quarta-feira, 26 de outubro de 2011

Conversando sobre Arte Entrevistado Fabiano Devide


Fabiano Devide Artista na exposição Híbridos Galeria Café, 2011, Rio de Janeiro,

Fabiano Devide tem excelente formação acadêmica e, é pesquisador na UFF na área de Educação Física. Certamente as experiências vividas esses conhecimentos acumulados durante sua carreira foram fundamentais para construção de sua obra madura em pintura. Certamente seus alunos serão beneficiados com essa conjugação de conhecimentos. Vive e trabalha no Rio de Janeiro e é representado pela FaceArte. Fabiano, obrigado pela participação e sucesso na carreira.

Fabiano, fale algo sobre sua vida pessoal.
Nasci em Florianópolis, em 1974. Transitei por cidades do Sul do país - Blumenau, Porto Alegre e Curitiba - em função da profissão de meu pai, que retornou ao Rio de Janeiro com a família na segunda metade da década de 1980. Nesse período, cursei o ensino fundamental e médio, me interessando pelas atividades relativas às Artes e aos Esportes. No campo profissional, cursei Licenciatura em Educação Física na Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro [1992-96], seguindo carreira acadêmica posterior, com mestrado [1997-99] e doutorado [1999-2003] em Educação Física e Cultura, desenvolvendo pesquisas em Estudos de Gênero. Atualmente sou professor adjunto Instituto de Educação Física da Universidade Federal Fluminense (IEF/UFF), onde leciono e desenvolvo pesquisas na área dos Estudos de Gênero.

Como foi sua formação artística?
Minha relação com a Arte iniciou em 1985, quando meus pais me inscreveram no curso de pintura óleo do ateliê de Consuelo Fabrino, em Curitiba. No ano seguinte, continuei estudando pintura no ateliê de José Ramon e desenho com Ronaldo Antunes, em Teresópolis, quando interrompi as atividades. Retomei as atividades somente em 2009, na Escola de Artes Visuais do Parque Lage (EAV/Pq. Lage), no Rio de Janeiro. Cursei “Pintura II”, com João Magalhães, por um ano, onde tive liberdade para me reencontrar com a pintura e recebi rica orientação. Em atividades paralelas, cursei “História da Arte Contemporânea”, com Pedro França; “O Processo Criativo”, com Charles Watson; e o “Módulo avançado de pintura”, com Ivair Reinaldim e Daniel Senise, onde iniciei um projeto em investigação que mantenho no curso de “Experiência em Pintura II”, com Suzana Queiroga. Também participo do Grupo de Estudos de Ivair Reinaldim, onde as leituras sobre Arte e Filosofia, História da Arte e Crítica de Arte têm conferido maior densidade à investigação em termos conceituais relativos ao processo criativo.

Você tem pós graduação em Educação Física, o que motivou a mudança para arte?
Tenho proximidade e prazer pela Arte desde a infância, mas afastei-me por escolhas que fiz na adolescência, relacionadas à prática do esporte de competição e posteriormente, pela escolha profissional. Após cerca de doze anos cursando estudos na área de Educação Física e me consolidando profissionalmente na vida acadêmica, organizei meu cotidiano para retomar atividades que me dão enorme prazer, como a pintura. Quando ingressei na EAV, já conhecia a dinâmica organizacional da instituição, assim como sua relevância na formação de artistas brasileiros. A atuação no meio acadêmico, sobretudo no contexto da pesquisa, contribui para manter as leituras sobre Arte paralelas ao fazer artístico. Sendo assim, há muito discurso teórico por trás do que tenho produzido em pintura e em projetos rascunhados que ainda não executei, mas que dialogam com os Estudos de Gênero nos quais produzo pesquisa no âmbito acadêmico.

