terça-feira, 25 de outubro de 2011

Conversando sobre Arte Entrevistado Shima


 Shima

Shima (Marcio Shimabukuno) artista multimídia paulista atualmente em Belo Horizonte. Você poderá conhecer sua rica história pessoal e a obra madura e reconhecida. Obrigado Shima.


Marcio, fale algo de sua vida pessoal.
Nasci em São Paulo, filho de imigrantes japoneses de Okinawa, do Masahiro e da Sueko (também carinhosamente apelidados de 'seu Massinha' e 'dona Júlia'. Irmão do meio de três homens, sou provavelmente o único artista que seguiu carreira artística (contudo,vejo na minha família muitos artistas, seguindo brilhantemente em outras áreas). (Não sei se essa informação já está boa, se quiser mepergunte mais?)

Como você se envolveu com a Arte?
Pergunta difícil! Talvez as coisas se iniciem antes de minha existência, talvez eu tenha referências apenas desta vida. Quando eu penso como me envolvi com a Arte, penso na minha mãe que cantava para mim, durante a gravidez. Quando eu era criança, pai inventava viagens de última hora, e conheci uma boa parte do interior do Estado de SP,viajando em alguns finais de semana e nos perdendo pelas estradas e rodovias, nos colocando em situações inusitadas que exigia uma grande resistência emocional de nós. Descobri mais tarde que meu avô materno adorava desenhar. O meu pai fotografa tudo, de flores a comida (assim como eu), e tenho um tio (Eiki) que adora ver exposições de Arte. Tenho uma prima (Cristina Gushiken) que trabalhou numa galeria de arte (Adriana Penteado), onde eu trabalhei por quatro anos, e conheci artistas como Sergio Romagnolo, Carla Zaccagnini, João Loureiro, Ana Luisa Dias Batista, José Rufino, Alice Vinagre, Eudes Mota, Edith Derdyk, Rosana Paulino, Fabio Flaks, Leya Mira Brander... entre tantos outros. Foi quando eu comprei minha primeira obra de arte, três gravuras do Marcelo Moschetta. Só que na época eu estudava Desenho Industrial e pretendia ser designer.

Qual foi sua formação artística?
Frequentei escolas de arte na infância, com um sistema de ensino relativamente eficaz que incluía a prática artística, desde tocar instrumentos musicais (aprendi sete), até pintar com técnicas aguadas
(aquarela, nanquim) e oleosas (giz pastel), além do tradicional desenho a lápis. Tive muito medo de dizer a meus pais que queria ser artista, então fui pra escola de desenho industrial, tentando encontrar alguma solução comercial para justificar as minhas idéias. Trabalhei com Adriana Penteado por 4 anos, como designer, era editor assistente da Tupigrafia, tinha alguns clientes, mas não teve muito jeito. 10 anos de carreira, com alguns prêmios na manga, não estava satisfeito, e meu corpo começou a responder de forma espontânea  à insatisfação em fazer algo que minha alma não queria. Mudei-me para Recife, onde morei por 3 anos e saí do casulo.Tive oportunidade de conhecer artistas que me influenciaram, de Paulo Bruscky a Marcio Almeida, passando por Rodrigo Braga, Trelles e Dj Dolores. Nesse meio tempo, vi incontáveis exposições, e penso que tudo isso faz parte de uma formação artística, que não está só na academia, mas também parte essencial da vida.

Você fez várias residências no Brasil e exterior, qual foi a importância delas?
Para mim, as residências reforçam os meus valores, me coloca em cheque diante deles. Porque em cada residência que você faz, é necessária uma intensa adaptação, climática, cultural, moral, econômica... O que é intolerado numa cultura é parte do cotidiano de outra, o que para alguns é uma descoberta recente, para outros pode ser uma tradição milenar oculta, enrraizada na cultura. As residências permitem rever os valores, pensar no por que das coisas serem como são, com um olhar menos deslumbrado, talvez, mas penso como um novo olhar sobre as velhas coisas, com mais interesse no que parece ordinário.

Como você descreve sua obra?
Complexo. Penso que é um conjunto complexo. É preciso tempo, um tanto de paciência, uma certa tranquilidade, e também um interesse pela poética do trabalho, que traz essencialmente um recorte do cotidiano.

