quarta-feira, 14 de setembro de 2011

Conversando sobre Arte Entrevistado Júnior Suci.


Júnior Suci




Quem é Júnior Suci?
Uma pessoa extremamente ansiosa e com pensamentos a mil, mas que, no momento da produção, encarna o silêncio e a lentidão das ações representadas (pelo corpo e pelo ato de desenhar ou filmar).
Como a arte entrou em sua vida?
Sempre me atraí pelas imagens e pela produção delas; como já disseram muitos artistas: eu sempre desenhei. Durante a adolescência eu já havia chegado á conclusão de que gostaria de estudar, produzir e ensinar arte. Era fascinado pela História da Arte e me lembro que aos 14 anos me deliciava com os movimentos de vanguarda que via nos livros.
Qual foi sua formação artística?
Sempre fui um autodidata, de certa maneira. Mas me graduei pela Universidade Estadual Paulista, no curso de licenciatura em Artes Plásticas, em 2006.

Como você descreve a sua obra?
Minha produção tem forte relação com a performance e com o cinema. Construo desenhos em séries que representam cenas em close-up de ações e gestos que realizo solitariamente, em meu espaço criativo. Como meio de representar atos performáticos, creio que o ato de desenhar possibilita invenções e certas mentiras que a fotografia e o vídeo, por suas características fiéis de representação, não dariam conta dentro da minha poética. Esse registro urgente, intimista, solitário e silencioso traz uma grande força e tensão através das linhas quebradiças e desfiadas que guardam uma tensão contida, advinda das situações performáticas. Acredito que a força da minha pesquisa reside no fato de estar entre o registro fiel e a invenção fantasiosa. Outro ponto importante é a incorporação de gestos simples e supersticiosos que observo no homem contemporâneo, relacionando-os com a estética cinematográfica.
Desenho é o seu principal instrumento para construir sua obra?
Penso meu desenho atual (e que produzo desde 2007) como cenas. A grande referência ao cinema me levou a produzir vídeos recentemente, que apresento projetados sobre papel. Mas sem dúvida que o desenho é a minha linguagem, minha força maior. E no meu caso, não há a realização de rascunhos em desenhos; meus rascunhos são anotações em palavras, apenas. Inclusive em certas obras essas frases são inseridas dentro do quadro, como legendas.
Que artistas influenciam seu pensamento?
Dentre tantas influências, a relação do corpo de Bruce Nauman e Douglas Gordon, as representações de Ingmar Bergman e Michael Haneke, o silêncio de Leonilson e Rebecca Horn - para citar rapidamente alguns. Mas os enquadramentos cinematográficos, as superstições e representações diárias, os costumes contemporâneos, a busca pelo bem-estar são minhas grandes referências.
 O que é preciso para um jovem artista ser representado por uma galeria?
Seriedade na pesquisa e trabalhar bastante, para realizar inúmeras exposições e, assim, ser percebido como um jovem ativo, um artista que busca uma sólida carreira. É importante também ter certas noções de mercado, pensar no processo de criação, nos materiais utilizados. Ter conhecimento da própria produção e seu contexto traz a necessária segurança.

Qual sua opinião sobre os salões de arte?
Os salões de arte são importantes na medida em que dão abertura a novos artistas e produções desconhecidas nesse meio artístico. Participei de vários salões e, certamente, muitos foram importantes para mim, assim como muitos não ajudaram em nada. Cabe ao artista analisar cada salão, a política e a seriedade de cada um antes de remeter suas propostas para serem julgadas. De qualquer modo, acredito que são importantes para o jovem artista, pois a produção vai sendo vista e conhecida pelos críticos, por outros artistas e pelo público.

O que você pensa sobre as Bienais e Feiras de Arte?
Acredito que muita coisa mudou nos últimos anos. Hoje, as feiras vêm substituindo o papel principal das bienais, que é o de traçar um panorama do que vem sendo produzido na arte atual.
Qual foi sua exposição mais marcante?
Ah, acho que todas minhas individuais foram marcantes (risos). Sempre uma proposta nova, um novo recorte, novos olhares. Mas a que realizei este ano no Centro Universitário Maria Antônia, intitulada “Necessidade do Objeto” e com curadoria da Fernanda Pitta, foi inesquecível.

