terça-feira, 11 de outubro de 2011

Conversando sobre Arte Entrevistado JB Lazzarini




J B Lazzarini


J B Lazzarini estudou na Escola Guignard. Vive e trabalha em Belo Horizonte. Usa a pintura como meio de expressão. Obrigado Lazzarini.


Fale algo sobre sua vida pessoal
Nasci em Belo Horizonte, em 1967, cidade onde sempre morei. Meus pais nasceram no interior, minha mãe em Conceição do Mato Dentro-MG e meu pai em Ferros-MG. Essa proximidade com o universo do interior de alguma forma é refletida na minha formação e no meu trabalho.


Como foi sua formação artística?
Eu sempre desenhei desde menino e me interessava essa expressão, era uma coisa que sentia que fazia parte de mim e foi se evidenciando ao passar do tempo. Não só as artes plásticas mais também a música, sempre fizeram parte da minha vida. Comecei a pintar aos 7 anos sem freqüentar nenhuma escola ou curso e como trabalhava desde os 16, entrei para a Escola Guignard aos 20 anos. E a formação, acredito que é uma coisa que mora na alma do artista, ele está sempre em formação e transformação.

Que artistas influenciam seu pensamento?
Sinceramente, foram e ainda são muitos, acho que toda esta informação que temos fica de certa forma gravada no nosso subconsciente e na verdade nunca fui de seguir ou estudar nenhum artista em particular. Gosto de muita coisa diferente, se o trabalho tem alma e emociona é o que importa. Apesar de achar que Picasso, foi na minha opinião o artista mais completo do mundo moderno e é até hoje, pela qualidade e quantidade da sua produção e a forma com que mudava seu caminho mantendo sua originalidade, é certo que os tempos eram outros e ninguém poderia dizer o que seria sua obra se tivesse nascido há 40 ou 50 anos atrás.

 
Como você descreve sua obra?
Acredito que sigo uma linha onde procuro ser o mais verdadeiro possível comigo mesmo e meu trabalho. Nada vem pronto, o processo criativo é um conjunto de experiências que vamos acumulando, muitas vezes vejo coisas antigas que fiz que não me agradam muito, mas também vejo coisas que me deixam satisfeito, acho que vai ser assim sempre, é um processo que está em transformação o tempo inteiro e para mim ter essa consciência é muito bom, é ter noção da busca, não da busca que seja algo definitivo, mas da busca por procurar fazer algo melhor, diferente dentro da sua proposta. Acho que não é papel do artista definir seu próprio estilo, a não ser quando a sua expressão for bastante clara, como é o caso do abstracionismo, surrealismo e outros tantos ismos. Neste sentido vejo alguns críticos situarem meu trabalho em alguns estilos, mas sem definir exatamente um. Tenho uma identidade muito forte com a cor, talvez seja a principal característica do meu trabalho, acredito na emoção que elas carregam, quis juntar dois elementos aparentemente difíceis de relacionarem, que é o concreto e o orgânico, dentro dessa referências acredito ser este o meu caminho, junto com a expressão da natureza e da música, de alguma forma penso que seus ritmos estão impressos junto com a obra. Tem uma frase, que não sei de quem é que gosto muito, me acompanha sempre, em tudo: “A natureza não dá saltos”.
Está sendo produzido um documentário sobre o meu trabalho, que foi uma coisa bem legal, pois o convite nasceu de um amigo que procurou trabalhar sem invencionices, Luiz Dias, que ficará pronto em novembro e tem a trilha assinada por outro amigo, Yamandú Costa, grande músico e violonista brasileiro, que me deu a honra de fazer quatro músicas inéditas para o filme. Segue o link do trailer:
http://www.youtube.com/watch?v=FBjDnt5KKII

Qual a importância da Escola Guignard no ensino e formação dos artistas mineiros?
A Escola Guignard, sempre teve como referência uma liberdade no ensino das artes plásticas, acho que é sua marca registrada e foi muito importante na minha formação. Esse contato acadêmico é muito importante para o crescimento do artista, mas de forma alguma, torna o aluno um artista.

Que exposição sua, você considera a mais importante?
Sem dúvida foi a Exposição “Metamorfose” no Museu Inimá de Paula, BH em 2010, onde foi apresentado mais de 30 trabalhos e dois objetos em grandes formatos.  

Como você descreve o mercado de arte em Belo Horizonte?
Ruim, como acredito que seja em todo o Brasil. Acho que existem poucas galerias na cidade, que tem uma representação muito grande de bons artistas. É uma situação um pouco complicada para os artistas, se por um lado é muito importante que ele esteja representado por uma boa Galeria, por outro lado isto só não é o bastante, o artista precisa acompanhar o que acontece com o seu trabalho e também ter uma responsabilidade direta no que diz respeito a sua carreira.

