é uma palavra indígena e celebra os primeiros habitantes do continente. O conceito tem sintonia com a proposta de instaurar modernismo brasileiro com Movimento Antropofágico. Eu vivo o meu tempo, numa era de desterritorialização da cultura.

Estou certo de que o meu Abaporu é emblemático para o conjunto de tudo que já produzi. Eu trabalho resgatando o passado e nesta obra o passado é muito recente. E se compararmos as duas obras, com tudo que já disse, será notável um distanciamento e um pertencimento a uma nova época. Numa época que a tecnologia potencializa a técnica, a apropriação vira autoria, numa época que censuram a minha nudez que não mostra genitália, numa época que a consolidação da fotografia como obra de arte parece tardia.

O homem com os braços e pernas grandes e cabeça pequena foi identificado na obra da Tarsila como alusão à desvalorização do trabalho mental e destacava a importância do trabalho braçal na época. Na minha fotografia não uso a desproporção dos membros, pois isso não me interessou abordar. A nudez na estilização da figura humana na obra da Tarsila passa desapercebida. A minha nudez mostra a pele em contato com a terra, o que chama muito a atenção. Um homem nu representa a liberdade. O contato com a terra pode sugerir o potencial de cultivo não só de alimento mas de ideias. Na minha obra a nudez pode ou não ser uma referência ao costume de algumas tribos de andar despido, uma alusão ao canibalismo onde eu literalmente exponho o corpo como um mero pedaço de carne. Não estou restringindo uma representação do Brasil ou da América Latina, estou falando de condição humana, de liberdade, de limitação e potencialidade. Falo da atividade mental despida de preconceitos e estigmas; não estou falando do calor do sol que castiga, mas que elucida; falo da resistência do cacto e da esperança do exemplo que há nele. Eu falo que o homem não cria a partir do nada.


Alexandre Mury
Rio de Janeiro, Brasil


Abaporu



Abaporu censurado na FaceBook.





















junho, 2012.

Nenhum comentário:

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
Now