quarta-feira, 4 de maio de 2011

Conversando sobre Arte Entrevistado Raul Leal

Raul Leal


Raul fale algo sobre sua vida pessoal
Nasci em Miracema, uma cidade do interior do estado do Rio de Janeiro, meu pai é dentista e minha mãe professora, minha mãe pinta e desenha muito bem, mas não profissionalmente, meu pai tocava violão e violino, mas não pratica mais e tenho vários primos músicos. Fiz aulas de desenho e pintura na época do colégio e da faculdade, me formei em odontologia e também fiz a graduação em piano.

Como a Arte entrou em sua vida?
Aprendi a desenhar com minha mãe e a tocar piano de ouvido com minha irmã. Para quem morava no interior, a situação era bem complicada, o acesso à informação sobre exposições e sobre o mundo da arte se dava exclusivamente através de jornais, revistas e o pouco que aparecia na televisão. Ver uma pintura ou um trabalho qualquer só vindo ao Rio e dando a sorte de estar acontecendo alguma coisa interessante. Como comecei a estudar música no conservatório também tínhamos aulas de história da música e história da arte, a partir daí comecei a me interessar e a procurar mais informações em livros, que se tornaram um vício, aí lia tudo o que me caia nas mãos sobre arte e música. Nessa época de adolescência foi muito importante ter lido o “História da Arte” do Gombrich e um livro sobre o Tápies em que ele dava uma entrevista enorme, lembro que não entendi tudo o que ele estava dizendo e aquilo me deixou mais curioso sobre a arte na atualidade. Quando vim morar no Rio tudo mudou, ia a todas as exposições que conseguia, tive contato com artistas como Anna Bella Geiger, Daniel Senise, Adriana Varejão, Ivens Machado, Caetano de Almeida, Cildo Meireles, Waltercio Caldas, Barrio, entre muitos outros que mudaram totalmente o meu conceito sobre arte. Conhecer museus e ver exposições no exterior também foi muito importante. Por mais que se leia e veja imagens, nada substitui o contato real com a obra de arte e foi esse contato que me deu estímulo osições que conseguia, tive contato com os trabalhos de artistas contemporâneos como Anna Bella para entrar nessa carreira.

Qual foi sua formação artística?
Em música fiz o curso técnico e o curso de graduação em piano no Conservatório Brasileiro de Música e em artes visuais os cursos da Escola de Artes Visuais do Parque Lage. Desenho e pintura com a Bia Amaral, Mollica e Carli Portella. Pintura I e II com o João Magalhães. Arte e filosofia com a Anna Bella Geiger e Fernando Cocchiarale. Arte contemporânea com o Pedro França. Desenvolvimento de projetos com o Fanz Manata. Arte hoje com o Bob N e Marcio Botner. Módulo avançado de pintura com a Suzana Queiroga, Ivair Reinaldim e Daniel Senise.

Como você descreveria seu trabalho?
Basicamente o que eu faço é pintar fotografias. Normalmente o pintor que trabalha através de imagens induz modificações nas mesmas através de colagens, adição ou remoção de elementos. Meu trabalho parte de um processo de manipulação de imagens digitais e de remoção de elementos. A imagem remanescente é pintada, entrando em jogo todos os processos, decisões, indecisões, erros e acertos característicos do meio. Há uma mediação entre o processo de captura e transformação da imagem digital e o processo artesanal de produção da pintura. Acho muito interessante trabalhar com uma imagem já existente e deslocar o sentido dessa imagem para outro nível de significação.

O que você acha da situação da pintura na arte contemporânea?
É ponto pacífico que a pintura deixou de ser um dos meios hegemônicos no panorama da arte, é mais um meio, assim como o vídeo, instalação e performance que também já foram assimilados pelo mercado, pela academia e pelas instituições. Acho que o meio em que o artista vai articular seu pensamento hoje em dia vai mais pela questão da afinidade do que por escolhas ideológicas, não há mais sentido em polarizar pintura e escultura de um lado e outros meios do outro, uma vez que já está tudo absorvido pela sociedade e tudo se hibridiza e se contamina o tempo todo. Na pintura há o caminho da ironia, da crítica do mercado e da crítica do próprio meio. Há também o caminho da interseção com o mundo das imagens que norteia a sociedade contemporânea e do diálogo com outros meios e com a história da arte. Ambos tem suas complicações e soluções, me lembro de uma citação sobre o Frank Stella em que se diz que o desejo dele era pintar como Velásquez, mas o que ele podia fazer era pintar listras, acho que isso está numa conversa do Michael Fried, colocando a situação da abstração como um imperativo histórico da época. A situação da pintura contemporânea é ainda mais complicada uma vez que essa idéia de uma narrativa histórica progressiva não mais se sustenta. De qualquer forma mudanças radicais nas relações sociais, na economia e na política tornaram o mundo de hoje totalmente diferente do mundo que existia por volta dos anos 60 e 70 e é tarefa dos artistas dizer alguma coisa sobre este mundo, seja como for.