Que artistas influenciaram seu pensamento?
Gosto do trabalho de diversos artistas: Duchamp, Matisse, Picasso, Pollock, Rauschenberg, Jasper Johns, De Kooning, Warhol, Baselitz, David Salle, Marlene Dumas, Basquiat, Rothko, Hooper, Kosuth, Barbara Kruger, Jenny Holzer, Beuys, Eva Hesse, Sam Taylor Wood, Bourgeois, Cildo, Adriana Varejão, Gerhard Richter, Jenny Saville, Cecily Brown, Alex Kanevsky, Yam Pey-Ming. Outros artistas que tenho pesquisado por possuírem trabalhos com diversos mediums, e tangenciarem a temática da investigação atual, são os brasileiros Leonilson, Alair Gomes, Alex Flemming, Gil Vicente, Marcelo Amorim, Fábio Barolli, Fábio Carvalho; além de David Hockney, Eric Fischl, Lucien Freud, Rainer Fetting, Francis Bacon, Oldrich Kulhanek, Paul Cadmus, Mapplethorpe, Elizabeth Peyton, Collier Schorr, Yvon Goulet, Duane Michals, Cole Robertson, David Trullo, Dimitri Yeros, Chrstian Schoeler, Philip Gladstone, Fereydoun Ave, Frank Gabriel, Gerhard Hintermann, Gianluca Chiodi, Hugo Dalton, Ivar Kaasik, Jean-Ulrick Désert, Jonathan Webb, Marc Waylan, Roberto Rincón, Tania Kandratsenka, Zachari Logan, Tibor Hajas, Ion Grigorescu, Janos Sturcz, Jaam Toomik, Robert Flynt, Apóstolos Georgius, Rene Bachrach Cristofic.

Além do estudo de arte o que ajuda na elaboração dos seus trabalhos?
Minha história de leitura no campo dos Estudos de Gênero influencia diretamente a investigação atual. A questão norteadora que problematizei [mas vem se ampliando] estava relacionada às práticas corporais que se configuram, paradoxalmente, como um espaço de construção da masculinidade hegemônica, e de produção de imagens com teor homoerótico. Como a arte contemporânea [a pintura] pode levantar questões sobre os mecanismos pelos quais esse paradoxo se manifesta no cotidiano? O processo criativo partia de imagens de práticas corporais consideradas áreas de domínio masculino [futebol/luta] e feminino [dança], explorando a sua polissemia. Nesse sentido, compartilho de que não há uma “verdade” ou sentido a priori na obra do artista, optando por interpretá-la como “fluída”, no sentido conferido por Zygmund Bauman; de forma que a mesma não tenha a intenção de dizer algo “fechado”, pois essa produção de sentidos ocorre no diálogo entre a intenção do artista e a história de leitura do espectador, a partir de uma lógica “aberta” e “plural”, conforme a argumentação de Danto. Por isso busco uma pintura que possa despertar no espectador mais do que a primeira leitura, presente em sua superfície.

Como você descreve seu trabalho como artista?
Tenho me dedicado prioritariamente à pintura. Penso que meu trabalho de pintura está na “infância”, em amadurecimento e processo, necessitando foco e dedicação. Trabalho a partir da apropriação de imagens – uma característica da obra de artistas contemporâneos sobre a qual tenho refletido com mais atenção. A maioria das pinturas surge de fotografias, que “coleciono” e organizo a partir das possíveis relações com as questões da minha investigação. As imagens provêm, majoritariamente, da web, mas podem ser provenientes do cotidiano: o jornal diário, uma revista, uma cena que fotografei numa viagem, uma fotografia que alguém me deu. Meu processo utiliza a manipulação digital da imagem, sua impressão sobre papel, um desenho sobre transparência a partir da imagem impressa e a projeção desse desenho. Nesse processo, a imagem inicial é subtraída em diversos elementos, de acordo com minhas intenções em relação ao trabalho, no intuito de potencializar as questões inerentes à investigação no campo das questões de gênero, corpo e masculinidades.

