quarta-feira, 1 de junho de 2011

Conversando sobre Arte Entrevistada Patrícia Norman

Há muito anos, conheci Patrícia, apresentada por uma amiga comum Laura Burnier, no Frade, Angra dos Reis, diante do mar, que seu pai tanto amava. Acompanhei sua carreira feita de maneira discreta, séria e competente. Das gravuras perfeitas às pinturas e fotos de qualidade. Quem convive com Patríca aprecia, além do seu talento, sua permanente disponibilidade para dividir seu conhecimento, sua perene gentileza e sua sólida cultura. Obrigado Patrícia por sua participação. A artista é representada pela FaceArte.


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Patricia Norman



Patrícia, conte algo sobre sua história e sua formação artística.
Nasci no Rio de Janeiro em 1960. Meu pai era publicitário e na alma um homem do mar. Minha mãe, uma Zagari/Mattera brasileira, múltipla, com muita disposição e alegria de viver. Minha avó, portuguesa de alma, incansável no seu crochê, desafiando o tempo com peças cada vez mais complexas. Meu avô, um Galês do mundo, joalheiro, apaixonado por trens, mecânica, sempre com grandes idéias e estórias. Estudei no Franco-brasileiro e fiz escola técnica de desenho industrial. Cursei Comunicação Visual na PUC-Rio e me formei em 1987. Na PUC estudei com Teresa Miranda, Carlos Martins, Avatar Moraes, Fernando Cochiaralle, Henrique Antoun, Ana Branco, Ripper, Joaquim Redig, entre outros. Depois de formada trabalhei um tempo com publicidade mas no final de 89 concluí que não era bem isso que queria. Fiz um curso prático e teórico de pintura com Katie van Sherpenberg e foi uma experiência ótima. Na sequência, fui para o Parque Lage e comecei a trabalhar com o Marcus André na oficina de gravura. Nessa época, estudei também com John Nicholson e freqüentei, como ouvinte, as aulas de Ronaldo Brito e Thomas Brum no curso de Especialização em História da Arte e Arquitetura da PUC. Em 2001 fiz uma pós-graduação em Educação Estética na Uni-Rio.
De 90 a 2002, mesmo desenvolvendo atividades paralelas, mantive um ritmo de produção bastante intenso, participei de várias coletivas e salões e fiz duas exposições individuais. Nesse período meu foco estava principalmente na gravura. De 2002 a 2006, esse ritmo diminuiu bastante por conta de prioridades familiares, no caso, a doença e a partida de meu pai. A partir daí, fui retomando minha produção aos poucos. Em 2007 participei do grupo Zoom com Ni da Costa, Andrea Canto, John Nicholson, Ana Rondon, Cássia Castro e Jean Dechéry. Isso foi um bom impulso. Ter uma agenda de exposições me ajudou muito a retomar o ritmo.

Que artistas influenciam em seu pensamento?
De modo general, o que mais me influencia é a literatura. E pelas últimas leituras e releituras, o campo é bem vasto: O Último Lugar da Terra; Os Prêmios; A Invenção de Morel; Deus, um delírio; Contraponto; Ubik, O Fim da Eternidade, The Climb, Um retrato de Giacometti; A Itália de Jamie; Histórias fantásticas de H. G. Wells: O livro por vir; O Artífice; Manual de caligrafia e pintura; Vida Modo de usar; A Casa do Califa .... Tem algumas coisas marcantes e antigas, de juventude mesmo. Julio Cortázar, Norman McLaren, e Giacometti. Meio saco de gatos, mas tem a ver com a descoberta dos mecanismos e das possibilidades da linguagem. Cada um no seu meio, todos tratam da imagem de um fazer e do fazer de uma imagem. Essa idéia acaba sempre permeando meus interesses e escolhas.

Como você descreve seu trabalho?
Gosto da imagem, da matéria e do fazer das coisas. De como surgem as imagens e de como se tornam visíveis. Até onde eu domino e interfiro conscientemente nesse processo e até onde a coisa acontece por si mesma. Cada grupo de trabalhos é como uma estória oculta que preciso desvendar. Esse é o meu jogo. Na série dos cimentos de 2000/2002, por exemplo, andava fascinada com a matemática, com os números e também com a idéia do silencio, do tempo e do absoluto. Nessa época li o Teorema de Fermat e Lord of Light, de Roger Zelazny (um misto de sci-fi e fantasia) e uma frase desse livro ficou bem marcada: “... no music nor movement. About them there was the stilness of time that have no objects upon which to wear.” Já trabalhava a algum tempo com a têmpera, uma técnica com uma plasticidade muito peculiar e o cimento era uma grande curiosidade. Tudo isso determinou minhas escolhas, da definição dos formatos ao jogo entre a opacidade e a transparência, e daí foram surgindo os “quase quadrados”, as grades, os pretos e cinzas. Nos trabalhos atuais essa idéia de “estória oculta” está muito presente, tanto que apelidei genéricamente todo o conjunto de “literatura”.

Gravura ou pintura?
Não tenho uma preferência. Atualmente pintura e fotografia. A gravura requer uma estrutura de atelier que já não tenho mais mesmo assim tenho alguns projetos que ainda quero desenvolver.

Há uma cultura no Brasil sobre a obra em papel ser menos durável e, por isso mesmo, menos valiosa. Qual sua opinião?
A questão não é ser papel, até porque em arte contemporânea a durabilidade é um ponto duvidoso. De qualquer modo o valor de uma obra é muito subjetivo. No caso da gravura e da fotografia o que interfere é a reprodutibilidade. Obras com tiragem normalmente tem um valor menor do que peças únicas.

Que dificuldades você vê para um jovem artista ser representado por uma galeria?
Provavelmente as mesmas de qualquer artista. Talvez atualmente seja até mais fácil já que a expressão “artista jovem” tem aparecido muito em editais e “releases” de exposições.

É possível viver de arte no Brasil?
Deveria ser mas não é a minha realidade. Contas vencem mensalmente e o trabalho de arte tem um custo. Sempre recorri a outras atividades (design gráfico e têxtil, produção, oficinas, arte educação) para me manter.

Além estudo de texto sobre arte, que outras atividades influenciam na formação de um artista?
Textos sobre arte tem o seu lugar, mas o mundo é bem maior do que a Arte. Coisas tão interessantes acontecem no dia a dia, em outras áreas do saber e fazer humano.

Você é representada por uma galeria virtual a FaceArte, como tem sido a experiência?
Interessante e positiva. Nunca fui representada por qualquer galeria embora algumas tenham se interessado e até vendido trabalhos meus, mas confesso que não sei em que momento você se torna um “produto interessante” para o mercado. O que me agrada nesse espaço virtual é uma certa neutralidade. Os trabalhos estão lá. Qualquer um pode ver e comentar. Isso tem dado um bom retorno.

Qual o significado de uma Bienal para você?
É uma exposição grande. Sempre tenho a sensação que poderia ser menor. Tem um aspecto “show”, mas é bom ver e acho que contribuí bastante na formação de público. Isso é importante.

A mulher tem o mesmo espaço no mercado de arte do que o homem?
Atualmente sim.

Você tem uma rotina de trabalho?
Nada muito rígido. Meu tempo ideal de atelier é em torno de 5/6 h, mais do que isso eu canso e começo a perder o olho, a mão e coisas que pareciam encaminhadas começam a desandar.

Quais são seus planos para o futuro?
Mudar para o novo atelier e continuar produzindo.

O que você faz nas horas livres?
Horas livres mesmo são aquelas que passam por mim mas não me exigem nada. Gosto bem disso mas nem sempre acontece.








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Maurizio Cattelan

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