quarta-feira, 30 de março de 2011

Conversando sobre Arte. Entrevistado: Rafael Perpétuo.



Rafael Perpétuo
 A trajetória, a obra, as dificuldades e os sonhos do jovem e talentoso artista Rafael Perpétuo. Rafael muito obrigado por sua participação.


Rafael, fale algo sobre você.
Nasci em Belo Horizonte/MG em 04/02/1984, meu pai foi detetive e escrivão da polícia civil durante a ditadura e minha mãe professora do primário. Estudei o segundo grau na Escola Leopoldo de Miranda, onde acho que comecei a moldar meu caráter quando entrei em contato com movimentos de contracultura, como o punk, o heavy metal e outros, e com grupos anarquistas e libertários. Formei-me em artes plásticas pela Escola Guignard com habilitação em Escultura e Litogravura, com orientação de Thaïs Helt, Giovanni Fantauzzi e Laura Belém.



Quando você começou a se interessar sobre arte e qual foi a reação familiar?
Comecei a me interessar em arte quando houve em BH uma exposição de Salvador Dalí no Museu de Arte da Pampulha. Exposições internacionais eram (e ainda são) raras em BH e lembro desta exposição como meu primeiro contato com as artes plásticas. Posteriormente me envolvi mais com a música, tocando em bandas e produzindo shows. Não consigo visualizar o “start” que me fez pensar “quero ser artista”... lembro de resolver tentar o vestibular e cair de cabeça na coisa! Meus pais nunca foram a favor, muito menos contra, mas meu pai ainda acredita que vou ser advogado um dia... hehehe

Qual foi sua formação artistica?
Minha formação se deu mesmo quando resolvi prestar o vestibular para a UFMG e a Escola Guignard. A partir disto eu fui dragado para dentro das artes... e nunca mais consegui sair! Comecei a procurar workshops e outras situações que agregassem em minha formação. Fiz workshops com Laura Belém, Marilá Dardot, Laís Myrrha, Matheus Rocha Pitta, Elida Tessler, Carlito Carvalhosa... mas acredito que minha grande formação foi durante meu estágio no Museu Mineiro sob orientação de Francisco Magalhães, um artista de uma visão incrível, e que infelizmente é pouco conhecido fora de Minas. A isso ainda foi muito importante o tempo que passei como assessor do então diretor da Escola Guignard, Eymard Brandão. E por fim, outro mestre, que sempre esteve ao meu lado, Sebastião Miguel, artista também o pouco conhecido no circuito Rio-SP.

Que artista influenciaram seu pensamento?
Sou um tanto quanto obsessivo com listas. Estou sempre fazendo listas de influências, disso, daquilo... É uma coisa meio billboard que eu tenho... Atualmente meu top 5 é: Jorge Macchi, Iran do Espírito Santo, Andreas Slominski, Rivane e Jonathan Meese. Fora isso falar em Hélio, Cildo e Waltércio acho que é até muito óbvio... Fora das artes visuais Frank Zappa, Kafka, Whitman, Chuck Shuldiner, Calvino me tocam.

Como você descreve seu trabalho?
Nesse momento acho que é minha pergunta diária! Acho que estou passando por um momento de transição não só na arte, mas em minha vida. O fato de ter me mudado ano passado para o Rio me ajudou a repensar sobre minha obra. No momento vejo que a questão central de meus trabalhos está na dúvida. Gosto de pensar no que fundamentalmente é o estado duvidoso, em que você não consegue discernir ou dizer uma certeza sobre algo. A ambigüidade, a dubiedade e incerteza desenvolvida pela junção de diferentes signos vêm me instigando a criar obras que não dizem diretamente o que são e deixam a interpretação ao espectador. Estou trabalhando atualmente para uma individual em uma galeria de BH em que crio um alter-ego, que tem como característica sua completa indefinição.


É possível viver só de arte no Brasil?
É possível, inclusive para jovens artistas, mas é raro. É uma confluência de fatores. Se você é um veterano, a carreira bem dirigida pode te dar essa possibilidade. Agora quanto aos em começo de carreira, há aqueles que viram vedetes ou objeto de exploração de marchands. Nestes é difícil ver algum que sobrevive ao boom. Para artistas como eu, o jeito é tentar sobreviver por outros meios, hoje há várias instituições e empresas que tem vagas para trabalhar indiretamente com arte. O problema é que a demanda gente precisando trabalhar também é grande.

