quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Conversando sobre Arte Entrevistada Ivani Pedrosa Moreira




Ivani Pedrosa Moreira



Ivani vive e trabalha no Rio de Janeiro, uma bela obra com sólida fundamentação conceitual. Parabéns e muito obrigado pela participação.



Ivani, fale sobre sua vida pessoal.
Nasci em 1955 na Ilha do Governador, na época um paraíso. Meus pais, vindos do interior, ele de São Fidélis, RJ, e ela de Carangola, MG, se conheceram no Ministério da Aeronáutica, onde trabalhavam. Casaram-se, tiveram três filhas e levaram uma vida modesta. Morávamos na Vila Militar da Aeronáutica e frequentamos excelentes escolas públicas. Foi na escola, aos sete anos, que descobri a facilidade que tinha para desenhar. As professoras também me incentivavam e passei a desenhar todos os cartazes comemorativos da escola. 
Como a Arte entrou em sua vida e qual foi sua formação artística?
Aos 9 anos eu já cultivava o desejo de ser ‘pintora’, mas também pensava na minha independência financeira, por isso mais tarde decidi prestar vestibular para Direito. Trabalhava numa autarquia dentro do Aeroporto do Galeão e à noite cursava a universidade. Após me formar, trabalhei como advogada e representante de um escritório de cobranças judiciais até 1989, quando resolvi parar de fazer o que não gostava e correr atrás do meu sonho. Já estava casada e com duas filhas pequenas. Pedi reingresso na UFRJ e fiz questão de começar no primeiro período do curso de Pintura da Escola de Belas Artes. Foi proveitoso conhecer as técnicas de desenho, pintura, escultura, gravura, restauro e tantas outras oferecidas pela EBA, e foi também um período muito rico e com muitos questionamentos sobre a grade de ensino oferecida pela Escola. Dos questionamentos passei à ação, formando, com mais sete colegas, um movimento que denominamos de ‘Inabilismo’. Fizemos história na EBA. Aproveitando uma greve dos funcionários da Universidade, participei de um workshop de arte em Londres em 1994 com Charles Watson, Ricardo Basbaum e Milton Machado. Terminei o curso de Pintura em 1995 e no ano seguinte ingressei no Parque Lage para complementar meus conhecimentos teóricos e filosóficos sobre arte. Assisti durante 2 anos às aulas de Reynaldo Roels, e foi com ele e seus ensinamentos que o meu interesse em produzir uma linguagem própria se intensificou; foi então que me inscrevi no curso de ‘análises de trabalhos’ com Iole de Freitas, onde tive um verdadeiro embate, primeiro comigo, com a indagação sobre o meu real desejo de ser artista plástica, e depois com o trabalho, pois a pintura já não me interessava mais, estando mais motivada a trabalhar com o espaço real. Foi nesse curso que aprendi muito sobre arte contemporânea e o ‘fazer artístico’, com tudo o que ele envolve.
Frequentei, também na EAV, cursos com os professores Guilherme Bueno, Fernando Cocchiarale, Charles Watson, Frans Manata e Bia Amaral, fechando um círculo de aprendizagem dentro da Escola que muito me enriqueceu.
Hoje mantenho encontros semanais com artistas independentes, nos quais trocamos experiências, lemos e analisamos livros de autores contemporâneos e fazemos visitas a exposições, tudo  com a assistência do crítico Guilherme Bueno.

Que artistas infuenciam seu pensamento?
Em meus trabalhos tridimensionais, os artistas que mais me influenciaram foram Wladimir Tatlin com suas esculturas/instalações (é assim que percebo seus contra-relevos) que invadiam e movimentavam o espaço com tensões e equilíbrio, e Richard Serra com suas esculturas monumentais expressando temas abstratos como percepção espacial, consciência corporal (do espectador), gravidade e equilíbrio, e o vazio em embate com a massa. No Brasil, Waltércio Caldas, com suas instalações que abordam o espaço e sua meditação (espaço/tempo), e a utilização eventual de materiais muito leves como a lã (‘O ar mais próximo” – 1991 MNBA/RJ), me levaram a comparar sua obra com a de R. Serra no sentido de ocupação espacial e utilização de materiais: ambos ocupam os espaços escolhidos de maneira potente, mas com materiais totalmente inversos na relação massa (peso) x espaço, porém com resultados parecidos na minha percepção. Ainda no Brasil Ligya Clark e Hélio Oiticica são referendados em muitas das instalações que já produzi, através da interatividade – requisitada mas não impositiva – com o visitante.
Como você descreve seu trabalho?
Hoje descrevo o meu trabalho como experimental concretizado que aborda questões sobre a ‘consciência de se estar no mundo’, a ‘percepção de ocupação espacial’ e a ‘construção/desconstrução da imagem que cada um oferece ao outro’. Essas questões são apresentadas ao espectador de forma muitas vezes abstrata, como é o caso da instalação inédita “Sois Vós”, onde o visitante é convidado a responder a seguinte pergunta ‘Você é o que os outros querem?’, escrever a resposta e deixá-la arquivada no local da instalação, se assim quiser. Em outros trabalhos abordo questões de ocupação espacial e ocupação espacial sonora, onde o visitante é requisitado a refazer percursos da memória, como na instalação “Espaço Amplificado IV” – 2006, EAV, Parque Lage.

