quarta-feira, 23 de maio de 2012

Conversando sobre Arte Entrevistado Mario Fraga


Mario Fraga começou muito cedo, estudando com o inesquecível Augusto Rodrigues. Tem uma bela trajetória com exposições em galerias comerciais e espaços públicos. No Largo das Artes é possível conferir a qualidade dos seus trabalhos. Obrigado Mario.



Quem é Mario Fraga?
 Nasci no Rio de Janeiro, em 7 de julho de 1947, filho do médico e professor, Clementino Fraga Filho e Izar Gordilho Fraga, ambos de família bahiana.
Estudei em diversos colégios e cursei Arquitetura na faculdade de Arquitetura e Urbanismo da UFRJ, formando-me em 1971. Entre 1972 e 1974, fiz pós-graduação em Planejamento Urbano na França, onde vivi até 1976, tendo também frequentado o curso de cinema da Ecole Nationale Supérieure Louis-Lumière.
Sou casado com a artista visual Clarisse Tarran, com quem vivo no Itanhangá, Rio de Janeiro.






Quando você começou a se interessar sobre arte e qual foi a reação familiar? Qual foi sua formação artistica?
Na infância, comecei a me interessar pelo desenho. Alguns tios, conhecedores do assunto, me incentivaram, abrindo-me os livros de arte. Esta motivação só fez crescer ao longo dos anos e aos 13 anos fui apresentado a Augusto Rodrigues que me encaminhou para a Escolinha de Arte do Brasil. Me lembro que daí em diante nunca mais parei.
Frequentei também o ateliê de José Paulo Moreira da Fonseca, onde entrei em contato com a pintura à oleo. Um momento muito importante foi quando meu pai, inquieto com a minha opção, apresentou-me ao critico Clarival do Prado Valadares, seu amigo de longa data, que se tornou meu grande incentivador e acompanhou meu percurso até o fim de seus dias. Foi a partir desse encontro que a coisa começou a ficar séria. Recordo-me, de uma viagem que fiz à Bahia aos 15 anos, onde o meu interesse principal era desenhar e pintar imagens do barroco bahiano. Devo citar meu amigo de infância, Manuel Messias, grande artista e gravador, com quem ficava desenhando longas horas, enquanto os outros amigos jogavam bola ou bricavam na rua.
O curso de história da arte na faculdade de arquitetura enriqueceu meu olhar e aprofundou meus conhecimentos sobre o assunto.
Neste caminho alguns grandes e saudosos amigos foram importantíssimos em minha evolução. Posso citar, Sergio Bernardes (pai e filho), Claudio Bernardes, Lygia Pape, Mario Carneiro, Luís Otávio Pimentel, Raymundo Colares, Rubens Maia. Alguns ainda estão aqui perto, como Umberto Costa Barros, Sheila Dain e Luiz Carlos Mello, que até hoje contribuem com o seu olhar.


Que artistas influenciaram seu pensamento?
Ao longo dos anos foram muitos. Bem no início foram Paul Gauguin, Vincent Van Gogh, Paul Cézanne, depois, Aluísio Carvão, Alfredo Volpi, Antoni Tàpies, Anselm Kiefer, Mark Rothko, enfim, são muitos…


Como você descreve seu trabalho?
O meu trabalho está em constante mutação. Hoje ele é experimental em sua essência, utiliza-se de materiais não convencionais em busca de questões pictóricas cujo elemento de ligação é a relação com a terra.


Qual a importãncia da exposição atual no Largo das Artes?
Nesta exposição a questão espacial foi fundamental na elaboração do trabalho, suas dimensões e quantidades. Como nas últimas exposições, notadamente a do MAM-RJ em1991, as dimensões do lugar determinavam a escala das obras, a ocupação do espaço expositivo e sua montagem. Embora contendo obras realizadas a partir de 2005, a mostra atual é resultado de um pensamento objetivo, amadurecido no último ano sob as questões espaciais do local..


É possível viver só de arte no Brasil?
Certamente tem gente vivendo muito bem disso.


O que você estuda? Como você se atualiza?
Não estudo nenhum assunto específico, me interesso por alguns e leio bastante. Atualmente estou lendo Gastón Bachelard, “A Terra e os Devaneios da Vontade”, leitura que certamente enriqueceu meu pensamento sobre a matéria.
Penso que hoje, com o excesso de informação o importante é editá-las. Nós estamos sendo atualizados com tanto imediatismo que começam a ficar pra trás, valores universais.

Você é arquiteto e professor, como isso interfere em seu trabalho?
Como arquiteto, sou autor de uma única obra. A casa onde moro. Premiada pelo IAB-RJ em 2002. Como professor, tenho grande prazer na interação com os jovens, com os quais me enriqueço e atualizo. Em alguns momentos me questiono como seriam as minhas respostas aos problemas que proponho aos alunos. As respostas deles por vezes são surpreendetemente criativas.

