terça-feira, 13 de setembro de 2011

Conversando sobre Arte Entrevistado Marcio Zardo


Marcio Zardo, artista plástico e jornalista.


Marcio Zardo o artista da palavra. Nascido em Santa Catarina é artista carioca, pois aqui vive e trabalha. Escreve uma obra muito consistente, onde a inteligência está associada à criatividade. Marcio é representado pelas galerias Öko Arte Contemporânea  e Caza Arte Contemporânea. Agradeço ao Marcio seu rico depoimento.



Fale algo sobre sua vida pessoal
Nasci em Arroio Trinta, no oeste de Santa Catarina, em 11 de abril de 1952. Ainda criança, vim para o Rio com minha família. Toda minha formação foi  aqui no Rio. Fiz o ginasio e o clássico no Colégio São Bento e fui graduado em Jornalismo na Universidade Gama Filho, em 1975.
Trabalhei por mais de 20 anos em comunicação corporativa e jornalismo. De 81 a 92, lecionei na Faculdade de Comunicação da Universidade Gama Filho. Paralelamente às minhas atividades profissionais, sempre procurei estar em contato ou desenvolver algo ligado à arte. Minhas primeiras poesias concretas datam de 1968. Nos anos setenta, participei do grupo fundador do legendário cineclube “Barravento”, onde realizávamos exibições de filmes seguidas de acalorados debates. Na época, eu produzia curtas metragens independentes em super-8. Foi com alguns deles que participei da Mostra Nacional do Filme Super-8, em 1980, realizada no MAM.Em 1978 fui selecionado para o Salão Comunitário de Artes Plásticas da Universidade Federal Fluminense (MEC/FUNARTE), onde participei com poesia visual, na categoria arte-objeto.

Como foi sua formação artística?
Como falei anteriormente, minha formação é em Jornalismo. Não participei de cursos de graduação em arte. Em 1999 passei a  me dedicar integralmente às artes plásticas e à poesia visual participando de laboratório de arte com a artista plástica Lia do Rio, no Centro de Artes Calouste Gulbenkian. A partir de 2001 comecei a frequentar a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, onde participei de cursos de formação e aprofundamento  com Reynaldo Roels, Fernando Cocchiarale, Charles Watson, Annabella Geiger, Iole de Freitas, Guilherme Bueno. Participei, ainda, de cursos com Ricardo Basbaum, no atelier da Leite Leal, com Nelson Felix, na UERJ, com Felipe Barbosa, no Sesc e com a Daniela Labra. Recentemente participei de  um grupo de estudos com Guilherme Bueno.

Que artistas influenciam seu pensamento?
São muitos os artistas plásticos, poetas, filósofos, escritores, pensadores que aprecio. Mas destaco alguns que inspiram o meu trabalho e certamente me influenciam bastante: Irmãos Campos, Hélio Oiticica, On Kawara , Duchamp, Magritte, Joan Brossa, Ben Vautier, Christian Boltanski, Basquiat, Andy Warhol, Jasper Johns, Bispo do Rosário, Banksy, Mallarmé, Rimbaud,  Fernando Pessoa, Clarisse Lispector, Machado de Assis, Mário Pedrosa, Ferdinand de Saussure, Roman Jakobson, Umberto Eco, Deleuse, Arthur Danto e tantos outros.

Como você descreve sua obra?
A utilização da palavra é recorrente nos meus trabalhos. Sempre busquei nas minhas experimentações, revivificar as palavras a partir da sua materialidade elementar, visual e sonora. Interesso-me pela desconstrução das relações tradicionais da linguagem e da imagem, seja em poemas visuais, pequenos textos, frases soltas ou mesmo palavras. Agrego a poética da palavra a elementos plásticos procurando valorizar os vários códigos da visualidade. Busco nas figuras de linguagem, na justaposição de significados, nas analogias ou na ambiguidade das palavras, surpreender o leitor/visitante e envolvê-lo na proposta.
Minha proposta instala-se num limite agramatical da linguagem. Plano-limite do dizer onde as palavras não obedecem a nenhuma coordenação gramatical se soltando de toda a norma sintática. Mas ao mesmo tempo, destacadas de qualquer conexão discursiva, adquirem mobilidade e poder de jogar entre si acordes semânticos livres e intensidades rítmicas ilimitadas. Minhas poesias são apenas escombros ou fragmentos verbais e não aspiram a  nenhuma “enlevação”. Proponho uma reflexão sobre a condição da própria poesia confrontada com os seus limites, o que resulta numa proposta de prosseguir na desmontagem das estruturas verbais do discurso convencional - insuficiente para abranger o universo da imaginação e da sensibilidade.