Qual foi sua exposição mais importante?
A exposição mais significativa de que participei foi no Largo das Artes, RJ em 2008 na qual apresentei a instalação “Construtiva X”. Nesse trabalho eu abordava as seguintes questões: ocupação e interferência espacial, interatividade com o espectador, controle do cidadão através da exposição da imagem, e – a mais importante para mim – ‘a quebra do mito Narciso’ desencadeada pelo mundo contemporâneo. Escrevi no folder da exposição: ... ‘a imagem oferecida pelo Narciso atual é para ser admirada por muitos, factual e múltipla, não mais refletida para seu próprio deleite’. No ano seguinte apresentei essa instalação em Milão, Itália, no Spazio Oberdan, na mostra “Las Americas Latinas. Las fatigas del querer”, a convite do curador Philippe Daverio, que havia visto a instalação aqui no Brasil.Outra experiência que já venho fazendo é a união entre arte e tecnologia digital e em breve apresentarei meu primeiro trabalho na web com interatividade do visitante. Venho trabalhando nesse projeto desde 2009. A tecnologia digital me fascina e me estimula a produzir e a usá-la com finalidades artísticas.
O que é preciso para um artista ser representado por uma galeria?
O artista precisa produzir trabalhos coerentes com o seu discurso e com rigoroso controle do material e da execução da obra. O rigor e a coerência no fazer abre portas de salões e possibilita premiações, o que traz a visibilidade de que o artista precisa para ser reconhecido e talvez convidado por alguma galeria. Já vivi essa experiência ao ser indicada ao 1º Prêmio PIPA em 2010 e posso afirmar que o artista passa a ser notado por vários segmentos.

O que você pensa sobre os salões de arte?
Salões já reconhecidos pela excelência conquistada ao longo dos anos outorgam um grande valor a qualquer currículo artístico, e a minha sugestão é que seja divulgada, junto com o Edital de convocação, a relação dos jurados que selecionarão os artistas, pois são poucos os que assim procedem. Outra sugestão é que se repense o prazo para avaliação da produção do candidato. Esse prazo geralmente é de dois anos. O artista que trabalha com instalações, como eu, produz no máximo duas por ano, ou seja, é impossível apresentarmos dez trabalhos feitos nos últimos dois anos.
Quais são seus planos para o futuro?
Viver de arte no Brasil é um caminho árduo e difícil, mas não impossível. Por isso, mesmo tendo começado muito tarde, tenho planos de viver do meu trabalho, fazer um mestrado em Artes Visuais e criar um coletivo de arte.
O que você faz nas horas vagas?
Nas horas vagas tento não pensar no trabalho (o que é muito difícil) e procuro assistir a bons filmes e viajar com minha família.


















7 comentários:

Gabriela Noujaim disse...

adorei a entrevista parabéns…...

Gabriela Noujaim disse...

Adorei Parabéns Ivani

Marcio Zardo disse...

Olá Ivani!! Gostei muito da tua consistente entrevista!Legal conhecer um pouco mais sobre tua trajetória.Parabéns e muito SUCESSO!!!

Jacqueline (Jac) Siano disse...

olá Ivani. Gostei de poder conhecer um pouco mais sua pesquisa referências e saber de planos para o mestrado. parabéns e muito sucesso! bjs.

Engº Spencer Ferreira disse...

“Acreditamos, para não dizer que temos certeza, que esses estágios de consciência existencial são bastante distintos entre grupos específicos e até mesmo entre indivíduos, isoladamente. Se observarmos essa consciência nas crianças, nos deficientes visuais, nos deficientes mentais, naqueles que pensamos não saberem desenhar, pintar, esculpir e tantos outros excluídos, certamente descobriremos outros meios para superar os desafios que aparecerão em nossos caminhos, e poderemos ainda, sem nenhuma presunção, através da integração desses universos, estabelecer outro modo de entendimento da dimensão em que nos encontramos.”

Esse parágrafo do manifesto “Inabilista” ganha uma dimensão especial nos trabalhos da nossa querida Ivani, quando ele aborda questões que nos remetem a reflexões que dizem respeito a nossa existência nessa dimensão. É assim, com esse brilhantismo sem igual, que a vemos abordar as questões que descrevem seu trabalho, como é o caso da “consciência de se estar no mundo”, “percepção de ocupação espacial” e a “construção/desconstrução da imagem que cada um oferece ao outro”.

Parabéns Ivani! Muito obrigado por nos ajudar a repensar a dimensão em que nos encontramos, as nossas relações com a vida e o Mundo.

Cristina Bicalho Canêdo disse...

Parabéns Ivani, fico orgulhosa do progresso e sucesso da querida colega, e dos planos futuros. Abração

Marisa Bozon Moreira disse...

Não há dúvidas que o seu sucesso é fruto de sua dedicação e talento. Sua entrevista fala de sua vida pessoal e artística, de seu desenvolvimento, e com orgulho sou testemunha de tudo isso. Parabéns.

Marisa Bozon Moreira

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
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