Miguel Gontijo
Miguel Gontijo vive e trabalha em Belo Horizonte, prioriza asInstituições Culturais às galerias comerciais. Tem uma produção lenta, muito admirada por quem conhece sua obra. Esse ano, recebeu o prêmio de melhor artista do ano outorgado pela Instituto Brasileiro de Críticos de Arte. Miguel, obrigado por dividir conosco seu pensamento e seus excelentes trabalhos.
Fale algo sobre sua vida pessoal.
Minha vida é muito simples. Passo a maior parte do tempo no meu estúdio. Nasci em Santo Antônio do Monte no início da década de 50, uma pequena cidade mineira, na época com poucos recursos. Meu pai, industrial, e minha mãe, professora, supriram tudo que precisávamos para a nossa formação cultural. Passei a morar em Belo Horizonte, para continuar meus estudos, com 16 anos. Sou formado em História e Filosofia.
Minha vida é muito simples. Passo a maior parte do tempo no meu estúdio. Nasci em Santo Antônio do Monte no início da década de 50, uma pequena cidade mineira, na época com poucos recursos. Meu pai, industrial, e minha mãe, professora, supriram tudo que precisávamos para a nossa formação cultural. Passei a morar em Belo Horizonte, para continuar meus estudos, com 16 anos. Sou formado em História e Filosofia.
Como foi sua formação artística?
A arte aconteceu em minha vida naturalmente. Pensei em ser tudo na vida, menos artista plástico. Sempre soube desenhar, mas não via nisso uma linguagem. Era uma diversão. A vida foi me encurralando e hoje vivo completamente em função disso. Exceto uma pós graduação em Arte Contemporânea que fiz na escola Guignard, em 2002, em forma de ‘reciclagem’, não tenho outra formação especifica nesse campo.
Gostaria muito de ter uma resposta para essa pergunta. Claro que meu pensamento é altamente influenciável, mas especificamente um autor, eu não sei. Tal qual minha obra, saio cortando parte de um ou outro artista e pensador e colando em mim. Como o personagem de Mary Shelley, acabei me transformando numa criatura sem nome, como a que produziu o Dr. Frankenstein. Meu pensamento, tal qual minha obra, é o reflexo disso. Algumas pessoas aparecem mais, como Dürer, Bachelard, Nietzsche, Bruegel e Fernando Pessoa; mas nada do qual possa jurar amor eterno. Sou infiel.
Claro que sim. São Paulo é a evidência, hoje, em relação às artes. Mas eu não sei se o meu trabalho daria conta de sobreviver lá. Isso porque eu não sou um artista de grande produção. Meu trabalho leva dias para sua execução. O mercado, hoje, quer é quantidade e isso eu não posso oferecer. Aqui em Belo Horizonte eu tenho um mercado que me consome. Sofro da “Síndrome do Ateliê Vazio”. Estou sempre querendo ter um ‘estoque’.
Basicamente ela se desenvolve em dois eixos: na força dos opostos e na destruição do tempo linear. Nada tem começo nem fim. São imagens em pedaço que ‘fingem’ (e existem) como um todo. O que quero não está na superfície.
Sou filho de instituições culturais. Isso me dá muito prazer. Poucas vezes incursionei em galerias comerciais. Nunca armei estratégias de marketing. Creio que colecionadores, amigos, salões, exposições, foram a sustentação da minha divulgação. Não posso também esquecer que a sorte é muito necessária para que as coisas deem certo. Muitas vezes estava no lugar certo na hora certa.
Além dos estudos sobre arte que outros estímulos influenciam em seu trabalho?
A poesia e a filosofia sempre foram meus grandes parceiros. Sou muito observador. Tenho muitos amigos e passo a vida fazendo deles as minhas cobaias. Estudo-os minuciosamente e vez por outra uso até seus rostos para falar alguma coisa deles em meus quadros.
Sim. Acordo pouco antes das seis e vou direto para o meu estúdio. Leio até por volta das oito horas e então começo a fazer alguma coisa. Trabalho direto, de domingo a domingo, até o princípio da noite. A noite não sei fazer nada. Torno-me uma ‘topeira’. Durmo cedo e vejo bobagens da televisão.
Qual sua opinião sobre os salões de arte?
Eu sou basicamente filho deles, na década 60\70. Hoje as carreiras dos jovens artistas começam nas galerias e nos leilões. Se o artista descobre uma fórmula de agrado do mercado ele se torna um artista (mesmo não sendo.); se não, ele está fadado a desaparecer. Os salões que vejo hoje por aí são decadentes e sem relevância. Hoje, com a facilidade de divulgação das imagens, as obras são previamente analisadas pelas fotografias postadas na internet. Não sei como não perceberam que a reprodutibilidade retira, na maioria das vezes, todo o ‘sabor’ de um bom trabalho. Por melhor que seja uma reprodução ela não revela a beleza de uma obra. Fica faltando sempre alguma coisa. Perdemos o poder da fruição. (Até mesmo a dimensão é necessária ao caráter da obra.) Falei da pintura, mas uma imagem tira a consistência de qualquer outro tipo técnico, exceto, obvio, a fotografia que é feita para essa cumprir essa função. As obras devem valer pelo que são feitas.
Claro que gostaria de participar, sim. É a melhor vitrine que existe hoje. Mas por trás disso existe toda uma conjuntura que apenas meu desejo não resolve.
Você acabou de ganhar o prêmio de melhor artista do ano, qual o significado para você?
Prêmio é bom. Incentiva. Não imaginava ganhá-lo, o que o tornou melhor. A ABCA é uma instituição idônea com representantes por todo o Brasil. Ganhei com votos de pessoas que não conheço, espalhados pelo país inteiro. Não sei se esse prêmio terá significado para o futuro. Ainda quero acreditar que, em termos de futuro, são meus trabalho que terão que defini-lo.
Ter tempo disponível para produzir mais e mais e não me repetir.
É possível viver de arte no Brasil?
É sim! Estou vivendo. È difícil.Continuo trabalhando. Sou compulsivo. Minha cabeça é desinquieta e minhas mãos têm que acompanhá-la a todo custo. Gosto disso. Fora disso, cinema é meu lazer. Porém, lá dentro, estou a cada de novas idéias.
Miguel Gontijo
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