quarta-feira, 2 de março de 2011

Conversando sobre Arte Entrevistado Tadeu Chiarelli.



Tadeu Chiarelli Foto Daniel Pinto
Tadeu Chiarelli em uma de suas palestras. Foto Rogério Uchoa
O entrevistado é o professor doutor Tadeu Chiarelli um dos mais competetentes e reconhecios crítico e curador. Além de professor e pesquisador  do departamento de Artes  da USP é, ainda, historiador da arte. Atualmente, é diretor do Museu de Arte Contemporânea / USP e responsável pela transferência do museu para sua nova sede localizada no Ibirapuera.

Tadeu, como se deu o seu envolvimento com a arte?
Sou de Ribeirão Preto, SP, e naquela cidade havia a Escola de Artes Plásticas, fundada pelo artista italiano Bassano Vaccarini. Fiz um curso de arte infantil, ainda nos anos 1960, naquela Escola. Ali foram meus primeiros contatos com a arte e a história da arte.

 Você é professor-doutor, curador, historiador e administrador, de que maneira essas atividades se completam?
Sou fundamentalmente um docente pesquisador que trabalha em uma instituição pública.. Todas as outras atividades são decorrentes dessa primeira atividade que consigo conciliar com alguma tranquilidade.


Leda Catunda, Nelson Leirner, Paulo Pasta e Amilcar de Castro foram alguns artistas que tiveram livros publicados com textos seus, que dificuldades você encontrou para realizar esses projetos?
Por sermos da mesma geração, pude acompanhar e aprender muito com a produção de Leda e Paulo. Os dois possuem poéticas, eu diria opostas, e isso me atrai muito. Cada um à sua maneira desenvolvem trabalhos que me interessam. Por outro lado, Leirner e Amilcar são ainda mais opostos. Observar e refletir por universos tão distintos me instiga bastante intelectualmente, daí o empenho com que me dediquei e me dedico ao trabalho de todos eles. As dificuldades para escrever são as de sempre, pelo menos para mim: entender a singularidade da obra de cada artista, penetrar com respeito em cada poética em particular e pensa-la no contexto em que ela se manifesta.

 Por que os museus brasileiros não compram obras para seus acervos?
O museu, hoje em dia no Brasil, se tiver uma política de adiquisição coerente para ampliação de sua coleção, encontrará, por meio das leis de incentivos, condições para comprar obras para seu acervo.


 Em artigo recente, Ledo Ivo assinalou que a Lei Rouanet determinou o fim do mecenato. Ninguém doa mais nada, só com incentivo. Você concorda?
Creio que não podemos generalizar. O Museu de Arte Contemporânea da USP recebe propostas de doação de artistas, familiares de artistas e mesmo colecionadores, sem que essas propostas passem pela Lei Rouanet. Cabe sempre ao museu saber aceitar ou não tais propostas. E o melhor filtro para essa decisão é a política que deve nortear sua ação. Nenhum museu deve agir como um depósito para qualquer doação, ou como balcão de exposições. Ele deve ter um foco e tal foco deve nortear todas as suas ações, mesmo a entrada de novas obras no acervo, sejam por meio de doações incentivadas ou não.

Qual deveria ser a formação cultural e artística de um curador?
Eu particularmente não acredito na curadoria como uma profissão em si mesma, e sim como uma atividade profissional decorrente de uma atividade ligada à história e à crítica de arte, fundamentalmente. Mesmo que venha a ser desenvolvida por um artista – e vários vêm fazendo exposições excelentes – esse preferencialmente deve estar pautado numa formação que vá além de sua própria prática artística.

 As Bienais tem sofrido críticas violentas, elas são, ainda, válidas?
Restringindo meu comentário à Bienal de São Paulo, creio que ela deveria repensar seus caminhos. Infelizmente é uma instituição que parece ser a primeira a não acreditar na sua própria história de mais de meio século. É neste sentido que, a cada dois anos, temos uma bienal do “fulano” ou do “sicrano”. Por que ela é tão personalizada? A meu ver, porque a instituição não se enxerga como tal e, não se enxergando como uma instituição com um lastro significativo não propõe um projeto que transcenda esse ou aquele curador.


Que artistas estrangeiros você gostaria de fazer uma curadoria ou escrever um livro sobre sua obra?
A cada dia que passa eu me desinteresso mais por estudos monográficos. Isto significa que, em tese, não me interessaria estudar nenhum artista em particular. No entanto, gostaria que público brasileiro pudesse entrar em contato mais estreito com alguns artistas que julgo significativos e que nunca tiveram uma exposição de peso no país. Entre os inúmeros exemplos que poderia citar no âmbito de uma produção já “histórica” mas não menos contemporânea, lembraria os nomes de Christian Boltansky e Mike Kelley.





Você foi indicado para fazer a transferência do MAC/USP para nova sede, o que isso representará para o público e para USP?
Penso, fundamentalmente, que a transferência do MAC para o novo edifício significará levar para o público aquilo que é público: uma coleção que vem sendo estudada exaustivamente mas que, pelas mais variadas razões, faz anos não vem sendo mostrada em sua grandiosidade. E quando me refiro à grandiosidade da coleção do MAC-USP, não me refiro apenas ao segmento moderno, que é belíssimo mas também à sua vertente contemporânea, importantíssima e ainda não devidamente reconhecida. Por outro lado, é importante sublinhar que a mudança do MAC não será apenas física. A equipe que tenho a honra e o prazer de coordenar vem desenvolvendo um trabalho profundo de mudança da própria atitude do Museu frente aos desafios que se apresentam a um museu universitário de arte contemporânea, dentro de uma universidade importante e de uma cidade repleta de contradições.




Quais são seus planos para o futuro?
Procuro não fazer muitos planos. Minha meta é conduzir o MAC ao século XXI, o que não é pouca coisa, diga-se de passagem.


 Com tanta atividade eu duvido ter você tempo livre, mas quais são seus outros interesses além da arte?
No pouco tempo livre que me sobra, além de postar vídeos meio nostálgicos, meio irônicos no facebook, gosto muito de sair com minha mulher e com meus poucos mas queridos amigos.

Ao procurar o Tadeu para convidá-lo a participar de Conversando sobre Arte, tinha poucas esperanças de sua aceitação, pois sabia da sua intensa atividade como professor doutor da USP, pesquisador, oreintador de teses, diretor do MAC da USP, responsável pela transferência para a nova sede. Fui recebido com muita boa vontadade e gentleza e rapidamente estava pronta a entrevista rica, recheada de conceitos firmes mostrando a sólida formação cultural e acadêmica do entrevistado. A Tadeu agradeço e tenho certeza ser a entrevista um presente para os leitores.

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Maurizio Cattelan

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