Que exposição sua, você considera a mais importante?
Sempre que posso, procuro me envolver em todo o processo de construção das minhas exposições. Cada uma delas tem suas peculiaridades e sua importância. Realizei cinco exposições individuais, das quais destaco: “VIDA-TE”, no Espaço Cultural Sérgio Porto (2003) e “APALAVRALAVRA”, no Solar da PUC / Rio (2007) e participei de mais de 20 coletivas, destacando: “Reactions”, no Exitart, em N.York (2002),“Projéteis de Arte Contemporânea”, na Funarte (2003) e “OBRANOME II”, nas Cavalariças da EAV do Parque Lage (2009).


O que é necessário para um artista ser representado por uma galeria?
Pelas vias normais, acho que é importante que ele tenha trabalhos coerentes e consistentes. Além da persistência sempre necessária.

Além dos estudos sobre arte que outros estímulos influenciam seu trabalho?
O dia-a-dia da urbis me mobiliza muito. Livros, jornais, revistas, internet,  televisão, rádio , cinema, teatro, shows, visitas a galerias, museus, viagens, caminhar pela cidade, contato com outros artistas e seus trabalhos.

É possível viver de arte no Brasil?
É possível mas não é nada fácil. Acho que só alguns poucos artistas coseguem.

Você tem uma rotina de trabalho?
Penso e desenvolvo meus trabalhos no atelier, no computador, em birôs, etc. Cada trabalho possui suas demandas de construção específicas. Não tenho uma rotina de trabalho.

Qual sua opinião sobre as Bienais e Feiras de Arte?
Acho que são importantes. Oferecem um panorama da arte mundial - mesmo que restrito.

Quais são seus planos para o futuro?
Pretendo continuar realizando meus trabalhos e me aprofundando cada vez mais no estudo da arte para dar a eles a consistência que sempre busco.


TEXTOS CRÍTICOS
Não se trata aqui apenas de palavras, tampouco apenas de imagens; com certeza, são palavras e são imagens. É, de início, um exercício sobre o limite até onde ambas podem ser fundidas, confundidas, esticadas e tensionadas. São ainda situações em torno de nossa linguagem e de nossos objetos cotidianos: julgados transparentes para todos os efeitos práticos (a opacidade é – alguns pensam – prerrogativa da especulação intelectual…), eles constituem na verdade uma fonte de armadilhas em que o mais atento pode cair sem desejar: duplicidades, ambiguidades, equívocos e mal-entendidos que bloqueiam os trilhos em que supostamente nossas vidas deveriam correr. Se, como queria Wittgenstein, os limites de nosso pensamento coincidem com os de nossa linguagem, as chances de um descarrilhamento são fartas e incontáveis. Aquilo que deveria nos facilitar o viver e o agir, funciona, de fato, como uma trava que impede o caminho. Como areia na engrenagem de um aparelho de precisão: talvez esse seja o ponto principal desta exposição, que não se limita a pensar o problema artístico da poesia visual, mas lança mão dele para manter o espectador firmemente plantado no mundo real, com todas as suas incertezas e dúvidas.
Já Mallarmé – a quem Marcio Zardo conscientemente remete – jogou com as possibilidades dadas pela relação entre visualidade e palavra, e, mesmo antes dele, outros experimentaram com situações em que uma afirmava a outra (Rabellais, por exemplo). Mais perto de nós, os concretos pretenderam levar às últimas consequências a fusão de ambas, fazendo da página impressa o espaço de uma poética em tudo inovadora – mas também com limites suficientemente conhecidos. Tratava-se, porém, de tão-somente ampliar as fronteiras da poesia para além daquelas tradicionalmente dadas. Na mostra de Zardo, em que pese a dívida (reconhecida) para com todos aqueles, a questão se põe de modo um pouco diferente.
Até os anos 1950, tudo se passava dentro das premissas do modernismo, mantido que foi pelo problema formal: a arte era o campo de ação privilegiado da boa forma (ou ainda uma variante: da boa expressão). Agora, passados mais de 50 anos – e sem a força hegemônica do formalismo –, Zardo não ignora – não poderia ignorar – que algo além de um projeto purista se põe diante do artista, e que mesmo (ou principalmente) a antiarte tinha bastante a dizer sobre as limitações conceituais que as palavras nos impõem. (Já na individual anterior do artista, os trabalhos giravam em torno de proposições sobre a natureza mesma da arte). Mais do que elaborar enunciados de ordem poética, ele usa as palavras e os objetos para indicar a fragilidade do equipamento com que tentamos dar conta de nossas experiências. Não satisfeito em manipular a palavra como imagem, e a imagem como palavra, o artista as mistura, disseca e remonta em posições que só fazem chamar a atenção para a opacidade de nossas noções e representações. São, assim, noções do dia-a-dia, ou expectativas naturalmente alimentadas, as primeiras que se vêem submetidas ao jogo de enganos e às contradições que ele propõe, tanto quanto os conceitos com que tentamos capturar o sentido de uma atividade tão escorregadia quanto a arte.
Longe de se contentar com a negatividade da manobra, contudo, há uma vontade de afirmar a possibilidade de construção de um sentido (de muitos sentidos) a despeito das dificuldades que isto represente, e das crises sucessivas que essas dificuldades costumam gerar – seja em nosso cotidiano, seja em qualquer outra área de nossa existência. Pois, para além dos obstáculos encontrados, há sempre a possibilidade de uma saída. Enquanto ela for capaz de gerar indagações sobre si e sobre o mundo, a arte fará sentido, mesmo quando se apresenta sob o disfarce do enigma.