O que você estuda? Como você se atualiza?
Leitura é essencial para o artista. Livros e internet devem ser consulta diária para qualquer um. Hoje estou muito interessado nos escritos de Merleau-Ponty, acho que tem algo ali que pode me ser útil. Danto é um clássico. As entrevistas de Olbrist...Também tenho um livro do Daniel Buren editado pelo Paulo Sérgio Duarte que é de cabeceira. Eu tenho um problema: acho que leio pouca ficção. Leio mais livros de teoria, então tenho me “forçado” a ler outras coisas. Quando era mais novo adorava os autores do spleen, tipo Lord Byron. Também gosto muito de naturalistas brasileiro, tipo Adolfo Caminha. Hoje estou lendo uma carta do Kafka para o pai dele. Emocionante.

Como é possível um jovem artista ser representado por uma galeria?
Há algumas galerias que se interessam por jovens valores. Mas também tem que ter persuasão e jogo de cintura para entrar no jogo social que envolve galeria-artista-mercado-colecionador. Ainda tenho que aprender muito sobre isso. Estou esperando alguém apostar de verdade em mim...

O que você pensa sobre galeria virtual?
Acredito que são ótimas iniciativas! E devem ser mais motivadas. Não que a experiência do contato direto com a obra possa ser substituída, mas ele pode ser encurtado pelo meio virtual. Fora as questões relativas à inclusão, é possível ser influenciado por uma obra ou artista que você sequer viu ao vivo, mas a imagem e o conceito podem chegar até você. Mas tem que ter muito cuidado e pensar por antecipação. Houve uma feira virtual a pouco que não deu muito certo por pura falta de cuidado...



Qual sua opinião sobre os salões de arte?
Salões são oportunidades de mostrar seu trabalho junto com outros artistas que estão vivendo e pensando juntamente com você. O grande problema acredito, é uma falta de sistematização na formulação de editais e premiações. Hoje vemos uma profusão de salões que exigem e dão pouco retorno ao artista. Há equívocos em toda parte, na forma de premiar, de convocar, de participar, sendo muitas vezes perversos. Quase nenhum salão sequer paga pelo transporte das obras, como se estivessem fazendo um favor em expor nossas obras...



Em que museu fora do país você gostaria de expor?
Não tenho muito fetiche de expor nesse ou naquele museu... Acho que há exposições e eventos que me interessam muito, como aquele que acontece na fronteira entre Tijuana e San Diego, agora também tem o Terra UNA que é uma ótima iniciativa... gosto e quero ser desafiado. Mas lugares como o Portikus na Alemanha, o Toyota Museum, o Stedelijk Museum em Amsterdam são sonhos que gostaria de realizar...


Quais são seus planos para o futuro próximo e distante?
Tentei o mestrado na UFRJ ano passado e não passei. Este ano vou trabalhar dobrado para passar! Gostaria também de fazer algumas residências fora do país, novas vivências... Fora isso, estou com alguns projetos de coletivas e exposições menos ortodoxas que pretendo por em prática. Sempre fui um artista de fazer, desde a expografia até a arte dos convites, cansei de produzir exposições independentes em BH e agora quero expandir os horizontes. Explorar as possibilidades curatoriais e críticas de uma forma mais contundente.

Como você aproveita o seu tempo livre?
A música toma boa parte do meu tempo livre! Apesar de ter parado de tocar a algum tempo, adoro ficar na internet fuçando discos e DVDs. Lembro de antigamente ficar na Cogumelo (famosa loja onde surgiu bandas clássicas do heavy metal, como Sepultura e Sarcófago) dedilhando vinis... o costume continua, só o local e o produto que mudaram. E nada como uma cerveja com os amigos, de preferência contemplando a baía de Guanabara. Não há problema que não esvaneça quando você olha para o mar...!

Transparência 2011

Now I will do nothing but listen (for Whitman) 2009


Buteko



Anfíbio 2010


Série Macro e Micro Paisagens








http://www.wix.com/rafaelperpetuo/rp  

Nenhum comentário:

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
Now