O que é necessário para um jovem artista ser representado por uma galeria?
Fundamentalmente é o seu trabalho e a sua proposta, e lógico, ter isto caminhando ao lado do que a galeria representa e se propõe.

Além dos estudos sobre arte que outros estímulos influenciam em seu trabalho?
A própria vida, posso dizer que faz parte da minha vida, é uma necessidade fisiológica.
Outras coisas importantes são a natureza, o que ela nos mostra, a sua força, sua beleza e a capacidade de estar sempre em transformação em qualquer circunstância. A música, que acho que tem uma relação direta com o processo criativo, mesmo que seja inconsciente, é um alimento da alma e de alguma forma está presente no meu trabalho.


É possível viver de arte no Brasil?
Como diz aquele ditado: “Já vendi muito almoço para comprar a janta”.
Acho que é possível sim, mas ao mesmo tempo é muito difícil, a caminhada é longa até o artista começar a se estabelecer e seu trabalho começar a ser reconhecido. Outro problema é a falta de incentivo do poder público, ainda mais aqui no Brasil, onde não tratam a educação da forma como deveria ser tradada, é complicada essa questão cultural aqui no Brasil, onde os meios de comunicação de massa, na grande maioria só apresentam lixo e consegue atingir a grande maioria dos cidadãos. Sem educação este problema vai continuar a existir. Viver de arte, eu costumo dizer que a primeira coisa que a pessoa tem que ter é teimosia, acreditar no seu trabalho, procurar desenvolver uma linguagem própria e mais original possível.


Você tem uma rotina de trabalho?
Tenho sim, trabalho todos os dias até sábado e domingo, quando posso. A disciplina, para mim é muito importante, esta ligada diretamente a concentração e até a abstração. Não acredito nessa estória de inspiração, inspiração até existe, é claro, mas mesmo assim a gente tem que proporcionar uma situação favorável para quando ela aparecer. Acredito que estamos ligados a uma infinita fonte de pensamentos, emoções e expressões em todo o planeta, isto se explica que às vezes vemos trabalhos que se parecem muito uns com os outros e as pessoas nunca tiveram nenhum contato ou viveram em épocas diferentes. Na verdade, sou um trabalhador, que trabalha com artes plásticas. 
 
O que você pensa sobre os Salões de Arte?
Acho que são poucos e muitas vezes de qualidade duvidosa, porque nesses casos quem manda é a curadoria, já vi muita coisa de conceito duvidoso.

Qual sua opinião sobre as Bienais e Feiras de Arte?
Sobre as Bienais, sempre tive uma impressão que estão com um objetivo de apresentar expressões diferentes, como se ditassem que é isto que está acontecendo agora, tem muita coisa bacana e interessante, mas muita coisa ruim também. Lembro de uma Bienal de 1994 em que praticamente decretaram o fim da pintura, acho que este não é o caminho, tanto que a arte conceitual, a meu ver, está perdendo seu espaço. Acho que esta idéia de “vanguarda”, já nem usam este termo mais, está também ultrapassada, vivemos em um mundo onde a quantidade de informação é gigantesca e acredito que temos que ter nossos próprios filtros, assim é tudo na vida e nas artes plásticas também, não acredito em imposições neste sentido.
Sobre as feiras de arte, acho que deveria acontecer mais, principalmente aqui no Brasil e em todas as regiões, seria uma forma inclusive de o próprio povo brasileiro conhecer melhor sua cultura e expressões artísticas, nosso País é privilegiado neste sentido e muito pouco divulgado. Em muitas cidades no exterior existem feiras que já se tornaram referência para o resto do mundo, com trabalhos de vários artistas de diferentes nacionalidades, isto é muito bacana.


Quais são seus planos para o futuro?
Eu penso que é continuar trabalhando muito, procurar ser verdadeiro com minha proposta, o resto é conseqüência. Tudo depende do seu trabalho, nada cai do céu e acredito que sem  esforço e perseverança não se chega a lugar nenhum. Acredito no que faço e quem sabe meu trabalho possa ser reconhecido no cenário das artes plásticas aqui no Brasil e exterior, o caminho é longo. Ainda quero ter minha casa no mato, ou no campo, ter a possibilidade de morar aqui em BH e ter este lugar como referência de vida e trabalho também.
 
O que você faz nas horas vagas?
Tenho uma vida simples e gosto disso, passo o tempo fora o trabalho, com meu filho João de dois anos e minha mulher Tatiana, escutar música, tomo minha cerveja, encontro com os amigos e sempre que posso procuro sair da rotina da cidade grande e estar perto da natureza, que ajuda a alimentar a alma e entrar em outra sintonia.









