quarta-feira, 27 de outubro de 2010

Conversando sobre Arte Entrevistado Fernando Carlos de Andrade Marchand

Fernando Carlos de Andrade.

Foto de um dos catálogos do leilão com obras Concorde B75 Galeria de Arte



Fernando Carlos de Andrade nosso entrevistado de hoje, foi dono da B75 Concorde Galeria de Arte uma das mais importantes de sua época. Era um tempo diferente, as exposições e leilões eram acontecimentos sociais importantes, noticiados pelas colunas sociais e as inaugurações um encontro de celebridades e elegância. Vamos reviver um pouco esse tempo
Fernando você poderia contar algo de sua história pessoal?
Sou de uma família de educadores. Meu avô materno, João Auto de Magalhães Castro, amazonense, veio fazer estudos filosóficos no seminário de Caraça. Seria padre não fosse a decição de deixar o hábito após concluir seus estudos em Roma. Casou-se com Virgínia Ribeiro de Macedo Soares, com quem teve onze filhos. Era um homem talentoso, poeta, compositor, pintor e inventor. No Rio de Janeiro, fundou o Ginásio Vera Cruz, no início dos anos 20 e dirigido após sua morte por cinco dos seus filhos. , até vir a ser extinto nos anos 40. Eu sou de uma família de seis irmãos, dos quais só três ainda vivos. Dos seis, quatro homens e duas mulheres, os homens seguiram jornalismo. O primogênito, Evandro Carlos de Andrade, foi diretor geral de Jornalismo de O Globo e da Rede Globo, após convocação feita pelo Dr. Roberto Marinho. Eu busquei a atividade de mercador de arte. O Mais novo, José Carlos de Andrade continua ativo.
Como se deu o interesse pela arte?
Como disse, uma das atividades de meu avô, antes da fundação do Ginásio, era a pintura. Pintava retratos dos presidentes e diretores da Caixa Econômica para a instituição como meio de melhorar seu orçamento sobrecarregado pela família numerosa. Eu era menino aí pelos meus sete ou oito anos quando despertou em mim a curiosidade surgida na pintura dos retratos de meus bisavós Maria e João Augusto de Macedo Soares, um senhor de terras em Maricá, Saquarema e Araruama. Ele havia usado a técnica que transmitia a impressão do olhar do retratado acompanhar quando passávamos em frente à pintura. Aquilo me parecia mágica. Mais adiante, o interesse se intensificou por conta de minha mãe, nos fazendo admirar as artes plásticas, instigando-nos a frequentar museus.
Você teve alguma formação artística?
Não, talvez tenha sido a admiração pelo gênio criador do artista o que me conduziu a algum conhecimento, mas sem estudos acadêmicos.
Qual foi a motivação para abrir uma galeria?
Sou jornalista de formação. E como tal mantinha contato com alguns pintores e escultores. Frequentava leilões e sempre que o orçamento permitia adquiria uma obra de pequeno valor que fosse. E passei a observar que aquele mercado era promissor. Meu lado mercenário falou mais alto. E por sugestão de um grande amigo Ibrahim Sued, a quem prestava serviço em seu escritório de notícias, inaugurei a B75 Concorde, em Ipanema, no final dos anos 70, com uma exposição das obras do pintor Eugênio Proença Sigaud, apresentado pelo crítico Frederico Morais.
Quais eram os artistas mais procurados aquela época?
Os chamados pintores "acadêmicos" eram mais bem aceitos. Elizeu Visconti, Castagneto, Batista da Costa, Antônio Parreiras entre outros. A burguesia ainda estava presa à pintura européia. Mas os modernos já eram disputados em salas de leilão por um pequeno universo de colecionadores. E esse, seguramente, hoje são donos de obras magníficas de Portinari, Di Cavalcanti, Pancetti, Guignard, Ismael Nery, Lasar Segall, Volpi, Dacosta, entre muitos outros.
É difícil administrar uma galeria?
No meu tempo não, Hoje, talvez seja. Mas caberia aos atuais galeristas responderem, Existem hoje marchands excepcionais trabalhando com a arte contemporânea. E o fazem com grande sucesso.
O que você pensa sobre a galeria virtual?
Todo o comércio tem seu julgamento na credibilidade, honestidade de propósitos e no procedimento ético. Mercado de arte não é diferente. Se o mercador usa a Internet e o faz obedecendo a esse valores, acho que contribui para levar o gosto pela arte a um número cada vez maior, o que a meu ver é um ponto altamente positivo.
Você acredita que um artista possa estar em moda?
Existe, sim, um modismo estimulado por alguns "decoradores". Não do verdadeiro artista, pois esse não faz concessões. Mas devemos separar a verdadeira arte do que possa ser entendido como "moda" que, ao que me parece, é oportunismo.
Qual sua opinião sobre os preços das obras no Brasil?
Se compararmos aos países desenvolvidos, estaríamos muito aquém do que seria justo ao reconhecimento do talento do artista brasileiro.
Por que os artistas contemporâneos raramente aparecem nos leilões?
Não vejo assim. Pelo contrário. Recebo muitos catálogos onde predominam os contemporâneos, que, por sinal, contam com a preferência não só dos organizadores dos eventos como, também, do público que os frequentam.
Você vê alguma diferença entre aquela época e a atual no comércio de arte?
Vejo. Muitas. O próprio crescimeno demográfico, bem como a informação agilizada pela Internet, tornou mais fácil o comércio. No início da minha atividade catequizavamos o cliente para chegarmmos à negociação final. Hoje, ele chega sabendo o que quer, quanto vale e quanto deve pagar. Encontra todos os parâmetros sem muito esforço.
Fernando conte um pouco da história da sua galeria.
A galeria foi inaugurada em 1976, em frente a praça General Osório, em Ipanema. Encerrei as atividades em 2000, quando passei a intermediar obras importantes de amigos e clientes que me prestigiaram no decorrer de 24 anos de atividades em exposições e leilões nos salões dos mais importantes hotéis do Rio de Janeiro: Copacabana Palace, Caesar Park, Sheraton, Copa d'Or e Intercontinental. Foram milhares de quadros, esculturas, e antiguidades que hoje enriquecem importantes coleções brasileiras. O fato curioso que não citei é que a B-75 Concorde Galeria de Arte foi a primeira a realizar uma exposição de fotografias. A decisão foi em razão do talento de um jovem fotógrafo que lamentavelmente trocou a fotografia por outra atividade. Seu nome Cândido José Mendes de Almeida e que ocupou a diretoria da Faculdade Cândido Mendes por muito anos até seu falecimento prematuro. Naqueles anos de 1980 expor fotografia era dito como uma temeridade, pois não haveria retorno. Hoje se fala em exposições de fotografias e os altos preços cobrados.
O que poderia ser feito para divulgar a arte em nosso meio?
Maior empenho dos governantes e da mídia. No Brasil, arte plástica é vista como elitista. Não dá ibope.
Quais são seus artistas preferidos?
São muitos. Mas a citar um só, Guignard.
Você continua comercializando obras de arte?
Farei isso até o fim dos meus dias. É o que me transmite emoção: lidar o gênio criador do artista> Não teria como tê-los todos em minha casa. Mas posso armazenar na mente tudo que passa pelos meus olhos.
Fernando, eu tinha certeza da contribuição que você daria para uma melhor compreensão do mercado de arte no Rio de Janeiro. Agradeço suas ricas considerações aqui registradas e estimulo-o a continuar a publicar no Facebook as histórias tão interessantes vividas por você nessa longa carreira.

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Maurizio Cattelan

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