Qual sua opinião sobre os salões de arte? Algumas sugestões para aperfeiçoá-los?
Hoje interpreto os Salões de Arte como uma estratégia de ingresso dos novos artistas no cenário das Artes Visuais [que também incluí as galerias], no intuito de conferir visibilidade ao seu trabalho, tanto em nível local, como nacional. Entretanto, é notório que “novos artistas” [iniciantes], enfrentam dificuldades para tal inserção, por não terem participado de Salões anteriormente. Entretanto, não considero uma regra que todo artista deva estar nos Salões como um “passaporte” para sua inserção no cenário das Artes Visuais. A Arte pode –e deve – ocupar espaços que extrapolem o Cubo Branco, no sentido de diálogo com outros públicos que também consomem arte, de formas distintas, por outros “canais”, que não a galeria, o museu ou os eventos como uma Bienal. Vide o advento das galerias virtuais, como o FaceArte, da qual faço parte. Esse também foi um dos motivos pelo qual optei realizar minha primeira exposição individual – Híbridos - num espaço não institucional: Galeria Café. Outro caminho possível para novos artistas tem sido a participação em exposições coletivas organizadas por instituições, como a própria EAV/Parque Lage o faz; ou organizadas por um coletivo de artistas, em espaços alternativos, como os próprios ateliês. Vide o exemplo da Fábrica Bhering, recentemente.

O que você pensa sobre as Bienais e Feiras de Arte?
Acho que as Bienais e Feiras de Arte têm objetivos distintos e devem existir. Em recente visita à Bienal do Mercosul, em Porto Alegre; e à Feira ArtRio, percebi as particularidades cada evento, em termos de montagem, público, objetivos etc. José Roca, em seu texto intitulado “Duodecágolo”, lista vinte características de uma Bienal de Arte, entre as quais, a de número 12: “Uma Bienal não é uma feira de arte: Os artistas não devem estar isolados cada um no seu espaço como se fosse um estande de feira comercial. Suas obras devem estar em um diálogo espacial; esse texto resultante é o que denominamos curadoria”. Feiras são relevantes e têm o seu papel no comércio da arte, desde que nós, personagens que ocupam esse cenário em diferentes posições sociais e relações de poder [artistas, críticos, galeristas, curadores etc.], tenhamos uma reflexão crítica sobre a expressão de cada um dos eventos, distanciando-nos, por exemplo, da idolatria, no sentido conferido por Vilém Flusser; e de certo grau de fetichismo em relação às imagens circulantes na arte contemporânea, que numa “sociedade do espetáculo”, assumem projeção planetária, o que inclui, também, o valor conferido à obra de arte [mas isso é outro debate].

Você escreve sobre seu trabalho?
Passei a escrever sistematicamente sobre o meu trabalho em 2010, no Módulo Avançado de Pintura, sob a orientação de Ivair Reinaldim. Naquele momento, construí um projeto de investigação a ser desenvolvido no ano e, pela primeira vez, assumi a responsabilidade de interlocução entre a minha produção acadêmica e as Artes Visuais. Construí um Blog [www.fabianodevide.blogspot.com] onde passei a postar imagens e textos sobre meu processo criativo, no intuito de compartilhá-lo com outros artistas interessados em debater sobre seus processos. Atualmente, o Blog tem se tornado um espaço mais amplo, onde cada vez menos posto imagens e textos sobre meu trabalho, optando por postar notas sobre textos teóricos que leio, imagens de exposições, Feiras e Bienais que visito e tenham relações com minha investigação.

É possível viver de arte no Brasil?
O cenário das Artes Visuais no eixo SP-RJ está em expansão se comparado com a década anterior. Basta comparar o número de galerias que existem hoje no Rio e inclusive estão abrindo filiais na capital paulista. Mas é preciso cuidado ao associar a expansão de espaços que comercializam arte, com a conseqüente venda de obras de artistas, pois ainda é comum assistirmos galerias que não se sustentam no mercado e artistas que abandonam suas profissões e após alguns anos tentando viver do trabalho com a Arte, retomam antigas atividades. Nesse cenário, os mais persistentes e com um trabalho denso, tendem a se inserir e prosperar. Mas são necessárias condições para que o artista possa se dedicar integralmente a sua obra - um privilégio de poucos. Outra possibilidade que alguns artistas têm seguido é a vida acadêmica, a partir dos cursos de mestrado e doutorado em Artes Visuais. No meu caso, tento conciliar os horários do trabalho na universidade com os horários do meu tempo livre, o que muitas vezes significa sacrificar o lazer para estar pintando, pesquisando referências, lendo ou pensando sobre o trabalho, o que faço com prazer.

