terça-feira, 23 de agosto de 2011

Conversando sobre Arte Entrevistada Solange Barbosa



Solange Barbosa Venturini

Solange artista carioca utilizando-se de instalação, pintura e fotografia influenciada pelas lembranças da infância passada numa fazenda da família e pela obra de Marcel Duchamp. Solange, obrigado por sua participação e parabéns pelo trabalho e pela firmeza das respostas.


Fale algo sobre sua vida pessoal
Nasci e vivi em fazenda até os 9 anos de idade, pois sou neta e filha de fazendeiros mineiros. Depois me mudei com a família para Leopoldina-MG e, mais tarde, Juiz de Fora, onde fiz faculdade de Biologia e Odontologia. Há 26 anos moro no Rio de Janeiro porque me casei com um carioca.

Como foi sua formação artística? 
Minha formação artística se deu mais tarde, embora o terreno tenha sido preparado desde muito cedo.
Naquele mundo meio selvagem da fazenda, eu acordava e já me deparava com um porco aberto ao meio, as víceras expostas. Outras vezes, era uma vaca parindo ao meio dia. Estas imagens fortes, até hoje estão na minha memória e aparecem no meu trabalho de alguma forma. Aos 19 anos me casei com um artista plástico mineiro e convivi diariamente com o universo das artes plásticas.  Nessa época, fazia teatro amador.Somente em 96, já morando no Rio, comecei a ter aulas no Parque Lage. Primeiro com João Magalhães e José Maria Dias da Cruz. Depois veio o Nélson Leirner e Luiz Ernesto, com quem atualmente participo de um grupo de discussões.

Que artistas influenciam seu pensamento?
Os clássicos da pintura, os grandes mestres como Rembrandt, Velasquez, Goya e Caravaggio, por causa das cores e daquela luz. Costurando tudo, entra o Duchamp. A Monalisa de bigode (de Duchamp) foi o ponto de partida para a série das " musas peludas", que também têm uma relação com o trabalho da Cindy Sherman. Outro que me inspirou bastante foi o Muybridge, por causa dos movimentos.Tenho uma série em preto e branco denominada " Sem pé nem cabeça " toda inspirada nele. Outros como Adriana Varejão, de quem gosto muito, Bill Violla e todos aqueles que lidam com questões ligadas ao corpo.

Como você descreve sua obra?
Copio, perverto, invento.Não persigo mais uma unidade. Aliás, acho que isso foi coisa do passado, dos antigos formatos dos salões.Vou fazendo o que me vem à cabeça, mas no final um fio condutor acaba ligando tudo.Por exemplo: tenho trabalhos gráficos com a linha, totalmente abstratos. Outros, com fotografia, totalmente figurativos e diretos. E outros com fotogafia que não têm forma definida. Questões ligadas ao corpo, como identidade, gênero, erotismo, morte e vazio, me interessam.

Pintura, instalações ou fotografia?
Comecei com a pintura. Fazia quadros enormes, influenciada ainda pela geração 80. Depois fui reduzindo, passei para o desenho. E, quando fui para o Nélson Leirner, minha visão do que era arte se transformou. Passei a ter um outro olhar e ficava frustrada porque não conseguia sair do bi-dimensional. Não saía da parede, rs...Não que fosse obrigatório fazer objetos ou instalações, mas eu achava que era uma limitação minha.Nessa época, eu percebi que através da fotografia eu conseguia passar com mais clareza as questões pertinentes ao trabalho. Mas na fotografia, estavam lá as cores da pintura.Nas fotos em p/b, estava lá o traço gráfico do desenho se repetindo. Eu desenhava as formas que fotogafava dentro dos cenários construídos por mim, umas caixinhas.Então as fronteiras se esbarravam o tempo todo e isso não é um problema para mim.Meu último trabalho, em junho deste ano, foi uma instalação para a ocupação artística de um apto. na Praia do Flamengo. Essa ocupação veio a se denominar "Contrabando". Ocupei o banheiro. Saí da parede com muita naturalidade, prova de que tudo tem seu tempo. Qualquer técnica pode ser boa, dependendo do que pede o trabalho.

 Que exposição sua, você considera mais importante?
Uma que fiz na Funarte em 2006 e outra, no Castelinho do Flamengo.Acho que foram bem representativas do meu trabalho.

Como vcê descreve o mercado de arte no Brasil?
É difícil se inserir no mercado de trabalho, seja em qualquer área.Na arte, talvez seja o mais difícil de todo o processo.Tem que insistir muito, ter temperamento para isto e nunca desistir.Eu mesma não sou boa nisso.Hoje, graças à internet, têm surgido outras oportunidades, além das galerias tradicionais.Um exemplo, que tem dado certo, é a Facearte, galeria virtual que me representa.Além de serem uma vitrine com grande visibilidade, as galerias virtuais tendem a crescer, cada vez mais, comercialmente. Hoje se compra de tudo pela internet, por que não arte?

