terça-feira, 4 de outubro de 2011

Conversando sobre Arte Entrevistado Julio Leite



Julio Leite

Julio Leite vive e trabalha na Paraíba. Foi professor substituto da Universidade de Campina Grande, Paraíba. Fez Residência artística na FAAP, São Paulo. Participou das Bienais de Havana e do VentoSul.  Esse ano foi indicado para concorrer ao Prêmio Pipa. É representado pela Galeria Virgílio, SP. É torcedor do Treze Futebol Clube. Obrigado Júlio.


Fale algo sobre sua vida pessoal.
Nascí em Campina Grande (1969), minha mãe foi  decoradora e meu pai piloto de avião. Completei meus estudos em escola particular e a faculdade de Comunicação Social (jornalismo) finalizei na Universidade Estadual da Paraíba.

Como foi sua formação artística?  Meu primeiro contato com as artes plásticas foi em minha cidade, Campina Grande, no Museu de Arte Assis Chateaubriand, quando criança. Era um curso voltado para esse público. Após terminar os estudos e não ser aprovado no vestibular, me transferí para o Recife, fui fazer uns cursos livres de Arte na Uiversidade Federal de Pernambuco, Museu de Arte Contemporânea e Escolinha de Arte do Recife. Por estar em um centro regional, o nível de acontecimentos nas artes visuais era mais frequente e de maior apuro qualitativo e isso foi um período muito singular na minha trajetória.

Que artistas influenciam seu pensamento? Gosto de Vários artistas e, consequentemente, seus processos. Malevitch, Duchamp, Yves Klein, Julius Bissier, Beyus, Allan Kaprow, Torrez Garcia, Matta Clark entre tantos outros. Dos brasileiros Volpi a Mira Schendel, Oiticica, Paulo Bruscky, Lígia Clark, Iole de Freitas, Cildo, Waltércio, Guto Lacaz, Regina Silveira, Carmela Gross, Amílcar de Castro e Antônio Dias. São muitos, não da pra colocar todos aqui. Sou fã, também, da Raquel Kogan e da dupla Rejane Cantoni e Crescenti, artistas de minha geração mas que tenho profunda admiração pelo trabalho deles.



Como você descreve sua obra?
Minha obra é diluída em vários meios, não uma uniformidade estética ou conceitual. Conforme a necessidade, vou utlizando o que se adequa melhor para definir a imagem. Essas adequações fazem parte da investigação que todo artista tem em relação ao objeto artístico

Que exposição sua, você considera a mais importante?
Todas elas, não isolaria uma exposição para definir sua importância. Expus na Galeria Virgílio recentemente, em São Paulo (agosto de 2011). Considero sempre a exposição mais recente como importante, como resultado de uma trajetória, mas não negligêncio o que é preexistente, isso faz parte da história de todo artista. Ela é importante porque outras mostras existiram para me trazer a este resultado visual atual.

Como você descreve o mercado de arte na Paraíba?
Falar em mercado de arte na Paraíba, não so lá como em toda região Nordeste, é se voltar para a tradição, para uma arte de abordagem manual que não privilegia o pensamento, a inteligência, o conceito, a filosofia. Temos vários artistas na cena contemporânea brasileira, alguns consolidados, mas que têm dificuldades de veicular suas obras em nível regional. O processo natural dessas obras são as galerias de Rio-São Paulo e os colecionadores e instituições da região sudeste. O problema nao está no poder aquisitivo, tem muita gnete de grana no Nordeste, porém, sem massa crítica para adquirir obras de artistas contemporâneos. Essa atitude limita o mercado ao mainstream, quando muito. Para termos um mercado de arte amplo, na Região Nordeste, necessariamente, terá que ter instituiçoes fortes (museus e galerias) com pessoas capazes de promover do Naif ao Contemporâneo. Se ficarmos, apenas, na esfera do naif vai ser complicado. Nunca alcançaremos uma relação ampla com a arte e seus processos de interpretação da atualidade.
O que significou para você a indicação para o Prêmio Pipa?
Para mim foi muito importante porque é uma ferramenta das mais ricas para divulgação de um artista em nível nacional. É uma vitirne de excelentes artistas para vários colecionadores e instituiçoes. O fato de estar sendo representado por uma galeria de arte em São Paulo ou no Rio é extremamente necessário para o artista e o fato de estar no Prêmio Pipa é legitimar essas relações entre o mercado de arte e o seu público.
O que é necessário para um jovem artista ser representado por uma galeria?
A trajetória do artista é algo que reflete o alcance de sua obra e de seu conhecimento. Ter massa crítica é de extrema importãncia para execução de um trabalho de arte ou qualquer outro empreendimento. O trabalho do artista se desenvolve de forma lenta e depois de 10 anos temos um pouco do perfil desenvolvido pelo artista. Essa prerrogativa de análise do seu potencial é fundamental para se colocar um artista no mercado, As vezes a pressa é inimiga da arte, não adianta forjar resultado porque o resultado não mente, é sempre transparente e verdadeiro.
Além dos estudos sobre arte que outros estímulos influenciam em seu trabalho?
Sem dúvida a natureza e as transformações que o homem é capaz de efetivar sobre ela, incluo aí os processos industriais e, consequentemente, tecnológicos.
É possível viver de arte no Brasil?