Reynaldo Roels Jr.
Crítico de Arte e Professor da Escola de Artes Visuais do Parque Lage

Mar /  2007



Link para a exposição “APALAVRALAVRA”

http://picasaweb.google.com/mzardo.art/APALAVRALAVRASolarGrandjeanDeMontignyPUCRioRJ2007


“PRONTA PARA CONSUMO” é o nome dado pelo artista plástico Marcio Zardo, para sua exposição no Espaço Imaginário que inaugura no dia 20 de Setembro, com direito a uma performance do artista.
De forma irônica, mas não menos reflexiva, Zardo pretende retirar o público da condição de passivo observador, na medida em que propõe uma série de trabalhos onde a repetição de palavras e frases, muitas vezes aparentemente desconexas, redireciona a atenção do público para questões fundamentais ligadas a nossa sociedade de consumo.
Procurando uma aproximação com o próprio espaço oferecido pela galeria, com suas paredes rústicas, o artista instala o seu trabalho construindo varais. A partir desses varais são pendurados cerca de 40 cartazes de papel Kraft, contendo palavras soltas e frases incompletas, escritas com tinta automotiva em spray, que evocam um muralismo urbano.
Para ler é preciso “penetrar” na obra de Zardo. Os cartazes que preenchem o espaço da galeria estão dispostos de forma desordenada, quebrando certas verticalidades e horizontalidades, exibindo-se para o observador de maneira implacável. Frente e verso, o que se vê é um conjunto de palavras que atingem os sentidos antes de atingir ao pensamento.
A multidão de cartazes, suspensa no ar por pequenos pregadores, forma um complexo jogo de palavras, onde a intenção do artista, ora explícita, ora velada, confunde mais do que esclarece.

As palavras revelam menos que instigam. Marcio Zardo desenvolve em seu trabalho, o que se poderia chamar de “ecos gráficos”. São ecos no momento em que partem também de um desejo de alcançar o poder sonoro das palavras faladas, e são gráficos, porque em seu contexto material, as palavras escritas juntamente com a técnica aplicada, dão o corpo físico da obra.
Esses “ecos gráficos” se tornam visíveis a partir da repetição em duas ou três cores combinadas - geralmente utilizando o preto, o vermelho e o tom metálico, sobrepondo-os com a finalidade de provocar um efeito de instabilidade visual. Essa instabilidade acaba por corromper além dos sentidos, os significados, gerando vários planos e um efeito de profundidade vertiginoso.
Dialeticamente, o trabalho de Zardo aborda tanto a função poética quanto a função referencial, como também fala do dado concreto e do imaterial - é documento íntimo e ficção frenética, exposto de maneira rápida, nervosa, acelerada, pois acima de tudo é seriado e contemporâneo por excelência.
Por fim, durante a inauguração da exposição, o artista irá realizar uma performance na qual, sentado à mesa num canto da sala, autenticará seus cartazes para o público, resgatando com esse gesto, a ideia de nomeação conceituada por Marcel Duchamp, e nesse contexto de obra pronta para consumo, não seriam os cartazes de Marcio Zardo também uma espécie de readymades?



Renata Gesomino

Doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais da UFRJ.

Set / 2010





Link para a exposição “PRONTA PARA CONSUMO”





Sem título Painel de 105x80 cm., composto por nove quadrados de 31,5x22,5 cm com impressão à lazer em chassis com ponteiros em movimento.


Insituável


Cópia da Cópia


Verso do Verbo - após Mallarmé
Tudo sobre Nada

Pronta para o Consumo


Formar?


Pratos do Dia





















3 comentários:

Marcio Zardo disse...

Querido Marcio!Fiquei super feliz de participar com minha entrevista no seu ótimo informativo Art&Arte. Agradeço a oportunidade!! Abração!! Marcio Zardo

ivanipedrosa disse...

Olá Marcio, ótima entrevista! Relembrar trabalhos seus e reler o texto do nosso saudoso amigo Reynaldo foi um presente! Abs Ivani Pedrosa

Marcio Zardo disse...

Obrigado Ivani!! Fico feliz com o teu comentário! Abs!!

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
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