É possível viver de arte no Brasil?
Acho que é possível, tudo depende de uma série de fatores, de uma série de acontecimentos que não dependem só do artista. Existem diversos nichos no mundo da arte e o artista precisa ter consciência de onde o seu trabalho pode e deve estar.


Qual sua opinião sobre os salões de arte?
Acho que os salões, que em sua grande maioria acontecem no interior do país, estão cumprindo uma função de divulgação do trabalho dos artistas brasileiros. E neles acontecem coisas bem interessantes, como conversas com os artistas, visitas de alunos do ensino médio, conversas com os curadores, etc.. Claro que é um formato datado, não concordo com haver premiação de só três artistas (por exemplo) enquanto os outros não recebem nem uma ajuda de custo para o transporte dos trabalhos, geralmente não há equipamento para se exibir os trabalhos em vídeo ou em outras mídias e uma série de percalços. No entanto é uma experiência positiva e os trabalhos chegam a um público que normalmente não teria acesso a esse tipo de exposição.

O que você pensa sobre as galerias virtuais?
Tenho uma opinião parecida com a dos salões. Pense numa professora de educação artística lá de Cambuci no interior do estado, suponha-se que o sonho dela é ter um trabalho do Marcos Chaves. Quando essa pessoa vai pegar um ônibus, vir aqui para o Rio, descobrir qual galeria tem trabalho do Marcos Chaves para vender, ter coragem de entrar na galeria e perguntar o preço para depois comprar? Na galeria virtual ela vê a imagem do trabalho, o preço, compra e ainda divide em 10 vezes. Acho incrível!

Que dificuldade tem um artista jovem em conseguir ser representado por uma galeria?
A primeira dificuldade é conseguir entrar no quadro de artistas de uma galeria, são poucas galerias e são muitos artistas. A segunda dificuldade é ser realmente representado pela galeria, ou seja, ter o seu trabalho comercializado e conseguir também uma inserção do mesmo no circuito de arte.

Como você se mantém atualizado?
Leio sobre arte em livros, revistas e páginas na internet. Vou a todas as exposições que o meu tempo permite e continuo frequentando o Parque Lage. A gente também aprende muito conversando com as pessoas, gosto muito de ouvir o que o outro tem pra dizer, mesmo que de vez em quando tenha de ouvir muita besteira.

Além dos estudos, o que influencia a formação de um artista?
O trabalho reflete o que o artista vive internamente, não há como fugir disso. Então todas as experiências de vida acabam influenciando, formação intelectual, os livros que ele leu, os filmes que ele viu, as músicas que ele gosta, ideologia, visão política, os amores, perdas, alegrias, conversas e tudo o mais. Se o cara tem uma vida vazia com certeza o seu trabalho também vai ser vazio.



O que representa a Bienal para a arte brasileira?
Essa pergunta é muito difícil de responder. Acho que as Bienais estão tentando se adaptar ao momento de fragmentação e pulverização cultural em que estamos vivendo. Como foi visto na última Bienal de São Paulo e na Bienal do Mercosul a diversidade e multiplicidade de propostas me parece ser a característica mais expressiva atualmente, A idéia dos terreiros na Bienal de SP como espaços de interação foi muito boa, gerando experiências bem interessantes. A ocupação do Santader com a exposição que tinha o desenho como fio condutor na Bienal do Mercosul foi memorável, juntamente com a idéia de expandir a Bienal para os ambientes externos da cidade. Em suma, tenho visto coisas muito legais e também algumas experiências equivocadas, mas no geral minha opinião é que o saldo das Bienais tem sido positivo, tanto para os artistas quanto para o público.

Quais são seus planos para o futuro?
Trabalhar bastante no ateliê e organizar algumas exposições que já estão confirmadas para 2011. Pretendo me dedicar cada vez mais ao desenvolvimento do meu trabalho.

O que você faz nas horas vagas?
Leio muito, estudo piano, fico com a família, saio com os amigos, cinema, teatro e gosto muito de viajar.

Sem título Acrílico sobre tela 140x115 cm.






Sem título Óleo sobre tela 180x145 cm.

Sem título (2011) 100x80 cm.

Sem título Óleo e acrílica sobre tela. 120x200 cm.

Sem título.

Sem título 175x145 cm.

Por meio da entrevista podemos perceber que pintura e música andam juntas no universo de Raul. O artista firma-se como uma realidade da arte no Rio de Janeiro e é respeitado pelo seu trabalho, cultura, gentileza e educação. Raul sinto-me enriquecido com esse encontro. Muito obrigado.

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Maurizio Cattelan

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