Que artistas influenciam seu pensamento?
Meus pais, minhas mães, tios, primos, avós e irmãos.

Desenho, instalação ou performance, como elas se ligam? Alguma preferência?
Elas se ligam pela experiência sensorial no tempo e no espaço, cada um com sua especificidade. O desenho instaura um momento completamente distinto da performance, da instalação, do vídeo. Eu tenho preferência pela performance e seus desdobramentos, que podem transfmormar-se em vídeos, fotografias, instalações e desenhos também.

Como o artista é remunerado por uma performance?
Só posso falar no meu caso, que pode ser completamente diferente de outro artista, não há um sistema muito definido. Pode ser por um cachê pré-estabelecido pelo proponente, pode ser dentro de uma proposta de trabalho, às vezes tem um valor fora de uma média que vai se formando ao longo dos anos, mas 1) nunca foi de graça (não só no sentido monetário) 2) sempre valeu a pena, sempre é um trabalho prazeroso de se realizar. Algo que nunca pensei em fazer é vender uma performance,nunca fiz e não sei como fazer, tampouco penso que faria. Depende muito da ocasião, mas geralmente sou remunerado pela apresentação do trabalho.

Qual foi sua exposição mais importante?
Todas são importantes! Cada exposição, individualou coletiva, dentro de seu contexto são marcos, mesmo não tendo um pensamento crítico ou curatorial, suma exposição sinto-me exposto, abrindo minhas idéias e compartilhando pensamentos com o mundo. É um canal/portal de abertura com outros aspectos, outras experiências, outras sensibilidades.


São Paulo ou Belo Horizonte?
A cidade na qual sinto-me vivo e presente. Aí não tem São Paulo nem Belo Horizonte. Gosto muito das duas cidades, cada qual me surpreende de forma bem específica. Bom, eu nasci em São Paulo, né? Pra onde quer que eu vou eu penso na matriz. Todavia, Belo Horizonte tem apontado novos caminhos também. Sou grato à esta cidade que me recebeu de braços abertos. É um amor construído. O tempo e o vento me levam para onde for.

A cultura asiática influencia em seu trabalho?
Totalmente! Faz parte da minha formação. Meus pais são imigrantes de Okinawa, e isso eu carrego até nas coisas que realizo no cotidiano.Já houve épocas em que eu neguei essa influência, mas é impossível! Já que é tão parte de mim, resolvi deixar que isso transparecesse no trabalho. Como extensão de mim, nada mais adequado do que minhasinfluências transpareçam no que eu faço. E penso que isso traz um tom ao trabalho que divide as opiniões. É algo que eu trago
conscientemente no que faço: pensar o meu lugar no mundo, com toda a coerência e contradição que uma existência pode provocar no mundo, e nos próximos. Talvez por isso eu goste tanto da performance. O mundo muda o tempo todo, e nos adaptamos a todo momento, muitas vezes sem
perceber.

O que faz nas horas vagas?
Não sei o que é ter hora vaga! Se você não considera o que faz um trabalho, então, você também está trabalhando o tempo todo. A sensação de não estar fazendo nada me aterroriza, mas sou uma pessoa adepta ao ócio criativo.




 "Labor Adicto I", performance (retrato, incenso, esteiras de palha, chaleira, copo, mala, cadeiras), dimensão e tempo variáveis, 2006-2008 (apresentado no SPA das Artes, 2006)



 Da série "Invisíveis", jato de tinta s/ papel, 60 x 40cm, 2009



 Da série "Móveis", jato de tinta s/ papel e moldura acrílica, 18x24cm (cada), 2010.



 "Testemunho", jato de tinta s/ papel, 120 x 90cm, 2005-2010.



 "Redenção", performance, (instruções, corante, bacia, copos, água), dimensão e tempo variáveis, 2010 (apresentado no Perpendicular: Maletta, 2010).



 "Marco Zero + Espaço Aéreo", performance (balões, mensagens, cadeira, giz, papel de seda, fósforos), dimensão e tempo variáveis, 2010-2011 (apresentado no SPA das Artes, 2011).

Para ter acesso aos vídeos do artista http://www.vimeo.com/shima/

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Maurizio Cattelan

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