É possível viver de arte no Brasil?
Com algumas exceções como Adriana Varejão e Beatriz Milhazes, acredito que não! (risos). Brincadeira, não é tão miserável. Mas é que pensando bem, pelo menos todos os artistas que conheço, alguns deles muito bem sucedidos em suas carreiras, acabam atuando em outras áreas também, para garantir uma renda mensal.
Você tem uma rotina de trabalho?
Não. Faço minhas anotações, escrevo certos projetos, mas tenho que estar muito bem e descansado no momento da produção. E meu processo é lento, não saio produzindo obsessivamente. Preciso acumular uma tensão, sentir o que quero colocar no trabalho, me sentir seguro.
Quais são seus planos para o futuro?
Quero continuar estudando e produzindo, claro. Em 2012 farei uma individual no Museu de Arte Contemporânea de Americana, interior de SP, cidade onde nasci. E no mesmo ano minha primeira individual na galeria Virgílio, em SP, que me representa.
O que você faz nas horas vagas?
O que são horas vagas? (risos). Enfim, nos momentos mais tranqüilos gosto de ler, tomar cerveja, navegar pela internet. Porque para mim, ir ao cinema, ver vídeos e visitar exposições fazem parte da minha rotina de trabalho, de pesquisa; assim, não penso nesses programas como mero lazer nas horas vagas.




Sem título (Prendedores)

Sem título (Prendedores)



Sem título (Prendedores)


Aquela Camisa


Aquele Retrato





Aquela Lembrança. 
júnior suci
necessidade do objeto
Júnior Suci é um artista que se utiliza de uma linguagem das mais fundamentais da tradição artística: o desenho. Dessa linguagem, explora duas dimensões que de certa maneira sintetizam polos opostos: a invenção e o registro. O desenho pode ser o emblema da capacidade inventiva, projetiva, designativa do ser humano, como também ser, mais modestamente, um modo de registro dos mais imediatos e triviais. Protagonista de um fazer ou ferramenta auxiliar.

É dessa ambiguidade da linguagem que parte Suci. Seus desenhos representam ações, performances reais ou imaginárias, estabelecendo relações com coisas, que podem ser objetos ou o próprio corpo. O desenho aproximativo, hesitante, é capaz de registrar ou criar a tensão da coisa vivida e sentida no gesto. Através do desenho, Suci consegue transmitir também o poder enigmático, porque atraente e amedrontador, que certos objetos, por força aqueles às vezes mais corriqueiros, têm sobre nós.

A exposição apresenta três séries de trabalhos – uma sem título, outras duas chamadas Antes da contaminação e Objetos intocados – que tratam das questões relacionadas à ação, a um certo gesto que, por empréstimo, poderíamos chamar de investidura, de transmissão de poder, que já não sabemos mais se parte do sujeito em direção ao objeto ou vice-versa.

Pois, se na investidura do objeto pelo sujeito existe uma qualificação desse objeto, que passa a ser sujeito também dessa relação, é possível pensar que para algumas das séries possa igualmente haver uma via invertida. Vale considerar que simbolismo dos objetos é o que menos importa, já que sua carga semântica é variada, como não poderia deixar de ser nos dias de hoje. O que parece mais relevante aqui é o gesto que passa ao ato. A centelha que anima e que faz acontecer.
Fernanda Pitta
curadora
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4 comentários:

Miguel Pestana disse...

Gostei dos esquissos.


Sou desenhador e adoro expressar-me através do lapis a grafite.



silenciosquefalam.blogspot.com

Lengo D'Noronha disse...

Mais um artista que passo a conhecer por aqui.
Gostei da entrevista. Bem humorada e honesta.

Abraços aos dois.

tulio pinto disse...

Sensacional Júnior!!!!! Gostei das colocações!!!!
bj

Anônimo disse...

puxa, é muito bom ver o Júnior fazendo o que gosta e sendo cada vez mais valorizado por isso..

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
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