quarta-feira, 9 de março de 2011

Conversando sobre Arte. Entrevistado Pedro Varela

Pedro Varela um jovem e bem sucedido artista. Convívio fácil, educado, agradável, aplicado, criativo e competente. Cria cidades imaginárias em construções belíssimas cada vez mais ampliadas. Para mim, o mundo interno de Pedro está muito próximo ao imaginário de Chagall com suas obras sonhadas, poéticas, reais e sublimes. Pedro, muito obrigado pela entrevista e por permitir aos leitores conhecer algo mais de você e sua impecável obra.

Fale algo sobre você.

Nasci em Niterói, em 1981, minha mãe se chama Lourdes Barreto e meu pai Marcos Varela, ela da aula de aquarela e pintura e ele de gravura em madeira e metal na Escola de Belas Artes da UFRJ. Sempre tive contato com materiais e com livros de arte, o ateliê dos meus pais era em casa, era algo que realmente fazia parte do nosso cotidiano. As conversas no café da manhã eram sobre arte, livros, materiais usados nos trabalhos, sobre a EBA... E ainda são assim na casa dos meus pais. No ano 2000, entrei para a Escola de Belas Artes para cursar Gravura, lá conheci a Carol e vários amigos que continuaram seguindo carreira artística, como o Rodrigo Torres, Bruno Miguel, Carlos Contente, Thiago Pitta entre outros. Me formei em 2005 e em 2007 entrei para o mestrado, que abandonei depois de um ano para passar uma temporada no México. Vivi durante um ano e meio em Veracruz, uma cidade de praia super agradável no Golfo do México. De vez em quando ia para o DF (cidade do México) para ver exposições e conversar com alguns artistas. Hoje vivo em Petrópolis.

Quando você começou a se interessar sobre arte e qual foi a reação familiar?
Sempre tive interesse em arte por causa de minha família, mas não sei dizer quando realmente decidi que queria ser um artista. Não sei também se foi uma escolha assim tão consciente. Eu sempre desenhei e queria continuar fazendo isso e a EBA parecia uma escolha tão natural que eu nem pensei muito quando tive que marcar a carreira que queria prestar para o vestibular. Meus pais gostaram muito da idéia, sempre me davam materiais, sempre me estimularam. Foi uma escolha tranqüila.

Qual foi sua formação artística?
Minha formação começou em casa. Mostrava meus desenhos para meus pais e outros professores amigos deles e todos me davam dicas. Na escola de Belas Artes além de Gravura, que era o meu curso original, eu estudei pintura como ouvinte, passei muito tempo dentro do Pamplonão, o ateliê de pintura da EBA. Em paralelo à minha graduação eu estudei no Parque Lage, fiz vários cursos diferentes entre 2001 e 2006. Durante as férias ia para Diamantina para participar dos festivais de inverno da UFMG, participei de 4 edições e fiz aulas com a Leda Catunda, Mário Ramiro e outros.

Que artista influenciaram seu pensamento?
Durante muito tempo eu pesquisei imagens na Internet, na verdade eu ainda pesquiso, só que com menos freqüência. Cheguei a juntar um banco de dados com mais de 5000 imagens, a maioria de trabalhos de artistas e designers contemporâneos, mas havia espaço para todo tipo de coisa. Gosto de pensar que todas estas imagens me influenciaram. Todos os lugares que eu fui, meus amigos, tudo acaba me influenciando de alguma forma.Além disso, gosto muito de Ítalo Calvino e Jorge Luis Borges. Nos dois me atrai a forma como desenvolvem suas narrativas, como constroem seus universos. Um artista que me influenciou também foi o Neo Rauch. Um dia eu estava pintando na escola de Belas Artes e um alemão apareceu para ver o que estava sendo feito por ali, quando viu meu trabalho perguntou se eu conhecia o trabalho do Rauch e disse que eu deveria ver. Assim que voltei para casa fui procurar na internet e achei algumas imagens de uma exposição que tinha acabado de acontecer na galeria David Zwirner, assim que vi as imagens adorei a forma como ele desenvolvia sua narrativa, da
confusão temporal e da aparência surrealista dos trabalhos, apesar de me parecerem muito mais um comentário político partindo de uma visão pessoal do que uma tentativa de busca do inconsciente. Gosto muito também da arte clássica oriental, do Zen, que me ajudou a compreender o vazio e a idéia de contemplação que eu busco proporcionar nos meus desenhos e a elegância da assimetria. Um artista que aprendi a gostar aos poucos é o Guignard, e suas paisagens que parecem tanto com as névoas de Petrópolis... Mira e Helio também são dois artistas que me influenciam cada vez mais, assim como a Sandra Cinto e a Brígida Baltar. Acima de todos que falei meus pais me influenciaram e educaram, ainda vejo muito do trabalho deles espelhado no que faço.