 
Exposição Individual


Exposição individual

JB Lazzarini é um jovem artista que dedica sua pesquisa plástica à Pintura, notavelmente o suporte e a linguagem mais exigentes na contemporaneidade, seja pelo desafio de tornar a pintura porosa a outros campos que não os de suas especificidades formais, seja pela heróica história da pintura que legou à arte, inegavelmente, verdadeiras edificações imagéticas e conceituais, cuja riqueza inesgotável definiu mesmo um vocabulário para a imaginação humana – es(colhendo) a palavra imaginação para definir tanto a capacidade de imaginar como a de produzir imagens.
Não há exagero quando se diz que a pintura, ao longo da história da arte, constituiu um campo disciplinar potente, plenoem recursos poéticos, propriedades plásticas e significativas, capacidades inúmeras de figurar, enunciador de vocabulários e gramáticas múltiplos, promotor das veracidades cromáticas e da solicitação comovente de todos os sentidos em sua complementaridade a partir da visão. Enfim, a idéia do ‘pictórico’ diz respeito àquilo que é essencial: a pintura se apresenta como espaço de pensamento e corporeidade, cuja visibilidade torna-se privilegiada, evocativa das reais densidades daquilo que se enxerga sem se ver e mesmo do invisível. “A pintura pensa”, como bem disse o filósofo francês Georges Didi-Huberman, e oferece ao olhar uma abertura sensível das mais abrangentes. Na condição contemporânea, a pintura possível é aquela que dialoga criticamente com toda a complexidade desta herança… que se pra uns foi motivo bastante para declarar seu esgotamento, vide os prognósticos da morte da pintura, para outros, por outro lado, constitui farto manancial para continuidade e aprofundamento das pesquisas pictóricas. Toda pintura de qualidade realizada nos dias de hoje deve obrigatoriamente inserir-se como uma tentativa de criar uma leitura crítica da tradição da pintura, estabelecendo um sentido que interesse e amplie este já incontornável e múltiplo território. O legado da pintura moderna está presente – posto em jogo – no trabalho de Lazzarini. Seu plano pictórico é mapeado pelas coordenadas do cubismo e do neoplasticismo, da grade moderna, aquela erigida nas pinturas de Mondrian, na qual as forças dispostas na tela estão delimitadas nas linhas verticais e horizontais. Lazzarini assim divide a tela sem que, no entanto, busque uma diagramação regular do espaço. Pois seu esforço em otimizar o plano não esconde um desejo de desorganização por meio das cores e do ritmo composicional, em plena profusão de signos, o que configura uma verdadeira metamorfose das formas, já que se conjuga o rigor geométrico das linhas precisas à sensualidade das curvas e dos elementos figurativos. A clarividência geométrica é pervertida em favor de uma multidão cromática e figural. Portanto, a formametamorfose de Lazzarini implica uma diferenciação radical ao assumir na inteligência construtiva das formas geométricas o anúncio de fragmentos de paisagens e formas orgânicas. Abstração e figuração se encontram imbricadas, tecidas em matérias cúmplices, revezando indecisas, dispersas e pulsantes na superfície das telas. Contemplamos uma geometria sensível, incongruente, ilusória ou contemplamos cartografias de paisagens fragmentadas, parcialmente visíveis, misteriosas, desenraizadas, entrecortadas, encadeadas em suas incompletudes? As obras apresentam-se sob a ordem desta ambigüidade, compondo finalmente um rico mosaico rizomático. A pintura de Lazzarini demonstra que as relações entre as partes e o todo podem ser desiguais e imprevisíveis. A esta saudável indecidibilidade da forma-metamorfose corresponde um ritmo igualmente oscilante, o qual convida nosso olhar a decompor-se e vagar, desorientado, por zonas de cores, por troncos de árvores, por formas e recantos, por uma vista que se multiplica, por galhos que germinam cor, pôrdo-sol… A cor detém a propriedade de também transmutar-se e oscilar em intensidades mesmo alucinantes. É pela cor que a tessitura fragmentada das imagens adquire uma qualidade vibrátil e musical. Esta dinâmica também de(forma) quando age no sentido de compor a trama encarnada da pintura, na qual a estruturação geométrica é retorcida, dobrada, e empreende, por fim, uma verdadeira descentralização do olhar.
O investimento cromático reavalia o pretenso equilíbrio do gradil e o povoa do movimento dinâmico dos signos visuais que proliferam. A energia cromática da forma-metamorfose toca o olhar evidenciando não propriamente formas transitórias, mas a própria transitoriedade das formas.
Júlio Martins
Curador Geral do Museu Inimá de Paula


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Maurizio Cattelan

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