O Brasil já tem condições de concorrer no mercado internacional de arte?
Poucos artistas brasileiros estão inseridos no mercado internacional com visibilidade. Temos expoentes com expressão, como A. Varejão, B. Milhazes, Ernesto Neto, Cildo, Oiticica, M. Schendel. É gratificante estar visitando instituições no exterior e se deparar com a obra de um brasileiro/a. Mas são exceções que não retratam a realidade dos milhares de artistas e do mercado de arte Brasil. É preciso refletir sobre o escasso incentivo às Artes Visuais no país, que se inicia na infância, nas escolas, onde o componente curricular das Artes não recebe a devida relevância na formação dos alunos/as. Isso se reflete num público que não valoriza a Arte, não será consumidor de arte, não buscará instituições para se deparar com a experiência estética de olhar e sentir uma obra de arte. A realidade de alguns museus no exterior é de filas diárias para acessarmos seus acervos [MoMA, D’Orsay, Prado, Pompidou ou Louvre são alguns exemplos], enquanto no Rio e São Paulo, o MAM e o MASP, apesar de um acervo representativo e de sediarem exposições internacionais importantes, estão esvaziados de espectadores. Recentemente, visitei a exposição de Louise Bourgeois, no MAM/RJ num Domingo, a maior parte do tempo sozinho ou em companhia de três ou quatro pessoas. Se a mesma exposição estivesse no Centre Pompidou, receberia um número infinitamente maior de visitantes. É um problema social e cultural, com raízes mais profundas e que merecem um debate ampliado que não cabe aqui.

Quais são seus planos para o futuro?
Na vida profissional, após vários anos lecionando em escolas públicas e depois em universidades privadas, estou num momento de “colher frutos” na universidade pública, o que permite me organizar para um pós-doutorado em Estudos de Gênero nos próximos anos. No campo das Artes Visuais, pretendo manter os estudos e o diálogo com professores e artistas que possuem um processo que dialoga com o meu. Considero que visitar os eventos [exposições, Bienais e Feiras] é uma experiência importante na formação. No mais, busco construir um trabalho denso e, sobretudo, sincero com meus objetivos, independentemente do mercado.

O que faz nas horas vagas?
Tenho o hábito quase diário de tomar chimarrão, quando reservo um tempo de contemplação onde “resolvo” diferentes questões do cotidiano, incluindo-se a pintura. Sou um cinéfilo e por residir em Botafogo, acompanho as estréias semanalmente. Gosto de visitar minha família, em Teresópolis. Pratico exercício físico regularmente, sobretudo nadar na piscina ou em águas abertas, pois é um momento de “esvaziamento”. Adoro música, desde assistir a um show de música popular brasileira ou Jazz, comparecer às rodas de samba tradicionais do Rio, como na Rua do Ouvidor, no Bip Bip, em Copacabana; ou na Pedra do Sal, na Gamboa; assim como sair para dançar com amigos nos fins de semana, ao som de música eletrônica. Por fim, tento me organizar para viajar e dedicar parte desse tempo para ver obras dos artistas contemporâneos internacionais que mais gosto.

Espaço livre para considerações.
Quero agradecer o seu convite e parabenizar sua iniciativa em destinar um espaço ao discurso dos artistas sobre os seus trabalhos e suas interpretações sobre o cenário das Artes.



Série Silêncios Sem título. 50x50cm (2011)

Série Silêncios. Sem título 50x50cm (2011)


Série Silêncios Sem título 50x50cm (2011)

Híbridos. (2011) Acrílica sobre tela. 116x116 cm.


Série Silêncios Sem título 50x50 cm. (2011).


Me Faça Ver de Olhos Fechados. Acrílica sobre tela 130x175 cm. (2011).

Corpos Passagens (2011) Acrílica sobre tela 142x148 cm.

3 comentários:

Anônimo disse...

seu blog é uma das melhores coisas deste pais
bjsss, Rosane Chonchol

SIL disse...

PARABÉNS, FIQUEI ENCANTADA COM TANTA BELEZA.

Claudia Laux disse...

levando a sério mesmo a criação... e quanto mais se anda mais resta a caminhar! coragem! bjo

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
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