Como você descreve seu trabalho?
Gosto de pensar a paisagem. Comecei fazendo desenhos que eram uma espécie sobreposição de manchas, formas geométricas, imagens vindas de fotografias, da história da arte e de toda fonte possível. Eu queria fazer algo que juntasse tudo que eu pudesse desenhar e aquarelar numa espécie de mosaico sem forma, em que as peças se diluíssem e se misturassem. Comecei a pensar que estes trabalhos eram uma hiper paisagem, pois não representavam uma paisagem física, real, mas sim uma paisagem mental construída através de uma rede de associações. Cada fragmento desta “colagem” de idéias era um link para uma paisagem em si. Depois de trabalhar um tempo nesta série de aquarelas pensei que poderia ser interessante tentar criar uma paisagem construída com partes de outras paisagens, mas mantendo alguma relação com a estrutura de representação da paisagem na pintura ocidental e oriental. Então as cidades começaram a ganhar forma no meu trabalho. Mas ao mesmo tempo acho que meu trabalho pode ir além da paisagem, pode me levara para outros assuntos. Acho que o trabalho do artista é algo em constante transformação e o melhor é não tentar manter o controle da situação, deixar que as coisas aconteçam.

É possível viver só de arte no Brasil?
Acho que sim.


Você e a artista Brígida Baltar criaram o Grupo Alice para orientação de outros artistas,
como tem sido a experiência?
O grupo Alice está sendo super importante para mim. O que fazemos no grupo não é uma aula, mas sim uma espécie de acompanhamento da produção dos artistas participantes, também estudamos de forma bastante aprofundada a obra de alguns artistas que escolhemos em conjunto ou então textos teóricos importantes. Desde o início do grupo recebemos muitos artistas maravilhosos, com trabalhos realmente fortes, e todos eles querem mostrar e discutir sua produção.

Você e o Bruno Miguel estão num curso na EAV, continuar no ensino está nos seus planos?
Demos um curso de férias, tenho vontade de continuar dando aulas, sinto que isso me enriquece. Também é uma forma que tenho para buscar o convívio social, se não me forçar a ver gente vou
acabar virando um eremita em Petrópolis.

Desde o ano passado, você teve bastante projeção na mídia com participação em diferentes
exposições. Você já se considera um artista já com um mercado estabelecido?
Eu não sei, não posso reclamar das minhas vendas. O que eu acho é que o mercado serve para bancar a produção do artista e também para viabilizar a entrada de suas obras em coleções de instituições e museus pelo mundo, mas o mercado em si não vai definir a carreira do artista. O mercado não diz se o que você faz é relevante ou não.

Você considera o ápice de um artista participar de uma grande Bienal?
Não. Não sei se existe um ápice.


O que você estuda? Como você se atualiza?
Através do grupo Alice eu tenho estudado bastante. Helio e Mira são dois artistas que eu redescobri ultimamente através do grupo. Também gosto muito de viajar, ver exposições fora e tentar entrar em contato com o sistema de arte local. Uso bastante a Internet também, semprepesquiso imagens de cidades, paisagens estranhas e os eventos que acontecem em outros lugares.


Quais são seus planos para o futuro próximo e distante.
Não tenho muitos planos bem definidos. Por enquanto quero desenvolver algumas idéias que estão guardadas nos meus blocos de anotações, são principalmente trabalhos tridimensionais. Além disso, estou voltando a mexer com pintura que é algo que me interessa bastante. Durante muito tempo ficava travado com meu trabalho em pintura, era algo que não andava do mesmo jeito que os desenhos, mas agora estou ficando mais satisfeito com minhas pinturas.

Como você aproveita o seu tempo livre?
As vezes eu vou para praia.


Paisagem vazia. Cut Paper





Caneta e aquarela



Cidade Flutuante. SESC SP

Cidade Flutuante (detalhe) SESC SP
Colagem

Sem título. Paisagem vazia.

Instalação no SESC Rio.
Pedro Varela diante de uma de suas obras.

Um comentário:

Dulci disse...

Entrevista e trabalhos muito bonitos e interessantes. Parabéns!!!

Maurizio Cattelan

Maurizio Cattelan
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