Caríssimos:
Esse desenho a carvão do grande pintor John Singer Sargent se presta maravilhosamente bem para ilustrar algumas informações fundamentais sobre a complicadíssima arte do desenho de uma cabeça. Tanto que um grande pintor que conheci costumava dizer: ‘’Quem pinta uma cabeça, pinta uma batalha’’. Analisando, portanto, a obra, podemos fazer as seguintes observações:
1- ENQUADRAMENTO: O enquadramento básico é o visto acima, com a posição do rosto em ¾. Procurem evitar uma tomada frontal semelhante a uma foto de carteira de identidade. Detalhe importante e que sempre cito nas aulas é que o posicionamento da cabeça deve ser feito sempre com um leve deslocamento desta em relação ao centro do papel, no sentido contrário ao nariz para que haja mais espaço nessa área de modo que a figura possa ‘’respirar’’. Parece brincadeira, mas é sério, e aí está o fato que confirma a história. Lembro também que a posição da cabeça pode ser colocada um mais abaixo do que fez o grande artista. Assim haverá ainda mais ‘’ar’’ acima, e o colo, que não tem tanta importância, fica menos evidente.
2- CONSTRUÇÃO: É crucial que as proporções estejam corretíssimas na fase da marcação e isto é a alma do trabalho. Já enviei para o grupo um esquema simples com as proporções básicas das cabeças; procurem estudá-lo com atenção. Erros de proporção em representações de cabeças costumam ser fatais, principalmente se procuramos a máxima semelhança com o modelo. Falhas de um milímetro nas medidas costumam pesar muito ao final.
3- COMO COMEÇAR? Primeiro traçamos uma simples oval incluindo o pescoço e um pouco do ombro e observamos à distancia para ver se o enquadramento ficou OK. Então riscamos de leve o eixo vertical e o horizontal na altura dos olhos. Esses ficam posicionados pelo meio da cabeça (descontando o cabelo é claro...) Se errarem nessa hora, toda e qualquer ação posterior terá sido inútil. É fundamental, qualquer que seja a inclinação da cabeça, que haja sempre um ângulo de 90 graus mantido entre o eixo vertical e os eixos horizontais correspondentes às sobrancelhas, olhos, base do nariz, lábios e queixo. Portanto, repito, observem bem a inclinação do eixo central da cabeça para não falharem nesse quesito. Se tal fato ocorrer não haverá outro remédio a não ser refazer tudo do início!
4- CONTINUANDO... Após a primeira etapa concluída como devemos proceder? Por que partes da cabeça devemos começar a detalhar a marcação? Analisemos a figura acima: Sugiro que lancem de início os dois olhos, e, em seguida detalhem com mais precisão o olho maior, localizado à esquerda na face da figura em questão e que vai ‘’escorar’’ o resto da marcação. Nesse momento, observem bem e representem com acerto absoluto a distancia entre os dois olhos! Ainda sempre esboçando, sem detalhar, delineiem o nariz, caprichando bem nos planinhos da base e logo a seguir passem para os lábios. Atenção total deve ser tomada na proporção da largura da parte de baixo do nariz que normalmente fica situada aproximadamente tangenciando uma linha perpendicular que desça hipoteticamente do lacrimal. E o acerto da distancia do lacrimal até a lateral da asa do nariz é decisiva! Um erro aí desencadeia erros em seqüencia para baixo e então... um abraço! Tudo estando correto até esse momento tracem o contorno do queixo, a linha lateral do lado menor da face, as orelhas, e então o ‘’out-line’’ dos cabelos. Pronto! O esboço geral da figura está lançado. Relembro que as proporções exatas nessa fase são fundamentais para o êxito das subseqüentes; pequenas falhas nesse momento geram catástrofes embutidas a seguir...