Sim, é possível sim.
Você tem uma rotina de trabalho?
Meu trabalho é arte e o meu hoby é outra atividade que me garante um extra (risos). Essas duas atividades são distintas mas me levam a um patamar de segurança financeira que é necessária à sobrevivência. 


O que você pensa sobre os Salões de Arte?
Os Salões de Arte são instrumentos interessantes para políticas de aquisição de obras de arte por instituições que investem em memória e patrimônio, além de se efetivar uma relação direta com o público de arte. O título salão é ultrapassado, bastante arcaico, mas os editais de arte são sempre muito bem-vindos. O que temos de levar em consideração é a possibilidade para se consolidarar as realações das artes visuais com toda a cadeia de ênfase cultural. Sem dúvida, os eventos realcionados às artes plásticas, são sempre positivos. Um exemplo de uma excelente política de aquisição de obras foi o Salão de Arte da Bahia, não sei o motivo que o Salaõ foi extinto. Posso afirmar que deixou uma lacuna no calendário de eventos na arte brasileira.

Qual sua opinião sobre as Bienais e Feiras de Arte?
São eventos pirotécnicos mas que traduzem o nosso tempo. As Feiras aos poucos se consolidam como eventos de uma dinâmica definida para prospecção do mercado de arte. Elas são necessárias, movimenta a economia da cultura, o artista ganha, a galeria ganha, as realações ficam efetivadas de forma muito positiva. As bienais continuam com o seu papel de ruptura, de novas legitimações, nem sempre conseguidas de forma efetiva.


Quais são seus planos para o futuro?
Terei uma exposição que foi fruto do Prêmio Energisa de Artes Visuais. Vou pensar um formato para executa-la em 2012. No momento estou concentrado nisso e ja com algumas abordagens em fase de execução.




Zona de Fronteira



Sala de Reforma - Uma Parede para Matta Clark.


Homenagem ao Lilás


Homenagem ao Branco



Homenagem ao Amarelo


Exposição



Com inteligente uso de relações entre significado e significante, Julio Leite escreve o nome das cores com cor diversa do que corresponde. Lilás pode ser escrito em vermelho sobre fundo verde. A correspondência truncada entre nome e coisa aponta o caminho de Julio na direção da teoria de Wittegenstein como relação conceitual.”
PAULO HERKENHOFF (crítico de Arte).




Zona de Fronteira  Centro Cultural do Banco do Nordeste.


A curadora Katia Canton afirma que no trabalho de Julio Leite as camisas de times de futebol – portadas pelos corpos, registradas nas fotografias, mostradas em seriação ou projetadas nas paredes – tornam-se flashes, instantes, onde se alternam o anonimato do corpo comum com a singularidade do corpo que porta uma certa cor, um certo emblema ou número.
Essa questão conceitual aparece inicialmente no trabalho emblemático do artista norte-americano Jasper Johns. Johns, então um jovem artista, concluiu em 1955 uma obra que gerou grande polêmica. Intitulada Flag (Bandeira) [ou Stars and Stripes (Estrelas e Listras) em outras versões], ela simplesmente apresentava as listras e estrelas da bandeira norte-americana, em uma grande dimensão, utilizando pintura e encáustica (técnica de pintura na qual se misturam cores com cera aquecida e derretida).
A simples apresentação da bandeira, sem qualquer comentário que se ligue a seu conteúdo, produziu incômodo e atração, dependendo do tipo de espectador que se deparava com ela, demonstrando que uma imagem contém inevitavelmente índices culturais e está necessariamente mergulhada em suas conotações sociopolíticas e ideológicas.
Johns abriu o caminho para as latas de sopa, caixas de sabão em pó e imagens de celebridades na obra de Andy Warhol, e inexoravelmente atestou o poder das imagens midiáticas de gerar narrativas próprias.
É interessante pensar que no projeto contemporâneo de Julio Leite, as duas leituras se tornem possíveis. Por um lado, as camisetas de futebol, mesmo sem o reconhecimento imediato dos times e pelo simples fato de conterem números, cores, marcas e emblemas organizados formalmente, tornam-se “porta-sinais”, à medida que as remetem à condição de uniformes esportivos.
Por outro lado, repetidas exaustivamente com a ajuda da máquina fotográfica, elas se tornam superfícies cromáticas, livrando-se momentaneamente de sua carga simbólica. É nesse momento que se tornam apenas “porta-cores”. Essa simultaneidade parece assinalar a coexistência de aspectos formais e simbólicos, entremeados e misturados na condição da obra de arte contemporânea.  Texto apresentado por ocasião da exposição Zona de Fronteira.




Julio Leite em seu apartamento atelier na FAAP.

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Maurizio Cattelan

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