Ser casada com uma artista (Clarisse Tarran) ajuda ou atrapalha seu trabalho?
Claro que ajuda. Você conhece Clarisse, Marcio. Uma mulher inteligente e ativa como ela é uma colaboradora inestimável. Sem a qual não existiria esta exposição no Largo.

Quais são seus planos para o futuro próximo e distante?
Na minha idade, não faço planos nem para o futuro próximo, quanto mais para o distante.

Como você aproveita o seu tempo livre?
Todo meu tempo é livre, exceto terças e quintas, quando dou aula na PUC. Assim, aproveito o tempo fazendo as coisas que gosto . No ateliê, na leitura, quando tem bom tempo, na piscina nadando, indo ao cinema e quando posso viajo, de preferência para Belém do Pará.





Exposição individual Largo das Artes, 2012.









Montagem


















Pedras







Mario Fraga e Clarisse Tarran






Ouvindo Mario Fraga.











Texto de Marcus Lontra sobre a exposição Linha da Terra


A POTÊNCIA DAS IMAGENS

“O amor comeu meu Estado e minha cidade. Drenou a água morta dos mangues, aboliu a maré. Comeu os mangues crespos e de folhas duras, comeu o verde ácido das plantas de cana cobrindo os morros regulares, costados pelas barreiras vermelhas, pelo trenzinho preto, pelas chaminés. Comeu o cheiro de cana cortada e o cheiro de maresia. Comeu até essas coisas de que eu desesperava por não saber falar delas em verso.”

João Cabral de Melo Neto in “Os três mal-amados”, 1943

Aqui não há espaço para sutilezas, indecisões, delicadezas, sussurros. O gesto criador de Mario Fraga é incisivo, dramático, viril e decidido. Trata-se de um artista das obras de grandes dimensões, da monumentalidade, do espaço épico e heróico, da arte como palco da conquista e da vitória. Não importa o suporte, a técnica, tudo aqui conspira para a concretude da Arte no espaço generoso, na amplidão das suas formas e volumes, na elaboração de uma eloqüência discursiva que captura o nosso olhar e nos remete a aventuras ancestrais, batalhas históricas, embate permanente do Ser Humano com as suas várias paisagens, seus lugares, seus territórios.

A obra de Mario Fraga somente se concretiza no espaço para o qual foi pensada, projetada e criada. Fiel à sua vocação arquitetônica, o artista é o ser que povoa o vazio, que ocupa o espaço, que dialoga com a geografia que nos circunda e que determina a essência substantiva da obra de arte. Antes de ser desenho, pintura, escultura, a obra de Fraga é isso: ocupação. Ela se propõe a esse estranho diálogo entre o que determinante “É” e aquilo que ocasionalmente “ESTÁ”. Por isso, salve a língua portuguesa que consegue diferenciar o permanente e o provisório, a “condição” e a “situação”. O artista concretiza essa dialética através de matérias densas, de substâncias que se aderem à epiderme do suporte como cicatrizes, marcas e incisões. Elas incorporam o informalismo, o simbólico, o real e a metáfora na construção de uma obra madura, máscula e completa.

Na maioria dos casos, ao depararmos com a obra de um artista acabamos por estabelecer uma proximidade com outros artistas que conhecemos através da identificação estética. Nesse caso específico, curiosamente associei o trabalho de Mario Fraga ao de Celeida Tostes: porém, se em ambos a natureza e a organicidade são instrumentos iniciais da ação artística, chamou-me a atenção as diferenças evidentes entre os dois. Em Celeida a essência da arte se estrutura através da sensibilidade e do olhar feminino, em Fraga essa mesma essência artística incorpora, na dicotomia do gênero, o papel do masculino, do viajante, do conquistador. Por isso a sua obra se projeta e se realiza pelo externo; mais que à filosofia e à psicologia, ela encontra refúgio na antropologia e na geografia.

Portanto, na paisagem da arte contemporânea a produção de Mário Fraga invade corações e mentes como um rio caudaloso. Com terras, pigmentos, betumes, símbolos, papéis, sedimentos e sentimentos o artista constrói a sua paisagem. Como em grandes artistas como Tapiés e Picasso, o volume é o resultado da potência do gesto e do vigor criativo. Trata-se de uma produção genuína, resultado da inteligência e da sensibilidade de um artista maduro que enfrenta o espaço com arrojo projetando as suas pinturas, desenhos e objetos num tenso e preciso equilíbrio entre a força expressiva da matéria e a clareza das formas e volumes.

Marcus Lontra Costa




3 comentários:

iluminaRIO disse...

Parabéns pela entrevista!

Anônimo disse...

Parabéns! Bela entrevista!

Anônimo disse...

legal!

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
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