5- FINALIZANDO A MARCAÇÃO: Devemos refazer todo o procedimento inicial do esboço; de novo partindo dos olhos, agora então detalhando com cuidado, marcando bem as pálpebras, posicionando corretamente as íris e as pupilas. Todo o traçado até aqui é totalmente linear, excluindo-se qualquer tipo de sombreamento! As linhas devem ser tênues ao extremo, observando-se as variações de valor com cuidado; e assim procedemos em relação a todo o restante da face até darmos por concluída essa etapa.
6- E AGORA? Supondo-se que os passos iniciais foram bem sucedidos, é chegada a hora de aprofundarmos a ação, qualificando artisticamente o trabalho. E como agiu Sargent? Seguindo os procedimentos tradicionais que norteiam o desenho de uma cabeça realista, seja do natural ou tendo uma foto como referencia. É o que devemos fazer também. Vejamos então: 1) O foco principal é a parte central do rosto composta pelo conjunto: olhos/nariz/ boca. Aí é que reside o nó da questão. Sempre chamamos a atenção para a importância da construção do nariz e a conseqüente estruturação dos planinhos da base do mesmo. Isso é absolutamente fundamental. Um grande pintor que conheci me disse; ‘’Faça o nariz parecido e o retrato ficará parecido’’. Realmente, o nariz é a parte do rosto que mais se projeta à frente e, portanto, é exigida proporção e detalhamento absolutamente corretos. É claro que olhos e boca bem resolvidos são igualmente importantes para o êxito do empreendimento. Reparem na precisão do desenho de Sargent, como ele traça com estilo o contorno das pálpebras, das íris, como posiciona com acuidade as pupilas, e como o brilho das mesmas é colocado no lugar correto, com o valor justo e tamanho adequado.
7- APROFUNDANDO O DESENHO E A QUESTÃO: Observamos que há pouco contraste de claro-escuro no desenho de Sargent. Utilizando uma iluminação quase frontal, ele aproveitou bastante o tom do papel como meio-tom nas áreas claras, deixando-as intocadas. Poderíamos afirmar que seu trabalho é um misto de desenho linear com ligeiro e suave sombreamento em certas partes. E quanto ao uso das linhas, que fantástico domínio da dinâmica das mesmas e suas alterações de valor tonal! Observem que a linha central do nariz praticamente inexiste e que nem por isso a estrutura do mesmo se desfaz. E assim ele vai variando as tonalidades das linhas com grande perícia, marcando com mais intensidade aqui, esfumando ali, usando um tom médio acolá. Com isso, vai obtendo um suave modelado geral e dá show em outra área chave como os lábios, que se integram de modo absolutamente perfeito com o tom da pele devido à precisão do claro- escuro, com trechos se dissolvendo em partes adjacentes do rosto, outras mais marcadas e definidas como se vê no centro da linha divisória da boca. Voltando à área dos olhos, admirem quanta expressão e vivacidade no olhar! E o modo como as sobrancelhas são executadas: esfumadas em certos trechos, integrando-se de modo verossímil e natural à pele do entorno.
8- FINALIZANDO: As orelhas, como fez Sargent, podem ficar apenas ‘’tocadas’’, já que estão posicionadas dos lados da cabeça e para o fundo do rosto e tem pouca importância para a expressão, tomando-se apenas o devido cuidado com a proporção das mesmas. Quanto à execução dos cabelos só há uma palavra para definir: magistral! Como deve ser feito, segundo a tradição dos grandes desenhistas, as amplas massas de claro-escuro são representadas sem detalhes, vendo-se alguns toques de linhas aplicados no acabamento para representar a textura da matéria e dar um toque de classe e elegância. E que ritmo, que belo movimento é conseguido pelo artista no penteado da modelo! Finalmente, poucos toques são dados para definir ombros e colo, pois mais não é necessário, e uns rabiscos levemente displicentes, mas apenas na aparência (e como é difícil se obter esse quase-desleixo com estilo...) são dados no fundo para finalizar o trabalho.
RICARDO NEWTON- www.ricardonewton.com
Obv: Sugiro que visitem o website de Sargent que contém toda sua produção:

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