O que é necessário para um jovem artista ser representado por uma galeria?
Tem que estar com o nome circulando, mostrando sempre o trabalho, seja em salões, instituições, redes sociais. Não pode se isolar no atelier.Tem que ser jovem. As galerias não querem artistas mais velhos.
Sou realista.A gente sabe que muitos artistas passam batido, mesmo sendo bons, e que outros, nem tão bons, aparecem.Isso acontece em todos os campos da arte, seja na música, na literatura ,nas artes visuais.., É uma questão complexa.E não basta entrar. Tem que manter, tem que vender, senão pé na bunda.

Além do estudo de arte que outros estímulos contribuem para o seu trabalho?
O cotidiano. Observar o que acontece à minha volta e estabelecer relações com o trabalho, é super importante.Cinema é outra fonte de pensamentos."Os pássaros" de Hitchcock, nunca mais saiu da minha cabeça, assim como todos os filmes do David Cronemberg, de Wim Wenders, Tarantino e muitos outros.Ver trabalhos de outros artistas, ler e conversar sobre arte, são grandes estímulos também.

É possível viver de arte no Brasil?
Alguns poucos conseguem com tranquilidade.Conheço outros que, no sufoco, ainda assim conseguem, entre altos e baixos. Penso que a maioria, e aí me incluo, necessita de uma outra atividade que pague as contas (única certeza no fim do mês).

Você tem uma rotina de trabalho?
Não tenho uma rotina, não.Admiro muito os que vão para o atelier, faça sol ou chuva.No meu caso, não funciona.Às vezes, baixa uma aridez, de um ou 2 meses, sem fazer nada.Nesse período, posso ter grandes idéias que acabam num desastre total.Muitas vezes, o trabalho surge sem fazer força , brincando, como num jogo lúdico. Aquela idéia de embate, sofrimento diante da tela em branco, não me leva a nada. Mas também não se pode esperar que baixe um santo. Tem que buscar pelo trabalho, senão corre-se o risco de cessar o fluxo. Embora eu não trabalhe todo dia, tenho uma obra imensa que ainda não mostrei.Sou compulsiva e acabo produzindo séries inteiras sobre o mesmo tema. Repito até a exaustão. Desperdício, excesso... tudo acontece. Depois, não quero nem mais olhar para aquilo durante um bom tempo. Então tudo recomeça...

A mulher e o homem concorrem igualmente no mercado?
Não vejo diferença neste caso. Basta dizer que uma tela de Adriana Varejão foi vendida, recentemente, por U$1,7 milhões.

O que você pensa sobre os salões de arte?
Importantes no início.Você precisa ser avalizada por alguém quando começa e, geralmente, o corpo de jurados é de alto nível.Eu fiz todos os grandes salões de 2000 em diante: Paraná (onde fui premiada), Bahia, Victor Meireles ( Santa Catarina), Goiás, "Projéteis" da Funarte, e outros menores também. Isso me incentivou a continuar.É um incentivo para os que começam, mas chega uma hora tem que parar de mandar, se não, voce vira "artista de salão".

Qual sua opinião sobre as Bienais?
Houve um tempo em que eu adorava ir a Bienais. Saía impressionada! Não sei se fui eu ou as bienais que mudaram, mas hoje saio zonza e, ao virar a esquina, já me esqueci de tudo que vi. Aquele amontoado de obras, muitas vezes monumentais e sem expressão, me deixa atordoada. Mas por conta de uns dois ou três trabalhos que vi na última de São Paulo, acho que valeu a pena ter ido:"Origem do terceiro mundo" do Henrique Oliveira, as fotos projetadas num telão da Nan Goldin, e um vídeo do Ronald Duarte .

Quais são seus planos para o futuro?
Continuar..

O que você faz nas horas vagas?
Vagueio.



Ocupação Apartamento


Ocupação Apartamento


Série Sem Pé nem Cabeça


Série Sem Pé nem Cabeça.


Série Sem Pé nem Cabeça


Série Sem Pé nem Cabeça


Série Sem Pé nem Cabeaça


Série Musas

Um comentário:

Leticia Soares disse...

Muito boa a entrevista Márcio. Uma artista com idéias e experimentos diversificados. Adorei isto nela.
Gostei muito de saber como surgiu a idéia das Musas Peludas, pois não fazia a mínima idéia.
Os mestres que a influenciaram também, são artistas bem diversificados. É uma artista da qual pode-se esperar sempre uma inovação.
Muito legal a entrevista. Parabéns.

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
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