Dione Veiga Vieira Fotografia Fabio del Re.
Dione é mais uma artista gaúcha, o que reforça a qualidade da arte contemporânea do grupo de Porto Alegre. Obrigado Dione.
Fale algo sobre sua vida
pessoal.
Moro
em Porto
Alegre - cidade em que nasci em 1954. Sou a primogênita de seis
irmãos. Minha infância e adolescência foram marcadas por pequenas mudanças,
viagens constantes de carro, e principalmente por prazerosas estadias no campo -
experiências que instigaram minha imaginação e curiosidade. Meus avós paternos
viviam em uma pequena fazenda que se localizava na região do Planalto Médio do
estado do Rio Grande do Sul. A beleza e os mistérios desse lugar são marcas
indeléveis em minha memória: a amplitude dos campos e céus; os rios e riachos
repletos de pedras; as matas de araucárias e as estradas de terra vermelha.
Meu
pai graduou-se em
Ciências Contábeis , Economia e Administração pela Faculdade de
Economia e Administração da UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Logo após a sua graduação, nos mudamos para Passo Fundo (RS), sua cidade natal,
onde permanecemos por oito anos. Lá completei minha educação primária no Colégio
Notre Dame. Nesse período, meu pai foi professor da Faculdade de Ciências
Políticas e Econômicas de Passo Fundo. E também, por longos anos gerente
administrativo de uma empresa de médio porte, até sua morte prematura, aos 56
anos de idade. Minha mãe pintava e era muito sensível.
Quanto
à minha formação superior: completei Bacharelado em Turismo em 1982,
Licenciatura em Letras em 1984, e Especialização em Artes Plásticas , em
1986, pela PUCRS.
Como foi sua formação artística?
Começou
na infância, influenciada pelo ambiente familiar. Meus pais eram talentosos, e
foram os catalisadores de minha formação artística independente. Antes de ser
alfabetizada, aos seis anos de idade iniciei estudos de piano em um Conservatório
de Música. Aos 17 cheguei a participar de concertos públicos de piano, no
auditório da Escola de Música Palestrina de Porto Alegre. Ao mesmo tempo em que
estudava música, desenhava de forma autodidata. Na
biblioteca familiar havia a maioria dos clássicos da literatura nacional e
mundial: escritores que fizeram parte de minhas leituras extracurriculares e que
influenciaram a minha formação como um todo.
Em
torno dos 15 -16 anos de idade, me apropriei de uma tela já maculada por um
esboço de minha mãe. Pintei uma paisagem oceânica sobre um rascunho de palmeiras
e céu em tons de vermelho. Ela não se incomodou com esse fato. Talvez, tenha
feito isso por um impulso juvenil movido por minha inclinação artística precoce.
Até então, nunca havia tido aulas de pintura. Apenas observara minha mãe
pintando, e isso já havia me dado subsídios suficientes (concluía assim) para
fazer o mesmo. Avalio que foi exatamente nesse momento de extrema impulsividade
que me posicionei como artista no âmbito familiar. Logo em seguida, com quase 18
anos, freqüentei aulas de Desenho no Atelier Livre da Prefeitura de Porto
Alegre, porém, somente por alguns meses. No início dos anos 80, fiz alguns
cursos relâmpagos de Desenho e Pintura com artistas locais. Nessa década também
realizei um curso de fotografia com laboratório P&B de câmara escura. Logo
após a Licenciatura em Letras, ingressei em um curso de Especialização
em Artes
Plásticas , na PUCRS.
Que
artistas influenciam seu pensamento?
Pelo
meu pensamento perpassam diversos mundos: literatura, filosofia, cinema,
psicanálise... São inúmeros os artistas que posso citar, contudo posso incluir
alguns filósofos, escritores, poetas, fotógrafos, cineastas, e até mesmo músicos
nesse mesmo rol. Entre os artistas: Franz Erhard Walther, Guenther Uecker, Mario
Merz, James Lee Byars, Lothar Gaumgarten, Kounellis, Rebeca Horn, Rosemarie
Trockel, Eva Hesse, James Lee Gyars,
Lothar Gaumgarten, Pistoletto, Piero Manzoni, Kiki Smith, Rachel Whiteread, Ana
Mendieta, Haim Steinbach, Victor Grippo, Marcel Duichamp, Wolf Vostel, Yves
Klein, Aniish Kapoor, Joseph Beuys, Tapiés, Anselm Kiefer, Lousie Bourgeois. Alguns cineastas:
Tarkovski, Kuleshov, Werner Herzog, Krzysztof Kieslowski, Peter Greenaway, Luis
Buñuel. Escritores: Clarice Lispector, Gaston Bachelard, Jean-Paul Sartre,
Eduardo Galeano, Paul Valéry, Paulo Leminski, Kafka, Gaston Bachelard, entre
outros. Teóricos: Roland Barthes, Susan Sontag, Lacan, Jung.
Pinturas, instalações, objetos como
elas se complementam? Alguma preferência?
Atualmente,
tenho trabalhado mais com Fotografia. No entanto, desde 2003, realizo
instalações em que aparecem todas essas categorias de arte: pintura, colagem,
objeto, escultura e fotografia. Para mim, são como fragmentos que se completam no
espaço da exposição para dialogar com o espectador.
Que
exposição sua, você considera a mais importante?
Acho
difícil avaliar qual exposição foi a mais importante. Estou considerando
importante nesse momento, a exposição “Do Mar Purpúreo”, que está acontecendo na
Galeria do Instituto Goethe - Porto Alegre. Além
dessa, considero
algumas outras também: “O Corpo Invisível”, intervenção na antiga capela
luterana Pastor Dohms, Porto Alegre, em 2002; “Fragmentos Primordiais, sala
especial MACRS, em 2004; “Condensaciones y Volatilidades”, Casa Tres Patios,
Medellín, Colômbia, em 2010; “Solutilis” no DConcept, em São Paulo , em 2011.
Você
morou no exterior, isso teve alguma influência em seu trabalho?
Por
três anos (1989-1992), morei em Colônia, cidade localizada na região da Renânia
Norte - Vestefália, estado industrial mais populoso da Alemanha. Ao lado de
Düsseldorf e Bonn, essa cidade é considerada um polo de arte contemporânea, com
centenas de galerias de arte e um dos museus mais importante da Europa: o Museu
Ludwig . Nessa
temporada de três anos, tive a oportunidade de viajar por diversos países tais
como Itália, Áustria, Bélgica, Suíça, Hungria, Tchecoslováquia (atual República
Tcheca), Holanda, França e Grécia, além da Alemanha. Em cada um desses países,
conheci inúmeras cidades, e percorri os seus mais importantes museus. Nesses
deslocamentos, uma das experiências mais impactantes foi conhecer Berlim
Oriental, a antiga DDR (Deutsche Demockratische Republik) antiga zona de
ocupação soviética na Alemanha. E,
em seguida, presenciar um fato histórico: a queda do muro de Berlim, do lado
ocidental. Isso foi emocionante demais. Inclusive, uma lasca do muro de Berlim
está na vitrine horizontal que apresento na atual exposição no Instituto Goethe
- Porto Alegre – como um vestígio dessas intensas vivências que influenciaram
completamente o meu trabalho.
Durante
esse tempo, mantive atelier no Stadtkunst E.V. Köln - espaço cultural construído
em uma antiga fábrica no bairro Nippes, e mantido pela Prefeitura da cidade de
Colônia. Lá convivi com artistas de todas as partes do mundo. Após voltar ao
Brasil, abandonei a pintura como até então estava produzindo, e iniciei
trabalhos tridimensionais aliados a novas pesquisas de materiais. Também passei
a refletir em torno de minha produção, e a construir instalações na década
seguinte.
Além
dos estudos sobre arte que outros estímulos influenciam em seu
trabalho?
Viagens,
livros, cinema, música.
Você
tem uma rotina de trabalho?
Minhas
atividades não são regradas com horários e pausas. Costumo ficar muito focada no
trabalho, e às vezes, acabo ultrapassando os limites do próprio corpo, com
poucas horas de sono, por exemplo. Gosto de trabalhar à noite, devido ao
silêncio noturno. Também costumo trabalhar nos sábados, domingos e
feriados.
Quais
são seus planos para o futuro?
Continuar
cultivando tudo o que realmente importa na vida: a alegria, a paz, as amizades,
a pluralidade e a liberdade de criação. Materialmente, almejo um espaço maior
para trabalhar.
O que
é necessário para um jovem artista ser representado por uma
galeria?
Não
acredito em fórmulas e tampouco, em conselhos.
Arrisco dizer que - acima de qualquer coisa - o jovem artista
tem que acreditar em si mesmo, trilhar o seu próprio caminho.
O que você faz nas horas vagas?
1- Dione Veiga. Fragmentos Primordiais, 2004.
MACRS. Porto Alegre. Crédito da foto: Fábio Del Rei
Condensaciones Y Volatilidades, 2010. Vista parcial. Casa de Tres Patios, Medelin, Colômbia.
O Corpo Invisível, 2002. Capela Dohms. Porto Alegre. Crédito de Foto: Fábio del Re.
Do mar purpúreo, 2012. Göthe Institute, Porto Alegre. Crédito da foto: Fabio del Re.
Do mar purpúreo, 2012. Göthe Institute, Porto Alegre. Crédito da foto: Fabio del Re.
Do mar purpúreo, 2012. Göthe Institute, Porto Alegre. Crédito da foto: Fabio del Re.








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